Capítulo 466 — O que foi, amor?
por NexoNovelCapítulo 466 — O que foi, amor?
— Senhor Wu? — Wu Dahai franziu o cenho para Chen Jinye. — Como assim, senhor Wu de Donghai?
— É uma alcunha parecida com a de “Jovem Mestre Li de Donghai” — esclareceu Chen Jinye. Em seguida, acrescentou: — Enfim, dizem que o cara tem uma influência absurda, resolve qualquer parada e todo mundo na cidade baixa a cabeça para ele… Parece ser ainda mais jovem que o Li Ruotai.
— Mas por que está me contando isso? — perguntou Wu Dahai, matutando. — Está insinuando… que pode ser o meu filho?
— No começo, até me passou pela cabeça se não seria o Xiao Chen. Mas depois, analisando direito… ouvi dizer que esse tal senhor Wu tem uma bagagem familiar pesadíssima, costas quentes demais. Aí complica…
Nem Chen Jinye conseguia estruturar a história com precisão.
Ele não tinha trânsito na alta roda de Donghai, e os meandros do submundo da metrópole em nada cruzavam o caminho de um dono de fábrica de uma cidadezinha do interior.
A barreira real era a falta de cacife financeiro e de projeção social; sem isso, era impossível ter acesso direto a dados fidedignos sobre a identidade do “senhor Wu”.
Se certos boatos não tivessem ecoado com tanta força entre os figurões do topo da pirâmide em Donghai, jamais teriam vazado para os estratos inferiores.
E muito menos alcançado os ouvidos de um empresário interiorano como ele.
Li Ruotai, a título de exemplo, atuava em Donghai havia anos. Embora só tivesse fincado raízes oficiais na cidade após a formatura na faculdade, cerca de quatro anos antes, a verdade era que, seis anos atrás, ainda nos tempos de estudante, já baixara por ali para sondar o terreno. Valendo-se das conexões familiares, abocanhara um lote nobre e erguera o Clube Huangguan.
A lenda em torno do Jovem Mestre Li começara a circular bem cedo naquelas bandas.
Mesmo assim, o conhecimento de Chen Jinye a respeito do herdeiro dos Li resumia-se a relatos vagos de que o sujeito era poderoso, formidável e implacável em suas ordens. Não sabia quase nada além disso — como a extensão real dos negócios da família ou os cargos que seus parentes ocupavam.
E isso perdurava havia anos.
Já o título de “senhor Wu” só começara a ganhar tração nas conversas de Donghai havia coisa de duas ou três semanas.
As informações que chegaram a Chen Jinye já haviam passado de boca em boca tantas vezes que vinham carregadas de distorções e exageros.
— Ouvi dizer também que esse senhor Wu conhece o Jovem Mestre Li e que os dois têm uma relação fora do comum… — completou Chen Jinye, ainda em dúvida.
— Ele tem linhagem poderosa? — perguntou Wu Dahai.
— Foi o que disseram! Falam que o respaldo dele é gigantesco, que tem conexões diretas… com gente do topo. — Chen Jinye ergueu o indicador na direção do céu ao falar.
— Então de jeito nenhum poderia ser o meu Xiao Chen! Você conhece a nossa vida como a palma da sua mão. De onde a gente tiraria esse tipo de influência? — Wu Dahai riu de orelha a orelha.
— Pois é, foi exatamente nessa tecla que bati. Deve ser só alguém com o mesmo sobrenome que vocês. Outro Wu — concluiu Chen Jinye.
Os dois velhos parceiros deixaram o assunto morrer em meio a risos descontraídos, encarando tudo como mera curiosidade de mesa de bar.
Enquanto isso, junto à mesa de jantar da sala…
Zhang Xiujuan, Wu Jiao e Chen Xue estavam reunidas em volta da mesa limpando verduras. Chen Jinye trouxera a filha para passar o dia e viera carregado de ingredientes frescos.
— Mãe, por que a senhora não manda o meu irmão e a minha cunhada levantarem de uma vez? Dormir até tarde desse jeito! Olha que horas são! — resmungou Wu Jiao, fazendo beicinho de protesto.
