Novels chinesas em português
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    Capítulo 508 — Fotos para enviar a Ding Ruilong?

    Na sala de estar do piso térreo da villa, He Shiqin estava acomodada no sofá, segurando um pequeno espelho de mão enquanto retocava o batom nos lábios. O passar dos anos praticamente não deixara marcas em suas feições; afinal, mal cruzara a casa dos trinta anos, e mulheres que mantinham cuidados estéticos rigorosos dificilmente exibiam rugas nessa fase da vida.

    O aviso de que Wu Chen viria fora tão intempestivo que He Shiqin precisara se arrumar às pressas; só tivera tempo de compor uma maquiagem leve, o que atenuava sua maturidade e lhe conferia um ar ainda mais jovial.

    Dona de uma beleza natural exuberante, ninguém diria que era mãe de uma adolescente de catorze anos; passava com facilidade por sua irmã mais velha.

    — O professor avisa que vem e você corre para se maquiar, o professor avisa que vem e você corre para se maquiar… — zombava He Xinxin, zanzando ao redor da mesa de centro, lançando olhares de soslaio para a mãe enquanto resmungava entredentes.

    Mas não ousava falar muito alto.

    Anteriormente, a garota já fizera várias perguntas atrevidas à mãe sobre assuntos diversos; após levar uma bronca de He Shiqin, não tivera mais coragem de tocar abertamente na ferida.

    Tac, tac.

    De repente, o eco característico de passos calçados em sapatos de couro quebrou a quietude, subindo pela escadaria que vinha do subsolo.

    — O professor chegou! — He Xinxin levou o indicador à boca num gesto de silêncio e cochichou às pressas para a mãe.

    Clac!

    He Shiqin fechou o espelhinho com um estalo seco e pousou-o sobre a mesa de centro. Em seguida, recolheu o batom com movimentos mecânicos e guardou-o na bolsa repousada ao lado.

    Wu Chen subiu os degraus do subsolo. Mal despontou na abertura da sala, He Shiqin colocou-se de pé, ajeitando uma mecha rebelde de cabelo com os dedos.

    — Professor, professor! Por que veio assim do nada? Estava com saudades de mim, é? — He Xinxin correu saltitante até ele, com as mãos cruzadas às costas e balançando os ombros num dengo provocador.

    — Estava, sim. Morrendo de saudades — devolveu Wu Chen, detendo o passo por um segundo e sorrindo para a menina.

    — Pfft… Mentiroso! — desdenhou He Xinxin, fazendo um biquinho antes de soltar um riso travesso; deu uma volta dançante ao redor do rapaz, mirando de soslaio a mãe postada junto ao sofá.

    — Senhor Wu — cumprimentou He Shiqin, apertando levemente os lábios.

    He Xinxin exibia trajes caseiros despretensiosos, ainda de pijama; He Shiqin, por outro lado, envergava um vestido longo. Fora evidente que correra para trocar de roupa.

    — Surgiu um imprevisto… — anunciou Wu Chen, caminhando em direção à área dos estofados.

    O semblante de He Shiqin empalideceu ligeiramente. Ciente do propósito real que levara Wu Chen a transportá-la até Donghai, a menção a um “imprevisto” fez seu coração saltar no peito com violência.

    He Xinxin, contudo, não pescou a gravidade do momento e indagou:

    — O que houve, professor?

    — Vocês vão precisar se mudar. — Wu Chen abriu um sorriso, alternando o olhar entre He Xinxin e He Shiqin. Acomodou-se na poltrona diante do sofá e emendou: — Esta villa vai ser vendida. Por isso… vocês vão ter um pequeno trabalho pela frente.

    — Na verdade, a Ruobing já havia colocado esta propriedade à venda fazia tempo, mas a pedida era alta demais e nunca aparecia interessado. Quem diria que surgiria um comprador fechando o negócio de supetão…

    Wu Chen inventava a história na hora.

    Não era uma justificativa imune a suspeitas, mas ele tampouco pretendia tapear He Shiqin; bastava encontrar um álibi conveniente para engabelar He Xinxin.

    — Ah… E para onde nós vamos nos mudar? — perguntou a menina, aceitando a narrativa sem questionar.

    — Você vai descobrir assim que chegarmos lá. — Wu Chen sustentou o sorriso, fazendo suspense de propósito para aguçar a curiosidade da garota. Em seguida, conferiu as horas no pulso e ergueu os olhos na direção dela: — Nós faremos a mudança daqui a duas horas.

    — Quê? Tão depressa assim? — He Xinxin entrou em pânico imediato.

    — Pois é! O comprador bateu os olhos no vídeo de divulgação produzido pela imobiliária e fechou o contrato no ato; a escritura definitiva será lavrada amanhã, de modo que vocês precisam desocupar o imóvel hoje mesmo — justificou ele.

    — Nossa, quanta pressa… — resmungou He Xinxin.

    — Xinxin, suba e vá organizando o seu ateliê primeiro… Daqui a pouco eu subo para ajudar a encaixotar a bagagem… — interveio He Shiqin com presteza, gesticulando para a filha.

