Novels chinesas em português
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    Capítulo 500 — Um pequeno problema

    Abalada até o fundo da alma, Wu Yurong chorara a ponto de borrar a maquiagem; contudo, no instante em que levantou os olhos e deu de cara com Wu Chen, seus soluços foram estrangulados na garganta, e ela apertou os lábios com força.

    Os olhares de ambos se cruzaram.

    Wu Yurong ainda tremia de tanta emoção, mas se obrigou a recuperar o controle. Fungou e se levantou.

    Em virtude dos saltos altos, o movimento de se erguer exigiu um esforço visível, quase penoso. Uma vez aprumada, alisou com a palma das mãos as rugas do qipao e enxugou os rastros de lágrimas nas bochechas.

    Toda a sua postura transmitia uma naturalidade estudada que, no fundo, soava artificial.

    — Você chegou — murmurou ela, os olhos ainda brilhando úmidos ao encarar Wu Chen; ao terminar a frase, fungou de novo.

    Comportava-se como se nada de extraordinário houvesse ocorrido.

    Ela não expôs toda a sua fragilidade diante de um homem, como muitas mulheres fariam naquele momento, nem se atirou nos braços dele para chorar.

    Wu Yurong não era uma mulher comum.

    Só revelava sua vulnerabilidade quando estava sozinha. Mesmo diante de Wu Chen… podia chorar por causa dele quando não estava por perto, mas, frente a frente, fazia questão de esconder o que sentia.

    Não se tratava apenas do apego obstinado à perfeição da própria imagem.

    Tampouco de mera vergonha de permitir que Wu Chen testemunhasse seu descontrole absoluto.

    Mais importante ainda: Wu Yurong compreendia muito bem a mente masculina. Sempre acreditara que as lágrimas eram uma das armas mais poderosas de uma mulher, capazes de tocar o lado sensível de um homem.

    Mas o choro também podia pressioná-lo.

    Se uma mulher chorasse constantemente por sentimentalismo ou por coisas pequenas, usando as lágrimas para conseguir perdão ou concessões, cedo ou tarde… elas perderiam o efeito!

    Por isso, Wu Yurong não queria chorar diante de Wu Chen naquele dia. Não queria que ele a considerasse imatura e começasse a se cansar dela.

    Afinal de contas, nada de irremediável se rompera entre os dois naquele dia.

    Wu Chen podia até ter ficado contrariado, mas, no fim, viera até ela.

    — O que houve, irmã Rong? — Wu Chen caminhou até ela e parou diante da mesa de centro. Enquanto perguntava, olhou para a garrafa de vinho tinto e depois novamente para Wu Yurong. — Bebendo sozinha, chorando sozinha…

    — Não… não foi nada de mais, eu apenas… — Wu Yurong fungou mais uma vez antes de emendar: — Me lembrei de algumas coisas do passado e fiquei divagando… por que não cruzei com você antes na vida? Ai, acho que bateu um sentimentalismo bobo…

    Soltou um riso curto e, fingindo leveza, ergueu os dedos para secar outra gota teimosa que insistia em descer. Esboçou um sorriso adocicado, sustentando a farsa de que não se passava de pura bobagem.

    O rosto, todavia, continuava lavado em lágrimas.

    Considerada no passado a mulher mais bonita de Donghai, a única nota dez, uma obra-prima de Deus, Wu Yurong ainda parecia jovem e deslumbrante. Com os olhos avermelhados pelo choro, ficava ainda mais encantadora.

    Wu Chen desenhou um sorriso nos lábios e correu os olhos pela mulher, contemplando-a.

    Ainda sem conseguir reordenar completamente a tempestade que rugia em seu peito, Wu Yurong não teve coragem de sustentar o olhar do rapaz. Suas pupilas desviaram-se no ar; gesticulou com as mãos numa tentativa de parecer espontânea e declarou:

    — Vamos subir primeiro, eu…

    Wu Chen deu um passo à frente de repente, colocou o braço sobre o ombro dela e a puxou suavemente. Wu Yurong avançou um pequeno passo e acabou encostada no peito dele.

    Aproveitando o embalo, enlaçou a cintura de Wu Chen com os dois braços.

    Wu Chen passou um braço ao redor da cintura dela e apoiou a outra mão em suas costas, dando leves tapinhas em seu ombro. Então, sorrindo, sussurrou junto ao ouvido dela:

    — O que você acha que eu sou? Um monstro sem sentimentos?

