Capítulo 509 — Ele não será a sombra que vai persegui-la a vida inteira
por NexoNovelCapítulo 509 — Ele não será a sombra que vai persegui-la a vida inteira
He Shiqin olhava para a tela do celular. Em sua expressão paralisada, despontou um traço de pavor. Em situações normais, toda vez que recebia uma ligação de Ding Ruilong, o que sentia era ódio, e falava com ele num tom gélido.
Nos últimos anos, as ligações entre os dois podiam ser contadas nos dedos. As conversas costumavam ser curtas e giravam, sobretudo, em torno da pensão de He Xinxin.
He Shiqin tinha medo de Ding Ruilong, mas fazia muitos anos que não deixava isso transparecer no rosto.
Agora, porém… naturalmente, era porque Wu Chen estava ao seu lado.
Ela ainda nutria um temor instintivo por Ding Ruilong. Anos antes, ele matara alguém com as próprias mãos para conquistá-la, e aquilo se tornara a sombra de toda a sua vida.
O medo surgia sem que ela percebesse.
He Shiqin ficou imóvel por dois segundos e então olhou para Wu Chen; no mesmo instante, relaxou bastante. Wu Chen inclinou a cabeça e também viu a identificação da chamada na tela. O sorriso em seus lábios ganhou um toque de diversão.
Bastava conhecer Wu Chen um pouco para encontrar naquele sorriso uma força capaz de acalmar o coração.
Com exceção dos inimigos, é claro.
He Shiqin respirou fundo de repente.
O celular continuava tocando.
— Senhor Wu… — chamou ela, balançando de leve o aparelho. Queria saber a opinião dele: não sabia se devia atender nem, caso atendesse, o que dizer.
Era evidente que a ligação repentina de Ding Ruilong tinha a ver com a ausência de He Shiqin em Modu.
Se ela apenas estivesse fora de Modu, não haveria problema.
Isso, por si só, não bastaria para fazer Ding Ruilong ligar.
He Shiqin já levara He Xinxin para viajar por várias cidades, quase sempre nas férias de inverno ou de verão. E estavam justamente nas férias de verão.
Estar longe de Modu não tinha nada de anormal.
Mas estar em Donghai, aquele “lugar especial”, era outra história!
Ding Ruilong decerto já confirmara que He Shiqin estava em Donghai nos últimos dias. Na era do cadastro com nome real na internet, verificar aquilo não dava trabalho algum: bastava uma ordem casual e um pouco de espera para receber a informação exata.
— Atenda — disse Wu Chen, em voz baixa.
— Mas… — He Shiqin ainda queria perguntar, naturalmente, o que deveria dizer.
— Diga o que quiser — cortou Wu Chen.
Ele deixou a decisão nas mãos dela. He Shiqin podia dizer o que quisesse, até mesmo que estava ao lado de Wu Chen; aquilo bagunçaria os planos dele, mas não seria grande problema.
Na verdade, Wu Chen queria lhe dar uma oportunidade.
A oportunidade de dar o primeiro passo para se rebelar contra Ding Ruilong!
Por isso, a decisão tinha de partir dela.
Se ela conseguisse, quando fosse marcado o encontro com a família Dong, não haveria mais a menor chance de He Shiqin recuar na última hora, sem coragem de falar! Ela tinha com quem se preocupar; não estava sozinha no mundo: tinha uma filha.
Às vezes, a pessoa precisa se obrigar a dar um passo.
E era disso que Wu Chen precisava naquele momento: que He Shiqin se obrigasse a dar esse passo.
O celular já tocava havia mais de dez segundos.
He Shiqin esperava que Wu Chen dissesse alguma coisa, mas ele não disse; apenas a fitava com um olhar encorajador. Se demorasse mais, perderia a chamada.
Atendeu!
He Shiqin levou o celular ao ouvido e, logo em seguida, afastou-o um pouco.
— Onde você está? Para onde você levou ela?! — A voz de Ding Ruilong explodiu pelo aparelho, aguda e um tanto rouca.
