Capítulo 479 — 2 de agosto: um grande evento!
por NexoNovelCapítulo 479 — 2 de agosto: um grande evento!
— Para a casa do Wu Chen?! Cof, cof, cof… — Su Ruiwen agarrou-se ao corrimão de madeira e virou o pescoço num sobressalto. No segundo seguinte, cobriu a boca com o lenço e foi tomado por uma crise violenta de tosse.
— Marido, você tomou os remédios da noite? — alarmou-se a senhora Su, deduzindo que o marido esquecera a medicação no meio da correria do trabalho. Disparou em direção à mesa de centro da sala para recolher os frascos.
— Xiaoling, traga água agora! — gritou para a copa.
A jovem copeira, que espanava os aparadores, correu apressada até o bebedouro. A senhora Su apanhou os comprimidos e subiu os degraus aos tropeços, ralhando sem parar:
— Olhe só o seu estado! Como foi esquecer isso de novo? A Qingying não para um minuto, você também não toma jeito…
Su Ruiwen engoliu as pílulas com um gole longo de água e sentiu o peito desafogar aos poucos.
A senhora Su amparou-o até o andar superior.
No aposento do casal, Su Ruiwen caminhou até o closet e desfez os botões do paletó. A esposa recebeu a peça com carinho, alinhou os ombros do tecido com as mãos e a acomodou no cabideiro.
— A Qingying tem… frequentado muito a casa desse Wu Chen ultimamente? — sondou Su Ruiwen, afrouxando o nó da gravata.
— Não, imagina… — rebateu a senhora Su. No mesmo fôlego, captou o veneno oculto na pergunta e fuzilou o marido com um olhar de repreensão: — O que deu na sua cabeça para pensar uma loucura dessas? A senhorita Li mora lá! A nossa filha vai para fazer companhia à senhorita Li. Quanto a esse Wu Chen… pelo que ouvi dizer, ele vive na estrada resolvendo pendências fora da cidade, mal para em casa…
— Hum… — murmurou Su Ruiwen, calando-se sem render o assunto.
A senhora Su percebia que o marido carregava um fardo pesado de preocupações e suspeitas na cabeça. Contudo, aos seus olhos, tudo aquilo não passava de paranoia de um velho doente.
Ela própria já tivera atritos ásperos com Wu Chen no passado.
Chegara até a desconfiar de que o rapaz se aproveitara da vulnerabilidade da filha.
Mas acreditar que Su Qingying se prestaria a um caso clandestino com Wu Chen? Nem pensar!
Afinal de contas, a titular oficial dele era Li Ruobing! No passado, a imagem mental que a senhora Su guardava de Li Ruobing resumia-se a… uma mulher despótica, de temperamento intratável, uma predadora nata nos negócios e, acima de tudo, sustentada pela musculatura aterradora da dinastia Li!
Eram atributos suficientes para impor cautela e exigir mesuras cerimoniosas!
Contudo, não bastavam para incutir nela um terror paralisante! Romper ou não alianças, entrar ou não em rota de colisão eram cálculos que dependiam da gravidade da ofensa; se a pauta exigisse sangue, a senhora Su não recuaria diante daquela jovem por puro medo!
Essa era a régua que usava outrora.
Entretanto, após assistir à própria filha arrancar-lhe o comando na histórica assembleia do conselho, sua percepção sobre a herdeira dos Li sofrera uma reviravolta copernicana. Ver Su Qingying consolidar tamanho controle com o respaldo invisível de Li Ruobing… a sofisticação tática e a frieza maquiavélica daquela mulher deixaram a matriarca aterrorizada!
Percebeu, tarde demais, que subestimara grosseiramente a neta mais velha da linhagem Li!
E deu graças a Deus por não ter dinamitado os laços com ela no calor do incidente em que Wu Chen resgatara Su Qingying do campo de golfe!
Para melhorar, a filha acabara conquistando a amizade mais íntima daquela mulher.
Sob a ótica da senhora Su, nenhum homem no mundo teria a audácia suicida de trair Li Ruobing bem debaixo do seu nariz! Não era apenas assinar a própria certidão de óbito; era a certeza matemática de que seria desmascarado no ato!
Além do mais, sua fé na integridade moral de Su Qingying era inabalável.
Mãe e filha já haviam fumado o cachimbo da paz.
A matriarca sabia que já não detinha rédeas sobre a jovem. Com a saúde do marido por um fio, sem que ninguém pudesse garantir mais alguns meses de vida ao patriarca, o destino daquele império… recairia inexoravelmente sobre os ombros da herdeira.
