Capítulo 503 — Senhor Wu, você sabe mesmo como conseguir o que quer!
por NexoNovelCapítulo 503 — Senhor Wu, você sabe mesmo como conseguir o que quer!
Por um instante, Wu Weidong chegou a pensar que tivesse ouvido errado, mas aquilo não passava de uma tentativa de autoengano. Embora estivesse velho, havia anos não precisava se desgastar com nada e cuidava meticulosamente da saúde: sua audição e sua visão continuavam muito boas.
Era impossível ter ouvido errado.
Wu Weidong, que estancara no meio da frase, ficou paralisado por um segundo. Olhou para a filha, Wu Yurong, depois para Wu Chen e, por fim, voltou a fixar os olhos no rosto de Yurong.
— Rongrong, você acabou de chamar o senhor Wu de… — indagou Wu Weidong, tocando com a ponta dos dedos a xícara de chá ligeiramente quente.
Mantinha-se calmo; apenas o sorriso afável se apagara de seu rosto.
— Querido — respondeu Wu Yurong, sustentando o olhar do pai. Lançou um relance afetuoso na direção de Wu Chen e tornou a encarar o patriarca: — Pai, eu e o Wu Chen… temos exatamente o tipo de relação que você está imaginando.
Quanto a isso, Wu Yurong realmente não hesitava!
Podia abrir o jogo com o pai sem meias palavras, de forma escancarada. Afinal de contas, não era mais uma garotinha ingênua. Na idade dela, Wu Weidong não tentaria ditar seus passos; para dizer a verdade crua, nem teria cacife para isso. No fim das contas, Wu Yurong era a mulher de negócios brilhante que conduzira a família ao auge; muitas vezes, era o próprio Wu Weidong quem precisava se apoiar na filha.
A questão do dia, contudo, não se limitava à vida amorosa de Wu Yurong.
— Ah… — soltou Wu Weidong num tom comedido, como quem acabara de compreender a situação. Lançou um olhar a Wu Chen e voltou-se para a filha: — A senhorita Li sabe disso?
Após soltar a pergunta, virou o rosto para Wu Chen e emendou:
— O senhor Wu terminou com a senhorita Li?
Naquele momento, o que preocupava Wu Weidong não era com quem a filha se relacionava, mas se isso poderia lhe trazer problemas.
— A Ruobing sabe de mim e da irmã Rong. Não terminamos — respondeu Wu Chen com um sorriso plácido.
Wu Weidong entreabriu os lábios, mas não chegou a soltar nenhum som; seu semblante, contudo, transmitia mais uma vez a expressão de quem havia entendido tudo.
Precisou de alguns segundos de digestão antes de se virar para Wu Chen:
— A senhorita Li permite que o senhor Wu e… — Wu Weidong não completou a sentença; limitou-se a fazer alguns gestos vagos com as mãos no ar, deixando o sentido cristalino.
Wu Chen, num raro intervalo de silêncio, fez uma breve pausa antes de responder, sorrindo:
— Eu não preciso da permissão dela.
O semblante de Wu Weidong congelou.
Ele realmente precisava de um fôlego para absorver tudo aquilo: o volume de informação era colossal!
Com a mão pousada sobre a porcelana, afastava os dedos por milímetros para logo em seguida voltar a tocar a xícara; o chá ainda fumegava quente demais para beber. Eram espasmos puramente involuntários, enquanto suas pupilas pulavam da filha para Wu Chen.
Repetiu o movimento inúmeras vezes.
Wu Weidong afundou no silêncio. Por dentro, não experimentava nenhum sobressalto explosivo; afinal, naquela idade avançada, embora seu talento e pulso firme não rivalizassem com os de Su Ruiwen ou os da própria filha, já enfrentara tempestades suficientes ao longo da vida.
E, diante daquela conjuntura, quer aceitasse a situação, quer quisesse bater o pé contra ela, jamais se rebaixaria a discutir com a filha na presença de Wu Chen, um “estranho” à família.
Na realidade, nem a sós ele discutiria com ela.
A dinâmica entre pai e filha evoluíra até o ponto em que conversavam em pé de absoluta igualdade, como velhos amigos. Para Wu Weidong, era quase impossível acionar a prerrogativa de “pai” para exigir submissão ou impor ordens a ela.
