Capítulo 505 — Ninguém naquela família dava sossego
por NexoNovelCapítulo 505 — Ninguém naquela família dava sossego
A expressão de Wu Weidong mudou de supetão; sua mão, ao segurar a xícara de chá por puro reflexo, chegou a tremer de leve.
Ele jamais imaginara que Wu Chen pediria as ações de forma tão descarada. Antes de ouvir aquela frase, deduzira apenas que o rapaz pretendia informá-lo da situação para convencê-lo a não interferir, garantindo a Wu Yurong maior margem de manobra.
Não tivera ousadia suficiente para conceber tamanho disparate!
— Foi a Rongrong quem mandou você vir me dizer tudo isso? — inquiriu Wu Weidong, o semblante carregado e a voz pesando em tom mais grave.
— Não foi — respondeu Wu Chen com calma, esboçando em seguida um sorriso sereno: — Na verdade, a intenção original da irmã Rong… Hoje cedo, enquanto tomávamos café, ela comentou o caso por alto, na dúvida se deveria ou não contar ao senhor. Se quisesse, ela poderia continuar escondendo tudo por tempo indeterminado…
Wu Chen falava a mais pura verdade.
— Eu, contudo, achei que, muito embora a irmã Rong conseguisse manter segredo para sempre, ficaria numa saia justa toda vez que viesse prestar contas ao senhor no fechamento do mês, sem poder abrir o jogo. Sentia que ela desejava ser sincera, mas temia a sua oposição…
Wu Chen sustentou o olhar do veterano:
— Foi por isso que vim… É um assunto colossal, sem dúvida, mas a esta altura já não é tão intrincado assim. Seja para mim, para a irmã Rong ou para o senhor, já não existe mais margem para o “se”.
O semblante de Wu Weidong fechou-se em sombras.
Era incapaz de contestar aquelas palavras.
Exatamente como a filha o definira, Wu Weidong era, de fato, apegado às tradições antigas, conservador, prudente e avesso ao risco. Se soubesse da trama desde o nascedouro, jamais teria consentido na entrada de Wu Yurong naquele tabuleiro.
Infelizmente, o “se” não existia mais.
O tabuleiro já estava montado; ninguém mais dispunha da prerrogativa de recuar àquela altura. E, exatamente por ser cauteloso e jamais ter metido os pés nas disputas sangrentas entre grandes famílias, Wu Weidong carecia daquele traquejo de bastidores e não ousava dar um passo em falso para trás.
Naquela conjuntura, o primeiro a bater em retirada seria, primeiro eliminado pelos próprios aliados!
Em resumo: Wu Weidong tomara ciência tarde demais!
Na realidade, porém… Wu Chen mentia. Em momento algum seria tarde demais para o patriarca intervir: Wu Chen tinha cacife de sobra para orquestrar a saída estratégica de Wu Yurong do arranjo; tratava-se apenas de algo totalmente desnecessário!
Wu Weidong encarava Wu Chen. Ardia de vontade de descarregar uma saraivada de repreensões contra o jovem, mas as palavras travavam em sua garganta — afinal, fora a própria Wu Yurong quem se interessara pela proposta.
Ele conhecia a filha; compreendia sua têmpera como ninguém.
E sabia, acima de tudo, o preço amargo que ela pagara para acumular montanhas de patrimônio e galgar os degraus mais altos do poder! O matrimônio forçado que ele lhe impusera no passado mudara profundamente sua personalidade!
— Senhor Wu, as coisas atingiram este patamar… — começou Wu Weidong, interrompendo a fala para logo retomar o fôlego: — Supondo que tudo o que disse corresponda à realidade, o senhor está coberto de razão: a nossa família Wu não tem como recuar.
Concedeu o primeiro ponto, mas deu uma guinada imediata no raciocínio:
— Mas que diabos isso tem a ver com a participação acionária sob a minha titularidade? A Rongrong é a gestora plenipotenciária do Grupo Senlan; as ações apenas repousam registradas em meu nome. Ela já dispõe de todo o poder decisório…
Era preciso reconhecer uma ponta de hipocrisia naquele argumento.