Ainda assim, ela recusava-se a crer que sua menina se converteria, do dia para a noite, numa amante vulgar capaz de destruir o lar alheio. Ela confiava nos valores que lapidara na filha desde o berço.
O casal trocou mais algumas amenidades.
Com o auxílio da esposa, Su Ruiwen vestiu um roupão confortável. Não desceu para o banho de imediato; em vez disso, deixou o quarto e adentrou o gabinete de trabalho, contíguo à suíte máster.
A senhora Su retornou ao piso inferior.
No gabinete.
Su Ruiwen inicializou o computador, abriu um editor de texto e puxou o smartphone particular. Localizou o arquivo de áudio de mais de sessenta minutos de duração.
Jamais permitiria que terceiros escutassem o registro daquela conferência com Wu Chen. Tampouco delegaria a assessores a tarefa de transcrever os pontos cruciais.
Faria aquilo com as próprias mãos.
Dava o play, absorvia o trecho, pausava e datilografava na tela.
Repetiu o ciclo dezenas de vezes.
A paciência de Su Ruiwen era de monge. Uma vez que o destino lhe servira aquela cartada, ele faria questão de orquestrar um desfecho impecável para Xu Zhenyuan. Além de extirpar a maior víbora de seu caminho, reaver aquelas ações elevaria a fatia societária da família Su no Grupo Jinfu para a casa dos quarenta por cento.
Para uma corporação que enfrentara diluições severas em sucessivas rodadas de investimento e fusões ao longo de décadas, ver o controlador concentrar tamanha musculatura em mãos próprias era um feito astronômico.
O patrimônio líquido familiar saltaria alguns bilhões da noite para o dia.
Uma concentração tão brutal nem se fazia mandatória na prática.
Poderiam desovar uma fatia secundária no mercado, atrair consórcios institucionais e inflar o caixa da tesouraria do Grupo Jinfu com liquidez imediata; desde que o controle dos direitos políticos permanecesse blindado na mesa, o império estaria a salvo!
Sem que percebesse o fluir do relógio, a noite já ultrapassava as dez horas.
Creeec!
Envergando seu pijama de cetim, a senhora Su empurrou a folha da porta e penetrou o gabinete.
— Marido, ainda não foi deitar? O que está matutando aí? Você não tem mais saúde para virar noites dessa forma. Se tem algum incêndio para apagar, mande a Qingying voltar para a sede e deixe que ela resolva… — censurou ela ao se aproximar. Não era falta de afeto pela filha, mas pura angústia pelo coração debilitado do marido.
Afinal, a ordem natural era transferir a coroa; empurrar a herdeira para a fornalha corporativa servia como batismo de fogo indispensável.
— São algumas… evidências dos crimes cometidos por Xu Zhenyuan — justificou Su Ruiwen, sem desviar os olhos do monitor, tocando na tela do celular para reiniciar o áudio pausado.
A voz firme de um jovem ressoou pelo alto-falante.
— É o Wu Chen? — A mulher reconheceu o timbre no primeiro compasso.
— Sim — confirmou Su Ruiwen, pausando o reprodutor novamente. Olhou para a esposa, fitou o teclado, bateu mais duas teclas e parou: — Esta tarde, o Wu Chen esteve no meu gabinete executivo. Disse que…
Su Ruiwen resumiu os pontos principais da conversa e arrematou:
— Todas essas coordenadas saíram… da boca do Wu Chen. Pelo que ele alegou, foram investigações encomendadas por Li Ruobing. Só que mais tarde liguei para ela para confrontar a história, e a senhorita Li pareceu… boiar completamente no assunto…
O tom dele transbordava perplexidade.
— Não sabia de nada? — A senhora Su franziu a testa, intrigada. Aproximou-se da mesa e correu a vista pelas linhas datilografadas no computador.
A anomalia saltava aos olhos, mas aquilo não figurava como urgência no seu radar.
— Marido, vá para a cama descansar. Deixe que eu assumo o teclado… É só transcrever o que está gravado no áudio, não é? Eu dou conta disso… — insistiu ela com carinho.
Su Ruiwen, de fato, alcançara o limite físico da exaustão. Sentia o corpo implorar por trégua.
E jamais guardara segredos da mulher.
Eram casados havia décadas e compartilhavam uma cumplicidade inquebrantável.
