Capítulo 393 — Sua irmã?
por NexoNovelCapítulo 393 — Sua irmã?
Era a primeira vez que Wu Chen falava com alguém da família desde que sua nova vida começara. Depois de escapar do ciclo de mil anos, ele também nunca tinha ligado para casa por iniciativa própria, porque não havia necessidade.
Afinal, embora tivesse ficado preso no dia 7 de julho de 2020 por 365 mil dias, o que equivalia a mil anos inteiros!
Ainda assim!
Wu Chen apenas repetia o mesmo dia sem parar. Isso não o impedia de voltar para casa.
Durante aquele milênio de repetições, ele voltara para casa vezes sem conta. Sobretudo nos primeiros “anos”, quando passara por um sofrimento que uma pessoa comum nem conseguiria imaginar, vivia indo para casa, fosse para fazer companhia à família, fosse para buscar a companhia deles.
Mais tarde, quando conseguiu fazer as pazes com a própria situação, começou a procurar coisas para fazer, a estudar e a investigar todo tipo de assunto. Aos poucos, as visitas à família foram ficando mais regulares: de vez em quando aparecia, dava uma volta, via como estavam.
Por isso, para alguém que passara mil anos preso, os pais e a irmã não eram nada “estranhos”.
Também não dava para dizer que morresse de saudade deles. Do ponto de vista dele, afinal, estavam sempre se vendo!
O mesmo valia para os vizinhos e conhecidos do bairro.
Bastava voltar para casa que acabava esbarrando neles.
Até hoje, Wu Chen era capaz de dizer com exatidão quantos clientes passavam pela casa da família no dia 7 de julho, da manhã até a noite; a altura, o porte e a aparência de cada um; e o momento exato, com precisão de segundos, em que entravam na pequena casa de lámen dos pais!
Conseguia dizer até com qual perna cada cliente cruzava a porta primeiro, o que falava depois, quantas palavras dizia, e assim por diante.
Conhecia tudo aquilo bem demais!
É claro!
Os pais de Wu Chen não guardavam nenhuma lembrança das vezes em que ele voltara para casa num 7 de julho, porque tudo tinha sido reiniciado. E, no último 7 de julho que ele vivera, nem sequer tinha ido para casa: passara o dia inteiro na área urbana de Donghai e, à noite, fora a um bar…
Mas a última lembrança que os pais tinham dele também não era tão distante.
Era de 2 de julho!
Mil “anos” antes, Wu Chen se formara na universidade em meados de junho e voltara para casa. Ficara por lá meio mês, ajudando no restaurante e mandando currículos pela internet. Depois saíra de casa e começara a fazer entrevistas de emprego…
E o dia em que partira tinha sido justamente 2 de julho!
Ou seja, para os pais e para a irmã, fazia só pouco mais de vinte dias que não o viam.
— Filho, tá ocupado? — A voz da mãe, Zhang Xiujuan, soou pelo celular.
— Não, tô comendo com uma amiga — respondeu Wu Chen.
— Tá comendo o quê?
— Bife.
— Comida ocidental?
— É, comida ocidental.
— Será que esse tipo de coisa é bom mesmo?… Ah, é! Xiao Chen, você já arrumou emprego?
— Arrumei, sim. É que… já é hora do almoço, né? Saí pra comer.
— Tá no intervalo?
— Isso!
— Que empresa é? E o salário, é bom?
— Trabalho como assistente de uma pessoa. O salário é bem alto.
— Assistente? Mas você não estudou computação? Como foi parar de assistente? Vai ficar carregando a bolsa do chefe?
— Hum… mais ou menos isso.
— E o chefe, como é? É gente boa? Dá pra conversar? Ouvi dizer que trabalhar de assistente é puxado. Não tá pegando no seu pé, tá?
— Não. É gente muito boa.
Era uma conversa despretensiosa. Zhang Xiujuan só queria saber como o filho andava, e Wu Chen, naturalmente… não podia contar a verdade! Havia muita coisa que ele não precisava explicar a ninguém, mas, com a própria mãe, qualquer coisa que soasse estranha viraria pergunta, e ele teria que dar explicações.
Por isso, não podia deixar transparecer nada fora do normal.
Na verdade, ele nem estava mentindo: no momento, seu emprego formal era mesmo o de assistente de Li Ruobing.
— Mãe, cadê o pai? — perguntou Wu Chen por conta própria.
— Tá na cozinha, se virando com o macarrão frito dos clientes.
— O restaurante tá movimentado hoje?
— Tá indo… Xiao Chen, quando você vem pra casa? Tem folga no fim de semana?
— Tenho, e também dá pra pedir folga. Acho que no fim do mês, no fim do mês eu apareço…
— Ei! Nada de pedir folga! Você mal começou. Não vai deixar o chefe com má impressão de você.
— Não tem problema…
— Como não tem problema? Você acabou de entrar no mercado de trabalho… — E Zhang Xiujuan voltou a encher o filho de recomendações, coisas como “trabalhe direito” e “fale menos e trabalhe mais”.
Wu Chen não retrucou. Só ficou ouvindo.
— Ah… chegou mais gente. Tá bom, tá bom, vou desligar, tenho que trabalhar… — disse Zhang Xiujuan, mudando de assunto de repente.
— Tá bom, mãe…
— Ah, é mesmo! Quase esqueci! Fiquei só fazendo pergunta… Escuta, a Jiaojiao te ligou?
— Ela? Não. Por quê? — Wu Chen ficou um pouco surpreso.
