Novels chinesas em português
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    Capítulo 478 — Foi à casa de Wu Chen

    — Avarias… Alguém escavando aqui? — Wei Jianhe hesitou e puxou pela memória com afinco.

    A rigor, nem precisava queimar fosfato. Seu patrimônio resumia-se àquela empresa, dividida entre a unidade antiga e a nova. Desde que a nova planta ficara pronta, toda a operação migrou para lá; e, como não possuía outros empreendimentos para administrar, ele passava os dias inteiros supervisionando a rotina do local.

    Se qualquer canto daquelas instalações tivesse sido violado, a notícia teria chegado aos seus ouvidos no mesmo dia.

    E ele não guardava a menor lembrança de nada parecido, nem mesmo de um boato esquisito.

    Ainda assim, como quem perguntava era Su Ruiwen, o homem mais rico de Donghai, Wei Jianhe fez questão de demonstrar que ruminava o assunto com a máxima gravidade. Passados uns dez segundos, balançou a cabeça com convicção:

    — De jeito nenhum! Chefe Su, ponho minha mão no fogo. A fábrica foi erguida três anos atrás. Danos estruturais… ou alguém abrindo buraco no chão, com certeza absoluta não houve!

    — E o piso das garagens? Passou por alguma reforma ou recapeamento? — insistiu Su Ruiwen, fitando-o com os olhos cravados.

    — Bom, isso… No ano passado, reformamos o piso dentro da área de produção. As empilhadeiras não param de rodar e os garfos vivem raspando no chão na hora de içar os paletes… Mas lá fora, nos outros setores, incluindo a área onde o senhor mandou abrir a vala, garanto que o concreto original nunca foi tocado.

    — A fábrica só tem três anos de uso, Chefe Su. Em condições normais, não haveria o menor motivo para reparos ali — garantiu Wei Jianhe, respondendo a cada dúvida como quem presta contas a um superior.

    Embora o ramo de Wei Jianhe não guardasse nenhuma relação com os negócios do Grupo Jinfu — a Tianhe fabricava peças usinadas e motores elétricos, enquanto o Grupo Jinfu dominava o mercado de joias e ouro —, Su Ruiwen era nada menos que o homem mais rico da praça, dono de uma fortuna superior a dez bilhões!

    Não era preciso muito esforço para calcular a extensão do poder e das conexões de Su Ruiwen em Donghai e no país inteiro.

    E, diante daquela situação esdrúxula, o magnata se dera ao trabalho de comparecer em pessoa!

    Era evidente que se tratava de algo muito importante!

    Wei Jianhe faria qualquer negócio no mundo para ajudá-lo a desembolar aquele mistério.

    Não precisava cobrar nada na largada.

    Sabia perfeitamente que, se servisse bem àquele titã, Su Ruiwen jamais o deixaria de mãos vazias! Bastaria uma ligação ou uma recomendação solta em um jantar para que a Fábrica de Máquinas Tianhe abocanhasse contratos e pedidos monumentais que antes não passavam de sonhos inalcançáveis! Os lucros seriam estratosféricos!

    Wei Jianhe lançava olhares furtivos ao patriarca, com as engrenagens da ambição girando a todo vapor.

    — Hum… — Su Ruiwen voltou a fechar-se num mutismo pesado.

    O rumo daquilo tudo afrontava os limites da razão humana. As outras acusações cuspidas por Wu Chen poderiam ter vazado por descuido de comparsas; como ainda não passavam de acusações verbais pendentes de checagem, era difícil cravar um julgamento.

    Contudo, no tocante ao homicídio da amante de Xu Zhenyuan e à ocultação do cadáver, a exatidão topográfica fornecida por Wu Chen fora cirúrgica a ponto de superar a memória do próprio mandante do crime!

    Su Ruiwen chegara ao extremo de cogitar uma farsa.

    Seria possível que Wu Chen estivesse apenas blefando?

    Li Ruobing evidentemente boiava sobre o que o namorado dissera e ainda assim desdobrara-se para acobertar o sujeito. Mas, se Wu Chen tivesse inventado aquilo do nada… a lógica implodia. Uma mentira daquele tamanho desmoronaria em duas horas de escavação.

    Era um mistério impenetrável!

    O interior do Mercedes-Maybach permaneceu imerso em silêncio fúnebre.

    Su Ruiwen fitava o para-brisa, aguardando impassível e mudo. Já que a mente não encontrava respostas, o jeito era esperar o aço das pás bater no fundo. Logo, logo descobriria se havia ou não uma ossada ali!