    Wu Yurong, que lutava bravamente para restabelecer a compostura, desabou no mesmo segundo.

    Embora não chegasse a soluçar alto, as lágrimas transbordaram pelas comportas dos olhos de uma só vez.

    Seus braços apertaram-se com ainda mais força em torno da cintura de Wu Chen. Enterrou a face no peito dele, ensopando o tecido de sua camisa com as lágrimas quentes, enquanto seus ombros tremiam num ritmo convulsivo e suave.

    A mão com que Wu Chen consolava as costas dela subiu lentamente, passando a afagar com ternura as mechas sedosas na nuca da mulher… exatamente como quem acalenta uma menininha indefesa.

    Na verdade, Wu Chen raramente recorria a métodos convencionais, até mesmo melosos, para conquistar uma mulher. Geralmente conseguia pular essa etapa e proporcionar à outra pessoa uma experiência diferente.

    Naquela noite, contudo, deparando-se com Wu Yurong reduzida àquele estado, achou por bem adotar essa postura.

    Wu Yurong e Li Ruobing eram igualmente mulheres de enorme força interior, mas havia uma diferença fundamental entre elas. No caso de Li Ruobing, aquilo fazia parte de sua personalidade desde o nascimento. Para falar sem rodeios… Li Ruobing simplesmente não era uma mulher normal!

    Wu Yurong, por outro lado, era!

    Antes dos vinte e um anos… mais precisamente, antes de ser obrigada a se casar, era gentil por dentro e por fora. Foi aquele casamento de fachada que a transformou, forçando-a a se tornar forte.

    Mas a mudança não dizia respeito à maneira como encarava o amor. As intrigas, as mentiras e a busca por poder tinham, desde o princípio, um único objetivo: conquistar a liberdade de fazer suas próprias escolhas!

    E ela alcançara essa meta.

    No entanto, quando o assunto era amor, ainda guardava no coração os sentimentos de uma garota.

    Wu Yurong era uma mulher cuja razão conseguia vencer a emoção. A razão sempre a impedira de começar um relacionamento. Mas, depois que escolheu Wu Chen racionalmente, passou a se entregar a essa relação com ainda mais sentimento.

    Afinal, os seres humanos são criaturas movidas por emoções.

    ——

    Um novo dia: 3 de agosto de 2020.

    Às sete horas da manhã em ponto, Wu Chen abriu os olhos pontualmente. Olhando para o teto do quarto no segundo andar, sorriu.

    Virou o corpo, abraçou a silhueta adormecida de Wu Yurong e tornou a pegar no sono.

    Não sabia quanto tempo havia passado.

    Como se percebesse alguma coisa, Wu Chen abriu os olhos e encontrou o olhar de Wu Yurong fixo nele.

    Ela já acordara e vinha observando o rosto dele em silêncio, sem se mexer. Quando Wu Chen abriu os olhos de repente, levou um susto.

    Mas reagiu rapidamente. Piscou, aproximou-se e lhe deu um beijo. Depois disse com sua voz doce e suave:

    — Bom dia, meu querido senhor Wu.

    — Bom dia — devolveu Wu Chen, sorrindo.

    — Ontem eu… bebi demais. — Wu Yurong fez uma pausa, como se quisesse explicar alguma coisa, mas acabou dizendo apenas que bebera demais.

    — Ha! — Wu Chen deixou escapar uma risada curta.

    — Você ficou chateado comigo ontem? — insistiu ela, apertando os lábios mais uma vez. O tom soava casual e descontraído, mas a dúvida continuava martelando em seu íntimo.

    — Fiquei, sim. Ontem você quase me matou de tanta raiva — respondeu Wu Chen, sorrindo e até imitando o jeito dela de falar.

    Aquela resposta provocou um alívio instantâneo no peito de Wu Yurong.

    Ela percebeu na hora que Wu Chen falava pelo avesso, pura provocação bem-humorada! Se o homem guardasse qualquer ressentimento real no íntimo, mesmo que tentasse disfarçar com negativas diplomáticas, jamais transformaria o assunto em pilhéria.

    O sorriso nos lábios de Wu Yurong ganhou um brilho ainda mais doce; ela estendeu os braços sedosos e enlaçou o pescoço de Wu Chen…

    Depois de trocarem carinhos por algum tempo, os dois se levantaram.

    Lavaram-se e se vestiram.

