Novels chinesas em português
    Índice do Capítulo

    Capítulo 502 — Querido, tome um chá!

    Para além do portão de entrada, abria-se uma alameda ampla e reta. Era necessário percorrer quase cento e cinquenta metros e contornar uma imponente fonte ornamental cercada por canteiros floridos até alcançar a entrada principal da residência.

    A comboio, capitaneada pela Lamborghini, deteve-se aos pés da escadaria de acesso.

    Wu Chen soltou o cinto de segurança, empurrou a porta e saltou. Enquanto batia a porta do bólido, correu os olhos pelas redondezas.

    A Mansão Senlan ocupava uma área verdadeiramente descomunal, embora a maior parte do terreno fosse tomada por jardins paisagísticos e gramados impecáveis. Na verdade, a gleba original tinha natureza comercial: o lote fora adquirido sob a justificativa de erguer um resort de lazer, mas acabou transformado numa residência privada.

    A compreensão que Wu Weidong tinha do usufruto da riqueza era inegavelmente mais tradicional: em comparação a Su Ruiwen, que acumulava um patrimônio ainda mais nababesco, Wu Weidong sabia desfrutar a vida com muito mais gosto.

    Isso também guardava relação com a diferença de idade — ele era quase vinte anos mais velho que Su Ruiwen — e com o fato de estar aposentado havia muitos anos.

    Durante o milênio de repetição temporal, Wu Chen pisara na Mansão Senlan mais de uma vez. Sabia que, no cotidiano, os únicos patrões a residirem ali eram o casal Wu Weidong, amparados por uma equipe de seis guarda-costas e mais de vinte funcionários fixos, incluindo empregados domésticos e jardineiros.

    Em dias comuns, o casarão respirava uma calmaria quase deserta.

    Seguranças e serviçais não ficavam perambulando à toa; cada um limitava-se às suas atribuições. Contudo, na virada dos feriados e nas datas festivas, o retiro fervilhava em alvoroço: não eram apenas Wu Yurong e Song Xuan que apareciam para visitar o patriarca; os dois filhos homens de Wu Weidong, as noras, netos, netas, além dos irmãos do veterano e dos parentes do ramo de sua esposa, todos baixavam em comboio.

    Comparado ao clã de Su Ruiwen, o clã dos Wu era numeroso.

    A família Wu era uma família grande.

    Isso se devia também ao fato de Wu Weidong ter acumulado fortuna muito cedo, puxando irmãos, amigos e agregados para prosperar a reboque do seu sucesso.

    Enquanto Wu Chen inspecionava o entorno com olhar despretensioso, Wu Yurong desceu pelo lado do carona. Usava um qipao cor de vinho, diferente do modelo da véspera, e carregava a bolsa presa a uma das mãos. Ao contornar a frente do esportivo para se juntar ao rapaz, ajeitou instintivamente uma mecha de cabelo atrás da orelha antes de enlaçar o braço dele.

    Pela lógica das coisas, era Wu Chen quem deveria demonstrar apreensão diante do patriarca.

    Contudo, era visível que Wu Yurong estava infinitamente mais nervosa do que ele.

    — Você parece bem tensa, não acha? — comentou Wu Chen, virando o rosto e cochichando com um meio sorriso.

    — Não estou, não — murmurou ela, dirigindo-lhe um sorriso doce. Parecia ter recuperado a naturalidade.

    — Vamos — chamou Wu Chen.

    Conforme subiam os degraus de pedra, Wu Chen voltou a olhar em volta com ar casual, como se apenas admirasse o projeto arquitetônico; na prática, seus olhos mapeavam o posicionamento do pessoal na propriedade.

    Mais adiante, no meio do gramado, um jardineiro empurrava um cortador de grama.

    No flanco oposto, rente à alameda arborizada, avistava-se a silhueta de um segurança em ronda.

    Muito embora a Mansão Senlan fosse imensa, as linhas de visão eram limpas e desimpedidas, o que tornava desnecessário manter um contingente excessivo de vigias.

    Wu Chen e Wu Yurong entraram.

    O saguão térreo impressionava pela imponência. O acabamento seguia uma opulência clássica e austera, abarrotado de mobílias de madeira maciça, evocando a estética solene do final do século passado.

