Capítulo 477 — Palavra dada!
por NexoNovelCapítulo 477 — Palavra dada!
— Capacidades sobrenaturais? — Wu Chen virou a cabeça para Li Ruobing, deixando transparecer no sorriso um lampejo de surpresa.
— Isso! Capacidades sobrenaturais. Você tem ou não? — cobrou Li Ruobing, encarando-o bem nos olhos. Antes, jamais se atreveria a interrogá-lo sobre isso, embora há muito suspeitasse que havia algo de místico e inexplicável em torno dele.
Se perguntava agora, era por julgar que o vínculo dos dois finalmente atingira aquele grau de maturidade. Nisso, estava em perfeita sintonia com Wu Chen. Ele também achava que a relação chegara a esse ponto; tanto que tivera o descaramento de carregá-la à força para a suíte de descanso e, à força… mimá-la até amolecer.
— Por que você pensaria uma coisa dessas? Isso não é nada científico — esquivou-se Wu Chen, com um meio sorriso enigmático.
— E desde quando você é científico? — retrucou Li Ruobing, sem hesitar.
— Hahaha! — Wu Chen riu e emendou: — Então você acha que eu tenho?
— Tem! — cravou Li Ruobing de imediato. — Acertei, não foi?
Wu Chen sustentou o olhar dela. Ele, que jamais permitia a ninguém perscrutar seus pensamentos, mergulhou num silêncio raríssimo; e calar-se, por si só, já era uma resposta.
Fez isso de caso pensado.
Sabia que aquele suspense aguçaria a curiosidade dela pelo que viria a seguir!
— Você tem mesmo?! — Li Ruobing arregalou os olhos, quase como se recebesse uma confirmação tácita.
— Hum… como posso explicar… — murmurou Wu Chen, em tom reflexivo. Após uma breve pausa, sorriu com brandura: — Para ser exato, tive algumas experiências extraordinárias no passado. Aconteceram antes de eu conhecer você e já terminaram. Só isso.
Wu Chen desconversou de propósito, desviando o foco diretamente para o passado.
E fisgou a atenção de Li Ruobing por completo!
Dizer aquilo não era de todo uma mentira. Afinal de contas, ter ficado preso num ciclo temporal por mil anos não era uma habilidade dele. Ocorria à sua revelia! A cada virada de noite, era reiniciado passivamente, trancafiado por 365 mil dias!
— Experiências extraordinárias? — Li Ruobing levou um segundo para processar.
Sentiu como se ele não tivesse respondido nada! Que ele tivera vivências fora do comum era evidente; todo mundo sabia disso. O nó da questão é que ninguém conseguia rastrear vestígio algum daquele passado.
— Essas experiências extraordinárias de antes… o que foram exatamente? — Li Ruobing colou o corpo no dele sem perder tempo, enlaçou-lhe o pescoço e insistiu.
— Adivinhe — devolveu Wu Chen, sorrindo.
Li Ruobing pescou no ato: ele não contaria mais nada! Sempre que Wu Chen soltava apenas um “adivinhe”, fechava as portas e não acrescentava meia palavra.
Ainda assim, aquilo já lhe bastava para ficar satisfeita.
Nada mau!
Afinal, no início, Wu Chen guardava seus mistérios a sete chaves. Ver que agora ele finalmente se dispunha a soltar uma nesga de confissão provava que a distância entre eles diminuíra de fato. Não se tratava de títulos formais ou de intimidade física, mas de proximidade emocional.
Estavam cada vez mais em sintonia!
Na verdade, Li Ruobing só tocara no assunto por pura curiosidade; pelo patamar de intimidade em que estavam, saber ou não os pormenores mudava pouca coisa. Não havia necessidade em escarafunchar o passado dele.
E, mesmo que quisesse conhecer aquelas experiências extraordinárias, não precisava ter pressa.
Passou-lhe até pela cabeça que, no dia em que desse à luz um filho dele, Wu Chen talvez abrisse o coração com muito mais naturalidade.
Muá!
Após ponderar um instante, Li Ruobing sorriu e plantou um beijo sonoro na face de Wu Chen, genuinamente radiante.
