Capítulo 481 — O homem e a mulher no pavilhão
por NexoNovelCapítulo 481 — O homem e a mulher no pavilhão
— Não conversamos nada demais — respondeu Wu Yurong, com um sorriso doce. Girou de leve o pulso, fazendo o champanhe dançar na taça, e continuou com uma voz suave, em tom de quem solta um comentário despretensioso: — É que… num banquete anterior, alguns velhos amigos próximos e eu jogávamos conversa fora e acabamos mencionando o senhor Wu.
Enquanto falava, Wu Yurong lançou um olhar de soslaio para Wu Chen, com os olhos transbordando ternura.
— Aí eu brinquei dizendo que, se fosse vinte anos mais jovem, quem sabe não gostaria de me casar com o senhor Wu? — Ela voltou a mirar Li Ruobing, sem perder o sorriso açucarado. — Todo mundo ali sabia que era piada, mas, por algum motivo, Su Ruiwen veio puxar esse assunto comigo hoje outra vez, de livre e espontânea vontade, e ainda perguntou se eu conhecia o senhor Wu muito bem.
Li Ruobing encarava Wu Yurong com uma expressão gélida.
Parecia a um triz de atirar o champanhe na cara dela!
Fosse uma provocação de Wu Yurong a sós, talvez já tivesse feito exatamente isso. Mas a questão não envolvia apenas as duas. Wu Chen era o ponto principal; se a situação saísse do controle, seria ele quem ficaria numa posição difícil!
Li Ruobing se conteve.
— No fundo, não falei nada de mais: Su Ruiwen perguntou casualmente e eu respondi casualmente — emendou Wu Yurong, com a mesma mansidão aveludada. Então, mudou de rumo, sorrindo: — Mas tive a nítida impressão de que ele não estava perguntando à toa.
Seus belos olhos deslizaram mais uma vez na direção de Wu Chen.
— Senhor Wu, descobriram você, não foi? — soltou num risinho baixo.
A frase parecia brotar do nada, mas os três presentes captaram o sentido de imediato.
Na verdade, Wu Yurong se aproximara para alertar Wu Chen.
Só que, ao escolher aquele tom e aquela postura, suas palavras soavam como um ataque direto a Li Ruobing, que se sentia afrontada em cheio!
— É um detalhe menor — respondeu Wu Chen com um meio sorriso tranquilo. Mantinha uma das mãos enfiada no bolso do paletó e sustentava a taça de champanhe com a outra.
— Que bom que não é nada grave — devolveu Wu Yurong, em tom doce e comedido.
Ela voltou a fixar os olhos em Li Ruobing, examinou-a da cabeça aos pés e sorriu mais uma vez:
— A senhorita Li está tão deslumbrante hoje! Forma um par perfeito com o senhor Wu.
Eram palavras gentis, uma cortesia protocolar sob medida para a ocasião.
Mas, saindo dos lábios de Wu Yurong, Li Ruobing sentia maldade naquelas palavras.
— Ah, também vi a senhorita Su há pouco. Uau, ela também está maravilhosa hoje! — arrematou Wu Yurong, abrindo um sorriso de mel.
Dessa vez, a alfinetada ficou escancarada.
Wu Chen também percebeu. Naquele dia, Wu Yurong parecia realmente empenhada em tirar Li Ruobing do sério. Não que estivesse tentando disputar alguma coisa; Wu Chen conhecia sua personalidade a fundo para descartar essa hipótese. Pelo que podia entrever… provavelmente fora a frieza cortante de Li Ruobing na chegada que a provocara.
E Wu Yurong nunca tivera medo de Li Ruobing!
— Wu Yurong. — Li Ruobing pronunciou o nome da mulher e calou-se por um instante. De repente, abriu um sorriso amargo, de pura exasperação. Cravou os olhos fixos nela, sorveu um gole comedido de champanhe e só então disparou, em tom cortante como lâmina: — Você está caçando confusão de propósito hoje, não está? Não sabe que, quando a gente aceita o papel de amante, precisa saber qual é o seu lugar?
O semblante de Wu Yurong oscilou ligeiramente.
Se Li Ruobing soltasse aquela ofensa entre quatro paredes, talvez ela nem se abalasse; perder a compostura seria cair na armadilha. Mas estavam em pleno evento social. Embora não houvesse ouvidos colados a eles, alguém ao longe poderia muito bem flagrar a tensão!
— Que história de amante é essa, senhorita Li? Você e o senhor Wu ainda nem subiram ao altar, ou já? — rebateu Wu Yurong, recuperando a serenidade com um sorriso impecável.
— Já chega, vocês duas — interveio Wu Chen, sem perder o sorriso.
