Novels chinesas em português
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    Capítulo 493 — Na verdade, quero lhe dar um conselho

    Wu Chen desceu diretamente pelas escadas internas da mansão até a garagem subterrânea. He Shiqin fez menção de acompanhá-lo, mas ele não permitiu.

    Até a partida de Wu Chen, com exceção de um rápido “tchau, professor”, He Xinxin não desgrudou os olhos da televisão nem por um instante.

    A série americana era boa de verdade!

    Além disso, He Xinxin estava justamente naquela idade em que tudo despertava curiosidade e em que se ansiava por tensão e fortes emoções! Uma trama com uma protagonista feminina forte também facilitava que ela se colocasse no lugar da personagem, chegando até a despertar certa identificação na garota.

    Por exemplo: He Xinxin crescera sem o pai por perto e sofrera bullying dos colegas no ensino fundamental. E a protagonista da série, conforme mostravam seus flashbacks, passara por experiências semelhantes.

    — Xinxin, o que você está assistindo?… — He Shiqin aproximou-se do sofá e acomodou-se ao lado da filha. Mal soltou a pergunta e já engatou um sermão: — Que série tão maravilhosa é essa que fez você nem comer direito? Você não é mais nenhuma criança. Hoje o seu professor veio aqui… e você não demonstrou o mínimo de modos. Se na próxima vez você…

    He Shiqin levava a educação de He Xinxin com extrema seriedade.

    Embora percebesse que Wu Chen não ligava para o fato de a menina comer direito ou demonstrar modos refinados, ela sabia que o desprendimento alheio não era licença para agir com desfaçatez.

    — Ai, já sei, mãe, já sei… — respondeu He Xinxin no piloto automático, sem tirar os olhos da tela.

    — Xinxin, estou falando sério. Não repita isso. Na hora das refeições, comporte-se à mesa. Não passe a impressão de que não tem educação…

    — Mas o que foi que eu fiz?…

    — Ainda pergunta?

    — Mãe, olha quem está falando…

    — O que tem eu chamar a sua atenção?

    — É que eu só estava… evitando atrapalhar a sua conversa com o professor. — He Xinxin virou o rosto para a mãe, com um risinho maroto, e baixou a voz instintivamente: — Mãe, me diz uma coisa… você gosta do meu professor, não gosta?…

    — Ora! Menina atrevida, que conversa é essa? — He Shiqin arregalou os olhos, com uma expressão irritada.

    Era a primeira vez que a filha ousava soltar uma insinuação daquelas.

    — Hoje você até se maquiou! E colocou salto alto! Quem é que fica maquiada e de salto alto em casa para pilotar fogão? Foi só porque o professor vinha que você…

    — Menina atrevida! Continua, vai, continua abusando… — He Shiqin apanhou uma almofada e fez menção de bater na filha, com o rosto vermelho de raiva.

    — Errei, mãe, parei, parei… — desculpou-se He Xinxin no mesmo instante, mas continuando a rir baixinho.

    ——

    Às sete e quarenta e cinco da noite, sob o manto escuro do céu, as luzes da cidade de Donghai reluziam em puro esplendor.

    Restaurante Laopinxuan, especializado em culinária cantonesa. Sala privativa no segundo andar.

    Envergando um qipao com estampa de porcelana azul e branca, Wu Yurong encontrava-se sozinha. Com uma das mãos pousada sobre a xícara de chá, absorvendo a quentura da porcelana, mantinha o olhar distante, perdida em devaneios.

    Chegara ao Laopinxuan com meia hora de antecedência. Não tinha compromissos pendentes; como já havia alinhado tudo com Wu Chen, cancelara a agenda prévia, de modo que esperar ali ou em qualquer outro lugar dava no mesmo.

    Ficou ali a sós, divagando.

    Era raro vê-la naquele estado; sua rotina resumia-se a uma correria incessante. O dilema daquele dia, contudo, a deixara numa situação difícil e muito preocupada. Não temia que algo grave acontecesse; confiava na capacidade de Wu Chen para resolver tudo.

    O que a atormentava era o destino de sua relação com Su Ruiwen.

    Diferente de tantos figurões poderosos que a cercavam com segundas intenções, Su Ruiwen era genuíno. O Grupo Jinfu e o Grupo Senlan sequer dividiam interesses comerciais diretos… Wu Yurong realmente o considerava um amigo.

    As pessoas que Wu Yurong considerava amigas eram tão poucas que dava para contá-las nos dedos. Su Ruiwen era uma delas.