— Não vai insistir? — Wu Chen achou graça.
— Humpf! Conte se quiser — desdenhou ela, fingindo desinteresse. Lançou-lhe um olhar dengoso de censura, conferiu as horas no pulso e pôs-se de pé.
— Meu querido, vou só organizar umas coisas e vamos para casa — avisou, caminhando até a escrivaninha.
— Combinado! — Wu Chen anuiu, acompanhando a silhueta dela com o olhar.
Por volta das cinco e meia da tarde.
Wu Chen e Li Ruobing deixaram a sede da Huancai Fashion rumo à residência dele!
Foram no Mercedes-Maybach dela.
O Lamborghini que Wu Chen costumava dirigir também foi levado para sua mansão, escoltado e conduzido por um dos seguranças de Li Ruobing.
…
Pouco depois das sete da noite.
Distrito de Beicheng, cidade de Donghai. Zunrong · Donghai Huafu.
A escuridão já se assentara. A residência de Wu Chen resplandecia em luzes, com seguranças rondando tanto o perímetro externo da mansão quanto a guarita do condomínio.
Na cozinha, duas mulheres preparavam o jantar a quatro mãos.
— Ruobing, deixe os cortes comigo.
— Eu pico… Qingying, passe aquele pano para cá.
Li Ruobing usava uma camisola confortável por baixo do avental de cozinha. Su Qingying chegara havia cerca de meia hora e nem tivera tempo de trocar de roupa: ainda trajava o terninho de executiva e sapatos de salto alto, prestando auxílio a Li Ruobing.
Na sala de estar.
Wu Chen acomodava-se no sofá.
— … Marido, marido, marido! Eu errei, tá bom? Errei mesmo… — Mu Qianqian esperneava deitada de bruços, atravessada sobre as pernas de Wu Chen, que lhe aplicava palmadas nas nádegas e a impedia de escapar.
A garota chegara provocando-o com estripulias, e Wu Chen decidira aplicar-lhe um pequeno “corretivo”.
— Vive me chamando de grande vilão pelas costas, não é? — Wu Chen forçou um tom carrancudo. Mu Qianqian sabia que era brincadeira, mas os tapas ardiam de verdade.
— Eu já pedi desculpa, meu irmãozinho querido… — implorou ela, desmanchando-se em manha.
— Sua pestinha — riu Wu Chen, afrouxando a pegada e soltando-a.
Mu Qianqian empertigou-se num salto e já virou com a cara amarrada, desafiadora:
— Grande vilão!
Antes que ele pudesse agarrá-la de novo, a jovem avançou decidida, laçou-lhe o pescoço e deu-lhe um beijo.
Tinha uma veia travessa incurável que, perto de Wu Chen, desabrochava sem freios.
Talvez fosse o efeito da repressão no expediente. Ao lado de Su Qingying na empresa, via-se obrigada a manter uma compostura austera, respeitando protocolos e ritos corporativos à risca.
Ela tinha apenas dezoito anos!
Fingir ares de veterana do mercado era cansativo.
Mu Qianqian permaneceu aninhada a Wu Chen no sofá; chutou os sapatos de salto alto com a ponta dos pés e começou a brincar com ele em carinhos preguiçosos.
— Marido, a irmã Qingying e eu não vamos embora esta noite, tem problema? A irmã Li não vai chiar, vai? — sussurrou após um momento de dengo, baixando a voz de propósito para não ser flagrada por Li Ruobing.
— Claro que não — tranquilizou Wu Chen, apertando-lhe a bochecha com ternura.
— E… como é que a gente vai dormir hoje? — insinuou Mu Qianqian, ainda em tom confidencial, olhando para ele com os olhos úmidos e brilhantes.
— Você dorme sozinha no sótão — devolveu Wu Chen, com um sorriso trocista.
— Ah, nãoooo… — Mu Qianqian fez um biquinho suplicante na hora.
— Brincadeira — riu ele. — Resolvemos isso depois do jantar. A propósito, Qianqian, tenho uma coisa séria para falar com você…
— O quê? — Os olhos dela faiscaram de interesse. Wu Chen raramente tratava de pautas formais consigo, já que a considerava muito jovem e ainda desprovida de experiência prática.