Mesmo nos negócios da corporação em que as ações permaneciam sob sua titularidade, ele costumava acatar as decisões da filha. Quanto mais na vida íntima dela.
Desconsiderando as outras variáveis, a questão nem seria tão dramática: resumia-se a Wu Yurong arranjar um namoradinho mais jovem. Por isso apenas… Wu Weidong sequer se daria ao trabalho de questionar: uma mulher divorciada havia mais de uma década tinha todo o direito de bancar um rapaz bonito para se divertir.
Ele confiava na capacidade da filha; se ela quisesse brincar, não haveria mal algum.
Contudo, Wu Weidong tinha a firme convicção de que Wu Chen passava longe de ser um mero gigolô sustentado por uma mulher. Tampouco conseguia cravar se a bravata “eu não preciso da permissão dela” era pura empáfia ou realidade.
— Agora eu entendo por que a Rongrong voltou para casa tão de repente e fez questão de trazer o senhor Wu… — soltou Wu Weidong de supetão. Pelo tom, parecia convicto de que a filha o levara ali para as apresentações formais à família. Virou-se para Yurong e indagou: — Como vocês começaram a se envolver? Faz quanto tempo?
— Não faz muito. Pouco mais de meio mês — respondeu Wu Yurong.
— A Xuanxuan sabe disso? — cobrou o patriarca.
— Por enquanto, não é conveniente que ela saiba — justificou ela.
— Ah… Então… foi o senhor Wu quem começou a cortejar a nossa Rongrong? — insistiu Wu Weidong, virando-se para Wu Chen. Em circunstâncias comuns, aquela seria uma indagação descabida, visto que Wu Yurong já passara da barreira dos quarenta anos.
Era evidente, porém, que ela não podia ser enquadrada na régua das mulheres comuns.
Pela estampa visual, Wu Yurong não parecia mais velha que Li Ruobing: ostentava o frescor de uma jovem na casa dos vinte anos, sem perder em nada no quesito beleza em comparação à herdeira dos Li.
Wu Weidong conhecia o magnetismo de sua herdeira; ver um jovem de vinte e poucos anos perder a cabeça por ela não tinha nada de absurdo.
— Eu e a irmã Rong… — começou Wu Chen.
— Fui eu quem tomou a iniciativa — cortou Wu Yurong, direta e sem rodeios.
Wu Chen não lhe pedira para inflar sua moral daquela forma; tratava-se de uma decisão espontânea de Wu Yurong, que julgava indispensável deixar as coisas claras. E ela falava a mais pura verdade: na noite em que se conheceram, durante o jantar, fora ela quem roçara o pé na perna do rapaz por baixo da mesa, destilando insinuações que equivaliam a um convite escancarado.
Wu Weidong virou o rosto para a filha no mesmo instante.
Seria hipocrisia negar o assombro em seu íntimo.
Na condição de pai, conhecia perfeitamente a envergadura e as artimanhas da filha. Ao longo de tantos anos, quantos figurões de primeira linha — homens que até a família Wu hesitava em peitar — não haviam se comportado como pretendentes servis de Wu Yurong, sem jamais ousar uma investida desrespeitosa?
Muitos deles chegaram a bajular o próprio Wu Weidong: na época em que o veterano ainda esbanjava disposição, fretavam jatos executivos para levá-lo para jogar golfe no exterior, tratando-o com reverência exagerada de “senhor Wu” e “Tio Dong”.
Para falar a verdade, Wu Weidong chegou a se entusiasmar na época.
Idealizara o salto que a família daria caso a filha desposasse um titã daquele porte e chegara a sondá-la a respeito. Contudo, diante do desinteresse categórico de Wu Yurong, deixara o assunto morrer.
Cometera um erro no passado e não incorreria no mesmo deslize!
Com o passar dos anos, Wu Weidong compreendeu que, para manter sua teia de contatos intocada e exercer um peso muito superior ao patrimônio real que acumulava, a filha precisava preservar o estado civil intocado.
E fora exatamente essa a cartilha que ela seguira ao longo de mais de uma década.
E agora… ela tomara a iniciativa?!
E tivera a audácia de caçar um homem comprometido?!