Jiaojiao era a irmã mais nova dele, Wu Jiao!
— A Jiaojiao foi pra cidade com uma colega. Desde que entrou de férias, ela tá ajudando no restaurante, né? Até inventou que eu tinha que pagar salário pra ela. Hoje de manhã dei mil yuans pra essa menina… — contou Zhang Xiujuan, entre irritada e achando graça.
Wu Chen conseguia imaginar perfeitamente a irmã fazendo manha para arrancar dinheiro da mãe.
— É mesmo? Que horas ela saiu daí? — perguntou.
— Saiu pouco depois das oito da manhã. Disse que ia comprar roupa e que ia te procurar. Vai dormir aí com você hoje, não volta pra casa. Disse que ia te ligar. Essa menina… Não ligou mesmo?
— Não — respondeu Wu Chen. Fez uma pausa e acrescentou: — Faz assim: daqui a pouco eu ligo pra ela. Fica tranquila, mãe. Ela já tá bem grandinha, não vai se perder…
— Tá bom. Era só pra avisar. Tenho que trabalhar. Vai comer.
— Pode deixar, mãe.
An Menglan continuava cortando o bife, sem deixar de ouvir a conversa. Sabia que era a mãe dele, afinal Wu Chen a chamara de “mãe”, e também o ouvira dizer que trabalhava “como assistente de uma pessoa”.
Embora não soubesse exatamente o que a mãe dele dissera, An Menglan sabia que Wu Chen não tinha falado a verdade!
Quando ele desligou, ela pousou os talheres e pegou a taça de vinho tinto.
— Parece que o senhor está escondendo algumas coisas da sua mãe, senhor Wu — comentou, sorrindo.
— Certas mudanças talvez precisem de um pouco mais de tempo antes que seja conveniente contar a eles — respondeu Wu Chen, também sorrindo, enquanto erguia a própria taça.
Brindaram! Os dois tomaram um gole.
O almoço continuou!
An Menglan não voltou a tocar no assunto da família de Wu Chen. Sabia muito bem até onde podia ir! Afinal, ela não era nada dele, e não lhe cabia se meter.
Uns quinze minutos depois.
Trim, trim…
O celular de Wu Chen tocou de novo.
Ele pegou o aparelho e viu que, dessa vez, era Li Ruobing.
— Oi, Ruobing — atendeu.
— Querido, descansou bem ontem à noite? — perguntou Li Ruobing logo de cara, num tom de provocação.
— Descansei, sim — respondeu Wu Chen, sorrindo. Ele sabia muito bem o que ela queria dizer.
Li Ruobing, porém, não perguntou mais nada. Era só uma brincadeira. Três dias antes, pela manhã, na suíte presidencial, ela já tinha visto o pânico de An Menglan, estampado no rosto dela.
Naquele momento, já tivera certeza de que havia alguma coisa entre Wu Chen e An Menglan!
Por isso, agora não precisava perguntar nada.
Li Ruobing queria ter An Menglan na palma da mão e, por isso, não tinha pressa nenhuma. Afinal, o prazo da aposta era de um mês! Na visão dela, quanto mais tempo durasse o envolvimento de Wu Chen com An Menglan, melhor para ela.
— Tô quase saindo. Quer almoçar comigo? — perguntou Li Ruobing.
— Já tô almoçando — respondeu Wu Chen, sorrindo.
— Com a An Menglan?
— Isso. Quer vir? Comer com a gente?
— Deixa pra lá. Não quero atrapalhar o seu encontro com a nova amante… — provocou Li Ruobing, com uma pontinha de irritação.
— Talvez eu leve alguém à sua empresa à tarde — disse Wu Chen, rindo.
— Hã? — Li Ruobing hesitou por um instante e perguntou: — Quem?
— Minha irmã. Ela veio pra Donghai e tá fazendo compras com uma colega. Quando eu terminar de almoçar, vou atrás dela… — explicou Wu Chen. Algumas coisas ele continuaria escondendo dos pais por enquanto, mas não havia necessidade de esconder tudo da irmã.
Se os pais soubessem de tanta coisa, de tantas mudanças, talvez ficassem felizes e surpresos, mas também poderiam ficar preocupados, ou até assustados! Poderiam desconfiar de que o filho estava metido em coisa errada. Senão, como teria enriquecido daquele jeito?
Os mais velhos eram sempre assim!
Com a irmã, era diferente!
— Sua irmã? — repetiu Li Ruobing, e de repente ficou em silêncio, como se estivesse pensando em alguma coisa.
— É, minha irmã. Você sabe que eu tenho uma — disse Wu Chen.
— Então… que tal assim? Qual é o telefone dela? Me passa o número… — disse Li Ruobing, como quem já tinha tomado uma decisão.
— Pra quê? — Wu Chen ergueu uma sobrancelha.
— Pra ir encontrar ela, ué. Aproveito e chamo pra almoçar… A gente ia se conhecer de qualquer jeito, cedo ou tarde dá no mesmo… Você fica aí almoçando com a sua nova amante. Deixa a sua irmã comigo… — disse Li Ruobing, com um sorriso na voz.
Wu Chen sabia muito bem o que ela tinha em mente, mas não a desmascarou.
— Tudo bem. Anota o número dela… — Ele ditou uma sequência de números e depois recomendou: — Ruobing, tenta… ser um pouco discreta. Não vai assustar a menina. Ela só tem dezessete anos…
— Fica tranquilo. É a sua irmã, afinal. Por que eu faria isso? — respondeu Li Ruobing, rindo com aquela entonação estudada.
