Capítulo 510 — Uma expressão de completo espanto!
por NexoNovelCapítulo 510 — Uma expressão de completo espanto!
He Shiqin não esperava que a filha fosse “desobediente” a ponto de atender assim, sem mais nem menos.
Embora He Xinxin às vezes batesse boca com ela em casa, quando Wu Chen estava presente costumava ser diferente. He Shiqin nem sabia que método ele usava para deixar a menina tão mansinha.
He Shiqin estendeu a mão para “arrancar” o celular da filha.
— Golpista maldito! Desgraçado! Seu traste! — disparou He Xinxin assim que atendeu, sem nem esperar que o outro lado dissesse alguma coisa.
A mão de He Shiqin, prestes a “arrancar” o celular, travou no ar.
— Você tem algum problema? Por que fica ligando toda hora? Se é doente, vai se tratar! Se a cabeça não funciona, vai para o hospital! E, se não tiver cura, pula de um prédio! Pra que continuar vivo, seu traste? Some! Some! Some! — He Xinxin despejou tudo numa velocidade impressionante e, num gesto rapidíssimo, afastou o celular do ouvido e desligou.
Não deu ao outro lado a menor chance de responder.
Talvez por estar ao lado da mãe, He Xinxin até xingara de forma relativamente comportada, sem palavrões envolvendo a mãe de ninguém; mesmo assim, cumprira muito bem o papel de ofender.
E, o mais importante:
He Xinxin não sabia quem estava ligando para ela.
He Shiqin, porém, sabia.
He Xinxin continuou agindo com agilidade: assim que desligou, entrou nas configurações do sistema e ativou a lista de números permitidos o mais rápido que pôde, com medo de que o sujeito ligasse de volta para xingá-la.
He Shiqin observava a filha, atônita. Aquilo combinava bem com o temperamento de He Xinxin; o problema era a pessoa que ela acabara de xingar…
Pensando nisso, He Shiqin não se conteve e deixou escapar uma risadinha.
Com o gênio de Ding Ruilong, que já estava espumando, ser xingado de cara pela própria filha certamente o deixaria louco!
— Sua danadinha, desde quando aprendeu a xingar desse jeito? — He Shiqin empurrou de leve o ombro da filha, tentando parecer séria, mas segurando o riso.
— Mãe, eu estava defendendo você! Por que está brigando comigo? — protestou He Xinxin na hora, num tom meio manhoso.
— Professor, olha a minha mãe! Está brigando comigo! E eu nem falei nada tão feio assim… — He Xinxin levantou-se, deu dois passos até a poltrona de Wu Chen, puxou-lhe o braço e foi se queixar com ele.
Nem ela sabia direito por que fazia aquilo.
Só sentia que Wu Chen tomaria o seu partido.
Afinal, a mãe tratava o professor Wu daquele jeito.
— Xingar os outros nunca é certo — disse Wu Chen, repreendendo-a primeiro.
— Humpf… — He Xinxin fez biquinho e bufou, com ar contrariado.
— Mas desta vez você fez a coisa certa — acrescentou Wu Chen, sorrindo.
— Hehe! — He Xinxin abriu um sorriso na hora e ainda lançou um olhar triunfante para a mãe.
He Shiqin não sabia se ficava brava ou se ria.
Os três ainda conversaram mais um pouco sobre se He Xinxin agira certo ou errado ao xingar; depois, a menina tornou a subir para continuar arrumando o ateliê de pintura.
Só quando os passos no andar de cima silenciaram por completo foi que Wu Chen retomou com He Shiqin os assuntos que a menina não podia ouvir.
— Quando Ding Ruilong perder totalmente o contato com vocês, com certeza vai mandar gente a Donghai para procurá-las, além dos homens que ele já tem aqui. De agora em diante, não use o seu cartão de crédito. Vou mandar providenciarem dois cartões para vocês…
Wu Chen ainda discutiu com He Shiqin uma série de detalhes.
Logo.
Passados alguns minutos.
He Shiqin lembrou-se de repente de uma questão crucial.
— Senhor Wu, Ding Ruilong vai conseguir puxar o meu histórico de chamadas, não vai? Vai descobrir que tenho contato com o senhor e também com a senhorita Li… — enquanto falava, He Shiqin voltou a se afligir.
Ela também tinha o número de Li Ruobing; afinal, morava numa casa que era dela, então era natural que mantivessem contato.