    Um amante, naturalmente, pesava mais na balança do que um amigo.

    E, para Wu Yurong, Wu Chen representava muito mais do que o rótulo mundano de “amante” conseguia abarcar. Ele fora seu primeiro homem no sentido pleno da palavra, e também o único.

    Aquela tirada que soltara tempos atrás não fora mera brincadeira: tivesse vinte anos a menos, ela realmente disputaria Wu Chen com Li Ruobing para se casar com ele.

    Wu Chen ocupava o primeiro lugar absoluto.

    Aliás, diante daquela equação, sequer existia um segundo lugar a ser considerado. Não havia o que pesar na balança: ela faria o que Wu Chen dissesse.

    Ainda assim… Wu Yurong torcia pelo melhor desfecho. Salvo por estrita necessidade, jamais desejaria cortar laços com um amigo de longa data.

    E ignorava por completo que rumo aquela história tomaria sob os arranjos de Wu Chen.

    — Chefe Su… — ouviu-se de repente a voz de um segurança do lado de fora.

    Em seguida, a porta foi empurrada, e Su Ruiwen entrou, de terno e gravata.

    Ele também chegara adiantado.

    Pelos hábitos consolidados e pela estatura social que ostentava, Su Ruiwen era um homem extremamente pontual: não se permitia atrasos, mas tampouco antecipava horários para bajular quem quer que fosse ou tentar causar boa impressão.

    Chegar antes da hora… Wu Yurong percebeu a urgência que o consumia. Ele queria muito esclarecer algumas coisas.

    — Irmão Su. — Wu Yurong levantou-se, saudando-o com um aceno cortês.

    Não trocaram aperto de mãos. Não que dispensassem tal etiqueta, mas costumavam fazê-lo apenas após longos períodos de afastamento. E haviam acabado de se cruzar naquele mesmo dia, no casamento de Lu Guangnian.

    — Yurong, sente-se… sente-se… — interveio Su Ruiwen num tom caloroso, sinalizando que dispensasse cerimônias.

    Wu Yurong voltou a acomodar-se.

    Su Ruiwen puxou a cadeira oposta e sentou-se bem diante dela.

    — Irmão Su, sua esposa não perguntou por que você saiu a esta hora? — puxou ela, adotando um tom despretensioso para soltar uma pergunta aparentemente banal, mas carregada de estranheza sutil nas entrelinhas.

    Na boca de cidadãos comuns, tal indagação soaria naturalíssima.

    Mas Su Ruiwen era um empresário importante e ocupado, que frequentemente jantava fora. Além do mais, mantinha uma cumplicidade profunda com a esposa; a senhora Su não ficava vigiando os passos do marido.

    — Yurong, não precisa tentar arrancar nada de mim. Sobre você, a Qingying e o Wu Chen, minha esposa ainda não sabe de meia palavra. Não abri o jogo com ela e nem conversei com Qingying… — cortou Su Ruiwen, sustentando o olhar sobre Wu Yurong.

    Ao mesmo tempo, empurrou com a ponta dos dedos o prato giratório de vidro da mesa, trazendo a bandeja com o bule e as xícaras para o seu alcance. Pegou o bule e serviu-se de chá.

    — Yurong, há quantos anos nos conhecemos? — perguntou ele.

    — Há mais de trinta anos — respondeu ela.

    — Mais de trinta anos… — ecoou Su Ruiwen, num suspiro tingido de nostalgia. — Ainda me lembro da primeira vez que nos vimos… Eu tinha dezenove anos, tinha acabado de abrir uma lojinha. Naquela época, o senhor Wu inaugurou uma nova fábrica e fechou um andar inteiro do antigo Hotel Fuhua para oferecer um banquete. Eu só consegui pisar lá porque fui com um amigo que tinha contatos; a intenção era apenas ampliar minha rede de relacionamentos…

    — Você acompanhava o senhor Wu naquele dia… devia estar no ensino fundamental, não estava? — emendou ele.

    O “senhor Wu” a quem se referia era Wu Weidong, pai de Wu Yurong e nominalmente o presidente do conselho do Grupo Senlan.

    Mas o cargo era apenas nominal.

    Havia muitos anos que Wu Weidong não cuidava dos negócios do Grupo Senlan. Wu Yurong era dona de tão competente que, quando o grupo enfrentara uma crise no passado, fora ela quem conseguira reverter a situação e salvar a empresa. Daquele ponto em diante, Wu Weidong passara a seguir as decisões da filha.

