Novels chinesas em português
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    Capítulo 475 — Quando Su Ruiwen começa a desconfiar, alarmado

    Li Ruobing possuía inteligência de sobra e conhecia Wu Chen a fundo.

    A premissa de um erro tão crasso vindo dele soava inconcebível. Independentemente do teor da jogada, envolvendo o nome dela e trazendo o risco evidente de um telefonema de Su Ruiwen, como Wu Chen não a blindaria com um alinhamento prévio?

    Agora, incapaz de emparelhar o discurso do patriarca, o risco de levantar suspeitas era gritante.

    Ela nem sequer tinha margem para improvisar uma mentira alternativa.

    Não fazia a menor ideia do que Wu Chen dissera a Su Ruiwen, sob qual pretexto o fizera ou os detalhes exatos abordados. O terreno era um breu absoluto.

    Qualquer deslize verbal seria fatal!

    E tentar passar a perna na sagacidade de Su Ruiwen com desculpas esfarrapadas seria subestimar o homem mais rico da cidade!

    Logo… Li Ruobing chegou a uma dedução lógica implacável: o objetivo deliberado de Wu Chen era fazer Su Ruiwen desconfiar!

    Do outro lado do sinal, diante do sumiço da voz feminina, Su Ruiwen supôs que a linha sofrera instabilidade ou que Li Ruobing encerrara a chamada sem querer. Ele afastou o aparelho do rosto, confirmou que a ligação continuava e retomou:

    — Senhorita Li? Ainda está na linha, senhorita Li?

    — Ah… Estou sim, presidente Su — Li Ruobing arrastou a resposta, ganhando tempo.

    — Hahaha! Senhorita Li, não há por que manter o mistério — soltou Su Ruiwen com um riso brando, carregado de uma deferência inédita e uma ponta de comoção genuína. — Ah! Jamais imaginei que a senhorita Li pudesse estender a mão de forma tão grandiosa à nossa Qingying.

    — Eu e a Qingying… tivemos sintonia desde o primeiro instante — esquivou-se ela.

    — Uma bênção! Hahaha! — ecoou o veterano. — A propósito, a senhorita e a minha Qingying dividem a mesma idade, correto?

    — Exato. A senhorita Qingying me supera por alguns meses apenas.

    — Pois é! Compartilham o mesmo tempo de vida, mas a minha Qingying fica a léguas da senhorita Li. Minha menina ainda é imatura; falta-lhe casca, falta-lhe a envergadura e o tirocínio que a senhorita transborda.

    — De forma alguma. A senhorita Qingying tem qualidades admiráveis, domínio do tato interpessoal e grande visão de negócios…

    — Perante a média do mercado, decerto que sim. Porém, comparada à senhorita Li, a distância salta aos olhos! Ainda assim, a minha Qingying é abençoada por gozar de uma amizade tão fraternal. Daqui por diante… teremos que confiar muito nos seus cuidados, senhorita Li! Hahahaha…

    Muito esquisito!

    Li Ruobing achou a postura de Su Ruiwen bizarra ao extremo naquele dia.

    O homem nunca fora dado a bajulações ou expansividade gratuita. Postado no topo da pirâmide financeira e política de Donghai, não carecia de dobrar a espinha para puxar o saco de alma viva.

    Não existia em solo local quem tivesse cacife para exigir mesuras servis de Su Ruiwen.

    Ela própria, Li Ruobing, não ostentava esse poder.

    A família Li pairava em patamar incomensuravelmente superior à dinastia Su, sem dúvida. Contudo, Li Ruobing não representava o clã inteiro; integrava apenas a terceira geração e, perante o magnata, posicionava-se como mera figura júnior.

    Mesmo diante de Li Maoren… sem interesses pragmáticos na balança, Su Ruiwen não precisaria se apequenar com rapapés desnecessários.

    A nata da sociedade acostumara-se a tratá-la pela alcunha de “Chefe Li”, ciente de sua preferência por esse rótulo; ninguém arranjaria atrito por mera questão de etiqueta.

    Su Ruiwen, todavia, tratava-a formalmente por “senhorita Li”.

    E Li Ruobing não via ofensa alguma nisso. Considerava natural: tratava-se de um monstro dos negócios a quem ela admirava e a quem, no presente estágio de sua carreira, devia reverência institucional.