— Ai, menina… — Zhang Xiujuan lançou um olhar repreensor à filha.
— A senhorita Li é visita. Onde já se viu acordar visita para pôr para trabalhar? — interveio Chen Xue, com voz suave.
— Tá vendo só? Até a Xiaoxue tem mais juízo do que você — ralhou Zhang Xiujuan com a filha.
— Humpf! — Wu Jiao bufou enquanto retirava as folhas do aipo, resmungando baixinho: — Eram pouco mais de oito quando ouvi gente conversando no quarto do meu irmão. Já estavam acordados fazia tempo. Por que enrolaram tanto para sair…? Sabe-se lá o que ficaram aprontando… Ele deve estar de graça para cima da cunha…
Plaft!
Zhang Xiujuan deu um tapa estalado no dorso da mão da filha.
— Cuidado com essa língua, garota! — censurou-a com o olhar fulminante, baixando a voz instintivamente por precaução.
— Mas é a pura verdade — insistiu Wu Jiao entre os dentes. — Boa coisa é que não estavam fazendo.
Ao lado, o rosto de Chen Xue ardeu em vermelho vivo; captara a insinuação no mesmo instante.
E não era para menos: as duas haviam se hospedado na mansão de Li Ruobing e, naquela noite fatídica, seus ouvidos haviam testemunhado ruídos inequívocos.
— Você quer me matar de desgosto, menina? O que é isso que está dizendo? — Zhang Xiujuan fervia de exasperação, mas não podia espancar de fato a filha, que já era uma mulher feita. Teve que se contentar em encará-la com os olhos faiscando enquanto murmurava: — Espere só o seu irmão pisar aqui fora. Diga isso na cara dele para ver se não leva um corretivo bem dado.
— Humpf… — Wu Jiao soltou mais um grunhido, mas achou prudente engolir o restante das provocações.
De repente, veio um som característico do quarto de Wu Chen.
Instantes depois, a porta se abriu.
Wu Chen e Li Ruobing surgiram no corredor, impecavelmente vestidos e arrumados.
— Já acordou, Bingbing? Por que não descansou um pouquinho mais? Eu estava planejando chamar vocês só na hora do almoço — disse Zhang Xiujuan, erguendo a cabeça com uma doçura transbordante no sorriso dirigido a Li Ruobing.
Nem sequer se deu ao trabalho de falar primeiro com o filho; a prioridade absoluta era a nora.
— Já dormi o suficiente, tia — respondeu Li Ruobing, retribuindo o sorriso de forma polida.
— Maninho! Eu já estava de pé às oito da manhã, sabia? — alfinetou Wu Jiao na direção de Wu Chen, com um brilho malicioso no olhar que dizia muito mais do que as palavras.
— Pelo visto você acordou pedindo para apanhar — rebateu Wu Chen, sorridente. Deu alguns passos até a mesa e, por trás, segurou a irmã pela nuca, empurrando-lhe a cabeça para baixo sem força real.
— Ai, tá bom, tá bom, eu errei, maninho! Mãe, olha só, ele já começou a implicar comigo de novo! — Wu Jiao pediu arrego e fez a queixa no mesmo fôlego.
— Xiao Chen… — Zhang Xiujuan chamou a atenção do filho, lançando um olhar furtivo a Li Ruobing por reflexo.
Em condições normais, aquela troca de implicâncias entre irmãos dentro de casa era a coisa mais corriqueira do mundo.
Contudo, Li Ruobing estava presente.
A mãe temia que as atitudes brincalhonas de Wu Chen passassem uma impressão de imaturidade aos olhos de uma mulher tão imponente.
O que Zhang Xiujuan não podia conceber era o modo como Li Ruobing realmente enxergava Wu Chen. Na verdade, a herdeira apreciava testemunhar aquelas cenas banais de convivência dele com os parentes.
Era tudo tão genuíno!
Somente no aconchego do lar Wu Chen despia aquela aura indecifrável e assombrosa, deixando de parecer uma entidade enigmática e inalcançável.
