Capítulo 357 — Qiaoxiang
por NexoNovelCapítulo 357 — Qiaoxiang
A letra de Wu Chen era muito bonita. Claro, esse não era o ponto. An
Menglan não tirava os olhos do que ele escrevia, mas, sentada de frente
para ele, tinha certa dificuldade de ler tudo de cabeça para baixo.
Passou um bom tempo.
Wu Chen continuava escrevendo.
An Menglan acabou não se aguentando. Levantou-se, deu a volta na mesa e
se sentou na cadeira ao lado dele, inclinando a cabeça bem perto para
acompanhar.
Em geral, uma mulher jovem e bonita não se sentaria assim, sem mais nem
menos, ao lado de um homem com quem não tinha intimidade. Mesmo entre
amigos de muitos anos, homem e mulher dificilmente ficariam tão colados,
justamente para evitar mal-entendidos.
An Menglan, porém, nem pensou nisso.
A cabeça dela estava inteira na letra que Wu Chen escrevia.
E, além disso, ela era assim: franca, espontânea, livre! Se não havia
nada entre os dois, para que se preocupar?
Uns dez minutos depois.
Wu Chen terminou a letra. Toda escrita à mão, uns quatrocentos
caracteres ao todo!
Em seguida, passou à melodia!
Anotação de tudo quanto é tipo!
Chegou a marcar onde era preciso alternar entre voz de peito e falsete,
para definir a sensação geral de cada verso cantado!
Detalhado demais!
No total, levou cerca de meia hora. Wu Chen encheu três folhas A4 com
círculos, linhas, setas e indicações de todo tipo. O conjunto tinha toda
a cara de “rascunho”!
Pronto!
Wu Chen guardou a caneta, tampou-a e virou-se para An Menglan, sorrindo:
— Terminei!
E empurrou as folhas todas para a frente dela.
An Menglan as pegou e começou na hora a ler desde o início, com toda a
atenção. Ia murmurando alguma coisa enquanto lia, mas tão baixo que mal
dava para ouvir.
Wu Chen tomou um gole de café e virou o rosto para a janela.
Passou um bom tempo.
An Menglan já estava na segunda página e, sem perceber, começou a
cantarolar, procurando a sensação da música. No refrão, a ponta do pé
batia de leve no chão, marcando o ritmo.
— …Batem à porta… as mangas vazias… o sol de outrora… já não está no
rosto dele, as marcas do tempo… desespero… esperança…
De repente, An Menglan sentiu um aperto no peito.
Como musicista profissional ao extremo, mergulhava com muita facilidade
na emoção de uma música.
E, àquela altura, já tinha entendido do que falava a canção de Wu Chen!
Falava de uma esposa, ou de uma mãe, esperando o marido ou o filho que
tinha ido para a guerra voltar para casa. Dia após dia, ela esperava que
batessem à porta. Até que a guerra acabava e ele voltava, sim, mas
coberto de feridas e doenças, com uma deficiência para o resto da vida.
O homem que um dia tivera o rosto cheio de sol virara um soldado marcado
pelo sofrimento!
Tinha passado pelo desespero e também encontrado a esperança!
Qiaoxiang, de Wu Chen, não tinha palavras rebuscadas. A letra era
simples, singela. Mas, junto com a melodia, cantada em voz alta, deixava
An Menglan com o peito apertado de verdade!
Era uma “história” que mostrava a crueldade da guerra! No fundo,
naturalmente, uma canção antiguerra, um apelo pela paz!
Ninguém saberia dizer quanto tempo passou.
— Quando batem à…
An Menglan de repente subiu um pouco a voz, mas se calou no mesmo
instante. Foi reflexo de boa educação: não se canta dentro de um
restaurante!
Estava concentrada demais e só então “acordou”. Ergueu a cabeça, olhou
para Wu Chen e disse:
— Desculpa, senhor Wu…
E olhou em volta.
Só então reparou que o restaurante estava cada vez mais cheio.
Já passava das onze da manhã. Era hora do almoço, e os clientes
naturalmente começavam a chegar. Muitos já tinham reconhecido a
superestrela An Menglan e olhavam na direção dela.
E todos a viam sentada ao lado de um rapaz.
— E aí? Gostou? — perguntou Wu Chen, virando-se para ela com um sorriso.
— Hum… ficou muito boa — respondeu An Menglan, mas parecia meio inquieta
e voltou a olhar em volta.
Era a quantidade de gente.
O drama de ser celebridade!
Quem comia ali era gente de certo status, e por enquanto ninguém tinha
vindo incomodar. Mas, se o lugar enchesse mais um pouco, era bem
possível que alguém viesse pedir foto ou autógrafo.
E ainda havia o risco de alguém tirar foto escondido e jogar na
internet, inventando um romance! An Menglan não gostava desse tipo de
dor de cabeça desnecessária.
Baixou os olhos de novo para o manuscrito e então tornou a encarar Wu
Chen:
— Senhor Wu, pode subir comigo? Tem um piano no quarto. Queria testar
essa música agora…
An Menglan estava convidando Wu Chen para o quarto!