Mesmo assim, Mu Qianqian tinha para si que Wu Chen a mimava mais do que a qualquer outra, justamente por ser a única com passe livre para fazer tanta bagunça.
— Posso lhe prometer uma coisa, sem direito a voltar atrás. Mas, em troca, você terá que me prometer uma coisa também — propôs Wu Chen, sorridente.
— Hum? Que jogo curioso é esse? Que tipo de coisa? — quis saber ela.
— Sobre o quê… Você começa. O primeiro pedido é seu — concedeu Wu Chen.
— Eu primeiro?… Vale qualquer coisa?
— Claro que não. Se me pedir para explodir a Lua, não vou conseguir — zombou ele, antes de emendar: — Algo dentro da realidade. Você só tem uma chance, então escolha com sabedoria.
— Hum… deixa eu pensar… — Mu Qianqian fechou a cara numa expressão pensativa.
Não sabia se ele estava apenas cortejando-a ou se havia algo mais profundo por trás. Contudo, a brecha fora aberta e ela compreendeu que poderia fazer uma exigência de peso colossal.
Com o prestígio e a influência avassaladora ostentados pelo “senhor Wu de Donghai”, até um pedido absurdo seria resolvido num piscar de olhos por ele.
Desde que guardasse os pés no chão, como ele próprio frisara.
Passou-se um minuto inteiro de suspense.
— Já sei! — disparou Mu Qianqian, rindo para ele. — Vou falar, hein? Está dentro da realidade, e você não pode dar para trás!
— Pode mandar. Estou ouvindo — assentiu Wu Chen, mantendo a calma.
Mu Qianqian sustentou a mira nos olhos dele, inclinou-se para a frente e murmurou bem perto:
— Eu quero que você goste de mim! Me mime! Pela vida inteira! E, toda vez que eu trombar com uma pedreira pela frente, você tem que vir me salvar. Fechado?
Ela falava com o coração na mão. Para Wu Chen, porém, aquilo nem chegava a ser uma exigência real, pois já faria tudo isso por vontade própria, com ou sem promessas solenes.
Ele enxergava com nitidez a insegurança cravada no íntimo da garota.
Ainda que relutasse da boca para fora em admitir que o amava e tentasse fingir desapego, suas atitudes corporais traíam uma devoção absoluta.
Ela era a mais jovem, a menos influente, enquanto as outras mulheres que orbitavam Wu Chen eram titãs… Mu Qianqian morria de medo de perder o fôlego e ser deixada para trás na esteira da vida dele!
— Trato feito! Eu prometo — cravou Wu Chen, anuindo com a cabeça. — Agora é a minha vez.
— Manda ver! Qualquer coisa tá valendo, do jeitinho que você quiser — entregou-se ela num sorriso radiante, desprovida de qualquer pudor diante dele. Estava pronta para conceder o que quer que fosse.
— A minha condição é a seguinte… — Wu Chen aproximou-se do ouvido dela e sussurrou em tom grave: — Qianqian, sem a minha expressa autorização, você jamais contará a ninguém como nós nos conhecemos!
— Como nos conhecemos? Mas a gente se conheceu num bar! Você veio puxar assunto comigo, bateu boca e quase saiu na mão com os caras lá… Um monte de gente do bar viu, eles sabem disso… — Mu Qianqian franziu o cenho, confusa com o pedido tão peculiar.
— Basta não tocar mais no assunto. Você consegue guardar isso para si? — insistiu Wu Chen.
— Claro que consigo! — anuiu ela sem pestanejar. Que mistério haveria nisso?
— Palavra dada?
— Palavra dada!
Pá!
Os dois selaram o juramento estalando as palmas das mãos.
Mu Qianqian deu de ombros, achando que era apenas mais um dos joguinhos sedutores dele. Ganhou um passe livre e aproveitou para arrancar a garantia mais valiosa da sua vida!
Ela não se deu conta na hora.