Não podia permitir que as duas começassem a discutir naquele dia. Se o bate-boca continuasse, era bem capaz de deflagrarem uma guerra aberta no dia seguinte! Na selva dos negócios de Donghai, Li Ruobing não conseguiria engolir Wu Yurong; contudo, no que tangia à segurança pessoal de Wu Yurong… o desfecho tornava-se imprevisível!
Se as duas realmente entrassem em conflito, sem Wu Chen, provavelmente ambas sairiam muito prejudicadas!
E Wu Chen jamais deixaria as coisas chegarem a esse ponto.
Diante da intervenção de Wu Chen, tanto Li Ruobing quanto Wu Yurong estancaram e voltaram os olhos para ele. Ao verem o rapaz erguer a taça num convite silencioso, ambas imitaram o gesto, uma de cada lado, tilintando o cristal no dele ao mesmo tempo.
Beberam.
Como se nada tivesse acontecido!
— Ruobing. — Wu Chen inclinou a cabeça e sussurrou ao ouvido de Li Ruobing, que estava mais perto dele: — Vá procurar a Qingying e diga a ela… Depois…
Li Ruobing inclinou a cabeça para captar as instruções. Ouvira apenas algumas frases quando girou o pescoço num sobressalto, encarando Wu Chen com um sorriso estranho e intrigado:
— O que você está armando afinal?
Enquanto murmurava a dúvida, lançou um olhar involuntário na direção de Wu Yurong.
— Você vai descobrir — respondeu Wu Chen, sorrindo. Em seguida, voltou a cochichar: — Depois disso… é provável que Su Ruiwen procure você…
— Vai aprontar uma jogada desse tamanho de novo? — cobrou Li Ruobing, olhando-o de esguelha.
Mas havia um sorriso despontando em seus lábios!
Da última vez que Wu Chen armara para cima de Su Ruiwen, Li Ruobing ficara furiosa de verdade. Não pelo golpe em si, mas porque ele não a avisara com antecedência; ao receber a ligação de Su Ruiwen, bastaram algumas palavras para que entrasse em pânico por dentro.
Por sorte, reagira rapidamente, compreendera as intenções dele e conseguira acompanhá-lo!
Desta vez, porém, Wu Chen lhe dissera antecipadamente o que deveria fazer.
— Pode ir — incentivou ele, com um sorriso límpido.
Li Ruobing plantou um beijo rápido no canto da boca de Wu Chen — seu batom à prova d’água sequer deixou vestígios. Em seguida, fuzilou Wu Yurong com mais um olhar enviesado e afastou-se com a taça na mão, .
— Senhor Wu, estou com ciúmes, sabia? — soltou Wu Yurong num tom dengoso e aveludado assim que Li Ruobing se afastou.
Dita por ela, aquela frase carregava um magnetismo devastador!
Wu Yurong era dona de uma inteligência formidável e decifrava as engrenagens da mente masculina como ninguém.
Ao afirmar que sentia ciúmes, podia nem estar sofrendo de fato; queria apenas fazer Wu Chen perceber o quanto se importava com ele.
— Ciúmes de quê? — virou-se Wu Chen, devolvendo a pergunta com um riso brando.
— Você pode ser tão íntimo da senhorita Li em público — disse ela.
Seu olhar, contudo, passava a léguas de qualquer rancor; transbordava pura ternura.
— Você também pode — brincou Wu Chen. — Se não tiver medo do falatório, sinta-se à vontade.
— O senhor Wu sabe perfeitamente que eu não posso me dar a esse luxo — respondeu ela com doçura.
Sob certa ótica, Wu Yurong personificava a companheira ideal aos olhos da maioria dos homens: compreendia seus anseios e dominava os limites do jogo. E residia exatamente aí o perigo que emanava de sua figura: quase nenhum homem conseguia colocá-la sob rédea curta; pelo contrário, acabava sendo manipulado por ela, passo a passo, sem nem perceber.
Obviamente, ela jamais ousaria tentar domar Wu Chen!
Sabia que ele desvendara cada camada de sua existência: seu temperamento, seus artifícios e suas intenções mais secretas. Por isso… limitava-se a fazer charme à sua própria maneira.
Mesmo aos quarenta e dois anos de idade, Wu Yurong ainda guardava um lado juvenil.
Apenas não a exibia a olhos estranhos. Afinal de contas, sua filha já era uma mulher feita!
— A Xuanxuan não veio hoje? — indagou Wu Chen, em tom casual.
— Foi para Modu. E ela não gosta desse tipo de ocasião. Acho que, mesmo que estivesse aqui, não viria — explicou Wu Yurong.
