Novels chinesas em português
    Índice do Capítulo

    Capítulo 362 — Dá pra não voltar hoje à noite?

    — Desculpas? Pelo quê? — Wu Chen sorriu, um pouco surpreso.

    — Acho que eu não devia ter duvidado da sua capacidade. O senhor é o
    músico mais extraordinário que eu já conheci — disse An Menglan,
    chamando Wu Chen diretamente de “músico”.

    Quando alguém mostra um talento de lenda, a idade passa a ser ignorada!

    — Antes, eu disse umas coisas muito desrespeitosas ao senhor. Peço
    desculpas. — An Menglan recuou um passo e fez uma reverência. — Senhor
    Wu, me desculpe!

    Naquele momento, An Menglan não respeitava só Wu Chen, mas também a
    música!

    Ela era mesmo assim: natural, espontânea. Fazia tudo com desenvoltura,
    sem nenhum constrangimento!

    — Aceito — respondeu Wu Chen, sem fazer cerimônia à toa, e sorriu.

    Assim todo mundo ficava mais à vontade!

    — Hum… e mais uma coisa. — An Menglan se endireitou e voltou a hesitar.
    Dessa vez, porém, depois de uma pausa, foi direto: — Posso dar uma
    olhada no seu pescoço? E no rosto também, do lado esquerdo.

    — Hum? — Wu Chen se surpreendeu. — Olhar o quê? Pode, claro. — Na
    verdade, ele sabia o que ela queria ver.

    — Só olhar — respondeu ela, sem explicar.

    Wu Chen se levantou do piano, deu dois passos para fora, passou a mão no
    próprio pescoço e inclinou a cabeça:

    — Tem alguma coisa aqui?

    An Menglan deu a volta até o lado esquerdo dele e olhou com toda a
    atenção.

    Nada!

    Nenhuma marca!

    Embora aquilo confirmasse o que ela suspeitava, An Menglan ficou
    chocadíssima mesmo assim! Tão chocada que já chegava a ficar
    anestesiada! Na verdade, ela procurava o chamado “beijo do violino”!

    O “beijo do violino” era um nome bem poético para os calos ou as marcas
    mais fundas na pele que os violinistas costumam desenvolver no pescoço,
    na lateral do rosto e nas outras regiões onde prendem o instrumento!

    Para se tornar violinista, é inevitável praticar com enorme dedicação.
    E, onde há prática pesada, quase sempre ficam marcas! A diferença é só a
    intensidade da cor e a quantidade. Em alguns violinistas que praticam
    desde pequenos, chega a afetar o formato do rosto, deixando o lado
    esquerdo menor. Claro, esse é um caso extremo; o normal mesmo é ficar o
    “beijo do violino”!

    Mas o rosto e a lateral do pescoço de Wu Chen não tinham marca nenhuma,
    e a pele estava ótima, pele de rapaz jovem!

    Isso mostrava que Wu Chen não tinha treinado violino com afinco!

    A própria An Menglan nunca treinara violino com tanto rigor. Não era
    profissional; era cantora, não violinista. Por isso também não tinha
    marca nenhuma no pescoço! E o nível dela era só aquele!

    Mas Wu Chen, sem nenhuma “marca de treino pesado”, tinha nível de
    mestre!

    E também tocava piano em nível de mestre!

    Aquilo… talvez nem “gênio enviado pelos céus” bastasse para descrever o
    talento dele!

    An Menglan já chegava a achar que, se Wu Chen estreasse, fosse como
    pianista, violinista ou cantor, poderia deixar o nome na história da
    música mundial! Lado a lado com os grandes mestres dos livros didáticos!

    E ele só tinha vinte e dois anos!

    — O que foi? — perguntou Wu Chen, virando a cabeça para ela com um
    sorriso.

    — Nada. Sua pele é ótima — respondeu An Menglan, também sorrindo, num
    elogio meio de brincadeira. Depois olhou o relógio. Já passava das três
    da tarde.

    — Senhor Wu, vamos comer alguma coisa? — perguntou ela, erguendo os
    olhos com um sorriso. — Eu convido.

    — Vamos — aceitou Wu Chen na hora.

    — Só preciso resolver umas coisas antes — acrescentou An Menglan.

    Poucos minutos depois.

    Na sala da suíte presidencial, Wu Chen estava sentado numa poltrona,
    mexendo no celular.

    Do outro lado da mesa de centro.

    An Menglan já tinha chamado o guarda-costas e a assistente.

    O guarda-costas se chamava A-Li. Tinha trinta e cinco anos, era de Hong
    Kong e trabalhava para a família An havia mais de dez anos. Era veterano
    da casa, do tipo honesto, de poucas palavras e muito eficiente!

    A assistente de An Menglan era uma mulher de uns trinta anos.

    De óculos, meio cheinha, chamava-se Liu Jing. Também era de Hong Kong e
    tinha toda a cara de mulher muito esperta!

    Os dois eram da mais absoluta confiança de An Menglan!

    Primeiro, An Menglan mandou A-Li reservar uma sala para a refeição.

    Depois que A-Li saiu apressado, ela foi falar do contrato com Liu Jing.

    — …Imprime tudo isso… cem mil por música, oitocentos mil no total, mais
    cinquenta por cento da receita… — An Menglan explicou tudo em detalhes
    e, no fim, apontou para a tela do notebook e para as três folhas
    manuscritas, passando as instruções a Liu Jing.

