Capítulo 484 — Perguntou sem rodeios!
por NexoNovelCapítulo 484 — Perguntou sem rodeios!
A elite ao redor debatia com fervor os passos do Segundo Mestre Tang, e Wu Chen, no mesmo instante, recebia um telefonema a quem tratava por “Chefe Tang”. Poderia ser um capricho do acaso, mas a intuição de Su Ruiwen gritava que a probabilidade talvez não fosse coincidência.
Ele sabia que Wu Chen conhecia Tang Jingbin!
Segundo as más línguas, Tang Jingbin desembarcara pessoalmente em Donghai no passado recente, e Wu Chen fora o fiador que apaziguara a contenda entre os dois clãs. Logo, era fato indiscutível que Wu Chen já havia se encontrado com Tang Jingbin.
Wu Chen deu alguns passos de lado, isolando-se para conduzir a conversa.
— Jovem Wu, sobre a questão da família Gu… — Tang Jingbin foi direto ao assunto.
À medida que a comunhão de interesses se solidificava, os rapapés e reverências mútuas evaporavam, dando lugar a uma articulação pragmática, limpa e incisiva.
A chamada de Tang Jingbin visava, primordialmente, atualizar o tabuleiro envolvendo a família Gu.
A prisão formal de Qi Min e Qi Jun já havia sido decretada. Sob a batuta e os arranjos estratégicos costurados por Tang Jingbin, o destino da linhagem Qi estava selado: ninguém conseguiria salvá-los!
As matérias despejadas na internet eram apenas a ponta do iceberg, calculadas sob medida para alimentar a comoção pública.
Na realidade, o dossiê de provas criminais já em poder das autoridades policiais — ou melhor, a quantidade de inquéritos gravíssimos nos quais os figurões da família Qi estavam atolados até o pescoço — envolvia nada menos que dez casos!
Eram todos crimes graves!
A pena mais leve seria de dez anos de prisão.
A pena máxima era a de morte.
E, dentro do plano delineado por Wu Chen na largada, Tang Jingbin compreendia com perfeição que o objetivo final daquela tempestade era atrair a família Gu para a trincheira dos Tang como aliada de ferro. A marcha dos acontecimentos acabara de alcançar exatamente esse estágio crucial!
Os irmãos Qi haviam sido recolhidos secretamente para averiguações na tarde anterior.
Naquela mesma noite, Gu Ruibo fora convocado em caráter de urgência à sede ancestral de seu clã, sendo submetido a uma sabatina cerrada por vários dos cardeais que exerciam o comando de fato da família, incluindo seu próprio progenitor.
Na manhã daquele dia, a família Gu entrou em contato com a família Tang.
Como o mundo exterior interpretara a ofensiva como uma manobra coordenada entre os clãs Tang e Gu para amputar os braços da família Xiang, o caso já chamara a atenção de todos os membros centrais das duas famílias.
Tang Jingbin inclusive submetera o relatório indispensável ao velho patriarca da dinastia Tang.
Também recebera uma conferência do irmão mais velho, que ocupava um cargo no sudoeste do país.
A coisa tomara proporções monumentais, a ponto de deflagrar uma verdadeira onda de rumores e movimentações discretas entre as principais casas aristocráticas de Modu!
Tang Jingbin fez questão de passar todo aquele panorama a Wu Chen.
Não se podia dizer exatamente que estivesse prestando contas a Wu Chen. Era apenas que… Wu Chen fora o idealizador de tudo nos bastidores. Falando claramente, era ele quem estava por trás de todo aquele grande acontecimento! Tang Jingbin havia recebido um enorme presente de Wu Chen e, naturalmente, precisava mantê-lo informado.
Nada havia acontecido além do previsto.
Tudo marchava conforme o desenho original!
Tudo corria tão bem que até Tang Jingbin achava difícil acreditar! Ele tinha a convicção nítida de que Wu Chen calculara, de antemão, cada desdobramento subsequente daquele dominó.