    Comparado a Su Ruiwen, Wu Weidong fazia parte da primeira leva de pessoas que enriqueceram em Donghai. Prosperara ainda no início dos anos 1980, ao passo que Su Ruiwen só começara a prosperar nos anos 1990.

    Como um talento excepcional para os negócios, ousado e disposto a lutar, Su Ruiwen já tratava Wu Weidong de igual para igual logo no início do novo século. Mas a diferença de gerações pesava: o velho Wu beirava agora os setenta anos de idade, e todos o tratavam com o respeitoso título de senhor Wu.

    — Isso mesmo, eu estava na escola primária. Na época da inauguração… acho que cursava a quarta série. O Irmão Su tem uma memória invejável, lembrar-se até disso… — respondeu Wu Yurong, abrindo um sorriso delicado.

    Na verdade, ela mal guardava na memória a ocasião em que cruzara com Su Ruiwen pela primeira vez.

    Quando menina, colada ao pai, vira desfilar diante de si uma multidão incontável de rostos; muitos dos desconhecidos daquela época se tornaram figuras famosas em Donghai.

    Já a memória de Su Ruiwen mantinha o episódio cristalizado… não por causa de Wu Yurong, mas por causa de Wu Weidong. Naquela época, o jovem Su batera à porta do banquete quase de penetra, na comitiva de um conhecido, apenas para circular entre a elite e atrair compradores para as peças de jade de sua loja ou clientes interessados em apostar na qualidade de pedras brutas.

    Wu Weidong sequer registrara quem ele era.

    A imagem de Su Ruiwen só se fixara de verdade na mente de Wu Yurong anos depois, depois das várias viagens do empresário a Mianmar. Ele se envolvera em acontecimentos importantes por lá; alguns dos homens que o acompanhavam chegaram a morrer em Mianmar, e histórias extraordinárias sobre aquele “jovem” começaram a se espalhar por Donghai…

    Naquele período, muitos ricos locais comentavam a fortuna que Su Ruiwen acumulara em poucos anos. Corriam até boatos sombrios de que ele carregava mortes nas costas, de que matara pessoas em Mianmar enquanto negociava jade. Eram histórias que Wu Yurong ouvia os adultos cochicharem na infância…

    A amizade íntima entre ambos, contudo, só florescera nos últimos dez e tantos anos.

    Mais precisamente após o divórcio de Wu Yurong, quando ela voltou para casa e entrou no Grupo Senlan.

    — Tantos anos já se foram… Eu já estou velho, e você continua tão jovem, Yurong — lamentou Su Ruiwen, soltando outro suspiro.

    — Que história de velhice é essa, Irmão Su? Você mal cruzou a barreira dos cinquenta, não é? — Wu Yurong sorriu. — Com essa fibra que você ostenta, se disser por aí que tem quarenta, quase todo mundo compra.

    — Não precisa me dourar a pílula, Yurong. O estado da minha saúde não é segredo para ninguém. Mais um ou dois anos de fôlego e… deve ser o ponto final…

    — Irmão Su, pare de cultivar pensamentos agourentos, o amanhã é uma incógnita. Você já pensou em procurar tratamento no exterior? Vai que…

    — Buscar o quê? Não é como se eu já não tivesse tentado… É o destino traçado, já fiz as pazes com isso. Passei mais de meia vida desfrutando de uma sorte que a maioria esmagadora jamais sonhou ter. Se chegou minha hora, tenho que aceitar. O único espinho que trago cravado no peito… é que a Qingying está na empresa há poucos anos. Não vou ter tempo de ensinar muito mais a ela. É isso que não consigo deixar para trás…

    A sala privativa afundou num silêncio momentâneo.

    Su Ruiwen mencionara sua filha, Su Qingying.

    Wu Yurong compreendeu de pronto o cerne do recado. Escolheu mentalmente as palavras, refletiu, mas hesitou em quebrar o silêncio.

    — Yurong, nós temos décadas de cumplicidade nas costas. — Su Ruiwen olhou nos olhos dela. — Seja transparente com este velho amigo. O Wu Chen… afinal de contas, qual é a dele?

    — Qual é a dele em que sentido? — rebateu ela.

    Não estava se esquivando com dissimulação. Queria saber exatamente sobre qual aspecto Su Ruiwen estava perguntando.

    Wu Chen era um homem extraordinário em todos os sentidos!

    Su Ruiwen, contudo, julgou que ela tentava despistá-lo, e não sem fundamento: percebera certo receio que a mulher exibia.

