Capítulo 388 — Mestre e discípulo
por NexoNovelCapítulo 388 — Mestre e discípulo
Já eram quase quatro e meia da tarde.
Distrito de Beicheng, Zunrong · Donghai Huafu, villa nº 36.
A academia do subsolo.
A casa tinha sido preparada originalmente por Li Ruotai para ele mesmo, então, naturalmente, tinha tudo do bom e do melhor. Na academia do subsolo havia todo tipo de aparelho, inclusive sacos de pancada e outros equipamentos de luta.
No espaço livre junto à parede norte da academia, o chão estava coberto de tatames.
Wu Chen e Tang Xinbao vestiam roupas esportivas largas, estavam descalços e usavam luvas de luta. Tang Xinbao ainda usava capacete; Wu Chen, não… Tang Xinbao simplesmente não tinha a menor chance de acertar a cabeça dele! Nenhuma possibilidade! Em percepção e reflexos, a diferença entre os dois era de vários níveis!
Estavam treinando luta!
Luta de verdade!
Tang Xinbao já estava havia uma semana se recuperando na casa de Wu Chen! Na verdade, já estava bom. Afinal, não tinha machucado osso nem tendão, só umas contusões nos tecidos moles, e a concussão também fora levíssima.
Ainda dava para ver umas marcas arroxeadas no rosto dele, que não tinham sumido de vez, mas já não atrapalhavam em nada. O inchaço tinha desaparecido; só restavam as marcas.
Wu Chen não aparecia em casa havia dois dias.
Uma hora antes, assim que Wu Chen chegou, Tang Xinbao grudou nele, dizendo que já estava recuperado e voltando a falar em virar discípulo.
Se ele tinha “se instalado” na casa de Wu Chen, era justamente por isso!
Para um herdeiro da terceira geração de uma família poderosíssima como ele, aos vinte e um anos, ainda sem terminar a faculdade, nada era mais importante do que correr atrás das próprias paixões!
— Uff… uff… — Tang Xinbao arfava, já com os passos meio cambaleantes.
De cansaço!
O desgaste físico de uma luta é assustador; quanto mais feroz, mais rápido se esgota!
Desde o começo já tinha passado mais de meia hora, e Tang Xinbao nem lembrava mais quantas vezes tinha ido ao chão.
Num canto da academia havia uma mesinha de chá e um sofá para descansar.
Zhuang Xiaodie e Guo Qiqi estavam ali, comendo sementes de girassol e assistindo juntas a uma série no mesmo tablet. Só de vez em quando davam uma olhada na luta entre Wu Chen e Tang Xinbao… ou melhor, em Tang Xinbao apanhando!
No começo, as duas tinham assistido com toda a atenção.
Guo Qiqi chegou a ficar preocupada, com medo de Wu Chen machucar Tang Xinbao de verdade.
Mas, depois de alguns minutos, perderam o interesse. Não havia suspense nenhum. Dava para ver que Wu Chen estava pegando leve, sem golpe pesado nenhum, só derrubando Tang Xinbao no tatame uma vez atrás da outra.
Nem tinha graça assistir.
A série era mais interessante.
Bam!
Tang Xinbao foi ao chão de novo, mas era teimoso. Mesmo exausto, a ponto de desmaiar, virou o corpo e se levantou outra vez.
— Irmão, de novo! — Tang Xinbao ergueu os punhos mais uma vez, fazendo uns movimentos, e os manteve na frente do corpo.
Wu Chen não disse nada.
Para ele, tanto fazia. Não tinha nada para fazer mesmo! E ter Tang Xinbao de “parceiro de treino” até que era bem útil!
Para Wu Chen, que tinha vivido mil anos de ciclos, exercitar o corpo também era coisa importante! Porque o corpo era a única coisa nele que ainda não era forte o bastante.
Os dois recomeçaram.
Trim, trim…
O toque de um celular veio do canto da academia.
O aparelho estava em cima da mesinha, mas não era nem de Zhuang Xiaodie nem de Guo Qiqi. Era de Wu Chen.
Zhuang Xiaodie pegou o celular, olhou a tela e ergueu a cabeça:
— Senhor Wu, o seu telefone…
Wu Chen estava pegando leve, num ritmo calculado para derrubar Tang Xinbao uma vez a cada dois minutos. Quando Zhuang Xiaodie chamou, ele acelerou de repente: inclinou a cabeça para escapar de um gancho de Tang Xinbao, virou de lado, agarrou o braço dele, girou e o jogou por cima do ombro!
Tang Xinbao foi ao chão!
— Por hoje chega. Para, descansa um pouco — disse Wu Chen a Tang Xinbao.
Saiu do tatame, ainda descalço, foi até a mesinha e pegou o celular que Zhuang Xiaodie lhe estendia.
Olhou a tela, virou-se, sentou e atendeu, levando o aparelho ao ouvido.
— Alô! Senhor Wu, tá livre? — veio a voz de An Menglan.
— Tô, sim — disse Wu Chen, sorrindo. Ao terminar de falar, ainda respirou fundo.
Também estava um pouco ofegante, com algumas gotas de suor na testa.
Afinal, já fazia mais de meia hora. Para Wu Chen, pegar leve era mais cansativo do que lutar com tudo. Com tudo, resolveria em poucos golpes, mas… também não dava para matar Tang Xinbao de pancada!