Junto à cerca viva de olmos, Wu Chen trocava palavras comedidas com Tang Jingbin, com uma das mãos enfiada no bolso da calça social e as costas voltadas para a arena da recepção.
Enquanto isso, do lado de Su Ruiwen…
Dominado pela pulga atrás da orelha, o veterano deu passos lentos até emparelhar com Li Ruobing e Su Qingying.
— Pai — adiantou-se Su Qingying, cumprimentando-o assim que ele se aproximou.
— Chefe Su — saudou Li Ruobing, desenhando um sorriso polido nos lábios.
— O senhor Wu parece um homem extremamente ocupado — comentou Su Ruiwen num riso cordial, lançando uma olhadela na direção da silhueta do jovem antes de soltar a frase para Li Ruobing em tom despretensioso.
— Ele… — Li Ruobing também correu os olhos na direção de Wu Chen e devolveu o sorriso ao magnata: — Não para quieto um segundo. É sempre essa agitação.
— Agora há pouco, acabei ouvindo sem querer enquanto passava por ali… “Chefe Tang”? — Su Ruiwen gesticulou com as mãos, ostentando uma fisionomia de absoluta candura: — Por acaso não seria o Segundo Mestre da família Tang?
Foi direto ao ponto!
Su Ruiwen não tinha motivos para pisar em ovos. Agia de peito aberto e consciência tranquila, sem necessidade de queimar fosfato tentando adivinhar enigmas sozinho; soltar uma dúvida daquelas numa roda social não teria nada de mais. Além disso, já estava mentalmente vacinado caso Li Ruobing não soubesse responder.
— Acredito que seja… — respondeu a herdeira, com um sorriso límpido.
— É ele mesmo? Tang Jingbin? — Su Ruiwen estacou por uma fração de segundo, sinceramente desconcertado.
— Deve ser, sim — confirmou Li Ruobing, anuindo com a cabeça.
Ela capturou o lampejo de surpresa na expressão do magnata, e os cantos de seus lábios arquearam-se um milímetro a mais em triunfo discreto.
Su Ruiwen sentiu o peito arfar de espanto. Lançara apenas uma isca despretensiosa, sem jamais supor que Li Ruobing corroboraria a suspeita com tanta franqueza e desassombro.
Ver uma autoridade do porte de Tang Jingbin dar-se ao trabalho de ligar pessoalmente para Wu Chen já feria qualquer parâmetro de normalidade.
Ainda mais quando o relógio mal marcava algumas horas da derrocada pública dos irmãos Qi!
Poderia aquilo ser uma mera coincidência do destino?
— Não imaginava que o senhor Wu desfrutasse de relações tão profundas com a família Tang… — comentou Su Ruiwen em tom casual, sorvendo em seguida um gole de champanhe sem desgrudar a mira dos olhos de Li Ruobing.
— Digamos que sim. Ultimamente eles têm mantido certo trânsito — contemporizou Li Ruobing, rindo suavemente.
A declaração fez o coração de Su Ruiwen dar outro salto violento! Note-se que ele aludira estritamente aos vínculos de Wu Chen com a linhagem Tang, e não aos laços institucionais da família Li com aquele clã! E Li Ruobing respondera acompanhando milimetricamente a mesma linha de raciocínio, sem tentar puxar os louros para o próprio sobrenome!
Trim, trim…
O telefone celular de Su Ruiwen vibrou e tocou ruidosamente no bolso.
Ele puxou o aparelho, bateu os olhos no visor e levou-o ao ouvido:
— Chegou? Hum… Nós estamos junto ao chafariz, aquele da face oeste… Hum…
Ao captar as modulações na voz do pai, Su Qingying pescou de imediato que se tratava de sua mãe.
— Pai, a mamãe chegou? — interveio ela, tomando a iniciativa: — O que acha de eu ir buscá-la …?
Queria cavar uma brecha para escapar daquele cerco.
Desde que Su Ruiwen se achegara para puxar conversa, um mal-estar sufocante tomara conta de seu peito. Temia que, assim que Wu Chen encerrasse o telefonema e se reintegrasse à roda, os quatro engatassem um diálogo longo e sua máscara de frieza desmoronasse por completo.
