Novels chinesas em português
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    Capítulo 054 — Mais um “irmão de verdade”!

    Lei Cheng jamais esqueceria aquela noite de dez anos antes.

    O caminhão pesado vindo em disparada, os faróis altos ofuscantes… tudo acontecera de repente. O Mercedes Classe S em que Lei Cheng estava fora atingido pelo caminhão, capotara por mais de dez metros e, pouco mais de dez segundos depois, pegara fogo e explodira.

    Lei Cheng estava no banco de trás, ao lado da esposa. Na frente iam o motorista, que também era guarda-costas, e o assistente.

    Dos quatro, três morreram no local.

    Lei Cheng só sobrevivera por uma sorte absurda.

    Durante os capotamentos, como não usava cinto, fora arremessado para fora do carro e caíra numa área verde à margem da estrada. Sofrera mais de dez fraturas e um galho perfurara gravemente seu pescoço. Quando a ambulância chegou, já havia perdido muito sangue.

    Mesmo assim, não morreu.

    Passou dezessete dias na UTI e quase três meses numa enfermaria de cuidados especiais.

    Sobreviveu!

    Enquanto Lei Cheng estava internado, a Hongfa Industrial atravessou uma sucessão de turbulências e mudanças de pessoal. Antes do acidente, ele e Lei You já vinham demonstrando publicamente algumas divergências. A disputa por poder durava havia quase meio ano, embora ainda não tivessem rompido por completo.

    Foi por isso que, naquela época, muita gente dentro da Hongfa dizia que a coisa fora obra de Lei You.

    Durante a internação, Lei Cheng prestou vários depoimentos à polícia. Também acompanhava o andamento da investigação, e seus homens de confiança o mantinham informado com regularidade.

    Por isso sabia que ninguém estava atrapalhando a investigação.

    Ninguém ousaria fazer isso.

    Porque quem atrapalhasse se tornaria imediatamente o maior suspeito.

    Mesmo assim, não descobriram quem tinha feito aquilo.

    Depois de causar o acidente, o caminhão fugira.

    O veículo foi encontrado ainda naquela noite. Era um caminhão roubado, cujo proprietário havia registrado o furto dois dias antes. O dono original foi interrogado durante a madrugada, mas acabou descartado como suspeito e liberado.

    Realmente não fora ele.

    Quem de fato dirigia o caminhão no momento do atentado era simplesmente impossível de descobrir.

    A única pista que a polícia tinha eram imagens de câmeras de trânsito captadas antes do acidente. Em alguns trechos, era possível ver a aparência e a roupa do motorista através do para-brisa.

    Homem.

    Jaqueta de couro preta.

    Boné preto.

    Máscara branca.

    O rosto aparecia, mas as imagens eram relativamente borradas e o homem deixara apenas os olhos expostos. Era impossível saber quem era.

    Lei Cheng sabia que o mandante era seu irmão mais velho, Lei You.

    Não tinha provas.

    Mas acreditava naquilo com absoluta convicção.

    Não possuía inimigos com um ódio profundo o bastante para querer matá-lo. Pequenos conflitos não chegariam àquele ponto.

    Além disso, não era ele quem comandava a empresa, então dificilmente seria obra de um concorrente.

    E Lei Cheng ainda se lembrava de que, quatro dias antes do acidente, tivera uma discussão violenta com Lei You no escritório. Tomados pela raiva, os dois disseram coisas pesadas. Lei You chegou a mencionar novamente a morte da mãe.

    Lei Cheng nunca esqueceu o olhar que o irmão lhe lançou antes de sair da sala.

    Era o olhar de quem desejava vê-lo morto naquele mesmo instante.

    Depois de receber alta, Lei Cheng chegou a tomar várias atitudes extremas, mas todas foram impedidas. Então passou a investigar pessoalmente. Não verificou apenas todos os homens de confiança de Lei You, mas também todos dentro da empresa que fossem minimamente próximos dele ou tentassem agradá-lo.

    Lei Cheng conhecia muito bem o irmão.

    Sabia que Lei You só confiava em pessoas que trabalhavam com ele havia muito tempo e cuja origem conhecia por completo. Era decidido ao agir, mas extremamente cauteloso.

    Por isso, se realmente mandara matá-lo, provavelmente não teria contratado um estranho nem um assassino profissional. O risco seria grande demais.

    Lei Cheng tinha uma direção clara para a investigação, mas, depois de quase um mês de esforço, não encontrou nada.

    Havia algumas pistas, porém todas se rompiam no meio do caminho.

    No fim, quando já não tinha outra saída, usou um método muito burro — mas útil.

    Comparar fotografias.

    Olhar apenas para os olhos.