Ainda assim, tratava-se de uma reação perfeitamente humana.
Wu Weidong beirava os setenta anos de idade; era um idoso, sim, mas passava longe da decrepitude!
Raríssimos eram os patriarcas fundadores de dinastias mercantis que, gozando de boa saúde física, aceitavam abrir mão da totalidade de seu controle societário em favor dos filhos. Esse tipo de renúncia costumava ocorrer apenas nas portas da morte, em leitos de hospital após longas enfermidades, ou por intermédio de inventários testamentários, após o último suspiro.
Os anciãos carregavam suas próprias convicções. O apetite por controle era um dos fatores; a vaidade de ditar os rumos macroestratégicos e preservar suas diretrizes pesava tanto quanto.
E, embora Wu Weidong não ostentasse um perfil obsessivamente autoritário, era tradicionalista… Faltava-lhe, na prática, um fato novo que o impelisse a transferir a totalidade das ações à prole.
— Para facilitar o andamento das engrenagens — justificou Wu Chen, sorrindo para o veterano. — E também para nos precavermos contra imprevistos eventuais.
— Imprevistos? — As sobrancelhas de Wu Weidong arquearam-se de leve.
Sua mente correu no mesmo instante para cenários apocalípticos: por exemplo, caso a facção liderada pela família Li, mesmo com todo o preparo de bastidores, fosse derrotada, as repercussões para a família Wu seriam devastadoras!
Um beco sem saída!
Wu Chen adorava encurralar as pessoas na ilusão de estarem diante de um abismo inescapável!
Mais uma vez, Wu Weidong era incapaz de vislumbrar qualquer via de escape! Diante de semelhante tempestade, as regras tradicionais do comércio ou os recursos permitidos pela jurisprudência corporativa mostravam-se inócuos.
Recuar era impossível. Avançar podia custar a vida!
— Pelo visto, o senhor não pescou a que imprevistos estou me referindo — comentou Wu Chen, abrindo um sorriso repentino.
— Hein? — Wu Weidong piscou, desconcertado. Nem abrira a boca, mas o jovem já cravava que ele não entendera nada.
— Tirando uma derrota retumbante, que outro imprevisto poderia nos atingir? — indagou o velho.
— Derrota? Nós não vamos perder! — garantiu Wu Chen, com um meio sorriso tranquilo.
— Jovem, a sua empáfia não conhece limites — observou Wu Weidong, cravando o olhar diretamente no rapaz.
— Ha! — Wu Chen soltou uma risada mansa, sem se dar ao trabalho de entrar em minúcias: — Na realidade, as intempéries que podem atingir a irmã Rong não guardam relação com a vitória ou o fracasso do plano geral, mas sim com as entranhas da família Wu.
— As entranhas da família? O que aconteceu? — As sobrancelhas do velho tornaram a se erguer.
— Imagino que o senhor conheça o ninho em que pisa melhor do que ninguém. — Wu Chen sustentou o contato visual, prosseguindo com serenidade: — Naquela época, quando a irmã Rong assinou o divórcio e voltou para casa, foi o senhor quem lhe estendeu as mãos e, quando ela foi bombardeada por desconfianças na fase inicial, foi o senhor quem lhe deu respaldo irrestrito. A posição que ela ostenta hoje deve gratidão eterna ao pai que tem!
Wu Chen não apelava para a lisonja barata; descrevia os fatos com crueza.
Wu Weidong valorizava a dinastia e os laços de sangue acima de tudo. Fora exatamente por isso que, no passado, coagira a própria filha a um casamento político para salvar o Grupo Senlan e a família Wu; e, quando ela retornou ferida, desdobrou-se para compensá-la no limite de suas forças.
Não havia incongruência nenhuma naquele proceder.
Ele podia não ter sido o pai ideal em todas as instâncias, mas personificava com louvor a figura de um líder familiar de respeito!