Diante do próprio pai, Su Qingying era incapaz de sustentar a soberania inabalável que exibia para o resto do mundo corporativo; o peso da presença dele exercia uma pressão psicológica esmagadora!
Su Ruiwen correu os olhos pela filha e instruiu a linha:
— Espere um segundo… vou passar o telefone para a nossa menina… — Concluída a frase, estendeu o aparelho para Su Qingying.
— Mãe… Onde você está parada exatamente?… Não precisa sair do lugar, eu vou até aí… — foi dizendo Su Qingying enquanto já apertava o passo para longe da roda.
O volume de convidados naquele dia era de fato descomunal; havia gente por toda parte.
Contudo, Su Qingying dominava a topografia do Clube Privado Tangsha na palma da mão; seria infinitamente mais rápido ela encontrar a senhora Su do que a mãe bater cabeça tentando achar o caminho por conta própria.
Acompanhando a silhueta da herdeira sumir na multidão, Su Ruiwen voltou a encarar Li Ruobing e ergueu a taça num cumprimento silencioso.
Li Ruobing imitou o gesto.
Os dois tilintaram o cristal e sorveram um pequeno trago.
— Ah, é verdade… Por onde anda o Jovem Mestre Li que ainda não o vi circular hoje? — puxou conversa Su Ruiwen, mantendo o tom informal.
— O A-Tai ainda está na estrada, mas acredito que não demora a encostar. Ligou avisando há pouco… — respondeu Li Ruobing com naturalidade, sustentando a conversa de salão.
Sobre o flagrante envolvendo Wu Yurong, Su Ruiwen ainda se debatia numa encruzilhada íntima, sem definir se devia ou não jogar aquela bomba no colo da jovem.
Aguardava também que Wu Chen finalizasse o expediente ao celular e retornasse à roda.
Passaram-se alguns minutos.
Wu Chen desligou a chamada e caminhou de volta com a taça de champanhe entre os dedos. Ao emparelhar com a dupla, cravou os olhos em Su Ruiwen, ergueu o cristal em deferência e abriu um sorriso calmo:
— Chefe Su.
— Senhor Wu — devolveu Su Ruiwen, esboçando um sorriso idêntico. Deu um passo sutil à frente, lançou um olhar panorâmico ao redor com perfeita displicência e soltou, em tom baixo: — Encontramos.
Mesmo que terceiros interceptassem aquela frase solta no ar, ninguém pescaria o seu real significado.
Mas Wu Chen compreendeu perfeitamente.
O cadáver fora encontrado!
— Sendo assim, deixo meus parabéns ao Chefe Su e à senhorita Qingying — felicitou Wu Chen, sorridente.
— Ainda é prematuro falar em parabéns. Não podemos desferir o golpe imediatamente; precisaremos de mais algum tempo — pontuou Su Ruiwen. Com o peso dos anos, sua postura ganhara contornos cada vez mais sóbrios e aristocráticos, assentada num sorriso afável e comedido. — Antes de mais nada, porém, cabe a mim prestar minha gratidão ao senhor Wu e à senhorita Li por todo o respaldo concedido à Qingying.
Dito isso, Su Ruiwen ergueu a taça.
Wu Chen e Li Ruobing acompanharam o movimento, e as três taças tilintaram suavemente.
Todos sorveram um trago comedido.
— Senhor Wu, teria como trocarmos duas palavras em particular? — inquiriu Su Ruiwen sem rodeios, disparando um olhar de soslaio para Li Ruobing logo após concluir o pedido.
— Com certeza — anuiu Wu Chen com um aceno afável de cabeça, apontando com a mão que sustentava a bebida para um recanto mais desimpedido do gramado.
Os dois começaram a caminhar lado a lado.
As feições de Su Ruiwen acusaram uma oscilação quase imperceptível: Li Ruobing não soltara meia palavra de protesto e sequer esboçara qualquer reação de desconforto.