Os dois continuaram jogando conversa fora, preservando uma distância protocolar impecável, até secarem o conteúdo das taças.
Wu Chen repassou o cristal vazio a um garçom que cruzava o caminho e recolheu uma nova bebida.
Wu Yurong repetiu o movimento.
— Que tal mudarmos de ares para conversar? — sugeriu Wu Chen, fitando-a com um meio sorriso cúmplice.
— Seu danado — murmurou ela, com os cantos dos lábios se curvando ainda mais.
Mudar de lugar… seria apenas para conversar?
Os dois puseram-se a caminhar lado a lado, proseando sem pressa.
Em poucos instantes, distanciaram-se do núcleo da recepção e embrenharam-se por uma trilha do jardim. Após contornarem uma composição de rochas ornamentais e um lago de peixes, o horizonte abriu-se de súbito: havia uma pequena ponte, água corrente e um pavilhão.
Era a área paisagística do Clube Privado Tangsha. Pelo próprio perfil do estabelecimento, os frequentadores habituais raramente se aventuravam por aquele setor; naquele dia, e poucos convidados do casamento de Lu Guangnian iam até ali.
Numa arena social de tamanho peso, ninguém estava particularmente interessado em apreciar a paisagem.
Wu Chen e Wu Yurong pisaram no pavilhão.
Ao cruzar o umbral de madeira, a mulher girou o tronco de leve e correu os olhos pelo perímetro: o vazio era completo. Ela então virou-se para Wu Chen, depositou a taça de champanhe sobre a mesinha rústica e, logo em seguida, enlaçou o pescoço dele com os dois braços.
E selou-lhe os lábios num beijo!
Pouco depois.
Wu Chen estava acomodado num banco corrido lateral, enquanto Wu Yurong se aninhara em seu colo. Ambos sustentavam as taças e, com os braços entrelaçados num brinde de casamento, beberam juntos!
Wu Yurong jogou a cabeça para trás e secou o líquido de um só fôlego.
— Ah… — Ela soprou lentamente o vapor perfumado pelo champanhe de encontro ao rosto dele e sussurrou, com doçura extrema: — Senhor Wu, você tem tempo esta noite?
— Tenho, sim — respondeu Wu Chen, abrindo um sorriso sereno.
Os dois continuaram conversando por algum tempo no pavilhão.
Perto do arranjo de rochas ornamentais e do lago de carpas.
Su Ruiwen avançava em passos lentos. Ao alcançar o maciço de pedras, hesitou por um segundo… Pouco antes, Li Ruobing fora ao encontro de Su Qingying, e Su Ruiwen estava logo ali. Após trocarem amenidades, Li Ruobing fizera um sinal discreto para puxar Su Qingying para uma conversa reservada, e o veterano pescara a troca de olhares no ato.
Aproveitara a deixa para perguntar por que o senhor Wu não estava por perto.
Li Ruobing respondera que Wu Chen se embrenhara por aquele canto para tratar de negócios com Wu Yurong!
No passado, Su Ruiwen costumava frequentar as instalações do Clube Privado Tangsha com assiduidade; apenas reduzira as visitas nos últimos anos em decorrência da saúde frágil. Su Qingying, por sua vez, batia ponto com frequência nos campos de golfe dali.
Su Ruiwen conhecia muito bem a topografia do clube e sabia que a ala das rochas e do lago era ermo puro.
Resolvera ir até lá justamente na intenção de ter conversar com Wu Chen. Como Wu Yurong também estaria presente, aproveitaria para conversar mais um pouco com ela!
Não havia viva alma diante das rochas e do espelho d’água. Su Ruiwen correu a vista pelos arredores: avistou bancos de descanso e até amplas cadeiras de balanço suspensas margeando a trilha, mas nenhum sinal de gente.
Será que já haviam retornado?
Ruminando a dúvida, seguiu mais alguns metros pela vereda que contornava a água e o paredão de pedra. Ao ultrapassar a última curva do maciço rochoso, estancou de golpe.
À distância, a algumas dezenas de metros, avistou a estrutura do pavilhão.
Um homem e uma mulher conversavam como se fossem um casal apaixonado.
A mulher estava aninhada no colo dele, com os braços ao redor do pescoço dele, numa postura de intimidade flagrante e inequívoca.
Su Ruiwen sentiu o corpo petrificar por inteiro.
Se a visão não lhe pregava uma peça, o homem era Wu Chen. E a mulher de vestido longo de gala, com aparência jovial de vinte e poucos anos… era nada menos que Wu Yurong!
Su Ruiwen permaneceu pregado ao chão, mudo, sem se mover por um bom tempo.