— Tia, deixa que eu ajudo…
— Não, não precisa, Bingbing. Vá se sentar, descanse um pouco…
— Não se preocupe, tia, não é trabalho pesado. Eu cozinho de vez em quando em casa.
Li Ruobing puxou uma cadeira e começou a ajudar a limpar as verduras.
Após provocar a irmã mais um pouco, Wu Chen caminhou em direção à sala de estar.
Chen Jinye e Wu Dahai, tendo terminado a sessão de fumo, retornaram da varanda quase no mesmo momento.
— Tio Chen, que bom que veio.
— Hahaha, Xiao Chen, já de pé!
Chen Jinye cumprimentou Wu Chen cordialmente. Em seguida, espiou em direção à mesa de jantar e, ao notar que Li Ruobing olhava para aquele lado, apressou-se em abrir um sorriso respeitoso, assentindo:
— Presidente Li!
O grupo reuniu-se em torno do sofá para conversar.
— Pai, eu e a Ruobing vamos pegar a estrada logo após o almoço. A empresa dela está atolada de serviço… Ela precisa bater ponto no escritório à tarde — avisou Wu Chen ao pai.
Wu Dahai assentiu sem delongas, sem tentar forçá-los a ficar mais alguns dias.
A cidade ficava a um pulo dali, e jovens com energia de sobra tinham mais é que batalhar pelo próprio sustento lá fora.
— Ah, Xiao Chen, estive trocando uma ideia com o seu tio Chen sobre aqueles trinta milhões que você mandou. Ele deu a ideia de investirmos em imóveis… — comentou Wu Dahai, retomando o dilema da aplicação do dinheiro.
Wu Chen arqueou ligeiramente as sobrancelhas ao escutar aquilo.
Não foi a viabilidade do conselho que lhe chamou a atenção, mas sim a postura adotada por Chen Jinye, que o fez subir ainda mais no seu conceito.
Ele sabia que seu pai e Chen Jinye eram amigos leais, mas o coração humano oscila com facilidade, e o caráter raramente sobrevive ileso diante de cifras tentadoras.
A jogada mais lucrativa para Chen Jinye, diante daquele montante de trinta milhões, teria sido convidar abertamente o velho Wu a comprar uma fatia da sua fábrica.
Dessa forma, os negócios de Chen Jinye passariam a ser os negócios da família Wu. Valendo-se do peso e dos contatos de Li Ruobing, aquele empreendimento não decolaria feito um foguete?
Contudo, Chen Jinye rechaçara essa trilha.
Preferira indicar um caminho sólido, sem riscos desnecessários.
Podia-se dizer com louvor que ele superara a prova de fogo da ganância, zelando com honestidade pelo bem-estar do seu “velho irmão”!
Um homem reto! Eis ali um amigo de verdade!
Wu Chen sentiu uma imensa satisfação ao ver que o pai contava com um companheiro de tamanha retidão moral, sentindo-se muito mais descansado; com a tutela cautelosa de Chen Jinye por perto, seu pai não faria besteira mesmo estando forrado de dinheiro.
Depois de papearem por mais alguns minutos, Wu Chen avaliou Chen Jinye com o olhar algumas vezes e ponderou antes de puxar assunto:
— Tio Chen, ouvi dizer que a sua fábrica chegou a fornecer materiais para a empresa da Ruobing uns anos atrás. Por que a parceria acabou desandando…? — perguntou Wu Chen de propósito, muito embora já soubesse exatamente como as engrenagens daquele episódio haviam girado.
— Bem… É que… Ah… — Chen Jinye abriu a boca, mas as palavras travaram na garganta; ele lançou um olhar hesitante na direção de Li Ruobing.
Havia espinhos naquela história que ele não tinha coragem de tocar!
— Ruobing. — Wu Chen virou a cabeça e chamou-a.
— O que foi, amor? — Li Ruobing ergueu o rosto, enquanto limpava as verduras.
— Venha cá um instante. — Wu Chen gesticulou para que ela se aproximasse.