    Usou as imagens das câmeras de trânsito fornecidas pela polícia e as comparou com os arquivos de pessoal da empresa. Como do motorista só se viam os olhos, comparou apenas os olhos. Quem tivesse olhos parecidos entrava na lista de suspeitos.

    Deu atenção especial a pessoas transferidas ou que haviam pedido demissão nos meses seguintes ao acidente.

    E encontrou alguém.

    Na época do acidente, aquele homem era vice-supervisor do departamento de segurança do Grupo Hongfa.

    Seu nome era Xiong Shengjun.

    No quinto dia depois do acidente, Xiong Shengjun foi subitamente transferido da sede do grupo para a Segunda Fábrica Hongfa, na cidade de Beiyou, onde passou a trabalhar como gerente de segurança.

    Aquilo equivalia a uma punição.

    No décimo sétimo dia depois do acidente…

    Xiong Shengjun pediu demissão de repente!

    A justificativa era que não havia feito nada de errado e, mesmo assim, fora afastado da sede — e não engoliria aquela humilhação.

    E o décimo sétimo dia após o acidente foi exatamente o dia em que Lei Cheng despertou na UTI!

    Talvez fosse apenas coincidência.

    O que realmente fez Lei Cheng acreditar que Xiong Shengjun era o criminoso foi outra coisa: depois de pedir demissão, ele desapareceu!

    Como se tivesse evaporado do mundo.

    De uma hora para outra, sumiu.

    Nem a ex-esposa nem o filho sabiam para onde ele tinha ido.

    Xiong Shengjun não foi a única pessoa a deixar a empresa depois do acidente, nem a única a desaparecer.

    Mas era o único para quem tantas pistas e tantos pontos suspeitos convergiam.

    Os olhos parecidos.

    A demissão repentina e coincidente.

    O desaparecimento inexplicável.

    E mais…

    Ele sempre tentara cair nas graças de Lei You.

    Lei Cheng não achava que Xiong Shengjun tivesse sido eliminado para queimar arquivo. Lei You não faria isso com alguém que tivesse executado uma tarefa tão importante para ele. Se trabalhar para Lei You significasse acabar morto depois, quem ainda ousaria servi-lo?

    Por isso, na época, Lei Cheng concluiu que Xiong Shengjun provavelmente recebera uma grande quantia e fugira para bem longe.

    Já não se lembrava por quanto tempo o procurara, nem quando desistira. Simplesmente não havia pista alguma, e no fim ele teve de abandonar a busca.

    Quando desistiu, chegou a pensar que talvez estivesse errado.

    Que o homem realmente pudesse ter sido eliminado e enterrado em alguma montanha deserta e sem nome, onde Lei Cheng jamais o encontraria.

    Dez anos!

    Até conhecer Wu Chen naquele dia, Lei Cheng continuava sem qualquer notícia de Xiong Shengjun e sem uma prova capaz de incriminar o irmão mais velho.

    Até aquele exato instante!

    Lei Cheng finalmente “viu” Xiong Shengjun outra vez.

    Era apenas uma foto. Dez anos haviam passado. Xiong Shengjun engordara e o formato do rosto mudara, mas Lei Cheng o reconheceu num único olhar!

    Sentado diante de Wu Chen, teve a sensação de que os céus finalmente abriam os olhos.

    Era como se uma mão invisível do destino tivesse colocado Wu Chen à sua frente.

    Lei Cheng sempre esperara por uma oportunidade de virar o jogo e vingar a esposa.

    Uma oportunidade que praticamente não poderia existir.

    Mas a aparição de Wu Chen transformara o impossível em possível.

    — Irmãozinho, daqui pra frente, qualquer coisa que você precisar, é só falar! Não me trate como gente de fora! De hoje em diante, você é meu irmão de verdade! — Lei Cheng fez mais uma promessa sem esperar que Wu Chen respondesse e se levantou de repente. — Seu irmão aqui tem uma urgência pra resolver. Vou indo. A gente se fala por telefone.

    Com o celular apertado na mão, saiu apressado.

    Nos poucos metros até a porta, olhou duas vezes para a foto na tela.

    Wu Chen acompanhou sua saída com uma expressão estranha.

    Não porque achasse estranho o comportamento de Lei Cheng, mas porque se lembrou de que sua nova vida mal começara havia dois dias e ele já ganhara dois “irmãos de verdade”.

    Ontem, Lu Guangnian.

    Hoje, Lei Cheng.

    Quem sabia quantos outros “irmãos de verdade” como aqueles ainda teria no futuro.

    Lei Cheng foi embora.

    Wu Chen, porém, não teve pressa.

    Pegou a xícara e tomou o chá devagar. Depois de pousá-la, pegou o celular.

    Ia fazer uma ligação.

    Para Li Ruobing!

    Nota