Capítulo 476 — Agora você não pode voltar atrás
por NexoNovelCapítulo 476 — Agora você não pode voltar atrás
— Su Ruiwen ligou para você? — Pelo tom inflamado da voz de Li Ruobing, Wu Chen pescou a situação no ato. Obviamente, previra o telefonema de Su Ruiwen, mas o timing exato era uma incógnita: a chamada poderia ter ocorrido antes ou depois da exumação do cadáver.
— Querido! Da próxima vez que for armar uma cartada dessa envergadura e precisar do meu apoio em cena, dá para me avisar antes? — Li Ruobing estava verdadeiramente possessa.
— Se eu avisasse, sua atuação perderia a espontaneidade. Você não estudou interpretação — retrucou Wu Chen, rindo.
— Você não teme o perigo mesmo! Me diz… E se a armadilha desse com os burros n’água? Se Su Ruiwen farejasse a intimidade entre você e a Qingying antes da hora? Se o homem batesse o pé e rejeitasse você, o que faria? — cobrou ela.
Wu Chen estava manipulando Su Ruiwen!
Em termos práticos, se fosse apenas uma questão de enquadrar o magnata, Li Ruobing não perderia um segundo de sono; Wu Chen dispunha de dez mil artimanhas para dobrar a vontade do velho.
E o grande divisor de águas em Su Ruiwen não era o título de figura mais poderosa de Donghai nem o posto de homem mais rico de Donghai — nada disso constituía risco real.
Para Wu Chen, tais grandezas eram miudezas banais!
O obstáculo real era que Su Ruiwen era o pai de Su Qingying!
Conhecendo Wu Chen como conhecia, Li Ruobing sabia o quanto ele mimava Su Qingying; ele jamais admitiria fazer a moça sofrer. Logo, estava vetado o uso de intimidações, coerção ou métodos truculentos contra o patriarca.
Consequentemente, se a manobra perdesse o prumo, o estrago seria de difícil reparação!
Se Su Ruiwen rompesse de vez por causa da filha, que rumo a crise tomaria? Parecia impossível a Wu Chen manter aquela aura habitual de infalibilidade diante de um cenário tão desastroso.
Eis a razão do pânico que assaltara Li Ruobing durante o telefonema.
O medo de interpretar errado o plano de Wu Chen e dar uma resposta fora do compasso a deixara em polvorosa.
E a culpa não recaía sobre ela, mas sobre ele, que mais uma vez agira nas sombras sem aviso prévio. Daí a sua cólera legítima.
— O cenário que você desenhou simplesmente não tinha como acontecer — devolveu Wu Chen, com tranquilidade absoluta.
— Meu querido! Sua arrogância não tem limites! Estamos falando de Su Ruiwen! — insistiu ela, convencida de que haviam flertado com o desastre.
Ela importava-se com ele de verdade e desconhecia que o rapaz guardava a cartada final para corrigir qualquer rota: o “reinício”! Daí a sua impressão de que a ousadia dele cruzara a linha da imprudência.
Os dois trocaram mais algumas réplicas afiadas.
— O que você disse para Su Ruiwen afinal? O homem abriu a conversa me agradecendo, dizendo que daqui em diante eu deveria cuidar da Qingying… — retomou Li Ruobing.
— Uma penca de detalhes, é meio enrolado — esquivou-se Wu Chen, sorridente. — Estou no volante agora; devo encostar aí em coisa de dez minutos. Subo e ponho tudo em pratos limpos.
— Humpf! — ela resmungou pelo fone. — Pois venha logo. Estou esperando.
Pouco mais de dez minutos se passaram.
Estacionamento subterrâneo da Torre 7 do CBD de Nancheng, em Donghai.
Wu Chen alinhou o Audi na vaga, desembarcou e rumou para o hall dos elevadores. Portava o crachá funcional da Huancai Fashion, de modo que subiu sem restrições de acesso.
Trigésimo terceiro andar do edifício comercial. Gabinete da presidência da Huancai Fashion.
Creeec!
— Senhor Wu.
— Senhor Wu.
Sob a saudação formal dos seguranças de plantão, a porta foi aberta. Wu Chen adentrou o recinto vestindo seu terno impecável. Atrás da escrivaninha de comando, Li Ruobing despachava documentos; ergueu as pálpebras, lançou-lhe um olhar e voltou a assinar as folhas .