— Não se preocupe. O meu número é criptografado no sistema da operadora… — sorriu Wu Chen. — O da Ruobing também; o nível de autorização dela não é tão alto quanto o meu, mas ninguém vai conseguir consultar esses registros.
Tanto o número de celular quanto as contas bancárias de Wu Chen eram protegidos por criptografia.
Sempre que ele falava com alguém pelo celular, o sistema da operadora apagava automaticamente o registro da chamada, e qualquer registro relacionado também era eliminado.
Assim, não importava para quem Wu Chen ligasse ou de quem recebesse ligações: nos extratos das operadoras de ambas as partes, não constaria registro algum daquelas chamadas.
Quanto às contas bancárias… raríssimas pessoas tinham como acessar as informações das contas de Wu Chen.
Tudo aquilo fora obra de Li Maoren!
Depois de ir a Donghai, encontrar Wu Chen e, numa longa conversa, acabar enredado pelas manobras dele, Li Maoren voltara e mandara elevar o nível de sigilo das informações de Wu Chen ao grau máximo que seu poder e suas atribuições permitiam!
Nem mesmo os registros das passagens de trem de alta velocidade de Wu Chen podiam ser consultados por terceiros.
De início, Li Maoren fizera aquilo para impedir que alguém descobrisse seu contato com Wu Chen; afinal, o que os dois haviam combinado era grande demais, grande demais! Não se podia admitir um deslize num “detalhe” como aquele.
Wu Chen não explicou esses pormenores a He Shiqin.
E ela, ao ouvi-lo dizer que não havia problema, também não perguntou mais nada.
Os dois conversaram mais um pouco; então Wu Chen levantou-se para se despedir. Combinara um horário com He Shiqin e voltaria para buscá-las.
Wu Chen foi embora.
Desceu.
Estacionamento subterrâneo.
Mal se acomodara na Lamborghini, o celular tocou.
Trim, trim…
Era Meng Junhao!
Os dois já tinham combinado de se encontrar para conversar com calma.
— Senhor Wu. — Assim que Wu Chen atendeu, a voz de Meng Junhao soou pelo aparelho, com uma pontinha de nervosismo.
— Ding Ruilong ligou para você — disse Wu Chen, sem rodeios.
— Ah… Isso. Ele mesmo acabou de me ligar. Mandou que eu seguisse o senhor e também que procurasse duas pessoas, mãe e filha… — Meng Junhao estava passando a informação adiante.
Wu Chen sabia que Ding Ruilong encarregaria Meng Junhao da investigação; fora justamente por isso que marcara o encontro com ele.
E Meng Junhao, evidentemente, não fazia ideia de qual era a relação de He Shiqin e He Xinxin com Ding Ruilong.
Pensando bem, dentro da família Ding talvez muita gente soubesse que Ding Ruilong tinha uma filha fora do casamento; fora dela, porém, pouquíssimos sabiam.
Uma grande família do mesmo porte da Ding, como a família Li, naturalmente descobrira tudo quando as duas negociaram a aliança matrimonial.
Em Modu, Mao Rusong tinha certa amizade pessoal com Ding Ruilong e sempre ajudara a cuidar de He Shiqin e He Xinxin; por isso, também sabia.
Já alguém do escalão de Meng Junhao, ainda por cima baseado em Donghai, não tinha nem os meios nem as conexões para saber.
— Eu sei. Conversamos pessoalmente — respondeu Wu Chen. Sem rodeios, trocaram mais duas frases e desligaram.
A Lamborghini deixou o Residencial Jinzun.
E ganhou a via principal.
Dirigindo com uma das mãos, Wu Chen discou outro número.
A ligação foi atendida logo.
— Senhor Wu. — Ouviu-se uma voz levemente rouca.
Era Lao Dao!
Ele estava praticamente recuperado dos ferimentos e permanecia de prontidão. Quando não tinha o que fazer, ia conversar com Jiang Chuan, que continuava detido em segredo. Wu Chen lhe dera uma verba operacional de oito dígitos, e Lao Dao vinha coordenando por telefone a vinda de mais homens para Donghai.
Na verdade, Lao Dao já era muito rico por conta própria.
Depois de tantos anos como assassino profissional e homem sem nada a perder, além de manter laços estreitos com grupos locais do norte de Mianmar, tinha um patrimônio de pelo menos nove dígitos.
Só que antes não conseguia se desvencilhar daquela vida: estava afundado demais, sem caminho de volta.
Wu Chen o ajudara a sair.