    Wu Yurong preparara roupas novas para Wu Chen, além de sapatos sociais e um relógio. Antes, ela mesma quase não morava naquela vila. Só passara a ficar ali depois de conhecer Wu Chen.

    Sem nunca ter tido um companheiro de verdade, Wu Yurong comprara uma quantidade enorme de coisas para Wu Chen. Tantas que estavam acumuladas naquela casa.

    As mulheres já gostam de passear pelas lojas e têm muita vontade de comprar.

    Depois de conhecer Wu Chen, sempre que saía para fazer compras, Wu Yurong deixara de olhar apenas roupas femininas. Também examinava as masculinas, adorando comprar coisas para ele.

    E, como tinha muito dinheiro, não precisava se preocupar com os gastos.

    Os dois desceram pouco antes das nove da manhã e tomaram café juntos. Wu Yurong pedira aos seguranças que encomendassem o café da manhã por delivery; telefonara antes de ir se lavar.

    Acomodados à mesa da sala de jantar, prosearam sobre os mais variados temas.

    Dois assuntos se destacaram: Su Ruiwen e a parceria de Wu Yurong com Gu Ruibo e Lei Cheng.

    Sobre o primeiro, Wu Chen falou casualmente. O que Wu Yurong temia não acontecera e, pelo que ele dizia, evidentemente também não aconteceria.

    Quanto à parceria com Gu Ruibo e Lei Cheng, Wu Yurong achava que surgiram alguns pequenos problemas. Mas os problemas não vinham de nenhum dos dois.

    Por causa de Wu Chen, ambos haviam feito enormes concessões a Wu Yurong. Ou melhor, viam nela a representante de Wu Chen naquele negócio e, naturalmente, não ousariam lhe causar dificuldades.

    Os pequenos problemas estavam na própria família de Wu Yurong.

    — …Recentemente, retirei todos os recursos que tinham alguma ligação indireta com a família Ding. Dentro do Grupo Senlan, sem afetar em nada as operações, ainda consigo mobilizar mais de um bilhão em dinheiro… — Wu Yurong fez uma pausa e continuou: — Anteontem, no dia primeiro, apresentei meu relatório ao meu pai. Ele fez algumas perguntas…

    Atualmente, Wu Yurong era vice-presidente do conselho e presidente-executiva do Grupo Senlan.

    Embora controlasse completamente aquela gigante do vestuário, fosse a única responsável pela administração e não enfrentasse problemas no conselho de administração…

    Na realidade, as ações que garantiam o controle do Grupo Senlan não estavam nas mãos dela.

    Caso contrário, seria a presidente do conselho.

    No momento, Wu Yurong possuía apenas uma pequena parte das ações. A maior parte da participação controladora ainda pertencia a seu pai aposentado, Wu Weidong.

    Wu Weidong apoiava a filha incondicionalmente.

    E, seguindo a tendência atual, quando Wu Weidong morresse ou simplesmente envelhecesse mais, certamente transferiria a maior parte das ações para a filha extremamente competente, Wu Yurong, deixando apenas uma pequena parcela para o filho.

    Não haveria nenhum obstáculo.

    O irmão mais velho de Wu Yurong já fora colocado por ela numa posição de completa obediência havia muito tempo. Era ela quem mandava na família Wu!

    Mesmo assim… por enquanto, Wu Yurong ainda precisava prestar contas ao pai todos os meses.

    Normalmente, isso não seria problema. Mas, no fim do mês anterior, suas movimentações haviam sido estranhas: mobilizara grandes quantias para mantê-las disponíveis… Muita gente dentro do Grupo Senlan não entendia o que estava acontecendo. O plano de adquirir os ativos da família Ding quando ela caísse ainda era absolutamente secreto, e Wu Yurong não podia explicar nada a ninguém.

    Por isso, quando apresentou o relatório ao pai no início do mês, Wu Weidong fez algumas perguntas a mais.

    Wu Yurong inventou desculpas para contornar o assunto.

    Era mesmo um problema pequeno. Wu Weidong concedera total autonomia à filha e não se envolvia na administração havia muitos anos. Mas continuava sendo um problema: quando a operação contra a família Ding chegasse a determinado estágio, o destino de muitos recursos ficaria evidente. Ao prestar contas novamente, as desculpas anteriores já não serviriam.

    Por outro lado, não era fácil explicar ao pai que a família Ding estava prestes a cair e que ela se aproximara de Gu Ruibo, Lei Cheng e outros.