Wu Weidong escutava sem permitir que a menor onda de emoção vazasse pelos músculos da face.
— …A irmã Rong é uma mulher formidável, brilhante no comando dos negócios corporativos — continuou Wu Chen, pausando a cadência antes de cravar: — Mas ela é mulher! É impossível varrer para baixo do tapete o preconceito enraizado contra as mulheres, tanto na sociedade quanto dentro do próprio família.
— E o senhor gerou outros dois herdeiros homens!
— O senhor sabe muito bem o que o seu primogênito, Wu Yulin, aprontou lá atrás, não sabe?
— E quanto a Wu Yuning? Não fosse pela intercessão aos prantos da sua esposa, a esta hora ele provavelmente ainda estaria apodrecendo numa cela!
O semblante de Wu Weidong azedou ligeiramente.
Aquilo era a maior vergonha doméstica do clã!
Tudo se desenrolara havia cerca de dez anos. Às vésperas da transição em que Wu Yurong deixaria a vice-presidência executiva para assumir a presidência da empresa, a dinastia convocara uma assembleia familiar a portas fechadas.
Os dois irmãos de sangue de Wu Yurong bateram o pé em oposição ferrenha à ascensão dela! E isso a despeito de, em meros poucos anos, Yurong ter demonstrado um tirocínio mercantil que humilhava a competência de ambos, conquistando inclusive o respeito reverencial dos fundadores mais antigos do Grupo Senlan.
Os argumentos desfiados eram fartos: alegavam que ela ainda era jovem, mal cruzara os trinta anos e carecia de casca grossa; diziam que sua rodagem histórica era rasa para impor autoridade moral, e que sua entronização na presidência inflamaria o descontentamento dos demais acionistas, com reflexos catastróficos no valor das ações em bolsa.
Meras desculpas esfarrapadas.
No fundo da meada, tudo se resumia à partilha do espólio familiar!
Naquela época, a senhora Wu, Han Yuzhi, também cerrou fileiras contra a filha! Sempre nutrira uma predileção escancarada pelos dois filhos homens, sobretudo pelo caçula deles, Wu Yuning.
Wu Weidong, contudo, bateu o martelo contra a maré de todos.
Percebendo que a via institucional fora bloqueada, Wu Yulin e Wu Yuning passaram a operar manobras clandestinas pelas sombras. O primogênito tentou articular um complô com outros acionistas minoritários para votar contra a irmã na assembleia geral; recorreu a golpes baixos e promessas de escambo de vantagens, mas sem chegar a extremos.
Wu Yuning, por sua vez, cruzou todas as fronteiras da decência!
Aliou-se a operadores escusos de fora para armar uma fraude contratual contra a própria irmã de sangue! Se o golpe tivesse vingado, teria sangrado os cofres do Grupo Senlan em dezenas de milhões; embora aquela quantia não fosse capaz de falir a corporação na época, deixaria uma mancha indelével no currículo executivo de Wu Yurong como vice-presidente, inviabilizando sua promoção. No mínimo, ganharia tempo precioso para articular novos botes!
Wu Yurong, todavia, desmascarou a trama por inteiro.
Houve até derramamento de sangue: o falso procurador que fora escalado para assinar o documento fraudado com ela na sede da empresa atirou-se de uma ponte e se suicidou!
Com o cadáver na conta, Wu Yuning fugiu em pânico para além das fronteiras do país, homiziando-se no exterior por quatro meses a fio.
O fúria de Wu Yurong naqueles dias apavorara o irmão até a alma!
No final das contas, porém, a mulher poupara o segundo irmão. Diante das súplicas desmanchadas em lágrimas da mãe e de uma longa e angustiante conversa franca com o pai, decidira conceder mais uma chance à linhagem de sangue.
— As pendências daquele tempo já viraram poeira do passado — sentenciou Wu Weidong, após trancar-se num silêncio sepulcral por um minuto inteiro.