Começou a interrogá-la sem rodeio algum!
Era evidente que Ding Ruilong já cogitara a hipótese que mais o deixaria histérico.
— Por que está gritando? O que houve? — retrucou He Shiqin, razoavelmente controlada, num tom frio.
— Eu perguntei onde você está! Responda! — berrou Ding Ruilong.
Dava para perceber que seu estado psicológico não era dos melhores. Nos últimos tempos, ele devia estar vivendo atormentado, sem conseguir sair daquele poço; afinal, ficara com uma deficiência e ainda se recuperava dos ferimentos.
— …Estou em Donghai — respondeu He Shiqin após um breve silêncio, lançando olhares insistentes para Wu Chen.
Sabia que ele conseguia ouvir a voz do outro lado.
— O que foi fazer em Donghai? — perguntou Ding Ruilong, atropelando as palavras.
— Trouxe a Xinxin para passear. Por quê? Agora vai querer controlar até as minhas viagens? — rebateu He Shiqin, também num tom mais ríspido. Parecia ter coragem de bater de frente com ele, mas, na realidade, não tinha.
Se tivesse, teria dito a verdade.
— Passear? E por que justo Donghai? — insistiu Ding Ruilong.
— E por que não Donghai? — devolveu He Shiqin.
— Com quem você está? Quem mais está aí, além da nossa filha? — Ding Ruilong chegou ao ponto central.
— E o que você tem a ver com isso? Nós terminamos há mais de dez anos. Com quem eu fico não é da sua conta! — rebateu He Shiqin outra vez.
Do outro lado, Ding Ruilong emudeceu de repente; só se ouvia sua respiração pesada.
Era evidente que He Shiqin estava a ponto de enfurecê-lo.
Ao mesmo tempo, deixara-o sem resposta. Na verdade, Ding Ruilong não se importava nem um pouco com quem He Shiqin se envolvia. Se fosse só ela, passados mais de dez anos, ele provavelmente já a teria esquecido havia muito tempo.
O problema era que He Shiqin não estava sozinha.
Ding Ruilong jamais aceitaria que sua filha chamasse outro homem de pai, ainda que ele próprio não a reconhecesse.
Por isso, He Shiqin não podia ter outro homem. E, acima de tudo, esse homem não podia ser Wu Chen.
— Sua desgraçada… — Após alguns segundos de silêncio, Ding Ruilong explodiu. Mal começara a xingar, interrompeu-se e voltou a berrar: — Volte para Modu agora mesmo, porra! Agora! Imediatamente!
O pavor voltou a tomar o rosto de He Shiqin.
Aquele tom, aquele estado… era o estado de quem estava prestes a matar alguém!
— Eu… eu e a Xinxin ainda não terminamos de passear. Não vou voltar. Com que direito você manda em mim? — He Shiqin gaguejou um pouco, mas se manteve firme.
— Estou avisando, He Shiqin! Você! Agora! Imediatamente! Dá o fora daí e volta para Modu! — Ding Ruilong parecia enlouquecer de raiva; no fim, a voz chegou a ficar estridente.
Aquele estado não era fruto apenas da provocação de He Shiqin; era o acúmulo de tudo o que vivera nos últimos tempos, que o deixara mais irritadiço e emocionalmente instável.
As mãos de He Shiqin tremiam de leve.
Ela tornou a olhar para Wu Chen.
Wu Chen sustentou o olhar dela com um sorriso.
— Volte agora!! — Ding Ruilong continuava berrando.
— Não vou! — He Shiqin respirou fundo mais uma vez e também gritou para o aparelho.
— Você…
Tuut!
He Shiqin não esperou o resto: desligou na cara dele! Pela primeira vez em mais de dez anos, tivera coragem de encerrar por conta própria uma ligação de Ding Ruilong!
A mão que segurava o celular caiu, sem forças.
He Shiqin deixou-se recostar no peito de Wu Chen; naquele instante, parecia completamente exaurida. Respirava depressa, o coração disparado, o corpo inteiro sem forças.