    Para uma família de empresários, envolver-se nas disputas entre famílias poderosas só para conseguir uma parte dos benefícios já era algo malvisto.

    E, para explicar tudo direito, ainda precisaria falar de Wu Chen. Mas… como explicar?

    Aquilo incomodava um pouco Wu Yurong.

    Por causa do casamento forçado no passado, Wu Weidong sentia que tinha uma dívida com a filha, especialmente depois que ela conduzira o Grupo Senlan ao sucesso…

    Além disso, Wu Yurong já passara dos quarenta anos. Mesmo que estivesse com um homem jovem e fosse amante dele, Wu Weidong talvez nem interferisse.

    Mas Wu Chen não podia ser descrito simplesmente como “um homem jovem”.

    Havia todos aqueles relacionamentos, aquela rede complicada de contatos e influência, aqueles acontecimentos…

    Qualquer pessoa que não conhecesse Wu Chen acharia que as coisas que ele fazia envolviam riscos enormes. Wu Yurong não sabia como explicar tudo de uma maneira que tranquilizasse o pai.

    E havia algo ainda mais importante.

    Ela não sabia se podia revelar ao pai informações sobre Wu Chen. Será que Wu Chen permitiria?

    Por isso, escondera a verdade ao prestar contas no início do mês.

    E agora tocava no assunto com Wu Chen porque queria conhecer sua posição. Ele permitiria que ela contasse?

    — Hum… — Wu Chen refletiu por um momento depois de ouvi-la.

    Ele sabia que Wu Weidong era um empresário da velha guarda, dedicado à indústria, que construíra seu negócio passo a passo. Sempre preferira manter distância de operações financeiras complexas, sobretudo das disputas envolvendo famílias poderosas.

    Isso não significava que fosse covarde. Era que essas famílias, muitas vezes, não seguiam as regras dos negócios. Envolver-se com elas era realmente brincar com fogo.

    Ser cauteloso e não ser ganancioso não era um defeito.

    Se Wu Weidong descobrisse e discordasse da filha, ou até achasse que suas ações poderiam trazer consequências desastrosas para o Grupo Senlan, certamente tentaria impedi-la. Talvez até retirasse temporariamente os poderes dela para que pudesse esfriar a cabeça…

    — Na verdade, meu pai não cuida mais de absolutamente nada na empresa — acrescentou Wu Yurong ao perceber que Wu Chen estava pensativo. — Só aparece uma vez por ano, na assembleia de acionistas. Há muito tempo ele delegou a mim todos os seus direitos de voto no conselho. Todo mês levo os relatórios para ele, mas só dá uma olhada por alto e faz algumas perguntas… Eu até poderia continuar escondendo tudo dele.

    Wu Yurong certamente conseguiria esconder a verdade do pai indefinidamente.

    Administrava o Grupo Senlan havia tantos anos que a empresa estava cheia de pessoas de sua confiança. Mesmo que apresentasse contas falsas a Wu Weidong, ele não perceberia…

    Mas, pelo tom dela, ainda preferia conquistar o apoio do pai a continuar enganando-o.

    E, se conseguisse esse apoio, teria mais liberdade para agir e buscar benefícios ainda maiores.

    — Hum… — Wu Chen refletiu novamente, consultou o relógio e sorriu para Wu Yurong. — Acho que vou voltar a Modu nos próximos dias… Vou conversar com o velho da sua família.

    — Ah? — Wu Yurong ficou surpresa. Não pretendia pedir que Wu Chen interviesse pessoalmente. Não achava que o assunto merecesse dar tanto trabalho a ele.

    Não era um grande problema.

    Só queria saber sua opinião: podia contar ao pai ou não? Depois decidiria o que fazer. Se resolvesse contar, certamente teria confiança de que conseguiria convencê-lo. Caso contrário, não falaria nada.

    — Que tal assim? Se você tiver tempo hoje, pode ir mais tarde à empresa. Vamos até lá depois do café — sugeriu Wu Chen, sorrindo.

    — Ah… — Wu Yurong levou um instante para reagir. Era tudo tão repentino. — Tempo eu tenho, claro! Posso até faltar à empresa hoje. Mas… como você pretende falar com ele?

    — Normalmente, ué — respondeu Wu Chen com um sorriso.

    — Normalmente, quer dizer…

    — Vou pedir que ele transfira as ações para você.

    — O quê?!

    Clac!

    Wu Yurong nem conseguiu segurar os hashis, que caíram sobre a mesa.

    Nota