Wu Chen não interrompeu o expediente dela. Caminhou diretamente até o sofá, sentou-se, cruzou as pernas, sacou o celular e passou a dedilhar a tela.
Trocava mensagens com seus contatos.
Quando não se tratava de assuntos urgentes ou importantes, ele preferia o meio textual às chamadas de voz. Mandou algumas linhas pelo Weixun para Su Qingying, conversou com Gu Ruibo e conversou com Lao Dao.
Lao Dao completara meio mês em recuperação no leito hospitalar.
Dizia o ditado que traumas em ossos e tendões exigiam cem dias de repouso. No caso do veterano, contudo, não houvera lesões graves nos músculos ou nos ossos. Wu Chen poupara a vida dele de caso pensado, visando arregimentá-lo; os golpes de lâmina haviam contornado os centros vitais e não causaram ferimentos difíceis de curar.
Eram apenas ferimentos profundos nos tecidos moles.
Àquela altura, o homem já se preparava para remover os pontos da sutura.
Mais dez minutos transcorreram.
Pá!
Li Ruobing fechou a pasta com um estalo seco. Atirou o material para o lado sem cerimônia e colocou-se de pé.
Tac, tac, tac. O eco ritmado dos saltos altos ressoou até ela parar bem diante de Wu Chen.
— Você nem se dá ao trabalho de me agradar — cobrou ela, estacando à sua frente. Ao vê-lo entrar, simulara irritação na esperança de uma atitude dele, mas o rapaz nem sequer abrira a boca.
Fosse outro a presenciar a cena, cairia para trás de queixo caído: Li Ruobing queixando-se a um homem com um dengoso “você nem se dá ao trabalho de me agradar”!
Se a fala soava corriqueira na boca de qualquer outra mulher, diante da têmpera altiva e impositiva da herdeira dos Li, aquilo só encontrava uma explicação: ela estava perdida e irremediavelmente apaixonada por ele!
— Ah? — Wu Chen ergueu os olhos e sorriu. — Minha estimada senhorita Li, por acaso você tem perfil de mulher que necessita de mimos?
— Mas eu continuo sendo mulher — disparou ela.
A mulher de negócios inflexível, agressiva e independente despia as armaduras diante de Wu Chen, dando vazão aos anseios naturais de uma mulher apaixonada!
Ele a moldara daquele jeito. E aquele lado dela pertencia com exclusividade a ele.
Wu Chen admirou-a com um brilho no olhar.
Quando retornaram ao meio-dia, ela trajava um vestido; agora, reassumira o terninho executivo clássico. Usava os óculos sem grau de armação dourada e deixara os cabelos negros e lisos caírem soltos pelas costas, compondo uma aura imponente e refinada.
— Hahaha! — Wu Chen soltou um riso baixo e estendeu a palma na direção dela.
Li Ruobing correspondeu, pousando os dedos sobre os dele.
Com um puxão firme, Wu Chen girou o corpo dela e puxou-a para o seu colo; ela enlaçou o pescoço dele com os dois braços, num gesto fluido e perfeitamente habitual.
— Tomou um susto? — indagou ele, erguendo o queixo da moça com o indicador.
— Nada disso. Onde já se viu Li Ruobing se assustar com alguma coisa? — retrucou ela, sustentando o orgulho com teimosia.
— Então por que está cobrando agrados? — provocou ele, aproximando o rosto antes que ela pudesse retrucar.
E selou-lhe os lábios num beijo…
Foram necessários cerca de quinze segundos para que ele afrouxasse a pegada.
— Passou? — perguntou ele a meia-voz, contemplando o rosto colado ao seu.
— Não — fez ela uma expressão ligeiramente séria.
— Ainda não foi o suficiente? — O sorriso de Wu Chen ganhou uma inflexão sutilmente maliciosa. Virou o rosto para o vão da entrada e bradou: — Irmão Zhou, eu e a Ruobing temos um assunto reservado para tratar. Não permita que ninguém nos interrompa.
— Sim, senhor Wu — confirmou prontamente o segurança Zhou Huan do lado de fora.
As feições de Li Ruobing contraíram-se no ato. Sua comoção fora fruto de pura apreensão pela segurança dele; o movimento audacioso a pegara de surpresa, de modo que a contrariedade existira de fato, mas sem a intenção de romper nada.
Queria apenas criar um clima de dengo para arrancar os detalhes da conversa.