    — Tá bem… — anuiu a garota, virando-se para correr em direção ao piso superior, sem deixar de resmungar pelo caminho: — Professor malvado, avisar uma coisa dessas em cima da hora…

    He Xinxin ganhou a escadaria.

    A bem da verdade, mãe e filha acumulavam pouquíssimos pertences; haviam se instalado na propriedade havia meros quinze dias. Para além de roupas, calçados e utensílios pessoais de uso cotidiano, o único volume expressivo resumia-se aos materiais e instrumentos de pintura adquiridos por He Xinxin após a transferência para Donghai.

    Duas horas seriam mais do que suficientes.

    He Shiqin apurou os ouvidos até ter a confirmação de que os passos da filha haviam cruzado a porta do ateliê no segundo piso; só então voltou o rosto para Wu Chen e inquiriu em tom abafado:

    — Senhor Wu, o que aconteceu de verdade?

    Ela sabia que Wu Chen inventara aquela balela para enganar a filha.

    Uma transferência intempestiva jamais seria motivada pela venda relâmpago do imóvel.

    Se despachara a menina para o ateliê, fora unicamente para tirá-la de cena e garantir um momento a sós com o rapaz.

    He Shiqin fitava-o com uma ponta indisfarçável de aflição no olhar.

    — Não é nada demais, não precisa ficar tensa. — Wu Chen abriu um sorriso sereno e fez um gesto indicando o sofá.

    He Shiqin acomodou-se na extremidade do estofado longo, bem rente à poltrona ocupada por ele.

    — Ding Ruilong descobriu que você deixou Modu — revelou Wu Chen, sustentando o olhar da mulher. — É quase certo que ainda hoje ele confirme que você está abrigada em Donghai.

    — Como? — He Shiqin estacou, surpresa, as feições assumindo um matiz complexo.

    Aquilo… no fundo, não constituía nenhum pesadelo imprevisto.

    Ela sempre soube que esse momento chegaria; na verdade, chegara a ansiar para que Ding Ruilong descobrisse a verdade o quanto antes, sedenta por vingança contra o canalha que destruíra sua vida!

    Queria fazê-lo usar bem o chapéu de corno!

    — Mas então… por que precisamos nos mudar? — indagou ela, incapaz de decifrar o propósito daquela etapa da manobra.

    — Não é conveniente que Ding Ruilong descubra que esta propriedade pertence à Ruobing — esclareceu Wu Chen, sem se aprofundar nas engrenagens macroestratégicas.

    A intenção de Wu Chen sempre fora viabilizar que Ding Ruilong descobrisse o endereço residencial de He Shiqin em Donghai. Contudo, se as apurações dos capangas do homem revelassem que a titular da escritura era Li Ruobing, a mente dele deduziria tramas infinitamente mais densas do que um mero caso de infidelidade conjugal.

    Portanto, para manter o foco restrito à humilhação pessoal que pretendia infligir naquele momento, Wu Chen precisava transferir He Shiqin e He Xinxin de endereço.

    Não representava qualquer incômodo prático.

    He Shiqin não alcançava a totalidade dos cálculos formulados na mente de Wu Chen, mas absteve-se de fazer novas perguntas.

    — E para onde iremos nos mudar?… — sondou ela, fitando o rapaz nos olhos.

    — Fica a seu critério: um hotel, outro condomínio de villas, um apartamento em um prédio alto… Onde você prefere morar? — indagou Wu Chen, abrindo um meio sorriso.

    — Eu… prefiro deixar que o senhor Wu decida — respondeu ela, após uma fração de segundo de hesitação, devolvendo o poder de decisão às mãos dele.

    — Fiquemos com outra villa, então — bateu o martelo Wu Chen, puxando o celular do bolso simultaneamente. — Vou fazer uma ligação.

    He Shiqin observou Wu Chen manusear o teclado do aparelho e colá-lo ao ouvido.

    A linha foi atendida sem demora.

    Dada a proximidade física entre os dois e o silêncio que imperava na sala térrea, He Shiqin conseguiu pescar os ecos abafados de uma voz masculina que vinha do fone, tratando Wu Chen com a deferência íntima de “cunhado”.

    — A-Tai, a sua villa no Shijie Zhongcheng está ocupada? — indagou Wu Chen.

    — Ah… Até sobre essa propriedade o senhor cunhado tem conhecimento?… Não esperava menos de você! — A voz de Li Ruotai soou ligeiramente assombrada pelo fone antes de desfiar uma lisonja bajuladora: — Está desocupada. Vai precisar usá-la? A chave está no clube; prefere que eu mande um portador entregar na sua residência?

    — Não mande para a minha casa. Daqui a uma hora, mande entregar a chave até a rua comercial do distrito de Zhongcheng e aguarde no acostamento… — instruiu Wu Chen.

    A conferência com Li Ruotai consumiu poucas frases e a linha foi encerrada.

    O imóvel estava resolvido!