    — Senhorita mais velha. — Uma governanta de meia-idade cruzava o saguão às pressas; ao avistar Wu Yurong, baixou a cabeça numa reverência protocolar, mas seu comportamento traía um estranhamento evidente.

    Parecia querer erguer os olhos para conferir a cena, mas faltava-lhe a coragem para fazê-lo.

    Isso porque, ao se aproximar, já notara a figura de Wu Chen e registrara que Wu Yurong trazia a mão firmemente enlaçada ao braço do rapaz.

    — Onde está meu pai? — indagou Wu Yurong.

    — No jardim — informou a mulher.

    Pouco depois, Wu Chen e Wu Yurong atravessaram a nave principal da mansão e saíram pelos fundos, desembocando num jardim com um paisagismo ainda mais deslumbrante.

    Rochas ornamentais, árvores verdes, pequenas pontes e água corrente.

    Tudo respirava sofisticação, mas, diante da montanha de recursos de Wu Weidong, não passava de uma fração irrisória do seu patrimônio.

    Pelas trilhas de lajotas do jardim, dois guarda-costas faziam a ronda. Ao se depararem com o casal, apressaram-se em saudar Wu Yurong com deferência, tratando-a pelo título de “senhorita mais velha”.

    “Senhora Wu” era a alcunha cerimoniosa com que a sociedade externa se dirigia a ela; dentro daquelas muralhas, contudo, o tratamento natural era “senhorita”, uma vez que o senhor da casa ainda reinava sob aquele teto.

    Os dois seguranças também cravaram em Wu Chen um olhar de profundo estranhamento, que beirava o choque.

    Nenhum deles, todavia, ousou abrir a boca para inquirir qualquer detalhe.

    Dentro da hierarquia doméstica da linhagem Wu, a autoridade de Wu Yurong só se curvava diante do próprio patriarca; nem mesmo seu irmão mais velho desfrutava de cacife para desafiá-la.

    No recanto do jardim dos fundos, erguia-se um pavilhão tradicional.

    Ali, um ancião de cabelos prateados trajando camisa branca disputava uma partida de xadrez chinês contra um homem de cerca de cinquenta anos, envergando terno de corte sóbrio.

    O ancião de camisa branca era Wu Weidong. Beirava os setenta anos de idade, mas ostentava um vigor invejável; a farta cabeleira alva conferia-lhe uma aura distinta e respeitável… Seus cabelos haviam embranquecido por completo no intervalo de uma única noite vinte anos antes, quando mal cruzara os quarenta e tantos anos, em meio à tempestade institucional que quase levara o Grupo Senlan à liquidação judicial.

    O contendor sentado à sua frente chamava-se Xu Shisong. Era motorista particular de Wu Weidong e acompanhava o magnata havia cerca de trinta anos. No passado, atuara como seu guarda-costas de confiança irrestrita; hoje, ultrapassada a marca dos cinquenta anos, também atuava como administrador da Mansão Senlan.

    Wu Yurong dispensara sua escolta pessoal; estavam ali apenas ela e Wu Chen.

    Cruzaram a pequena ponte em arco e avançaram em direção ao pavilhão.

    Os dois jogadores estavam tão compenetrados nas peças que não notaram a aproximação dos recém-chegados. Não que o silêncio fosse absoluto, mas o trânsito de pessoas ali era corriqueiro: empregadas costumavam levar bandejas de frutas e, às vezes a senhora Wu aparecia para apressar o marido para as refeições.

    Wu Chen e Wu Yurong pisaram no assoalho do pavilhão.

    Wu Weidong mantinha uma peça de xadrez entre os dedos, girando-a distraidamente na palma da mão. Com o cenho franzido sobre o tabuleiro de madeira, exibia muita seriedade e concentração.

    Pela disposição das tropas na madeira, sua derrota era iminente.

    Poucas pessoas da família Wu ousavam vencer Wu Weidong no tabuleiro. Xu Shisong era uma delas.

    Wu Chen e Wu Yurong estancaram sem quebrar o silêncio. Instintivamente, a mulher deu uma olhada de lado para Wu Chen; ao vê-lo com aquele meio sorriso impassível no rosto, contemplando a partida sem transparecer o menor traço de inquietação, sentiu um alívio imediato acalmar seu coração.

