Novels chinesas em português
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    Capítulo 507 — Fazer com que ele use bem o chapéu de corno

    Ding Ruilong procurara Mao Rusong de repente?

    Wu Chen refletiu por um breve instante. Dificilmente seria porque sua ligação com Mao Rusong fora descoberta; Ding Ruilong não dispunha de canais nem de motivos para descobrir aquilo do nada.

    E, pelo tom de voz de Mao Rusong, aquele telefonema inesperado certamente guardava relação com Wu Chen.

    Sendo assim… o foco do problema devia ser He Shiqin!

    — Pode falar… — disse Wu Chen, sem acrescentar mais nada por iniciativa própria. Afinal, Wu Weidong ainda dividia a mesa com ele… embora Wu Chen já tivesse colocado o senhor Wu Weidong a par da situação de He Shiqin e de todos os rancores e conflitos envolvidos.

    No entanto, Wu Chen jamais pretendera fazer Wu Weidong participar ativamente do desenrolar dos fatos; só precisava que ele transferisse a participação acionária para Wu Yurong. Por isso, não havia a menor necessidade de deixá-lo a par de como cada detalhe se desdobraria.

    — Ele me perguntou se andei prestando atenção em He Shiqin ultimamente. Sabe que antes eu sempre ficava de olho nela por iniciativa própria para ajudá-lo, então deduzo que tenha descoberto que a senhorita He já não está mais em Modu…

    — Hum… — Wu Chen murmurou pensativo e inquiriu: — Ele disse mais alguma coisa?

    — Não falou muita coisa, só me fez algumas perguntas. Eu disse que enfrentei certos contratempos recentemente e acabei me descuidando… Ele talvez já tenha ouvido falar dos meus problemas e não insistiu, mas pediu que eu ajudasse a procurá-la. Imagino que os homens dele também vão se mobilizar… — O tom de Mao Rusong soava cada vez mais tenso.

    Ficava patente o pavor de que Ding Ruilong descobrisse seus laços com Wu Chen.

    Em tese, considerando a posição social que ocupava em Modu, Ding Ruilong não poderia simplesmente dispor dele a seu bel-prazer; afinal, Gu Ruibo também não era carta fora do baralho.

    Ding Ruilong, contudo, era uma pessoa extremista!

    Todos sabiam muito bem disso!

    Se chegasse aos ouvidos de Ding Ruilong que Mao Rusong sabia de tudo desde o princípio e agora podia até ser classificado como cúmplice de Wu Chen, somando-se a isso a questão de He Shiqin… Mao Rusong não duvidava nem por um segundo de que Ding Ruilong recorreria a medidas extremas contra ele!

    E, na perspectiva de Mao Rusong, a fuga de He Shiqin era apenas um detalhe secundário!

    A peça crucial era He Xinxin! Wu Chen também levara He Xinxin embora!

    Ela era, afinal, a filha biológica de Ding Ruilong!

    Muito embora Ding Ruilong jamais a tivesse reconhecido publicamente, nunca deixara de pagar pensão alimentícia ano após ano; não se podia afirmar que não se importasse nem um pouco com ela, ainda que fosse para preservar as aparências.

    — Hum. Parece que ele ainda não descobriu nada — observou Wu Chen, em tom imperturbável. — Não se preocupe com isso. Eu vou resolver.

    — Certo, certo, senhor Wu! — A voz de Mao Rusong desanuviou no mesmo instante.

    O fato de Wu Chen não insistir para que ele continuasse envolvido, nem tentar usá-lo para despistar Ding Ruilong, fora um alívio colossal.

    E aquele “eu vou resolver” de Wu Chen carregava um peso descomunal para tranquilizar qualquer espírito inquieto!

    — Ficamos combinados assim. — Wu Chen trocou mais duas ou três frases protocolares com Mao Rusong e encerrou a linha.

    Ao baixar o aparelho, correu os olhos pelas pessoas reunidas ao redor da mesa e abriu um sorriso comedido, como se nada tivesse acontecido. Ninguém perguntou de quem era a chamada.

    O almoço prosseguiu.

    A refeição estendeu-se até por volta do meio-dia e meia. A ligação atendida por Wu Chen funcionara apenas como um interlúdio trivial, incapaz de despertar maiores conjecturas nos comensais.

    Quando o almoço já se aproximava do desfecho…

    Trim, trim…

    O celular de Wu Chen voltou a tocar.

