Novels chinesas em português
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    Capítulo 496 — Algo que poderia me mandar para a prisão agora?

    Su Ruiwen limitou-se a exibir a cicatriz a Wu Chen e, em seguida, deixou o antebraço repousar naturalmente sobre a mesa. Olhou nos olhos do rapaz. Não acreditava que Wu Chen soubesse de onde provinha aquela marca.

    O chamado sobrenatural não passava de uma explicação forçada que a mente criava para aquilo que não conseguia compreender.

    Afinal de contas, era difícil para qualquer pessoa normal acreditar sinceramente na existência de fenômenos sobrenaturais!

    E Su Ruiwen não acreditava em nada daquilo.

    Em todo o mundo, apenas três pessoas sabiam da existência daquela cicatriz no braço de Su Ruiwen, contando com ele próprio.

    A primeira era sua esposa, a senhora Su.

    A segunda era Tang Deyang, seu irmão de vida e morte, vice-presidente sênior do Grupo Jinfu, presidente da Divisão Comercial e quarto maior acionista individual da corporação!

    Nenhum dos dois jamais o trairia .

    O conhecimento da cicatriz restringia-se estritamente àquela tríade: Su Ruiwen nunca usava camisas de mangas curtas em público; nem mesmo Su Qingying, fazia ideia de que o pai carregava tal corte.

    Quanto à origem exata da lesão, além do próprio Su Ruiwen, somente Tang Deyang dominava a verdade histórica. Nem a senhora Su conhecia os detalhes: quando se casara com Su Ruiwen, a cicatriz já estava no braço dele.

    Su Ruiwen limitara-se a dizer que sofrera um ferimento no passado, sem jamais descer a pormenores.

    — Essa cicatriz… já é bem antiga — comentou Wu Chen, sorrindo.

    — O senhor sabe exatamente como ela surgiu? — insistiu Su Ruiwen, refinando o foco da cobrança.

    — Parece que alguma coisa cortou seu braço… — opinou Wu Yurong, num comentário despretensioso.

    Seu olhar alternava entre Wu Chen e Su Ruiwen, com o peito apertado de apreensão.

    Wu Yurong tinha convicção de que Wu Chen carregava facetas que tangenciavam o inexplicável, mas era incapaz de mensurar até que profundidade aquele abismo se estendia.

    Ela não era Li Ruobing; não conhecia Wu Chen tão profundamente.

    Compreendia com perfeição, contudo, que Su Ruiwen testava as fronteiras do jovem e que a resposta de Wu Chen influenciaria enormemente a decisão final de Su Ruiwen.

    — Trinta anos atrás, Chefe Su, o senhor tinha pouco mais de vinte anos e já possuía alguns bens — começou Wu Chen, com um sorriso tranquilo.

    A partir do momento em que as palavras “trinta anos atrás” saíram dos lábios do rapaz, a fisionomia de Su Ruiwen estremeceu de leve: a época estava perfeitamente correta.

    — Naquela época… o senhor e Tang Deyang viajaram juntos ao norte de Mianmar, indo diretamente às minas para comprar jadeíta bruta…

    — Naquela tarde, mais rigorosamente na tarde de 8 de outubro de 1990, o senhor e seus companheiros tiveram uma discussão com outro grupo de compradores conterrâneos, vindos da província de Yun.

    — Depois da discussão, ainda dentro da mina de jadeíta, o senhor cortou uma pedra ali mesmo e descobriu uma jadeíta verde-imperial…

    — Naquela mesma noite, decidiram pegar a estrada sem aguardar a luz do dia. No caminho, foram perseguidos. Dos seguranças locais contratados para escoltar a carga, alguns morreram e outros fugiram. A mercadoria se perdeu, restando ao senhor e a Tang Deyang lutarem pela própria sobrevivência. Vocês dois portavam três armas de fogo ao todo e gastaram toda a munição; a quadrilha rival também esgotou a munição… No final, a contenda foi decidida na lâmina das facas.

    — O senhor estripou com as próprias mãos os dois últimos homens que conseguiram alcançá-los. Também foi ferido no entrevero, e não apenas no antebraço: levou um talho na cintura, embora menos profundo que o do braço, foi apenas um corte de faca…

    — Em seguida, o senhor e Tang Deyang passaram um mês inteiro escondidos no norte de Mianmar, pulando de abrigo em abrigo antes de conseguirem cruzar a fronteira de volta. A ferida do braço foi suturada numa clínica clandestina em solo birmanês, e a sutura foi muito malfeita. Quando o senhor pisou de volta em território nacional, a lesão já estava praticamente cicatrizada… Não houve lesão de ossos nem de tendões; foi um ferimento nos tecidos moles, embora a incisão tenha sido profunda.

    Wu Chen encerrou o relato mantendo uma cadência impecável, sem pressa nem hesitação. Soava como a narrativa de uma aventura extraordinária, cheia de perigos!

    Não se tratava, porém, de uma fábula inventada; tudo aquilo acontecera de verdade!

    Durante os anos em que construía sua fortuna, Su Ruiwen encarara provações de vida ou morte mais de uma vez. Nas décadas de 1980 e 1990, Mianmar configurava um território mergulhado no mais absoluto caos, retalhado pelo arbítrio de senhores da guerra!