— O senhor realmente acredita que os seus dois filhos se deram por vencidos? — rebateu Wu Chen, soltando um sorriso irônico: — Há detalhes que preferi nem confidenciar à irmã Rong. Hoje, contudo, posso perfeitamente colocá-los diante do senhor…
— O seu primogênito atua hoje como presidente da sucursal do Grupo Senlan na capital. Talvez tenha compreendido que o senhor acabará transferindo o controle da dinastia para as mãos da irmã Rong e que não pode alimentar grandes ilusões sobre herdar um bloco robusto de ações. Por essa razão, nestes últimos anos… o senhor faz ideia de quanto ele desviou pelas sombras?
— Eu posso lhe dar a cifra exata: até o fechamento do primeiro semestre deste ano, foram cerca de seiscentos milhões.
— Quanto a Wu Yuning, ele fora expulso do Grupo Senlan naquela ocasião. Cinco anos atrás, sob o apadrinhamento da sua esposa, foi reintegrado aos quadros corporativos e comanda atualmente o departamento de produção… Quanto ele e Han Yubin desviaram em conjunto ao longo desse período, eu me recuso a dizer. O senhor pode cobrar a resposta da sua própria esposa.
Han Yubin era o irmão caçula de Han Yuzhi, cunhado de Wu Weidong e tio materno de Wu Yurong. Já beirava igualmente os sessenta anos de idade.
Nos primórdios, sob o empurrão providencial do cunhado Wu Weidong, atuara como distribuidor das confecções do Grupo Senlan. Com a virada dos tempos e a estratégia massiva da grupo de inaugurar lojas próprias em grande escala, Han Yubin convertera seus negócios para o ramo têxtil, operando como fornecedor de tecidos para a empresa até os dias atuais.
Hoje, Han Yubin ostentava um patrimônio pessoal de centenas de milhões e preservava uma intimidade umbilical com a casa dos Wu, frequentando a mansão com frequência.
— A bem da verdade, a irmã Rong não é cega às falcatruas dos dois irmãos; ela apenas fecha os olhos para não implodir o clã, afinal o sangue é o mesmo e o dinheiro continua em família. Mas… nestes últimos anos, os botes clandestinos de Wu Yuning tornaram-se cada vez mais frequentes e perigosos…
— Talvez isso se deva ao amadurecimento de Song Xuan. Assim que ela colar grau na universidade e ingressar nos quadros executivos da empresa, a irmã Rong iniciará a preparação de sua sucessora legítima… Esse senso de urgência vem inflando a ousadia do seu caçula de forma descontrolada…
Wu Chen desfilava os fatos com extrema calma, modulando a entonação como quem compartilha amenidades num bate-papo de fim de tarde. Wu Weidong escutava tudo com o cenho fechado em trevas.
— Há também a figura de Wu Yuxing. Ele anda colado a Wu Yuning e tem as mãos sujas em algumas das ações do seu filho…
Wu Yuxing não era filho de Wu Weidong, mas sim o primogênito de seu terceiro irmão: seu sobrinho legítimo! Também ocupava funções executivas no Grupo Senlan, chefiando uma das fábricas da grupo como diretor de fábrica. Era, portanto, subordinado direto de Wu Yuning.
Nos quinze minutos seguintes, Wu Chen despejou uma enxurrada de outros nomes: membros do família Wu, executivos de mercado que haviam sido apadrinhados e formados por Wu Yurong, além de parentes distantes que haviam ingressado na empresa nos primórdios da operação e, por puro mérito gerencial, ocupavam cargos de diretoria.
Todos os citados por Wu Chen traziam algum problema.
A vasta maioria dos que foram poupados integrava a guarda pretoriana de Wu Yurong, quadros que batiam continência cega às determinações dela.
Após aquela exposição cirúrgica, a impressão que se abateu sobre o espírito de Wu Weidong foi a de que os alicerces internos da grupo estavam podres até a raiz!
O que o velho ignorava era que Wu Yurong dominava a quase totalidade daqueles podres destrinchados por Wu Chen, sobretudo as fraudes de maior gravidade!