Na realidade, o verdadeiro segredo que Wu Chen pretendia blindar a sete chaves era…
Na última noite do ciclo milenar, sem desconfiar que o tempo finalmente voltaria a correr, Wu Chen se abrira com Mu Qianqian sem nenhum filtro, despejando a narrativa estarrecedora dos mil anos em que viveu confinado num único dia repetido!
Mu Qianqian era alguém que ouvira dele o segredo do ciclo milenar!
Na ocasião, a garota absorvera a história como se fosse uma anedota bem contada. E, quando o ciclo expirou na manhã seguinte, seu veredito foi apenas o de que Wu Chen era um mentiroso adorável e fascinante!
Nenhum ser em sã consciência engoliria um disparate daquele calibre.
Contudo… desde que a nova linha temporal começara a avançar, os feitos executados por Wu Chen acumulavam-se num patamar assombroso demais. Mu Qianqian não tinha nada de tola. Em algum momento no futuro, as lembranças voltariam à tona. Algum evento fortuito faria ressoar os detalhes daquela noite e, fatalmente, as pulgas atrás da orelha começariam a coçar.
É bem verdade que ela já não era de espalhar intimidades de Wu Chen por aí.
Mas bastaria que soltasse a história num momento de bobeira com Su Qingying ou Li Ruobing… Mulheres do calibre intelectual daquelas duas não demorariam meio segundo para deduzir que a teoria do ciclo temporal milenar podia ser a pura verdade!
Wu Chen estava apenas vacinando Mu Qianqian com antecedência.
Assim, quando o choque de lucidez a atingisse no futuro, o primeiro impulso dela não seria bater com a língua nos dentes, mas sim procurá-lo em particular para exigir respostas.
…
Enquanto isso.
Distrito industrial no subúrbio norte de Donghai. Fábrica de Máquinas Tianhe.
As sirenes de fim de turno já haviam soado há horas. Sob o manto da noite, a planta fabril deveria estar em breu e silêncio sepulcral. Contudo, junto à estrutura do estacionamento coberto atrás dos galpões, aglomeravam-se dezenas de homens, a maioria portando lanternas de alta potência.
O perímetro da cobertura fora isolado às pressas por lonas grossas.
Um cordão de seguranças de terno preto montava guarda no lado de fora. Na parte interna, operadores empunhavam picaretas e marteletes para estilhaçar a laje de concreto, abrindo uma vala em busca de algo oculto.
Mais adiante, no pátio interno da fábrica.
Uma frota de mais de dez sedãs Mercedes-Benz repousava com os motores desligados diante do bloco administrativo.
No interior do Mercedes-Maybach que ocupava o centro do comboio.
— Chefe Su, afinal de contas… o que o senhor está tentando encontrar? — indagou com voz trêmula e subserviente um homem de meia-idade, calvo, acomodado à esquerda no assento traseiro.
Tratava-se de Wei Jianhe, o dono da Fábrica de Máquinas Tianhe.
Naquela tarde, minutos antes do encerramento das atividades, o diretor-presidente do conglomerado que era o principal cliente da fábrica telefonara para ele pessoalmente. Dissera que precisava apresentá-lo a uma figura de peso astronômico: ninguém menos que Su Ruiwen, o homem mais rico de Donghai!
Wei Jianhe, como era de esperar, quase pulara de alegria com a oportunidade de ouro!
Mais tarde, assim que o sol se pôs, o próprio Su Ruiwen desembarcara no portão com seu séquito particular.
E impusera uma exigência esdrúxula.
Wei Jianhe cumprira as ordens sem chiar, mas a cabeça fritava tentando adivinhar o enigma. Seria possível que houvesse alguma relíquia antiga enterrada sob suas fundações?
— O que estamos caçando… você vai descobrir daqui a pouco — respondeu Su Ruiwen, arqueando a testa em desgosto enquanto espiava pelo vidro. Ele próprio ainda tentava digerir o absurdo da situação.
Virando-se para o industrial, Su Ruiwen interrogou:
— Chefe Wei, ao longo dos últimos anos, alguma dessas instalações ou o piso do pátio sofreram avarias? Alguém veio escavar aqui na surdina em algum momento?