    Ele puxou o aparelho do bolso, correu os olhos pela tela e atendeu com um sorriso brando:

    — Ruobing.

    Aquele nome atraiu no ato a atenção de todos à mesa. Wu Yurong limitou-se a lançar um olhar casual na direção dele; os olhares de Wu Weidong e Han Yuzhi, contudo, carregavam uma tensão inteiramente distinta.

    Afinal de contas, Wu Chen e Wu Yurong haviam sustentado a mesma versão: Li Ruobing, a neta primogênita do ramo principal da dinastia Li, não ligava a mínima para o fato de o namorado ter amantes.

    Wu Chen chegara até a declarar que não precisava de qualquer consentimento de Li Ruobing para se envolver com outras mulheres.

    Dizer aquilo em voz alta era uma coisa; ter a comprovação concreta nos fatos era outra bem diferente!

    E a estampa intransigente de Li Ruobing — uma mulher que não engolia o menor desaforo — estava profundamente cravada na memória coletiva de Donghai…

    Wu Weidong vigiava atentamente cada microexpressão no semblante de Wu Chen: queria constatar se o jovem titubearia, se mentiria ou se tentaria esconder algo ao telefone.

    — Marido, onde você está? Estou almoçando com a Qingying — ressoou a voz de Li Ruobing pelo fone.

    Pelo tom, não havia urgência alguma; ligara apenas por hábito na hora do almoço, muito provavelmente porque estivera falando a respeito de Wu Chen com Su Qingying durante a refeição.

    — Na Mansão Senlan — respondeu Wu Chen de bate-pronto, sustentando o sorriso.

    — Ah, é? — A entonação de Li Ruobing traiu uma leve surpresa antes de modular-se numa ironia provocante: — Nada mal, hein, meu prezado senhor Wu? Faz poucos dias que me levou para conhecer a sua família e agora já foi por conta própria conhecer os pais de Wu Yurong?

    Li Ruobing não estava confusa com a cena; apenas se divertia caçoando dele!

    Sendo a mulher que melhor conhecia Wu Chen no mundo, deduzira no mesmo instante que ele só procuraria Wu Weidong pessoalmente se houvesse algum propósito de bastidores muito específico.

    — Ha! — Wu Chen soltou uma risada mansa antes de responder: — Vim fazer uma visita ao senhor Wu e prosear sobre a conjuntura do Grupo Senlan.

    — Estão almoçando?

    — Estamos.

    — Esse é o meu marido! — Se outros ouvidos escutassem aquele elogio repleto de deboche, achariam o comentário completamente sem pé nem cabeça.

    Wu Chen, todavia, pegou o sentido de pronto.

    Estar sentado à mesa almoçando com a família significava que ele dominara totalmente a situação, fazendo com que Wu Weidong aceitasse o fato de a própria filha ser mantida como amante de outro homem.

    Era a essa proeza que Li Ruobing tecia louvores.

    — Continuem a refeição. Eu e Qingying já estamos terminando… Ah, quase me esqueci: a Qingying pediu para perguntar se você volta para casa hoje à noite.

    — Volto.

    — Combinado.

    Chamada encerrada!

    Wu Weidong acompanhara cada segundo. Muito embora não pudesse escutar as réplicas de Li Ruobing, o desembaraço e a fleuma natural com que Wu Chen falava causaram-lhe um profundo abalo interno.

    O rapaz conversava com a mais absoluta espontaneidade, sem rodeios, sem pisar em ovos e sem o menor receio de despertar a fúria da herdeira dos Li.

    — Ela queria alguma coisa com você? — indagou Wu Yurong com suavidade aveludada, ao lado dele, assim que a linha caiu, como quem puxa conversa à toa.

    — Nada demais. — Wu Chen sorriu de soslaio para ela. — Está almoçando com a Qingying e me perguntou se eu volto para casa hoje à noite.

    Wu Yurong apertou de leve os lábios e não fez mais nenhum comentário.

    Ao registrar o nome “Qingying”, a mente de Wu Weidong associou-o imediatamente a Su Qingying. Nos últimos tempos, os laços entre ela e Li Ruobing tornaram-se extraordinariamente estreitos, o que vinha gerando uma enxurrada de boatos nos círculos sociais de Donghai.

    Wu Weidong, contudo, jamais ousaria conceber qualquer intimidade comprometedora entre Su Qingying e Wu Chen; julgou apenas que duas grandes amigas compartilhavam uma refeição.

    O almoço chegou ao fim.