Em alguns episódios, ela realmente fazia vista grossa: afinal, águas excessivamente cristalinas não sustentam peixes; qualquer império corporativo daquela envergadura carregava deformidades congênitas, qualquer que fosse o timoneiro no comando.
Em outros, contudo, a inércia não decorria de fraqueza operacional, mas sim do cálculo meticuloso do momento ideal para o abate. Certas anomalias haviam sido, inclusive, fomentadas deliberadamente por ela.
Era o seu maquinário de coleira curta: amarrar as pessoas pelos próprios crimes para mantê-las sob seu domínio irrestrito!
De acordo com as averiguações acumuladas por Wu Chen ao longo de um milênio de repetição temporal!
No ecossistema presente do Grupo Senlan, não existia uma única alma capaz de arranhar em um milímetro a soberania de Wu Yurong! Ninguém sob o céu!
Ouvindo a narrativa de Wu Chen, porém, Wu Weidong passava a anos-luz de enxergar as coisas com semelhante tranquilidade!
— …O senhor deve compreender que, neste momento de extrema gravidade, qualquer convulsão interna no seio do Grupo Senlan — ou a ousadia de algum tolo que tente articular os acionistas minoritários para encurralar a irmã Rong e o senhor, visando derrubá-la do comando — arrastará a corporação para uma ruína institucional sem precedentes…
— Quanto à família Wu… Em tese, a família Wu pode bater em retirada. Quem está impedida de dar um passo atrás é a irmã Rong; ela pode assumir todos os riscos sozinha.
Wu Weidong travou os olhos em Wu Chen.
Compreendera perfeitamente as entrelinhas daquela última advertência.
O cálculo era translúcido: bastava unificar a totalidade das ações da família Wu nas mãos de Wu Yurong e expurgar os medalhões problemáticos do clã dos quadros diretivos. Dessa forma, caso o Grupo Senlan enfrentasse turbulências no futuro, o patrimônio da família Wu permaneceria blindado contra a tempestade!
Os ativos acumulados pelo família Wu não se restringiam aos papéis do Grupo Senlan. Da mesma forma que Wu Yurong alocava sua fortuna pessoal em fundos externos, a família mantinha investimentos em múltiplos setores; embora tais negócios rendessem frações modestas quando comparados à joia da coroa do Grupo Senlan, ainda somavam um patrimônio de um a dois bilhões.
E a proliferação daquelas anomalias internas, a inquietação conspiratória dos dois filhos homens de Wu Weidong, a parcialidade doentia da matriarca em favor dos rapazes…
A raiz de toda aquela podridão residia no fato de que o bloco hegemônico de ações continuava registrado sob o nome de Wu Weidong!
Se Wu Yurong recebesse a titularidade dos papéis do pai, consagrando-se como a maior acionista individual e assumindo a presidência do conselho, as ilusões dos conspiradores virariam cinzas no mesmo instante.
Ninguém sob o sol teria a menor brecha para abalar a sua cadeira!
Wu Weidong trancou-se no silêncio. Ergueu a porcelana, sorveu um trago do chá que já começava a esfriar e voltou a contemplar a vegetação luxuriante além do pavilhão, semicerrando as pálpebras.
A sensação era a de viver um delírio.
Desde que cruzara o olhar com Wu Chen, mal se passara uma hora inteira. Absorver um oceano de revelações em intervalo tão exíguo fazia com que Wu Weidong, aposentado havia tantos anos, experimentasse uma névoa de irrealidade.
Será que tudo o que saíra da boca de Wu Chen era verdade?
Não tinha como cravar cem por cento de certeza, mas havia peças que ele podia auditar imediatamente! Wu Chen fora cirúrgico: abrira margem para que ele investigasse e confirmasse cada dado por conta própria.
Wu Chen conferiu as horas no pulso e voltou a fitar o anfitrião, abrindo um sorriso comedido:
— Senhor, imagino que, a esta altura dos acontecimentos, o seu filho Wu Yuning já tenha recebido a notícia da minha visita.