Mas o dinheiro de Lao Dao era de Lao Dao. Já que Wu Chen contava com os serviços dele, naturalmente não o trataria mal nem o manteria na linha apenas com ameaças e chantagens. Aliás, de todos ao seu redor, Lao Dao era, no momento, aquele em quem Wu Chen mais confiava.
Embora Wu Chen o tivesse esfaqueado algumas vezes, depois lhe dera uma vida inteiramente nova, longe do perigo e das trevas!
O caráter daquele sujeito, por si só, já bastava para inspirar confiança.
Afinal, fora o primeiro homem de verdade que Wu Chen encontrara ao longo do milênio de repetição temporal capaz de resistir aos seus interrogatórios sob tortura!
— Pegue um veículo executivo dos bons e venha até o Residencial Jinzun, em Beicheng. Espere por mim do lado de fora — ordenou Wu Chen.
— Pode deixar, senhor Wu — respondeu Lao Dao.
Meia hora depois.
Distrito de Zhongcheng, cidade de Donghai. Rua comercial.
A Lamborghini, que vinha em disparada, começou a reduzir. De longe, Wu Chen avistou um Mercedes-Benz Classe S preto estacionado à beira da rua, perto da entrada norte do calçadão, e parou a Lamborghini logo atrás dele.
Desceu do carro.
Caminhava em direção à porta do motorista do Mercedes quando ela se abriu de repente: o motorista o vira se aproximar. Quem desceu foi um homem de terno preto e óculos escuros.
Era o guarda-costas de confiança que Li Ruotai deixara em Donghai para cuidar do Clube Huangguan de Donghai.
Wu Chen sabia o nome dele: Hu Bai. Servira no Exército e, ao dar baixa, entrara direto para a família Li.
A família Li já tinha todo um sistema montado para formar homens de confiança. Quem entrava para os Li como guarda-costas ou era excepcionalmente competente, profissional e bom de briga, ou já tinha algum vínculo prévio com a família.
Hu Bai pertencia ao segundo grupo: o tio dele, irmão de seu pai, era um guarda-costas de confiança que acompanhava Li Maoren havia mais de dez anos.
— Senhor Wu. — Hu Bai desceu do carro para cumprimentá-lo e entregou-lhe uma chave.
Viera justamente entregar a chave da villa; Li Ruotai o mandara.
Wu Chen pegou a chave da villa, jogou a da Lamborghini para Hu Bai e disse:
— Vamos trocar de carro. Leve o meu até a frente do prédio da empresa da Ruobing e entregue a chave a ela…
— Sim, senhor Wu — respondeu Hu Bai prontamente, sem rodeios.
Não sabia o motivo, mas não perguntaria o que não lhe cabia perguntar. Era um profissional.
Os dois trocaram de carro.
Wu Chen voltou à estrada ao volante do Mercedes preto.
Rumo a Dongcheng!
Pouco mais de dez minutos depois, distrito de Dongcheng, Café Shudao.
Fora ali o primeiro encontro entre Wu Chen e Meng Junhao. O café fora aberto por Meng Junhao para a amante; era território dele, absolutamente seguro.
Na porta de vidro, pendia uma placa avisando que o estabelecimento estava fechado.
Wu Chen desceu do carro, ajeitou o paletó e caminhou para dentro com uma das mãos no bolso.
Empurrou a porta e entrou no café.
Estando fechado, naturalmente não havia clientes. E, ao contrário da primeira visita de Wu Chen, quando o salão estava lotado de sujeitos mal-encarados, desta vez havia pouca gente: Meng Junhao trouxera apenas alguns homens de absoluta confiança, todos sentados perto da entrada, que se levantaram de uma vez ao ver Wu Chen entrar.
Não para intimidá-lo, claro; era só cortesia.
— Senhor Wu. — Meng Junhao, sentado num canto ao fundo do salão, também se levantou e acenou para ele. Saiu do lugar e indicou o caminho com a mão: — Senhor Wu, vamos lá para cima…
Os dois subiram.
Segundo andar do café.
Sentaram-se junto à janela, com as cortinas entreabertas.
— Senhor Wu, esse Jovem Mestre Ding… quer dizer, esse tal de Ding, o que está aprontando agora? Será que ele vai de novo… — Meng Junhao começou a perguntar, sem conseguir esperar. Sentia mesmo que sua situação era dificílima; embora Wu Chen quase não o acionasse, ainda tinha a sensação de andar na corda bamba.
Meng Junhao sabia que Wu Chen dissera a Li Ruotai que ele, Meng Junhao, era homem de Wu Chen.