— Não fique acordada até muito tarde. Se não der para fechar tudo hoje, amanhã termino o resto… — recomendou ele ao se levantar. Segurou o rosto da esposa com as duas mãos e tocou-lhe a testa com um beijo terno.
— Já sei, já sei! Vá logo para a cama, vá! — apressou a matriarca, com um sorriso brando.
Su Ruiwen cruzou o umbral do escritório.
A senhora Su acomodou-se na poltrona executiva de couro, acionou o comando de reprodução no aparelho e retomou a degravação… Bastaram alguns minutos e uma dúzia de linhas para que o desconforto batesse à sua porta.
O áudio não trazia apenas um monólogo desfiado por Wu Chen. Havia ali uma bateria exaustiva de questionamentos minuciosos disparados por Su Ruiwen sobre pontos obscuros.
E Wu Chen respondera a cada um deles com precisão cirúrgica!
…
Na suíte máster.
Su Ruiwen já se recolhera sob as cobertas de pluma. Quando esticou o braço para apagar o lustre central e manter apenas o abajur da cabeceira aceso, seus movimentos estancaram: o celular pessoal repousava sobre o criado-mudo.
Ele operava com dois aparelhos e ao menos três linhas telefônicas ativas: a profissional, a privada e uma terceira… registrada em nome de um laranja fantasma, impossível de ser rastreada por qualquer agência de inteligência!
O corporativo ficara no gabinete. O que brilhava na mesinha continha seus contatos mais seletos.
Hesitou um instante e puxou o smartphone.
Abriu a agenda e correu os nomes da listagem. Salvo os familiares diretos, todos os números ali pertenciam a figuras de primeiro escalão, espalhadas por Donghai e pelas províncias do país inteiro!
Havia linhas diretas até com patriarcas de clãs lendários da capital.
Su Ruiwen deslizou a tela até o nome da filha, Su Qingying.
O relógio marcava dez e vinte da noite.
Vacilou com o polegar suspenso, mas desistiu de discar; o adiantado da hora indicava que a jovem provavelmente já dormia. Continuou rolando a lista e seus olhos travaram no contato de Wu Yurong; contudo, também recuou antes de chamar.
Havia algo profundamente anômalo naquele Wu Chen!
E o enigma ia muito além da relação suspeita com sua herdeira!
Su Ruiwen julgou imperativo colocar cartas na mesa com alguém que conhecesse os bastidores, e Wu Yurong despontava como a melhor interlocutora. Aquela hora da noite, contudo, mostrava-se inadequada. No dia seguinte, a oportunidade se abriria por gravidade!
Na manhã seguinte, a nata financeira e política de Donghai estaria reunida sob o mesmo teto por conta de um evento monumental. Su Ruiwen teria a chance de sondar não apenas Wu Yurong, mas uma dezena de outros figurões do tabuleiro.
Com esse plano na cabeça, pousou o telefone, apagou a luminária e fechou os olhos.
——
2 de agosto de 2020, exatamente às sete horas da manhã.
Zunrong · Donghai Huafu.
Suíte máster do segundo andar.
Wu Chen abriu as pálpebras, contemplou os relevos do teto com um meio sorriso nos lábios e, ainda entorpecido pelo sono, virou o tronco de lado para abraçar Su Qingying, que dormia profundamente encolhida ao seu lado. Cerrou os olhos mais uma vez.
Só veio a despertar de verdade após as nove da manhã.
Su Qingying já deixara os lençóis. Das áreas comuns, Wu Chen captava murmúrios abafados de conversa; Li Ruobing e Mu Qianqian também estavam de pé lá fora.
Sob condições normais, o trio já teria partido para os respectivos expedientes.
Se ainda permaneciam na residência, não era apenas pela calmaria do domingo, mas porque a cidade de Donghai pararia diante de uma celebração apoteótica: o casamento de Lu Guangnian!
A reviravolta na vida do magnata — o reencontro milagroso com seu primeiro amor e a descoberta instantânea de um filho biológico adulto e de uma netinha — já não era novidade nos círculos do poder local.
E aquele dia marcava a consagração da união entre Lu Guangnian e a mulher de sua juventude!
Lu Guangnian era mestre em forjar alianças, homem de lealdade lendária e reputação intocável! Praticamente todos os barões do empresariado de Donghai contavam-se entre seus amigos, divergindo apenas no grau de intimidade!
Para aquela cerimônia, podia-se afirmar sem medo que Lu Guangnian despachara convites para a cidade inteira!
Ninguém ousaria desdenhar o chamado.
Todos compareceriam em peso!