    Xu Shisong ergueu os olhos, vislumbrou a dupla e abriu um sorriso espontâneo:

    — Ora, a senhorita voltou!

    — Irmão Xu, quantas partidas já faturou hoje? — brincou Wu Yurong, sorrindo.

    — Nenhuma… Já perdi umas quan… — Xu Shisong travou a língua, gaguejando.

    Não era timidez diante da herdeira: quando começara a servir Wu Weidong, Wu Yurong ainda usava uniforme escolar do primário.

    Conheciam-se de longa data!

    O baque viera ao registrar a figura de Wu Chen. Para ser rigoroso, o choque fora constatar que a mão de Wu Yurong repousava entrelaçada ao braço do jovem: o veterano ficou tão pasmo que as palavras entalaram em sua garganta.

    — Rongrong, por que resolveu aparecer sem avisar?… — resmungou Wu Weidong em tom casual, ainda com a peça nos dedos, sem desviar a atenção do jogo. Somente ao completar a frase levantou o rosto para olhar a filha; no mesmo segundo em que ergueu a vista, a voz sumiu de sua boca.

    Seus olhos registraram Wu Chen ao lado de Wu Yurong. E registraram os braços dos dois entrelaçados.

    Em comparação ao atordoamento de Xu Shisong, contudo, o patriarca recompôs-se com muito mais sobriedade. Ficou apenas momentaneamente surpreso antes de indagar, em tom vacilante:

    — Rongrong, quem é este rapaz?…

    — Wu Chen. Imagino que o senhor já tenha ouvido falar o nome dele, pai — apresentou Wu Yurong, esboçando um sorriso sereno.

    — Wu… Ah!… — As feições de Wu Weidong iluminaram-se num lampejo de compreensão imediata. Ponderou por um breve segundo e emendou: — O rapaz ligado à senhorita Li?

    — Ele mesmo — confirmou ela, assentindo.

    — Ora, mas é o senhor Wu! Hahaha! Claro que já ouvi falar, como não haveria de ouvir?! Seja bem-vindo, senhor Wu! — Wu Weidong soltou uma gargalhada expansiva, pôs-se de pé e adiantou-se para estender a mão ao jovem por iniciativa própria.

    Na Donghai dos tempos atuais, o nome de “Wu Chen” carregava muitos significados. Para os famílias empresariais da praça, as figuras centrais que orbitavam os grandes conglomerados e famílias poderosas mereciam reverência contínua.

    Embora Wu Weidong estivesse aposentado da gestão direta havia muito tempo, seus círculos sociais continuavam operantes: deixara de administrar negócios com as próprias mãos, mas comparecia com frequência a recepções da elite, cruzava copos com velhos aliados e acompanhava os grandes e pequenos acontecimentos da cidade.

    É evidente que o nome de Wu Chen já chegara aos seus ouvidos!

    — Meu senhor — cumprimentou Wu Chen, sorrindo ao retribuir o aperto de mãos com firmeza polida.

    — Hahaha! Fazia tempo que desejava travar conhecimento com o ilustre senhor Wu! — elogiou Wu Weidong, rindo à larga. Em seguida, pareceu pescar uma lembrança no ar: — Mas espere aí! Se a memória não me trai, o senhor Wu foi colega de classe da nossa Xuanxuan, não foi?

    Seus olhos saltaram de Wu Yurong para Wu Chen, buscando confirmação.

    — Sou de duas séries à frente de Song Xuan — esclareceu o rapaz, com um sorriso brando.

    — Ah, veja só! Rongrong, por que você não deu um telefonema antes para avisar? O senhor Wu nos dá a honra de uma visita inesperada e a casa não preparou nada para recebê-lo… Que tremenda falta de etiqueta… — repreendeu Wu Weidong em tom de brincadeira, embora suas palavras carregassem a deferência cerimoniosa típica da velha guarda.

    — Hum… — murmurou Wu Yurong, rindo com delicadeza, preferindo não prolongar o assunto.

    — A propósito, a senhorita Li não o acompanhou hoje? — tornou a indagar Wu Weidong, mantendo o riso cordial.

    — Não veio. Está assoberbada com as demandas corporativas — explicou Wu Chen.