    …

    Mais de vinte minutos se passaram.

    Sob a lona que cercava a garagem da Fábrica de Máquinas Tianhe, cinco ou seis seguranças mantinham-se à borda da cratera, iluminando o fundo com fachos cruzados de lanterna.

    Dentro do buraco, dois homens continuavam retirando terra sem descanso, já tendo atingido uma profundidade considerável.

    Clac!

    A lâmina de uma das pás estancou contra algo rígido. Entrou apenas pela metade.

    O segurança ajustou o ângulo e forçou mais duas vezes, mas a ferramenta bateu seco. Ou se tratava de um matacão de pedra gigantesco, ou havia algo sólido sepultado ali.

    — Achei alguma coisa — avisou ele, jogando a pá de lado. Agachou-se empunhando uma pazinha de jardinagem para raspar a terra ao redor. O outro companheiro imitou o gesto. Pouco depois, fragmentos plásticos começaram a emergir e, em seguida… o contorno de uma mala de viagem em estado deplorável.

    Embora apenas o topo estivesse à mostra, era evidente tratar-se de uma mala comum de resina ABS; a carcaça de uma das rodinhas já despontava no canto.

    Após tantos anos sob a pressão do solo, o material ressecara a ponto de perder quase toda a integridade. Bastava forçar com os dedos para esfarelar placas de plástico podre.

    Por fim, os dois operários tiveram que retirar a terra das laterais usando as próprias mãos.

    O fecho já apodrecera por completo.

    O segurança da esquerda puxou a borda com cuidado e a tampa cedeu, abrindo uma fresta estreita. Ele espiou pelo vão, estacou no mesmo milissegundo e franziu a testa, contendo uma careta de repulsa.

    Havia um cadáver ali dentro.

    Pelos farrapos de tecido colados aos restos, tratava-se de uma mulher.

    Quanto ao corpo… já se encontrava em avançado estado de esqueletização. Considerando a umidade e a temperatura do subsolo de Donghai, seriam necessários pelo menos três ou quatro anos de sepultamento para a decomposição alcançar aquele estágio.

    Ainda não se reduzira a puro osso; restavam resquícios de tecidos desidratados agarrados à carcaça.

    Tufos de cabelos compridos destacavam-se na lama.

    Uma cena de puro horror!

    O segurança recompôs o semblante com frieza profissional. Fechou a tampa da mala, ergueu o tronco e gritou para cima:

    — Avisem ao chefe. Achamos. É mulher. Pelo menos uns três ou quatro anos debaixo da terra…

    …

    Diante do bloco administrativo da Fábrica de Máquinas Tianhe.

    Su Ruiwen repousava no estofado traseiro do Maybach, de olhos cerrados, tentando recarregar as baterias. A fraqueza crônica cobrava um preço alto e, àquela hora da noite, sentia o corpo pesar feito chumbo.

    Ao lado, Wei Jianhe não ousava soltar um suspiro. Esfregava os dedos compulsoriamente para aplacar a ansiedade.

    A fissura por nicotina o consumia por dentro; morria de vontade de descer para tragar um cigarro, mas faltava-lhe coragem para abrir a porta e incomodar o figurão ao lado. O remédio era engolir a seco.

    Passos apressados quebraram a calmaria lá fora.

    Toc, toc!

    Um segurança aproximou-se da porta traseira direita do Maybach e deu dois toques discretos no vidro.

    Su Ruiwen abriu os olhos no ato, girou o pescoço e acionou o comando para descer a janela.

    — Chefe, achamos… — murmurou o homem, debruçando-se para relatar em tom confidencial. Su Ruiwen empertigou-se na hora, absorveu a informação e disparou duas perguntas curtas. O subordinado confirmou com a cabeça.

    — Entendido — finalizou o magnata.

    O segurança postou-se ereto em silêncio.

    Su Ruiwen fechou o vidro, ponderou as peças no tabuleiro por alguns segundos e virou-se para Wei Jianhe:

    — Chefe Wei, a partir de hoje, a sua fábrica vai paralisar totalmente as atividades. Conceda férias coletivas remuneradas a todos os funcionários; a folha de pagamento corre por minha conta. Se houver entregas com prazo estourando, eu intercedo pessoalmente para remanejar a produção para outras metalúrgicas como terceirizadas. A margem de lucro continua toda com você; eu banco o arranjo logístico… Estamos combinados?