— Senhor Wu, acabei de me encontrar com o Peng Wei — disse An Menglan.
— Ah, é? Tão rápido! — Wu Chen riu.
— Pois é. A gente marcou na Casa de Chá Qingyuan e acabou de conversar — disse An Menglan, carregando nas palavras “Casa de Chá Qingyuan”.
Era uma indireta para Wu Chen: Peng Wei tinha dito que antes se encontrara com ele justamente na Casa de Chá Qingyuan.
— Correu tudo bem? — perguntou Wu Chen, sorrindo.
— Muito bem! — respondeu An Menglan.
— Que bom! — disse Wu Chen.
Uma breve pausa. Wu Chen não continuou.
— O senhor não tem nada pra me dizer? — perguntou An Menglan, tomando a iniciativa, num tom estudado; na voz magnética havia até um quê de reclamação manhosa!
— Dizer o quê? — devolveu Wu Chen, sorrindo. — Você e o Peng Wei não acertaram tudo? Ele te pediu desculpas e… pronto, acabou. Não foi?
— Foi, acabou! — disse An Menglan, e emendou: — Só que o Peng Wei só veio me pedir desculpas. Fora isso… não me contou nada!
— E o que mais ele precisava te contar? — Wu Chen riu.
— Senhor Wu! — An Menglan subiu o tom e logo voltou àquele jeito de reclamação manhosa. — Dá pra parar de fazer mistério comigo? Tá fazendo de propósito, né? O senhor sabe muito bem o que eu quero saber.
— Ha. — Wu Chen soltou uma risada.
— Vamos marcar. Eu te pago um jantar — disse An Menglan, direta. — Acho que a gente precisa conversar pessoalmente.
— Hum… fechado! — Wu Chen aceitou.
Combinaram hora e lugar, trocaram mais umas frases à toa e Wu Chen desligou.
Ao largar o celular, ergueu os olhos. Zhuang Xiaodie estava sentada ao lado, toda comportada, de olhinho no tablet apoiado em pé, mas, assim que percebeu que Wu Chen olhava para ela, virou-se na hora para ele.
Guo Qiqi já tinha ido para o tatame e estava sentada de pernas cruzadas ao lado de Tang Xinbao.
Tang Xinbao continuava deitado. Quando Wu Chen disse que tinha acabado, ele relaxou; a garra que o mantinha de pé se foi, e agora não conseguia mais levantar!
Cansado demais!
Ficou ali deitado, arfando sem parar, morrendo de exaustão!
Precisava de um tempo.
— Hoje à noite eu não janto em casa — disse Wu Chen a Zhuang Xiaodie.
— Uhum. — Zhuang Xiaodie assentiu, de lábios apertados.
— Vou tomar banho. — Wu Chen se levantou. Estava suado; precisava de um banho e trocar de roupa antes de sair.
Zhuang Xiaodie se levantou junto.
— Xiaobao, tudo bem aí? — chamou Wu Chen.
— Tudo… tudo bem, irmão — respondeu Tang Xinbao na hora. Já tinha recuperado o fôlego; estava só cansado.
— Então fica assim por hoje. Quando der, a gente continua — disse Wu Chen.
Deitado, Tang Xinbao virou a cabeça para olhar. Ao ver Wu Chen indo para a saída, ergueu-se de repente, como quem lembra de alguma coisa.
— Espera, irmão! Eu passei no teste?! — gritou.
Por dentro, estava em pânico. Tinha insistido tanto justamente na esperança de passar no “teste” de Wu Chen. E, no fim, apanhara de um jeito… que não tinha servido para nada!
— Passou — respondeu Wu Chen, sem nem virar a cabeça, seguindo para a saída.
— Então! Irmão! Posso virar seu discípulo? Você me aceita como discípulo? — gritou Tang Xinbao de novo, na hora.
— Aceito — respondeu Wu Chen.
Quando terminou de falar, já tinha saído da academia, e Zhuang Xiaodie saiu logo atrás.
— Isso! — Tang Xinbao socou o ar, eufórico.
Que jeito mais sem cerimônia de aceitar um discípulo!
Wu Chen queria simplicidade; já tinha planejado tudo de antemão, e, chegada a hora, era só aceitar! Tang Xinbao, por sua vez, não ligava a mínima para formalidades; bastava Wu Chen dizer sim! Ser aceito como discípulo por um mestre sem igual o deixava eufórico de verdade!
Wu Chen subiu para tomar banho.
Zhuang Xiaodie entrou no banheiro com ele.
Mais de meia hora depois, Wu Chen desceu já vestido e arrumado.
E saiu!
Mais de dez minutos depois.
Wu Chen ainda estava a caminho do encontro com An Menglan, dirigindo.
Trim, trim!
O celular tocou!
Com uma mão no volante, Wu Chen pegou o aparelho, olhou a tela e ergueu de leve uma sobrancelha.
Na tela: Lu Guangnian!
Fazia alguns dias que os dois não se falavam; andavam ambos ocupados. Por isso Wu Chen ficou um pouco surpreso com a ligação repentina de Lu Guangnian, sem saber se tinha acontecido alguma coisa urgente.
Atendeu.
— Alô, irmão Lu — disse Wu Chen.