    Na realidade, Wu Chen tampouco desejava que Ding Ruilong descobrisse que He Shiqin ocupava uma residência ligada a Li Ruotai; contudo, aquela villa situada no condomínio de villas Shijie Zhongcheng, no distrito de Zhongcheng, guardava peculiaridades singulares.

    Era a base utilizada por Li Ruotai para orquestrar suas jogadas escusas.

    Ao longo dos anos em que operara em Donghai, muitos de seus negócios inconfessáveis fora conduzida entre aquelas quatro paredes.

    Por imperativos estritos de sigilo e blindagem de segurança, o imóvel jamais fora registrado em nome de Li Ruotai.

    Raríssimas almas sabiam que a casa pertencia a ele; além do próprio Li Ruotai, apenas um punhado de assessores de sua estrita intimidade tinha ciência do fato.

    Nem mesmo Li Ruobing sabia que aquela propriedade pertencia a ele.

    Não que o rapaz ocultasse o segredo da irmã deliberadamente; tratava-se apenas de Li Ruobing não ter o menor estômago para chafurdar nos escândalos e nas baixarias promovidas pelo irmão. Eram tolices que só causavam desgaste desnecessário.

    — Vamos nos transferir para o Zhongcheng — avisou Wu Chen a He Shiqin.

    — Está bem — concordou ela com a cabeça, emendando no ato: — Então vou subir para… — Fez menção de se colocar de pé.

    — Sem pressa — conteve-a Wu Chen, e He Shiqin, que mal descolara o corpo do assento, acomodou-se de volta no sofá.

    — Nós faremos a mudança daqui a duas horas; em seguida, levarei você e a Xinxin para comer alguma coisa… Na ocasião, escalarei alguém para tirar fotos nossas às escondidas durante a refeição, inclusive… essas imagens acabarão aterrissando diretamente nas mãos de Ding Ruilong… — explicou ele, delineando a engrenagem da armadilha.

    As pupilas de He Shiqin cintilaram no mesmo segundo.

    Jamais imaginara que, no exato instante em que Ding Ruilong detectasse seu sumiço, Wu Chen partiria para desferir uma provocação tão direta!

    He Shiqin figurava como uma das pessoas que melhor compreendiam a índole extremista de Ding Ruilong; conseguia antecipar com clareza cristalina a fúria cega que tomaria o homem, quebrando tudo o que estivesse ao alcance das mãos, uivando de ódio, mergulhado histérico.

    A simples visualização daquele canalha perdendo a razão de cólera proporcionava-lhe um regozijo indescritível no fundo da alma.

    Havia, decerto, uma centelha de nervosismo.

    Pois sabia muito bem que Ding Ruilong cobraria vingança!

    No entanto, se Wu Chen tinha o peito de articular semelhante manobra, era óbvio que não temia a menor represália.

    Nos dez e tantos minutos seguintes, Wu Chen destrinchou com ela os detalhes do almoço planejado; He Shiqin mostrou-se extremamente solícita, sugerindo posturas e gestos que poderia adotar, denunciando que guardara algo guardado dentro de si .

    — A fraqueza congênita de Ding Ruilong repousa no seu descontrole: quanto mais enlouquecido fica, mais erros capitais comete… Sendo assim… além disso… Venha cá, vamos registrar algumas fotos agora; na hora oportuna, eu farei esses registros chegarem aos olhos dele… — arrematou Wu Chen, gesticulando para ela.

    Fotos para enviar a Ding Ruilong?

    He Shiqin captou a intenção no mesmo instante; ergueu-se num movimento fluido, deu um passo na direção de Wu Chen, girou o tronco e acomodou-se diretamente no colo dele, enlaçando o pescoço do jovem com os dois braços.

    Wu Chen sacou o celular e acionou a câmera frontal.

    Clique! Clique! Clique! Clique! Clique!

    Foram cinco capturas consecutivas. A cada disparo, He Shiqin alternava a intimidade da pose: colou a face à dele, beijou-lhe a bochecha, roçou os lábios no canto de sua boca.

    Concluídos os registros, Wu Chen recolheu o aparelho; He Shiqin, contudo, não se levantou. Permaneceu aninhada em seu colo, mantendo os braços firmemente entrelaçados ao redor do pescoço dele.

    — Não tem medo de que a Xinxin veja a cena? — provocou ele num murmúrio divertido.

    — Estou prestando atenção — soprou ela em tom cúmplice, lançando-lhe um olhar carregado de um magnetismo denso e insinuante.

    Trim, trim…

    De repente, a melodia estridente de uma chamada telefônica rasgou o ar da sala.

    Não vinha do aparelho de Wu Chen, mas do celular de He Shiqin!

    Wu Chen estendeu o braço e apanhou a bolsa da mulher sobre a mesa. He Shiqin retirou o aparelho do compartimento interno, correu os olhos pela tela e sua expressão mudou imediatamente.

    Identificação de chamada: Aquele maldito animal.

    Aquele contato salvo na memória… era Ding Ruilong!

    Nota