    A hierarquia de posições era cristalina.

    Desprovida do escudo familiar, apenas com sua bagagem e capital atuais, Li Ruobing dificilmente teria assento à mesma mesa que Su Ruiwen.

    Qual o motivo, então, daquela guinada comportamental?

    Por que rasgar tantos elogios rasgados?

    E chegar ao extremo de apequenar a própria filha — seu maior troféu — apenas para colocá-la sobre um pedestal?

    Aquilo colidia frontalmente com o feitio de Su Ruiwen.

    Li Ruobing não conseguia assimilar.

    Que diabo acontecera para o velho agir com tanta subserviência? Ele genuinamente acreditava que ela haveria de tutelar Su Qingying — a mulher que herdaria toda a musculatura financeira e as conexões de Su Ruiwen?! Julgava-a tão onipotente assim?

    O diálogo desdobrou-se em salamaleques protocolares por mais alguns minutos. Nas entrelinhas do magnata, transparecia certa gratidão.

    Com a saúde em frangalhos e a certeza de que lhe restava de seis meses a um ano de vida, saber que Li Ruobing mobilizara recursos tão assombrosos para blindar sua filha deixava Su Ruiwen comovido de verdade.

    Chegava a experimentar uma paz antecipada diante da cova: sob o manto de Li Ruobing, Su Qingying sedimentaria o controle sucessório num piscar de olhos, exercendo sobre o Grupo Jinfu um controle ainda mais férreo do que o dele próprio.

    Com uma aliada daquele calibre, o velho sentia que poderia fechar os olhos em paz.

    — Hahahaha… Aliás, senhorita Li, quanto àqueles desvios pretéritos operados por Xu Zhenyuan: o senhor Wu adiantou alguns nomes de passagem, mas omitiu os meandros. A senhorita Li teria a gentileza de detalhar quem são essas peças…? — manobrou Su Ruiwen, cravando a pergunta estratégica.

    Investigar a cartilha de quem lhe estendia a mão era deselegância pura.

    Ele jamais indagaria, por exemplo, como o cadáver fora localizado.

    Contudo, a questão das testemunhas internas era outro departamento.

    Se as pessoas que poderiam testemunhar sobre os desvios de Xu Zhenyuan continuavam trabalhando dentro do Grupo Jinfu, significava que Li Ruobing conseguira investigar o interior da corporação e colhera dados sigilosos sem despertar o menor alarde.

    Su Ruiwen julgava ter o direito — e o dever — de obter clareza sobre aquilo.

    Eram seus “assuntos domésticos”, que Li Ruobing descobrira.

    — É… — Li Ruobing hesitou por uma fração de segundo. Logicamente, não tinha resposta alguma. Recuperando a compostura, articulou: — Presidente Su, na realidade… eu também não domino os meandros a fundo…

    A fala soou truncada, claudicante, sem firmeza.

    — Como? — Su Ruiwen estacou, confuso.

    — Bem… Presidente Su, o senhor poderia, antes de tudo, sintetizar o que o Wu Chen lhe relatou? Não tenho clareza exata de quais tópicos foram levantados… — arriscou ela, após breve reflexão.

    O plano não era alimentar as suspeitas dele?

    Pois que o veneno da dúvida se alastrasse de vez!

    — A senhorita Li desconhece o conteúdo? — A expressão de Su Ruiwen congelou no ato.

    — Não é que eu… desconheça… Eu apenas instruí o Wu Chen a protocolar papéis… — Ela recusou-se a admitir ignorância, mas bateu o pé novamente na justificativa dos documentos.

    Aos ouvidos de Su Ruiwen, o recado era gritante: ela não fazia a menor ideia do assunto, tentava disfarçar a falta de controle e ainda insistia na farsa para encobrir o rapaz.

    — O senhor Wu abordou… as infrações do passado de Xu Zhenyuan — clareou o patriarca, com a desconfiança vincando-lhe a testa.

    — Xu Zhenyuan… é o segundo maior acionista pessoa física do Grupo Jinfu, não é mesmo? — devolveu Li Ruobing com uma pergunta.

    A cor sumiu do rosto de Su Ruiwen!

    A indagação escancarava o abismo: Li Ruobing sabia da existência burocrática de Xu Zhenyuan, mas não dominava quem ele era de verdade!