O problema de ser agente duplo parecia resolvido.
Mesmo assim, temia que algo acontecesse a Wu Chen. Se acontecesse, Li Ruotai certamente não o perdoaria.
— Faça o seguinte: Ding Ruilong mandou você me investigar, e também a He Shiqin e a He Xinxin. Prepare-se, organize os seus homens e, hoje, lá pelas cinco da tarde, mande alguém… — Wu Chen não se alongou em explicações e passou direto às instruções.
Primeiro, queria que Meng Junhao entendesse o que tinha de fazer.
— Quando conseguirem as fotos, mande-as para Ding Ruilong ainda hoje à noite. Diga que descobriu tudo e que tirou as fotos enquanto me seguia… — Wu Chen resumiu.
— Ah… Pode deixar! — Meng Junhao hesitou um instante, depois assentiu.
Não que duvidasse da tarefa que Wu Chen lhe dava; o que o deixava confuso era a conduta dele. Sabia muito bem que Ding Ruilong voltara a investigá-lo e ainda assim queria entregar tudo de bandeja? Por vontade própria?!
— Senhor Wu, posso fazer uma pergunta, se não for indiscrição… — arriscou Meng Junhao, medindo as palavras.
— Pergunte — disse Wu Chen, assentindo com um sorriso.
Foi nesse momento.
Ouviram-se passos na escada. Uma mulher bem bonita, de maquiagem um tanto carregada, subiu trazendo uma pequena bandeja. Era a mulher de Meng Junhao, dona do café, vindo servir os dois.
Naturalmente, Meng Junhao deixara aquilo combinado.
Os dois interromperam a conversa.
A mulher pousou uma xícara de café ao lado de cada um e foi embora sem dizer palavra.
Só depois que ela desceu Meng Junhao voltou a falar.
— Senhor Wu, por que o senhor… Quer dizer, o senhor sabe que Ding Ruilong quer… — Meng Junhao nem sabia mais como formular a pergunta. As ordens de Ding Ruilong lhe pareciam perfeitamente normais; afinal, era o homem que mandara assassinos atrás de Wu Chen. Era um ódio de vida ou morte, e estava claro que Ding Ruilong queria pegá-lo.
A manobra de Wu Chen, porém, era muito, muito estranha!
— Quero dar uma cutucada em Ding Ruilong. Ele é do tipo que erra com muita facilidade; um erro puxa o outro — respondeu Wu Chen, sorrindo, deixando Meng Junhao completamente às cegas.
Meng Junhao percebeu que Wu Chen não queria lhe dar detalhes.
No fundo, era até melhor assim: quanto menos soubesse, mais seguro estaria.
Mas Meng Junhao continuava com medo.
Não sabia se Wu Chen contara em particular a Li Ruotai sobre seu passado de “agente duplo”. Não ousava apostar. Naquele momento, o único capaz de protegê-lo era Wu Chen.
Que não lhe acontecesse nada!
— Senhor Wu, então… aquelas duas, a mãe e a filha… por quê… elas e o senhor são… Também não faz sentido… — perguntou Meng Junhao outra vez. Tentava adivinhar se He Shiqin seria uma amante de Wu Chen e He Xinxin, uma filha que ele tivera fora do casamento.
Nesse caso, Ding Ruilong estaria investigando para ir contar tudo a Li Ruobing.
Mas logo ele mesmo concluiu que não fazia sentido.
Wu Chen tinha só vinte e dois anos, porra! Não podia ter uma filha de catorze!
Será que Wu Chen tinha queda por viúvas?
As fotos e demais informações sobre He Shiqin e He Xinxin já tinham chegado ao celular de Meng Junhao. Ele vira a foto de He Shiqin e sabia que era uma mulher belíssima.
Wu Chen sorriu, um sorriso sutil.
Não que Meng Junhao fosse alguém particularmente engraçado; o que fazia Wu Chen sorrir era o estado de espírito dele naquele momento: estava mesmo morrendo de medo de que algo acontecesse a Wu Chen!
— Senhor Wu… — Meng Junhao ainda insistia.
Wu Chen pegou a xícara de café, tomou um gole sem pressa, virou o rosto para olhar pela janela e só então voltou os olhos para Meng Junhao:
— É filha de Ding Ruilong.
Meng Junhao, que também acabara de erguer a xícara, teve um tremor brusco na mão e derramou boa parte do café sobre a mesa.
Ficou petrificado.
Com uma expressão de completo espanto!
Totalmente abobado!