    Trocadas as amenidades de praxe, Wu Weidong convidou Wu Chen a se acomodar. As cadeiras e bancos de apoio distribuídos sob o pavilhão eram esculpidos em madeira nobre de lei: preservar um mobiliário de alto padrão exposto às intempéries do tempo era custoso, mas cacife financeiro nunca fora problema para o patriarca.

    Muito embora tivesse flagrado a filha enlaçada ao braço do jovem minutos antes, uma vez feita a apresentação formal, o semblante de Wu Weidong desanuviara por completo, deixando de enxergar qualquer anomalia naquele gesto.

    Chegara até a citar Li Ruobing espontaneamente.

    Saltava aos olhos que o veterano interpretara de maneira equivocada o vínculo entre Wu Chen e Wu Yurong: Wu Chen era jovem demais e fora quase contemporâneo de sua neta Song Xuan nos bancos escolares; para todos os efeitos práticos, Wu Yurong pertencia à geração mais velha em relação ao rapaz.

    Sob essa ótica, o gesto carinhoso de segurar o braço assumia outro significado.

    Seriam próximos?

    Ou teriam uma boa relação com a senhorita Li?

    Num ecossistema onde o peso das conexões pessoais e a densidade da rede de contatos decidiam o destino dos impérios, qualquer um desses cenários era motivo de sobra para regozijo por parte de Wu Weidong.

    — Chega de jogo por hoje, chega. Xiao Xu, vá cuidar dos seus afazeres e mande prepararem um bule de chá para nós — instruiu Wu Weidong, gesticulando para Xu Shisong logo após recepcionar o visitante.

    O administrador Xu Shisong já se mantinha de pé; assentiu com a cabeça, deu meia-volta e afastou-se a passos rápidos pelo jardim.

    — Senhor Wu, acomode-se, por favor… Pois é, nestes últimos tempos, o que mais escuto pelas conversas é o nome de o senhor; vê-lo pessoalmente confirma que se trata, de fato, de um jovem de excelente aparência… — derramou-se Wu Weidong, esbanjando entusiasmo.

    Homens de negócios de sua estirpe costumavam adotar essa postura reverente diante de articuladores com trânsito livre junto às grandes famílias poderosas, sobretudo quando gozavam de prestígio público consolidado.

    Ele não fugia à regra; Su Ruiwen procedera de forma idêntica.

    Contudo, no quesito poder de fogo e estatura executiva, Wu Weidong ficava muito aquém de Su Ruiwen. Se conseguira preservar sua posição nababesca na segunda metade da existência, devia isso unicamente à genialidade da herdeira fora de série que criara: Wu Yurong!

    Além, é claro, de colher os louros do respeito reverencial que sua idade avançada lhe garantia na praça!

    — O senhor é muito gentil — retribuiu Wu Chen, acomodando-se ao lado do anfitrião e fitando-o com um sorriso comedido.

    O clima transcorria na mais perfeita harmonia.

    Wu Chen ouvia com serenidade o patriarca discorrer sobre assuntos aleatórios, quase sempre recheados de salamaleques e elogios formais. Wu Weidong tampouco exibia pressa para saber o motivo real daquela visita surpresa: preferia estreitar a intimidade da conversa antes de abrir qualquer pauta de negócios.

    Essa calmaria, contudo, teve vida curta.

    Assim que uma serviçal aproximou-se trazendo a bandeja com o serviço de chá, Wu Yurong dispensou a funcionária com um aceno sutil de mão. Em seguida, ergueu-se para assumir pessoalmente a tarefa de servir a infusão; Wu Weidong julgou a atitude ligeiramente atípica, mas ainda dentro dos limites aceitáveis da etiqueta.

    Afinal, de um lado da mesa estava o pai dela e, do outro, um convidado.

    — Pai, tome um chá — disse Wu Yurong, entregando a primeira xícara fumegante nas mãos de Wu Weidong.

    — Querido, tome um chá — emendou ela no segundo seguinte, pousando a outra xícara diante de Wu Chen.

    A mão de Wu Weidong, que mal se estendera para receber a porcelana, estremeceu no ato. E a frase que começava a articular na direção de Wu Chen morreu engasgada pela metade na sua garganta.

    Nota