Não pensou muito. Só precisavam mudar de lugar, porque ali iam virar
atração. Além disso, queria mesmo cantar Qiaoxiang. Já sentia que era
uma boa música, mas, para saber até que ponto era boa, tinha de cantá-la
de verdade.
— Pode ser! — Wu Chen assentiu e sorriu para ela. — Me espera no
elevador.
An Menglan levou um segundo para entender.
Os dois não podiam sair juntos, senão iam chamar atenção!
— Tá bom. Obrigada, senhor Wu.
Ela também sorriu, tirou uma máscara da bolsa, colocou-a, pegou o
manuscrito e se levantou.
An Menglan saiu primeiro.
Wu Chen fez sinal para um garçom, pagou o café e só então se levantou.
Deixou o restaurante.
Atravessou um corredor comprido e luxuoso até chegar aos elevadores da
área dos quartos.
An Menglan esperava ali. Como tinha posto a máscara ao sair, ninguém que
cruzou com ela no caminho a reconheceu.
Os dois entraram no elevador.
An Menglan passou o cartão VIP e subiram!
Décimo quinto andar, suíte presidencial!
Uma suíte presidencial de mais de dez mil a diária tinha seus motivos
para custar caro. As do Hotel Jiahua, por exemplo, tinham até sala de
piano!
Quem reservara aquele quarto para An Menglan fora Song Xuan. Para uma
superestrela da música pop, uma suíte presidencial com sala de piano era
um cuidado muito atencioso.
An Menglan levou Wu Chen para dentro.
Passado o hall de entrada, Wu Chen parou, com uma das mãos no bolso, e
deu uma olhada na sala da suíte.
Luxuosa. Bonita!
An Menglan, por sua vez, atravessou a sala a passos rápidos, no
toc-toc-toc dos saltos. Junto ao sofá, tirou os sapatos, calçou
chinelos, tirou a máscara e só então se virou, indicando o caminho:
— Senhor Wu, por aqui.
Levou-o na direção da sala de piano.
Nem precisava indicar; Wu Chen já tinha visto. O piano ficava num
ambiente aberto, com uma varanda ensolarada do outro lado, à vista de
quem estivesse na sala.
An Menglan foi até lá, puxou o banco e se sentou ao piano.
Tinha trocado de sapato justamente para tocar. Usar os pedais de salto
alto era muito desconfortável. Não era impossível, só incômodo!
Sapato baixo era o ideal. Chinelo também servia!
An Menglan era profissional! Dominava piano e violino!
— Hum-hum!
Ajeitou o manuscrito na estante, abriu a tampa do teclado, pousou as
mãos sobre as teclas, limpou a garganta e respirou fundo duas vezes…
Entrou no clima rapidinho!
Ia começar na hora! Aquela música a deixara ansiosa para experimentar!
Dom…
Soou uma melodia de piano límpida e fria!
Passada a introdução, An Menglan começou a cantar Qiaoxiang com aquela
voz magnética, inconfundível!
Tocando e cantando ao mesmo tempo!
Era a primeira vez que cantava aquela canção antiguerra, mas a partitura
de Wu Chen era claríssima. Tecnicamente, An Menglan não teria problema
nenhum. O que Wu Chen escrevesse, ela cantava!
Wu Chen ficou ao lado, ouvindo.
Mais ou menos um minuto depois.
Ele estendeu a mão de repente, tirou da estante a primeira folha do
manuscrito e a pôs de lado… Era hora de virar a página. An Menglan tinha
esquecido de espalhar as três folhas!
Ela cantava muito bem e tocava bastante bem, mas acabara de receber
aquela música. Era impossível ter decorado tudo sem um único erro!
Precisava tocar, cantar e acompanhar o papel ao mesmo tempo.
Mais de dois minutos depois.
A música terminou.
An Menglan, porém, franziu de leve a testa.
Alguma coisa não estava certa.
— Vou de novo.
Estava totalmente imersa. Com Wu Chen, já deixava de lado muita
formalidade desnecessária.
A introdução límpida e fria voltou a soar!
An Menglan cantou de novo!
E uma terceira vez!
E uma quarta!
Continuava com a testa franzida, insatisfeita. Não com a música, mas
consigo mesma. Sentia que… ainda não tinha alcançado a emoção que a
música pedia!
— Por que você erra toda vez que toca? — perguntou Wu Chen de repente.
— Hum?
An Menglan, que ia começar a quinta vez, parou na hora e se virou para
ele. Levou um instante e perguntou:
— Dá pra perceber, senhor Wu?
— Toda vez você erra umas notas. Como não ia perceber? — riu Wu Chen. —
Que tal eu tocar? Você canta e eu acompanho. Talvez seja melhor você
ficar em pé, pra ter fôlego…
An Menglan levou mais um instante para reagir e então perguntou,
surpresa:
— O senhor também toca piano?
Uma pergunta conhecida.
Li Ruobing já tinha feito a mesma a Wu Chen.