    Os senhores da guerra que controlavam as minas de jadeíta não armavam emboscadas contra os próprios clientes: as jazidas estavam ali, bastava continuar escavando as pedras, sem motivo para adotar práticas que aniquilassem sua credibilidade comercial.

    No entanto, a fragmentação territorial sob os senhores da guerra resultava numa segurança pública péssima: assassinatos e roubos seguidos de morte faziam parte da rotina diária da região.

    Hoje, Su Ruiwen ostentava a aparência de um homem culto e refinado, porte burilado pacientemente ao longo de décadas de opulência material; na juventude, porém, fora um homem de extrema combatividade. Viajar pessoalmente a Mianmar para arrematar a melhor mercadoria pelo menor custo… naqueles tempos, equivalia a arriscar a própria vida!

    Su Ruiwen encarava Wu Chen com o olhar fixo e petrificado.

    À primeira vista, o relato de Wu Chen parecia uma síntese geral; na prática, contudo, fora extremamente detalhado! Muitas informações fundamentais haviam sido mencionadas!

    Aquilo não fazia sentido!

    — Quanto à procedência exata dessa cicatriz no antebraço do Chefe Su, imagino que apenas Tang Deyang guarde o segredo; afinal, ele testemunhou com os próprios olhos o momento em que a lâmina perfurou sua carne… Nem mesmo a senhora Su deve conhecer o motivo exato — emendou Wu Chen, sustentando o olhar do magnata com um meio sorriso carregado de segundas intenções. — Não estou certo, Chefe Su?

    — Como você sabe disso? — cobrou Su Ruiwen, encarando-o sem piscar.

    A formulação daquela pergunta equivalia a assinar a confissão irrevogável de que cada sílaba proferida por Wu Chen era a mais pura verdade!

    — Eu investiguei — respondeu Wu Chen, sorrindo.

    — Como investigou?

    — É complicado.

    Su Ruiwen captou o recado na hora: Wu Chen recusava-se a descortinar a fonte de seu conhecimento.

    A sala reservada mergulhou num silêncio.

    As batidas no peito de Su Ruiwen recusavam-se a desacelerar; era a primeira vez em que presenciava, em carne e osso, aquela faceta indecifrável de Wu Chen… Antes, ouvira relatos aos montes, mas nenhum deles tangia a sua própria intimidade, e ele podia formular hipóteses.

    Agora, tratava-se de sua própria vida, e a mente simplesmente não encontrava explicação racional.

    Era impossível que Tang Deyang houvesse ventilado aquele segredo a qualquer alma viva; as chances eram nulas!

    Wu Yurong corria os olhos entre ambos. O prodígio de Wu Chen não a surpreendera em nada: aquele era o Wu Chen que conhecia, o senhor Wu envolto em mistério. Quem realmente a deixara boquiaberta fora Su Ruiwen, o protagonista daquela história.

    As lendas afirmando que Su Ruiwen carregava mortes nas costas circulavam em Donghai desde a época de sua ascensão pioneira, mas ninguém jamais apresentara confirmação.

    Naquele dia, aquilo finalmente se confirmara.

    Wu Yurong permanecia com o coração na mão. Ansiava para que o veterano parasse por ali ali mesmo; desejava que Su Ruiwen já tivesse classificado Wu Chen como uma força invencível, pois assim a maré convergiria para um entendimento diplomático.

    O pavor residia na hipótese de Su Ruiwen, em vez de se intimidar diante de Wu Chen, passar a encará-lo como uma ameaça por dominar segredos demais…

    O silêncio estendeu-se por um longo intervalo.

    — O que mais o senhor sabe, senhor Wu? — quebrou Su Ruiwen por fim.

    — Muita coisa — devolveu Wu Chen, sorrindo.

    — Então o senhor sabe se cheguei a matar alguém dentro das fronteiras da China? — disparou Su Ruiwen, cravando os olhos nos dele.

    A pergunta foi desconcertantemente crua.

    — Matou — respondeu Wu Chen com calma. — O magnata do setor de jade da província de Yun, o sujeito que contratou homens para roubar sua carga, chamava-se Zhu Duanshan. Em janeiro de 1991, depois de o senhor e Tang Deyang passarem dois meses se recuperando em Donghai, vocês retornaram a Mianmar. Ao cruzarem a província de Yun… o senhor foi até o endereço dele armado com uma espingarda de cano duplo e matou Zhu Duanshan com um único disparo.

    Su Ruiwen emudeceu.

    Desta vez, porém, o silêncio durou pouco: após meros seis ou sete segundos, ele voltou a se pronunciar, fazendo sua última pergunta a Wu Chen:

    — Senhor Wu… então o senhor tem conhecimento de alguma coisa que possa me mandar para a prisão nos dias de hoje?

    Os confrontos em Mianmar e o homicídio de Zhu Duanshan não bastavam para arrastar Su Ruiwen para a cadeia; havia tempo demais sepultando aqueles eventos. O que acontecera no exterior, por si só, não representava problema; quanto ao episódio interno… já se passara um hiato de trinta anos, sem qualquer vestígio probatório remanescente.

    Mesmo que ambos os episódios fossem atirados à imprensa hoje, no máximo arranhariam a reputação pública de Su Ruiwen, sem outras consequências.

    Por essa razão, Su Ruiwen queria saber… Wu Chen dominava alguma coisa capaz de colocá-lo atrás das grades no tempo presente?

    Nota