    Como alguém que supostamente vasculhara a vida do alvo até as entranhas responderia com tanta superficialidade?!

    — Correto, senhorita Li… Mas a senhorita não sa…

    — Ah, me recordei! Sei do que se trata — cortou Li Ruobing abruptamente. Após um breve compasso, emendou: — Bem… Presidente Su, tenho uma reunião marcada para este exato instante, já está na hora…

    Pelo alto-falante, Su Ruiwen captou o som de Li Ruobing se levantando.

    — Façamos o seguinte, presidente Su: retomamos este diálogo com a devida calma assim que houver brecha na agenda — finalizou ela.

    — Perfeitamente… Hahahaha! Pois vá atender aos seus compromissos, senhorita Li. Proseamos em outra oportunidade — respondeu o veterano, forçando uma risada amigável. As feições, porém, contorciam-se num mosaico de tensão, enquanto seus olhos se arregalavam sob o peso daquela certeza crescente.

    A ligação terminou!

    Com o telefone repousado sobre a mesa, Su Ruiwen permaneceu petrificado por longos minutos. De olhos esbugalhados e olhar febril, remoía o impacto de dezenas de conexões mentais.

    Li Ruobing não conhecia Xu Zhenyuan a fundo? Logo, não fora ela quem ordenara a investigação!

    Ainda assim, mentira deliberadamente para blindar Wu Chen, insistindo na historinha da entrega de papéis.

    E, no ápice do diálogo, negara ignorância, mas fugira do assunto por pavor evidente de escorregar no discurso, forjando uma reunião de emergência para cortar a chamada.

    O que ela tentava acobertar a favor de Wu Chen afinal?!!

    Se a investigação das atrocidades de Xu Zhenyuan não brotara das ordens de Li Ruobing, de onde partira?

    Su Ruiwen remoeu os fatos exaustivamente. Lembrou-se de Wu Chen mencionar que Su Qingying guardava segredo a seu respeito; da insistência do rapaz em transferir a glória das descobertas para Li Ruobing; e da desenvoltura sobrenatural com que respondera a cada detalhe sobre Xu Zhenyuan…

    Reconstituiu com rapidez milimétrica todo o confronto que tivera com o jovem!

    Resgatou os comentários assombrados que os figurões de Donghai teciam sobre ele.

    E Su Ruiwen formulou, finalmente, uma hipótese tão arrojada quanto aterrorizante!

    A mente que desenterrara o passado criminoso de Xu Zhenyuan — o detentor daquela máquina de inteligência que desafiava a própria imaginação humana — não era Li Ruobing!

    Era Wu Chen?!

    O verdadeiro monstro por trás das cortinas… era Wu Chen?!

    Em cascata, Su Ruiwen relembrou o episódio em que a filha tomara o controle do conselho de administração, alcançando uma maioria inacreditável e dobrando até mesmo Yao Honglin, que traíra Xu Zhenyuan para cerrar fileiras com ela…

    Aquele golpe magistral ocorrera exatamente no dia seguinte àquele em que Wu Chen resgatara Su Qingying do gramado de golfe!

    Antes de o nome de Wu Chen ecoar pelos círculos da cidade, Su Ruiwen jamais registrara qualquer aproximação íntima entre a filha e Li Ruobing.

    Um garoto de vinte e dois anos, desprovido de qualquer berço de ouro ancestral. E, ainda assim, fosse qual fosse a jogada, até a primogênita dos Li — famosa pelo gênio despótico e dominador — assumia o papel de erguer escudos para acobertá-lo!

    O silêncio do gabinete tornou-se tumular.

    Su Ruiwen permaneceu pregado à poltrona, estático, com o semblante paralisado pelo espanto e pelas suspeitas, por um tempo sem fim.

    …

    Na Rua Haihe Oeste, o Audi A8 devorava o asfalto em alta velocidade.

    Trim, trim…

    O celular tocou.

    Com uma das mãos firme ao volante, Wu Chen sacou o aparelho, bateu os olhos no identificador de chamadas e atendeu, estampando um sorriso:

    — Fala, Ruobing.

    — Meu querido marido, você não tem vergonha nessa cara?! Que ousadia desmedida! Resolveu inventar uma loucura desse tamanho de novo? — disparou Li Ruobing de imediato, espumando de raiva!

    Nota