Aquilo feria frontalmente todo o bom senso!
Nas altas esferas sociais de Donghai, o consenso unânime desenhava a dinâmica daquele casal como uma relação clássica de mulher forte e homem fraco! E o desnível de poder entre ambos, em tese, era abissal!
Ele, Su Ruiwen, acabara de exigir uma audiência privada com Wu Chen diante dos olhos da herdeira.
Wu Chen assentira de bate-pronto, o que já soava estranho.
Mas Li Ruobing manter-se em silêncio absoluto e com ar blasé era uma anomalia ainda mais berrante!
Era a mesma coisa que… Wu Yurong exigir uma conversa a portas fechadas com Ma Huifang diante de Lu Guangnian. Em condições normais, Ma Huifang certamente buscaria o olhar do marido para medir a temperatura, e Lu Guangnian invariavelmente soltaria alguma brincadeira, zombando com um “Que segredo tão misterioso é esse?” ou “Vão cochichar pelas minhas costas agora?”, ou algo do gênero.
Todo ser humano é movido pela curiosidade.
E toda pessoa reage instintivamente diante de uma quebra gritante de protocolo social.
Su Ruiwen tinha plena consciência de que, ao solicitar um colóquio reservado com Wu Chen diante de Li Ruobing, deixava explícito que pretendia tratar de um assunto que a excluía deliberadamente. Era um comportamento atípico, e ele forçara aquela rusga de caso pensado.
E, ainda assim, Li Ruobing não movera um único músculo da face!
De repente, um lampejo perturbador cruzou os pensamentos de Su Ruiwen: e se a equação entre Wu Chen e Li Ruobing não fosse de mulher dominante e homem submisso, mas rigorosamente o inverso?!
Se aquela hipótese se confirmasse, seria um disparate inacreditável!
Sopesando a origem familiar e o gênio indomável de Li Ruobing, Su Ruiwen era incapaz de conceber que homem na terra teria cacife para dobrar aquela mulher. Nem o próprio pai, nem mesmo o avô, conseguiam controlá-la!
Wu Chen e Su Ruiwen alcançaram a cerca viva de olmos.
— Senhor Wu, para ser franco… há pouco fui à sua procura — começou Su Ruiwen, virando o pescoço para encará-lo e baixando o tom de voz. — Fui até as rochas ornamentais. Foi a senhorita Li quem me soprou que o senhor e a senhora Wu estavam tratando de negócios por aqueles lados…
Havia um brilho indecifrável e irônico dançando no fundo dos olhos do patriarca.
Com aquelas palavras e aquele olhar, ele acabava de emitir um recado cristalino a Wu Chen: eu vi você e Wu Yurong juntos!
— É mesmo? — Wu Chen sorriu serenamente, girando o rosto para sustentar o olhar do veterano: — Então como é que não dei de cara com o Chefe Su por lá? Eu e a senhora Wu estávamos acomodados no pavilhão logo atrás. O senhor chegou a avançar até aquela área?
Su Ruiwen entreabriu os lábios, mas a voz morreu na garganta.
Ficou completamente desconcertado!
A postura de Wu Chen fugia a qualquer previsão! Su Ruiwen calculara que o rapaz pudesse empalidecer, desdobrar-se em justificativas esfarrapadas, plantar uma mentira de improviso ou, temendo que o caso chegasse aos ouvidos de Li Ruobing, pedir que guardasse segredo. Mas nada daquilo se desenhara!
Era uma atitude que parecia dizer apenas… E daí que você viu?
— Senhor Wu, o senhor realmente me passa uma impressão de que… — começou Su Ruiwen, estancando no meio do caminho. Calou-se por alguns segundos e, numa guinada abrupta de rumo, disparou: — Para ser muito sincero, há uma coisa que me deixa muito curioso. Senhor Wu, afinal de contas… qual é a sua real relação com a minha filha Qingying?
Perguntou na lata!
Quanto mais poderosa uma pessoa, menos receio tem e mais coragem demonstra para falar diretamente!