No entanto, parecia que as intenções dele eram outras…
Após a confirmação de Zhou Huan, Wu Chen passou o braço sob os joelhos dela, ergueu-a nos braços e pôs-se de pé com a mulher aninhada transversalmente ao peito.
— V-você… O que pensa que está fazendo…? — sussurrou ela, afobada e com uma ponta de pânico nas feições.
— Agradando você… — devolveu ele, com um meio sorriso cúmplice.
— Agora não… Estamos no meio do expediente, em plena empresa…
— Foi você quem exigiu agrados. Agora não pode voltar atrás.
Antes que ela pudesse rebater, Wu Chen cruzou o umbral carregando a herdeira nos braços, adentrou a suíte de descanso anexa ao gabinete executivo e, com um toque hábil do pé, fechou a porta atrás de si.
Sem que percebessem, meia hora escorreu…
Logo, uma hora inteira foi consumida…
Agradar uma mulher!
Na verdade, Wu Chen dominava a arte como poucos; apenas privilegiava jogos mentais e refinamento tático em detrimento de abordagens meramente físicas. Contudo, para mulheres de temperamentos díspares e sob contextos variados, sua cartilha desdobrava-se em métodos sob medida.
Nem sempre a rota adotada precisava coincidir com os desejos imediatos da parceira.
Naquela tarde, por exemplo, Li Ruobing encontrava-se em pleno horário comercial e ansiava por debater negócios; Wu Chen, contudo, levara-a para a sala de descanso e, com autoridade e vigor… agradara Li Ruobing!
Ele julgava que a agora podia para agir daquela maneira com ela!
Li Ruobing era uma mulher formidável e imponente.
E, justamente por isso, sentia atração irresistível por homens ainda mais fortes do que ela! Fortes em todos os aspectos concebíveis!
Quando o relógio aproximou-se das cinco da tarde…
A porta da sala de descanso finalmente se abriu.
Li Ruobing emergiu abraçada ao braço dele, com as faces tingidas por um rubor delicado e os olhos oscilando entre uma doçura transbordante e uma censura repleta de carinho.
Ela trocara de indumentária outra vez; o conjunto anterior ficara imprestável para uso.
Também tomara uma ducha rápida e retocara a maquilagem. Como chorara um pouco, aplicara uma camada sutil de sombra nos olhos — item raríssimo em seu hábito — para apagar os vestígios da comoção.
— Sente-se melhor agora? — virou-se Wu Chen, brindando-a com um sorriso.
— Sim, sim — assentiu ela no mesmo instante. O olhar, contudo, era um novelo indecifrável: carregava censura e irritação, mas também uma nesga de inconformismo temperada por… afeição?
Os dois acomodaram-se novamente no sofá.
Li Ruobing não retornou à escrivaninha de trabalho e não queria continuar trabalhando. O corpo pesava de exaustão; uma lassidão deliciosa desarmava-lhe a vontade de se mexer. Sentou-se colada a Wu Chen e apoiou o tronco contra o ombro dele.
— Marido, o que exatamente você disse a Su Ruiwen? — perguntou ela. Enquanto vocalizava a dúvida, virou o corpo de lado, deitou-se ao longo do estofado, pousou a cabeça sobre as coxas de Wu Chen e encarou-o de baixo para cima.
— Eu disse… — iniciou ele, desenrolando o relato.
Não existia justificativa para manter segredos diante dela.
Wu Chen sintetizou alguns acontecimentos do passado de Xu Zhenyuan. Dispensou minúcias probatórias; bastava expor as motivações e a mecânica dos crimes para explicar a situação geral em poucos minutos.
Ao término da exposição, Li Ruobing submergiu em silêncio absoluto.
A malha de inteligência dele transcendia tudo o que ela julgava crível na face da terra. Supunha conhecê-lo a fundo; contudo, confrontada com revelações daquela natureza, a figura de Wu Chen desafiava as próprias leis da ciência!
Episódios inexplicáveis como aquele já haviam se repetido vezes demais.
Após refletir em silêncio por quase meio minuto, Li Ruobing ergueu o tronco num ímpeto, sentou-se ereta de frente para ele e, assumindo um semblante de gravidade e compostura rara, cravou os olhos nos dele para disparar uma pergunta crucial:
— Querido, você pode me responder uma coisa ? Você possui algum tipo de… capacidade sobrenatural?