    Na sala de estar do piso térreo, Wu Chen ainda compartilhou uma rodada de chá e trocou algumas amenidades com Wu Weidong; os pontos nevrálgicos já haviam sido liquidados mais cedo, de modo que a prosa desfilou apenas por trivialidades sem peso.

    Sem que percebessem o tempo passar, o relógio bateu uma da tarde.

    Wu Chen e Wu Yurong despediram-se.

    Pouco depois da partida do casal, Wu Weidong também deixou a propriedade: tinha um encontro marcado com Lei Cheng.

    …

    Mais de meia hora depois, no distrito de Nancheng, na cidade de Donghai.

    Wu Yurong desceu da Lamborghini de Wu Chen e acomodou-se em seu próprio veículo, conduzido por um de seus guarda-costas particulares; os dois despediram-se ali mesmo, no acostamento da via. Ela precisava regressar à sede da holding, enquanto Wu Chen tinha pendências a encaminhar.

    De volta ao asfalto.

    Conduzindo o bólido com uma das mãos, Wu Chen puxou o celular com a outra e deslizou os dedos pelo visor. Deu uma conferida rápida nos tópicos mais quentes do Weibo, fechou o aplicativo e discou para um número específico.

    A chamada completou-se quase de imediato.

    — Senhor Wu. — Uma voz masculina, carregada de extrema prudência, ressoou do outro lado da linha.

    Tratava-se de um dos operadores de Ding Ruilong destacados em Donghai, o primeiro agente duplo que Wu Chen colocara sob rédea curta: Meng Junhao!

    Em comparação a Lao Dao ou Jiang Chuan, muito embora Meng Junhao tivesse sido o primeiro a ser dobrado, quase não fora acionado até aquele momento.

    Agora, contudo, chegara a hora de colocá-lo para trabalhar!

    — Vamos nos encontrar — determinou Wu Chen.

    Meng Junhao, por óbvio, não ousou hesitar; acertaram no ato o horário e o ponto de encontro.

    Encerrada a conferência com Meng Junhao, Wu Chen acionou uma segunda discagem. A linha conectou-se com a mesma celeridade, e uma voz doce e melodiosa alcançou seus ouvidos:

    — Senhor Wu.

    Era He Shiqin!

    A princípio, Wu Chen não delineara nenhum movimento específico para a tarde daquele dia; o aviso preventivo de Mao Rusong, contudo, deixara claro que Ding Ruilong logo descobriria o paradeiro de He Shiqin em Donghai.

    Investigar aquilo era a coisa mais elementar do mundo: bastaria cruzar os dados dos registros de compras efetuadas com os cartão de crédito dela, que apontavam todos para Donghai nos últimos tempos.

    Além disso, quando articulara o bote para atrair He Shiqin em Modu, Wu Chen deixara deliberadamente rastros nos registros de hospedagem de um hotel. Para os recursos de Ding Ruilong, descobrir com quem ela estivera seria questão de tempo.

    Portanto, ocultar o fato de que Wu Chen a levara embora tornara-se uma impossibilidade fática.

    E ele jamais tivera a menor intenção de esconder aquilo; caso contrário, não teria plantado as pistas de propósito.

    Sua intenção original sempre fora aguardar a conjuntura mais propícia para desatar essa etapa do tabuleiro e desestabilizar Ding Ruilong; o temperamento inflamável daquele homem era fácil demais de manipular. E agora… já que Ding Ruilong começara a farejar as pontas antes da hora, Wu Chen daria a largada imediata à operação!

    Primeiro passo do plano: fazer com que Ding Ruilong usasse bem o chapéu de corno!

    Fazer com que tivesse a certeza absoluta de que Wu Chen realmente lhe colocara um par de chifres!

    — Você está em casa? — perguntou Wu Chen ao telefone.

    — Estou… Assistindo a uma série na tevê — respondeu He Shiqin.

    — Chego aí em vinte minutos.

    — Está bem. Então… eu e a Xinxin ficaremos esperando pelo senhor — anuiu ela com mansidão. Ignorava a razão pela qual Wu Chen decidira visitá-la tão de repente; embora soubesse que decerto havia assuntos a tratar, não conseguiu conter uma nota indisfarçável de contentamento no tom de voz.

    Pouco mais de vinte minutos depois.

    Villa número 9, no condomínio Jinzun, distrito de Beicheng, cidade de Donghai.

    Wu Chen chegou.

    Nota