— Hein? — Wu Weidong virou o pescoço na direção do jovem.
— Quando desembarquei com a irmã Rong, o seu guarda-costas Wang Zhiheng flagrou a nossa chegada no pátio frontal. Muito embora ele sirva ao senhor há tantos anos, sempre manteve uma cumplicidade estreita com Wu Yuning. Imagino que já tenha disparado uma ligação para ele; afinal de contas, a irmã Rong cruzou os portões enlaçada ao meu braço… — comentou Wu Chen, modulando a voz com uma ironia sugestiva.
O semblante de Wu Weidong contorceu-se no mesmo instante.
Aquilo podia soar como um detalhe doméstico menor! Para ele, contudo, passava longe de ser uma insignificância: atingira em cheio o nervo de seu brio pessoal.
Captara o veneno da insinuação: o homem encarregado de sua própria segurança pessoal fora comprado pelo segundo filho?!
— E tem mais… A conversa da irmã Rong com a senhora Wu deve estar chegando ao fim. A sua distinta esposa certamente também pegará o telefone para contatar o herdeiro predileto, não acha? — arrematou Wu Chen, rindo.
Os dedos de Wu Weidong comprimiram a porcelana com força involuntária.
Wu Chen… missão cumprida!
Dali em diante, bastava deixar que os fatos seguissem seu curso natural de maturação.
Wu Weidong já se dera conta de que, sob o teto daquela dinastia, ninguém lhe dava um único minuto de sossego. Certas mazelas antigas já eram de seu conhecimento — como as ajuda constante que a esposa prestava à família de origem —, mas ele sempre contemporizara; afinal, em tempos pretéritos, ele próprio cometera adultério e sustentara uma amante fixa. Han Yuzhi engolira a humilhação a seco na época, e Wu Weidong compreendia e tolerava certos desvios da mulher como compensação moral.
No momento presente, contudo, a filha capitaneava uma operação de altíssima complexidade e sigilo absoluto, envolvendo dividendos colossais e riscos mortais na mesma proporção. A retaguarda doméstica não admitia a menor brecha, muito menos uma guerra fratricida! Caso contrário…
Lendo as microexpressões no rosto de Wu Weidong, Wu Chen antecipava com exatidão matemática cada tormento que lhe corroía a mente. E, a rigor… o alicerce fundamental que sustentara a convicção de Wu Chen de que dobraria o velho naquele dia não residia nos podres internos da família nem no cenário externo de terra arrasada!
O pilar vital era infinitamente mais pragmático: Wu Weidong já pretendia, por deliberação própria, legar a totalidade de suas ações para Wu Yurong!
Portanto, a transferência dos papéis para a filha não esbarrava em nenhum tabu psicológico intransponível. A única dúvida que torturava o veterano era se deveria consumar o ato agora!
Trim, trim…
O celular tocou de repente.
Wu Chen sacou o aparelho do bolso interno do paletó, bateu os olhos na tela e atendeu:
— Irmã Rong.
— Já terminaram de conversar? — indagou Wu Yurong, a voz meiga e adocicada denunciando uma ponta de apreensão; na verdade, tremia de medo de aparecer e interromper o diálogo na hora errada.
— Praticamente — respondeu Wu Chen, sorrindo antes de tomar a iniciativa: — Onde você está? Vou subir até aí.
— Estou no piso superior. Então… venha. Quero lhe mostrar a casa. Consegue achar o caminho?
— Claro. Perfeito, já estou subindo.
Após trocarem mais algumas palavras, Wu Chen encerrou a chamada. A iniciativa de ir ao encontro de Wu Yurong visava unicamente a conceder a Wu Weidong o espaço necessário para operar sozinho.
— Senhor, vou dar um pulo para ver a irmã Rong… — avisou Wu Chen, guardando o aparelho no bolso enquanto se colocava de pé com um gesto cortês.
Wu Weidong limitou-se a assentir com a cabeça, mudo; as cores de sua fisionomia ainda não haviam retornado ao normal.