O que Wu Chen tinha de tão extraordinário? Poderia rivalizar com os magnatas bilionários ou com os herdeiros das grandes famílias? Se a escolha de Li Ruobing por Wu Chen já soava incompreensível aos olhos dos observadores externos, a entrega de Wu Yurong era um mistério ainda mais indecifrável para o próprio pai.
Li Ruobing sempre fora uma figura excêntrica e indomável; com ela, qualquer loucura era plausível.
Wu Yurong, não.
A permanência dela na solteirice após o divórcio fora fruto de uma fria e meticulosa equação de interesses!
— Ah… Estou velho mesmo. Esses assuntos de vocês, jovens… — suspirou Wu Weidong de repente.
Aparentava ter desistido de decifrar o mistério. Na verdade, apenas recolhera as garras porque a presença de Wu Chen impedia uma conversa franca com a filha.
Não podia sequer aprofundar o interrogatório.
A meada era caótica demais: havia variáveis em excesso, todas de extrema sensibilidade. Wu Weidong jamais se rebaixaria a perguntar na cara de Wu Chen coisas como “o que deu na sua cabeça?” ou “o que você viu nele?”.
Muito menos esmiuçar a dinâmica com Li Ruobing.
— O senhor Wu pretende se casar com a Rongrong? — disparou de repente, em meio a mais um suspiro, fingindo ter interpretado de forma equivocada o propósito daquela visita surpresa.
Wu Chen sabia perfeitamente que o velho se fazia de desentendido: queria apenas escavar a fundo o arranjo daquela relação e ver que tipo de resposta o jovem sustentaria.
— Pai, eu não vou me casar de novo — interveio Wu Yurong, antes que Wu Chen articulasse qualquer resposta. Lançou um olhar de soslaio para o rapaz e tornou a encarar o patriarca: — O Wu Chen vai se casar com a senhorita Li.
— E você aceita isso? — aproveitou Wu Weidong para emendar.
— Que diferença faz? — devolveu ela, abrindo um sorriso sereno.
E não fazia a menor diferença mesmo! Wu Yurong não precisava se casar! Sua filha já era adulta!
Wu Weidong, contudo, captava com clareza cristalina que a filha se desdobrava para blindar Wu Chen a cada instante!
Determinadas frases, quando saíam da boca de Wu Chen ou dos lábios de Wu Yurong, causavam impressões diametralmente opostas: “Wu Chen não quer se casar com Wu Yurong” e “Wu Yurong não quer se casar novamente” passavam a anos-luz de significar a mesma coisa!
Aquilo despertou em Wu Weidong a certeza de que Wu Chen… aquele sujeito sabia mesmo como agir!
Como diabos conseguira subjugar a tal ponto a filha de quem ele tanto se orgulhava?
Tac, tac, tac…
O som característico de saltos altos aproximou-se.
Vinha do lado de fora do pavilhão.
Os três viraram a cabeça simultaneamente e avistaram uma senhora elegante e distinta, com aparência de pouco mais de cinquenta anos, que se aproximava sem pressa.
Envergava um qipao preto bordado, cabelos presos num coque sóbrio e trazia uma pulseira de jade no pulso. Muito embora a idade já deixasse suas marcas, ainda era fácil vislumbrar que fora uma grande beleza na juventude.
Todos ali a conheciam!
Tratava-se de Han Yuzhi, esposa de Wu Weidong e mãe de Wu Yurong. Na realidade, já completara sessenta e cinco anos; com cuidados razoáveis com a aparência e uma vida inteira de opulência e conforto, aparentava ser muito mais jovem.
Hoje em dia, raras eram as pessoas que ainda se referiam a ela pelo nome de batismo; os círculos sociais costumavam chamá-la de senhora Wu.
Wu Yurong não herdara traços tão evidentes da mãe; colhera o melhor das linhagens de ambos os progenitores — afinal, Wu Weidong preservava a estampa de um ancião de excelente presença. No quesito vestuário, contudo, a herdeira mimetizava o estilo materno.
O apreço obsessivo pelo qipao nascera sob a influência de Han Yuzhi.
— Mãe… — cumprimentou Wu Yurong.
— A Rongrong voltou… Ouvi o Xiao Xu avisar que tínhamos visita, não é verdade? — disse Han Yuzhi, subindo os dois degraus de acesso e adentrando o pavilhão.