    — Não vou nem tocar no caso dele com a Qingying; vamos nos ater a você… — Su Ruiwen fez uma pausa calculada antes de disparar: — Yurong, como foi que você se envolveu com ele… a ponto de aceitar ser amante dele?

    Foi desconcertantemente direto.

    — Ele… — começou Wu Yurong, deixando brotar um sorriso aveludado nos lábios, antes de soltar numa graça descontraída: — É bonito.

    — Assim não dá, Yurong. — Su Ruiwen encarou-a com firmeza. — Todo mundo nesta praça sabe o nível da sua exigência. Quantos anos se passaram desde o seu divórcio, e quantos homens a perseguiram? Homens com patrimônios superiores ao do clã Wu, dispostos a se divorciar para casar com você, prontos a assinar o acordo pré-nupcial que você bem entendesse. Você nunca deu trela a nenhum deles. E agora aceita viver como amante clandestina de Wu Chen, sem sequer ter o título de esposa? Só porque ele é bonito?

    — Por amor — devolveu ela, alterando a justificativa.

    Su Ruiwen permaneceu com os olhos fixos nela, sem soltar uma única palavra. Apenas observando.

    Wu Yurong sustentou o olhar do magnata. Aos poucos, o sorriso esvaneceu de suas feições. De repente, ergueu a xícara de cerâmica, sorveu um trago do chá e pousou a louça antes de pronunciar-se:

    — Irmão Su, para ser muito sincera, não tenho muita certeza do que posso contar a você e do que não posso. Por isso… fica difícil falar…

    O fato de Wu Yurong expressar tão diretamente o que pensava atestava que ela realmente nutria consideração genuína por Su Ruiwen.

    Su Ruiwen pesou o teor daquelas sílabas no íntimo.

    Ela não gozava de autonomia para tratar da figura de Wu Chen? Precisava da permissão dele para abrir a boca?

    — Irmão Su, como amiga, quero lhe dar um conselho. Talvez você não goste de ouvir, mas acho que preciso dizer — emendou Wu Yurong.

    — Que conselho? — perguntou Su Ruiwen.

    — Não aja no calor da emoção. Tudo pode ser conversado. Não faça nada precipitado — disse ela com seriedade.

    — …Você está me dizendo com todas as letras para não comprar briga com Wu Chen, não é isso? — indagou ele.

    — …É! — admitiu Wu Yurong, assentindo sem vacilar. Fez uma pausa e continuou: — Irmão Su, eu torço do fundo do coração para que a nossa camaradagem atravesse os anos. Mas se, por ventura… acontecer alguma coisa que saia completamente do controle, não posso lhe assegurar que ficarei ao seu lado…

    Su Ruiwen conhecia a alma daquela mulher. Sabia que Wu Yurong sabia usar as palavras para deixar os outros à vontade, mas agora dizia coisas desagradáveis de ouvir.

    Aquilo significava uma única coisa: ela falava com a mais absoluta e irrecorrível seriedade!

    Su Ruiwen também sentiu a preocupação real que a amiga nutria pelos laços que os uniam. Ela não desejava ver aquela amizade histórica ser reduzida a cinzas por uma fagulha mal calculada.

    Tornava-se impensável conceber o que Wu Chen fizera para que Wu Yurong se comportasse assim.

    — Você parece… ter medo do Wu Chen? — disparou Su Ruiwen.

    — …Um pouco — confessou ela, concordando com a cabeça antes de esboçar um meio sorriso refinado. — Mas, acima de tudo, o que carrego no peito é gratidão.

    Su Ruiwen, evidentemente, era incapaz de atinar a que tipo de gratidão Wu Yurong se referia.

    Quanto ao temor… horas antes, Li Ruobing admitira com a mesma naturalidade desarmante que, por vezes, sentia medo de Wu Chen.

    Li Ruobing se portava assim.

    Wu Yurong agora reproduzia a mesma postura.

    Um fato mostrava-se indiscutível: nenhuma das duas parecia ter medo por estar sendo ameaçada por Wu Chen. Muito embora ostentassem estilos de vida e táticas opostas, ambas carregavam uma couraça de aço no íntimo; não pertenciam à linhagem de mulheres que se deixavam subjugar pelo medo vulgar.

    Restava, portanto, uma única conclusão lógica.

    A figura de Wu Chen — suas capacidades, seus métodos e tudo o que era — personificava uma força aterrorizante!

    — Senhor Wu… — ouviu-se de repente a saudação de um segurança no corredor.

    Wu Chen acabara de chegar!

    Nota