— A vida é longa — disse Wu Chen, passando o braço pelos ombros dela e dando-lhe duas palmadinhas leves. Sorria, num tom meio reflexivo. — Ele não vai ser a sombra que vai perseguir você a vida inteira, não acha?
Wu Chen baixou a cabeça, sorrindo.
He Shiqin ergueu o rosto.
Os olhares se encontraram.
— Isso mesmo! — respondeu ela. E, junto com a resposta, sua expressão se firmou.
Ela abandonara a esperança inconsciente de escapar ilesa.
Antes que certas coisas aconteçam, as pessoas sempre se apegam à sorte. Era o caso do envolvimento de He Shiqin com Wu Chen e até de sua disposição em colaborar com ele: enquanto Ding Ruilong não soubesse de nada, ela continuaria contando com a sorte.
Inconscientemente, acreditava que, mesmo que Wu Chen fracassasse, nada aconteceria a ela e à filha, já que ainda não haviam dado o passo decisivo.
Agora, essa esperança se fora.
Não importava o que viesse depois: só pelo que acabara de fazer, Ding Ruilong não a deixaria em paz!
Por isso, ela se decidiu. Seu desejo de ver Ding Ruilong morto tornou-se ainda mais urgente, e sua determinação de agir, ainda maior.
Trim, trim…
O celular tocou outra vez.
De novo o de He Shiqin.
De novo Ding Ruilong.
Se He Shiqin recusasse a chamada, o obstinado Ding Ruilong continuaria ligando sem parar, até de outros números. Era justamente por isso que Li Ruobing raramente recusava as ligações dele.
He Shiqin, porém, hesitou apenas dois segundos e tocou direto em desligar.
Chamada recusada.
Em seguida, abriu as configurações do celular e ativou a “lista de números permitidos”, deixando nela apenas os números de He Xinxin e de Wu Chen.
Uma vez dado aquele passo, He Shiqin passou a agir sem titubear.
Ela tampouco tinha uma agenda de negócios tão cheia quanto a de Li Ruobing. Para Li Ruobing, ativar uma lista assim prejudicaria os negócios; para He Shiqin, não fazia diferença alguma.
— Aposto que ele vai começar a quebrar as coisas — comentou Wu Chen baixinho, sorrindo, enquanto a observava.
— Com um gênio desses, por que ele não pula logo de um prédio? — resmungou He Shiqin, torcendo os lábios.
Largou o celular sobre a mesa de centro e, ainda sentada no colo de Wu Chen, virou-se outra vez, enlaçou-lhe o pescoço com os dois braços e, sem motivo algum, deu-lhe um beijo no rosto.
De repente, ouviu-se um barulho no andar de cima.
Wu Chen deu uma palmadinha leve nas costas de He Shiqin para alertá-la.
Ela também percebeu e levantou-se às pressas. Nesse instante, a voz de He Xinxin veio lá de cima:
— Mãe, por que você estava gritando? O que aconteceu?
Wu Chen inclinou-se, puxou dois lenços de papel da caixa sobre a mesa de centro e limpou a marca de batom no rosto. Vendo aquilo, He Shiqin ficou nervosíssima.
Quis lhe passar um espelho, mas, ao ver que ele limpara a marca com perfeição sem sequer se olhar, enfim se tranquilizou.
Tum, tum, tum.
He Xinxin apareceu no alto da escada do segundo andar. Desceu alguns degraus, parou e esticou o pescoço para espiar.
— N-nada, não aconteceu nada. Por que você desceu? Já terminou de arrumar? — perguntou He Shiqin, erguendo um pouco a cabeça, com um ar meio forçado.
He Xinxin não respondeu; em vez disso, continuou descendo com ar desconfiado e perguntou:
— Mãe, professor, vocês estavam brigando?
He Shiqin de fato gritara alto demais. E o que gritara fora justamente “Não vou!”.