Wu Yurong e Wu Chen colocaram-se de pé no ato.
— Mãe, vou apresentar vocês dois. Este é Wu Chen… — Wu Yurong deu dois passos à frente e fez um gesto formal com as mãos: — Querido, esta é a minha mãe…
— Senhora Wu, é um imenso prazer conhecê-la.
— Senhor Wu, a minha neta já falou tanto do senhor! Cobriu você de tantos elogios que eu já ardia de vontade de travar conhecimento pessoalmente.
Han Yuzhi estendeu a mão para cumprimentá-lo. Sua cadência ao falar podia ser sintetizada em duas palavras: meiga e suave!
De Han Yuzhi para Wu Yurong e, em seguida, para Song Xuan: as três gerações da linhagem feminina compartilhavam aquela mesma suavidade vocal; embora os timbres fossem distintos, a melodia das frases era quase idêntica, um traço herdado diretamente de Han Yuzhi.
— …Hoje finalmente tive essa oportunidade. O senhor Wu é, de fato, um jovem de presença impecável… — elogiou Han Yuzhi ao soltar os dedos do rapaz. Ela dava passos para ocupar a cadeira ao lado de Wu Weidong quando, de súbito, estancou.
— Rongrong, como foi mesmo que você acabou de chamar o senhor Wu? — indagou ela, girando o tronco no mesmo instante para encarar a filha.
— Mãe, este é o meu homem — cravou Wu Yurong, encarando-a nos olhos, sem o menor desvio.
O semblante de Han Yuzhi petrificou no ato.
Alguns minutos depois.
A quietude voltou a engolir o pavilhão.
Han Yuzhi acomodara-se ao lado de Wu Weidong. Diferente da postura descontraída do marido, que se espalhava na cadeira com a informalidade de um idoso em seus domínios, ela mantinha um alinhamento sóbrio e aristocrático.
Já absorvera o quadro geral e desfiara todas as perguntas preliminares.
O clima tornara-se desconcertantemente tenso.
Se Wu Weidong já quase não tinha autoridade sobre Wu Yurong, Han Yuzhi tinha menos ainda. Em certos momentos, a matriarca chegava a nutrir um receio velado da própria filha, fruto das muitos acontecimentos dentro da família: não fosse pela intercessão de Han Yuzhi no passado, Wu Yurong quase teria mandado o próprio irmão mais velho e o tio materno para a prisão.
Han Yuzhi sorveu um gole de chá e, em seguida, recolheu a porcelana com pressa incomum, como se acabasse de se recordar de alguma coisa. Ficou de pé.
— Ah, vejam só a minha cabeça! Deixei uma panela de sopa fervendo no fogo. Irmão Dong… senhor Wu, continuem a conversa de vocês…
A mulher não precisava vigiar panela alguma; tratava-se de um pretexto transparente para bater em retirada.
Mal deu o primeiro passo, contudo, virou-se e fez um sinal discreto para Wu Yurong:
— Rongrong, venha cá um instante. Preciso trocar duas palavras com você…
Na ausência de crises declaradas, a mãe continuava sendo a mãe. Wu Yurong lançou um olhar a Wu Chen e pôs-se de pé:
— Então vocês dois podem continuar a prosa…
Mãe e filha deixaram o pavilhão, uma atrás da outra. Han Yuzhi tomou a iniciativa de entrelaçar o braço ao da filha, inclinando a cabeça para cochichar em tom abafado.
Saltava aos olhos que pretendia submetê-la a perguntas em particular.
Wu Yurong compreendia a intenção da mãe. Além do mais, tinha plena convicção de que sua ausência facilitaria as coisas para Wu Chen conversar com seu pai: na presença dela, afinal, certas palavras jamais cruzariam a garganta do velho.
As duas afastaram-se pela alameda.
Sob o teto de madeira do pavilhão, restaram apenas Wu Chen e Wu Weidong.
Wu Weidong acompanhou o recuo das duas com o olhar. Quando recolheu a vista, apanhou a xícara e sorveu um longo gole, contemplando por alguns segundos o espelho-d’água que se estendia à frente, ligeiramente à esquerda do pavilhão. Ao pousar a porcelana sobre a mesa, fitou Wu Chen e disparou:
— Senhor Wu, você sabe mesmo como conseguir o que quer!