    Liu Jing já estava chocada! E quanto mais ouvia, mais espantada ficava!

    Cem mil por música, ainda vá lá. Mas cinquenta por cento só de
    participação nos rendimentos? Ela tinha enlouquecido?!

    Fazia muito tempo que An Menglan não lançava álbum novo, e os fãs
    esperavam ansiosos. Com o status de superestrela, An Menglan era ao
    mesmo tempo fenômeno de audiência e rainha do talento. Bastava lançar um
    álbum novo para causar uma comoção, fosse qual fosse a qualidade das
    músicas! Sem nem ir muito longe: em um ano, numa estimativa
    conservadora, a receita seria de algumas centenas de milhões!

    E dar metade?!

    Liu Jing não resistiu e ergueu os olhos para Wu Chen, que mexia no
    celular. Depois virou-se para An Menglan e falou baixinho:

    — Chefe, você não se enganou? É cinquenta por cento? Ou cinco? Desse
    jeito…

    Falava em cantonês, bem na frente de Wu Chen, achando que ele não
    entendia.

    — É cinquenta por cento! Faz do jeito que eu falei. Quero o contrato
    pronto antes de eu voltar — respondeu An Menglan, convicta, também em
    cantonês.

    — Mas isso… a gente nunca fez um contrato assim. Chefe, não quer pensar
    melhor? — Liu Jing não se segurou e tentou convencê-la.

    — A-Jing! Você fala demais, hein — disse An Menglan, rindo, com um olhar
    de reprovação.

    As duas eram muito próximas, por isso falavam assim.

    — É isso — acrescentou An Menglan. Então se levantou, olhou para Wu Chen
    e sorriu. — Senhor Wu, pronto. Vamos descer…

    — Hum? Vamos! — Wu Chen olhou para ela e concordou, sorrindo.

    Poucos minutos depois.

    Restaurante Ocidental do segundo andar, sala reservada!

    O Restaurante Ocidental Jiahua também tinha salas reservadas, mas eram
    todas grandes, com uma mesa comprida e cadeiras dos dois lados, espaço
    para no mínimo dez pessoas comerem juntas. Por isso, quem comia no
    Jiahua geralmente não reservava sala!

    An Menglan não queria virar atração no salão, então tinha de comer numa
    sala reservada!

    Os dois entraram.

    Pediram comida e vinho.

    E começaram a conversar.

    O assunto continuava girando em torno da música, mas o jeito como An
    Menglan olhava para Wu Chen já era muito diferente do dia anterior, com
    um quê especial. Agora ela entendia por que Li Ruobing desconfiava dela.
    O problema não era ela, e sim Wu Chen… ele tinha mesmo uma espécie de
    magia!

    Um talento musical sem igual em todos os tempos!

    E aquilo… talvez fosse só a ponta do iceberg do que ele tinha de
    extraordinário!

    Era o que An Menglan deduzia. Do contrário, não conseguia explicar por
    que Li Ruobing e Wu Yurong estavam com ele!

    Assim como Wu Yurong no começo, An Menglan já começava a enxergar Wu
    Chen com um quê de mistério, especulando que ele fosse algum tipo de
    “homem fora do comum”!

    Pouco depois, a comida e o vinho chegaram à mesa.

    An Menglan gostava de beber. O álcool estimulava a inspiração dela, e
    ela aguentava muito bem!

    Taças cheias!

    — Senhor Wu, um brinde a você! Eu viro a minha, você bebe como quiser! —
    An Menglan tomou a iniciativa do brinde. Era difícil imaginar uma mulher
    daquela posição dizendo “eu viro a minha, você bebe como quiser”.

    Diz o ditado: com um amigo do peito, mil taças ainda são poucas!

    An Menglan já via em Wu Chen um verdadeiro confidente, ou melhor, queria
    que ele se tornasse um!

    Brindaram!

    An Menglan jogou a cabeça para trás e virou a taça de uma vez!

    Wu Chen também!

    Mais vinho!

    Mais conversa!

    Parecia que o assunto nunca ia acabar. Em música, os dois tinham mesmo
    conversa infinita! E An Menglan ficava cada vez mais curiosa sobre Wu
    Chen, perguntando o tempo todo coisas como “quando você aprendeu piano?”
    e “já participou de algum concurso?”.

    Perguntou também sobre composição, letra e violino!

    Wu Chen, naturalmente, respondia de um jeito meio evasivo. Não tinha
    jeito: não podia contar como vivera nos mil anos de ciclos.

    Sem que percebessem, já fazia uma hora que estavam comendo.

    — Senhor Wu, posso fazer uma pergunta meio indiscreta? — perguntou An
    Menglan, já um pouco alta, com as bochechas rosadas e um sorriso suave.
    — Você… a senhorita Li e a senhora Wu… como foi que vocês… acabaram
    juntos?

    Ela tinha mesmo tocado no assunto!

    Era o tipo de pergunta que ela não teria coragem de fazer sem beber um
    pouco!

    Era do jeito dela: quando a conversa estava boa, perguntava qualquer
    coisa. Sempre fora espontânea!

    — É complicado de explicar — disse Wu Chen, sorrindo.

    An Menglan percebeu que ele não queria falar. Sorriu, não insistiu,
    apertou de leve os lábios e, já meio bêbada, perguntou:

    — Então… o senhor tem compromisso hoje à noite? Dá pra não voltar?

    Nota