    Wei Jianhe ficou boquiaberto por um instante, mas logo recobrou a voz:

    — Combinadíssimo! Claro que sim, Chefe Su! O que o senhor mandar é lei! Vou suspender as operações agora mesmo e redigir o comunicado… Quanto aos salários, eu mesmo cubro do meu bolso, o senhor não precisa gastar com…

    Su Ruiwen ergueu a palma da mão, cortando a bajulação no seco:

    — O valor que for necessário sairá da minha conta. Assunto encerrado.

    O corpo fora desenterrado, mas era óbvio que ele não acionaria a polícia naquele momento para prender Xu Zhenyuan. Aquilo equivaleria a espantar a lebre antes da hora.

    Até aquele segundo, não existia uma única prova pericial que conectasse a ossada a Xu Zhenyuan.

    Mesmo que a perícia confirmasse a identidade da amante, isso não bastaria para provar a autoria do homicídio perante um tribunal.

    Su Ruiwen jamais deixaria a polícia entrar no caso com o inquérito tão cru.

    Xu Zhenyuan era uma raposa escolada, com recursos de sobra para contratar bancas de advogados e cavar brechas processuais para se safar.

    Se era para abater o traidor, o golpe precisava ser fatal! No dia em que a polícia batesse à porta de Xu Zhenyuan, as algemas teriam que se fechar sobre um dossiê de provas absolutamente irrefutável!

    Su Ruiwen ia além: pretendia usar as provas para arrancar de volta cada ação da Joalheria Jinfu que ainda estivesse em posse do sócio rebelde!

    Os outros podres revelados por Wu Chen também demandavam checagem de campo. Levaria ao menos alguns dias para costurar todas as pontas daquela teia.

    Bater na cobra sem quebrar-lhe a espinha era pedir para ser picado. E Su Ruiwen jamais cometia amadorismos!

    ——

    Nove da noite. Distrito de Xicheng, Donghai. Condomínio de mansões Shenghe Tianxia.

    Erguido no despontar dos anos 2000, tratava-se de um condomínio horizontal de altíssimo padrão. Embora ostentasse certa idade, continuava firme entre os dez endereços mais caros e exclusivos de Donghai. O projeto guardava peculiaridades únicas: ocupava uma gleba de terra monumental, dominada por lagos e jardins paisagísticos, e abrigava míseras vinte e uma mansões isoladas.

    À época do lançamento, apenas os bilionários mais opulentos e as figuras públicas mais poderosas da cidade tiveram cacife para arrematar um lote ali!

    Até os dias de hoje, os proprietários de cada uma daquelas residências pertenciam a essa mesma casta intocável!

    Mansão número seis!

    O portão de ferro forjado recolheu-se lentamente. O comboio de Mercedes-Benz adentrou os domínios, contornou o espelho d’água com chafariz e estacionou diante da escadaria de mármore.

    Su Ruiwen desembarcou, levou um lenço de linho à boca e tossiu seco duas vezes antes de subir os degraus.

    Um segurança de plantão abriu a porta dupla.

    No salão nobre, cuja decoração clássica exalava um luxo imponente, a senhora Su estava sentada ao piano de cauda num dos cantos, dedilhando uma peça erudita com considerável destreza.

    Com a entrada do marido, o som das teclas cessou.

    — Marido, o que aconteceu de tão grave para você ter que sair pessoalmente a essa hora da noite? — questionou ela, levantando-se e caminhando ao encontro dele, com uma ponta indisfarçável de reprovação na voz.

    A queixa, contudo, não mirava Su Ruiwen; sua contrariedade voltava-se contra quem quer que o houvesse arrastado para fora de casa naquele estado.

    — Assuntos ligados a Xu Zhenyuan — despistou Su Ruiwen, antes de indagar: — A Qingying já voltou?

    — Ainda não.

    — Não chegou até agora? Ela tem algum jantar de negócios hoje?

    — Não é isso… Ela me ligou dizendo que ia se encontrar com a Li Ruobing. Tinham combinado mais cedo. Ultimamente as duas andam grudadas feito irmãs. Pelo que entendi, é provável que nem volte para dormir hoje.

    Su Ruiwen pretendia ter uma conversa séria com a filha; não contava com mais aquele encontro com a herdeira dos Li.

    — Vai pernoitar na mansão da senhorita Li? Ou as duas saíram para algum compromisso social? — perguntou ele em tom casual, iniciando a subida da escadaria.

    — Nem uma coisa nem outra… Parece que a senhorita Li anda morando com o namorado esses tempos. A Qingying foi para a casa dele, o tal Wu Chen — revelou a senhora Su com naturalidade.

    Su Ruiwen, que acabara de pisar no segundo degrau, congelou no mesmo instante.

    Nota