— Não briguem, vai — disse He Xinxin, que já completara a história na própria cabeça. Continuou descendo enquanto bancava a pacificadora: — É só mudar de casa. Mudar de lugar não dá tanto trabalho assim…
Ao terminar, ainda lançou um olhar significativo para Wu Chen. Era espertinha que só.
— Xinxin, do que você está falando? Nós não brigamos — disse He Shiqin. Ao perceber o mal-entendido da filha, chegou até a ficar aliviada.
— Eu ouvi você gritando e ainda diz que não… — rebateu He Xinxin, no tom de quem desmascarava a mãe.
— Sua mãe acabou de receber umas ligações. Eram golpistas: ligavam sem parar e até trocavam de número… — interveio Wu Chen de repente, sorrindo para He Xinxin.
— Golpistas? — He Xinxin entrou na sala, ainda meio desconfiada.
— Isso, isso, eram golpistas! Não sei quem jogou o meu número na internet. Vai ver acharam que a nossa família tem dinheiro… — emendou He Shiqin depressa. — Já ativei a lista de números permitidos. Que coisa mais irritante!
— Ah, então foi isso… — He Xinxin pareceu acreditar um pouco.
— Xinxin, tome cuidado você também — alertou Wu Chen, sorrindo. — Acho que o seu número também vazou. Pode ser que liguem para você tentando aplicar algum golpe…
— Quem é que faria uma maldade dessas, espalhando os nossos números por aí? — He Xinxin fez um biquinho.
— Gente com inveja de rico, ué. Deve ser alguém que a nossa família conheceu antigamente — inventou He Shiqin de improviso. A justificativa não era lá muito convincente, mas bastava para enganar He Xinxin.
— Xinxin, que tal você também ativar a lista de números permitidos? Só por estes dias; daqui a pouco tudo volta ao normal — sugeriu He Shiqin, por iniciativa própria.
— Pode ser… — concordou He Xinxin, sem dar muita importância. Embora falasse bastante com amigos e colegas, quase nunca fazia ligações; usava o Weixun para trocar mensagens e áudios.
Depois de concordar, tirou o celular do bolso do pijama, pronta para configurar a função.
Wu Chen lançou um olhar sorridente para He Shiqin.
Era preciso reconhecer: ela era bem inteligente. Conseguira adivinhar o que ele estava pensando e dissera muita coisa que ele próprio nem chegara a mencionar.
Mas também podia ser que os dois simplesmente pensassem igual: nenhum deles queria que He Xinxin atendesse uma ligação de Ding Ruilong.
Ding Ruilong jamais telefonara para a filha; mas, nas circunstâncias atuais, isso já não era garantido.
He Xinxin foi andando pela sala de olhos grudados no celular e sentou-se no sofá comprido. He Shiqin aproximou-se para acompanhar a configuração da lista.
De repente!
Trim, trim…
O celular de He Xinxin tocou.
He Shiqin levou um susto e inclinou-se depressa para olhar. Era um número desconhecido, não o de Ding Ruilong; mas a identificação mostrava que a linha era de “Nanguang”!
Coincidência?
Ou…
— É 137…? — perguntou Wu Chen casualmente, virando-se para He Xinxin, e recitou o número de Ding Ruilong.
— Hã? — He Xinxin olhou para ele e depois conferiu a tela. — Não, começa com 139…
— 139… — Wu Chen recitou outro número, como quem não quer nada.
— Isso, isso! É esse mesmo! — He Xinxin assentiu na hora e ergueu a cabeça. — Professor, como você sabe?
— É o número do golpista. Acabou de ligar para a sua mãe — respondeu Wu Chen, sorrindo. Era mentira, claro, para enganar He Xinxin. Na verdade, aquele número pertencia a outro celular de Ding Ruilong, uma linha particular reservada a usos especiais.
Provavelmente, Ding Ruilong tinha espatifado o celular com que ligara para He Shiqin.
— Xinxin, é golpista! Não atenda, bloqueie! — disse He Shiqin assim que Wu Chen terminou de falar.
He Xinxin, porém, não deu ouvidos à mãe: tocou em atender e levou o celular ao ouvido.