Wu Chen retirou-se.
Wu Weidong acompanhou com o olhar a silhueta do jovem que se distanciava. Aquela névoa de devaneio voltou a assaltar-lhe os sentidos: seria possível que todo aquele pesadelo fosse real?
O silêncio do pavilhão engoliu-o em solidão.
Com os dedos inquietos, apanhou uma das peças do xadrez chinês que permaneciam dispostas sobre o tabuleiro. Girou a peça do “general” na palma da mão, absorto numa deliberação angustiante.
Por fim…
Bateu a peça com força contra a madeira. Em seguida, estendeu a mão até o celular que deixara sobre a mesa, deslizou a tela, percorreu a agenda e localizou um contato específico.
— Lei Cheng!
Lei Cheng operava em Donghai havia uma década; passara dez anos contendo os passos na penumbra e mantendo a discrição, embora tivesse tecido conexões valiosas nos bastidores. As trocas entre ele e Wu Weidong não eram diárias, mas passavam longe de ser esporádicas.
Não mantinham intimidade de sangue; eram apenas conhecidos de banquetes corporativos.
Wu Weidong discou para Lei Cheng, colou o aparelho ao ouvido e aguardou com o rosto petrificado.
Passaram-se mais de dez segundos antes que a ligação fosse completada.
— Hahahaha! Mestre Wu! Fazia uma eternidade que não cruzávamos copos! A que devo a honra da sua ligação?… — A voz rouca e expansiva de Lei Cheng ressoou pelo alto-falante.
— Chefe Lei! Que os seus negócios continuem florescendo! Hahaha! — Wu Weidong, que até então mantinha uma rigidez gélida, abriu um sorriso espontâneo.
— Haha! Graças aos céus vamos nos virando, vamos nos virando! Mas nem se compara à grandiosidade dos seus empreendimentos! — retribuiu Lei Cheng, rindo com vontade.
Polidez.
Pura conveniência social!
— O negócio é o seguinte, Chefe Lei: a Rongrong me adiantou o assunto. Fiquei sabendo que vocês dois vêm costurando parcerias comerciais nos últimos tempos, não é verdade? — disparou Wu Weidong, indo direto ao ponto.
— Hein? — O tom de Lei Cheng vacilou numa confusão aparente.
— Ora, Chefe Lei, não há necessidade de meias palavras entre nós; a Rongrong já me descortinou tudo — insistiu Wu Weidong, soltando uma risada amistosa, posando de cúmplice do arranjo.
— Não é isso, Mestre Wu… A que negócios o senhor está se referindo, afinal? — Lei Cheng parecia genuinamente atônito.
O cenho de Wu Weidong franziu-se no ato.
Não conseguia arrancar uma vírgula do sujeito?
Aquela reação fez o veterano desconfiar, por uma fração de segundo, de que Wu Chen tivesse mentido descaradamente! Mas inventar uma farsa daquelas proporções, envolvendo figurões de peso e até a própria filha, seria estupidez sem tamanho: qualquer verificação desmantelaria o embuste. Não fazia sentido.
Refletiu por um breve instante e pescou uma hipótese viável:
— O senhor Wu Chen está hospedado aqui na minha mansão neste exato momento. Acabamos de encerrar uma longa conversa.
— Ah… — A postura de Lei Cheng metamorfoseou-se no mesmo segundo, adotando um tom de compreensão absoluta antes de desatar numa gargalhada ruidosa: — Hahahaha…
Apenas riu, contudo; não soltou mais nenhuma sílaba.
As feições de Wu Weidong adquiriram contornos indecifráveis.
Mencionar a própria filha fora inútil: Lei Cheng guardava segredos a sete chaves! Fora preciso arrastar o nome de Wu Chen para a mesa. E, mesmo assim, a abertura limitara-se a uma mudança de tom; nenhuma informação substantiva vazara.
— Chefe Lei, que tal acertarmos um horário para um encontro pessoal? — propôs Wu Weidong, tomando a iniciativa.
