Capítulo 474 — Será que isso é mesmo uma falha?
por NexoNovelCapítulo 474 — Será que isso é mesmo uma falha?
Su Ruiwen sentiu as engrenagens da mente travarem.
Havia décadas não experimentava tamanho curto-circuito intelectual. Não que se julgasse onisciente; contudo, diante de enigmas impenetráveis ou cenários de alta complexidade, sua mente sempre fora capaz de traçar hipóteses arrojadas e mapear probabilidades lógicas com frieza.
Contudo, após Wu Chen desfilar aquele dossiê implacável dos crimes pretéritos de Xu Zhenyuan, Su Ruiwen viu-se incapaz de estruturar uma única dedução minimamente plausível.
A riqueza obscena de detalhes desconcertava.
A antiguidade de certos episódios desafiava a razão.
Porém, acima de tudo, Su Ruiwen conhecia a têmpera de Xu Zhenyuan. O sujeito operava sob suas diretrizes havia mais de dez anos; conhecia-lhe a estirpe na palma da mão.
Homem de pulso firme, ousadia nos negócios e adepto de jogadas sujas quando necessário, mas, no frigir dos ovos, ainda um empresário do ramo. Longe de ser um criminoso amador ou um psicopata desvairado.
Como alguém conseguiria desenterrar tantos esqueletos do armário daquele homem?
Fosse Xu Zhenyuan um amador descuidado a ponto de deixar um rastro tão exposto — permitindo que podres cometidos há mais de uma década fossem reconstituídos com precisão cirúrgica —, teria sido devorado no primeiro tropeço; não estaria respirando com bilhões na conta bancária.
Nenhum magnata consolidado era tão imbecil.
O século XXI era pródigo em fábulas de enriquecimento meteórico; sob o manto da revolução digital, os fenômenos multiplicavam-se em progressão geométrica. Sempre despontava algum “afortunado” que acertava o nicho e erguia fortunas bilionárias em meia dúzia de anos.
Xu Zhenyuan, todavia, não pertencia a essa linhagem de afortunados instantâneos.
Sua escalada fora forjada degrau por degrau.
Começara a acumular patrimônio na década de 1990, sobrevivera a quebras sucessivas, erguera o Grupo Meiyuan de Joalheria ombro a ombro com Yao Honglin, fora derrotado na guerra comercial contra o Grupo Jinfu, caíra em golpes escusos, triunfara em outras apostas e assim alcançara o topo da pirâmide atual…
Su Ruiwen atravessara traições, emboscadas e banhos de sangue na selva corporativa. Xu Zhenyuan compartilhava da mesma têmpera forjada a fogo.
Como alguém conseguira colher tamanha enxurrada de lodo contra ele? E com as provas já catalogadas?
De que cartola Li Ruobing tirara aquilo?
Su Ruiwen desconhecia a existência daquela “aposta” do passado, mas tinha clareza solar de que, nos quatro anos desde que pisara em Donghai, a herdeira nunca estendera a mão pedindo arrego à dinastia Li, salvo pela comitiva inicial e o capital semente que trouxera na bagagem.
Autossuficiente e obstinada ao extremo! Uma postura que impunha reverência.
Mesmo em contratempos pessoais, raras vezes recorria ao irmão mais novo, Li Ruotai. Era o rapaz quem tomava as dores da irmã por iniciativa própria.
E, no máximo, Ruotai limitava-se a remover estorvos periféricos; jamais ousava ir além para não atrair a cólera da primogênita.
Se Li Ruobing não se rebaixava a acionar o peso da linhagem ancestral nem para as próprias batalhas…
Iria mover os dragões da família Li por Su Qingying?!
Faria uma loucura dessas?
Su Ruiwen duvidava solenemente.
Ainda assim, admitiu a premissa como hipótese de trabalho!
Mesmo nesse cenário, mesmo que a dinastia Li mobilizasse todo o seu aparelho de espionagem contra Xu Zhenyuan — com o cuidado de não alarmar a presa sob hipótese alguma… nem os Li seriam capazes de colher tantos detalhes cirúrgicos!
A lógica desmoronava.
Su Ruiwen necessitou de longos minutos para dissipar a névoa mental. Apenas após um hiato asfixiante de silêncio voltou a fitar Wu Chen, entoando pausadamente:
— Senhor Wu… Tudo o que acabou de relatar é… verídico?
A dúvida brotava inevitável.
Embora considerasse improvável que Wu Chen tecesse mentiras tão vulneráveis a um desmentido rápido, a hipótese de um blefe soava infinitamente mais crível do que a apuração miraculosa daqueles crimes soterrados. O blefe guardava uma nesga de plausibilidade; a segunda alternativa parecia romper as leis da realidade.
— Não é simples de checar? — Wu Chen devolveu com um sorriso sereno.
— Onde está o corpo da amante de Xu Zhenyuan? Quais são a localização exata? — exigiu Su Ruiwen, determinado a atestar o fundo daquelas declarações.
Evidentemente, a verificação transcendia o mero capricho de flagrar Wu Chen na mentira.
Na verdade, após absorver os desmandos cometidos por Xu Zhenyuan, o pragmatismo de Su Ruiwen entrara em ebulição.
Xu Zhenyuan lesara o Grupo Jinfu para inflar sua fatia societária e desviara rios de recursos dos cofres da empresa.
Reunidas as provas materiais, Su Ruiwen não hesitaria um segundo em esmagar o traidor.
Ele próprio fazia questão de mandá-lo para a cadeia! E se o desfecho fosse o paredão de fuzilamento, não derramaria uma única lágrima pelo sócio.
Isso não significava que a fala de Wu Chen houvesse corrompido sua ética.
Su Ruiwen recusava-se a plantar acusações fictícias contra Xu Zhenyuan apenas por considerá-lo um potencial entrave no caminho da herdeira; o calibre da ameaça não justificava tal barbárie.
Buscar podres reais, contudo, mudava inteiramente a natureza da operação.
O desfecho prático convergia para o mesmo fim, mas a substância jurídica e moral pertencia a universos completamente antagônicos! Dois conceitos irreconciliáveis!
Su Ruiwen adoraria ter em mãos os podres de cada um daqueles velhos conselheiros da diretoria. Os de menor envergadura, sua filha manipularia sob rédea curta; os perigosos e incontroláveis… seriam devidamente expurgados!
— O cadáver jaz no parque industrial da periferia norte, atrás do Armazém Número Cinco da nova unidade fabril da Fábrica de Máquinas Tianhe. Contando a partir da esquerda, no segundo galpão de estacionamento; entre a segunda e a terceira vagas do flanco direito, a dois metros de profundidade… — Wu Chen declamou as coordenadas com naturalidade ímpar, como quem dita o próprio endereço.
— O quê? — Su Ruiwen estacou, chocado mais uma vez.
O que Wu Chen acabara de cuspir?
Uma precisão topográfica tão milimétrica que Su Ruiwen chegou a cogitar se o rapaz não estava zombando de sua cara com invencionices pueris.
— Senhor Wu… Poderia reiterar? — solicitou o magnata, puxando a gaveta da escrivaninha para extrair bloco e caneta.
Pretendia registrar cada vírgula.
— Presidente Su, creio que acionar o gravador do seu aparelho seria mais produtivo — interveio Wu Chen.
Su Ruiwen hesitou por um milésimo de segundo. Largou os apetrechos sobre o mogno, sacou o celular, desbloqueou o visor e iniciou a captação de áudio.
Sem pestanejar, Wu Chen repetiu ponto por ponto a localização da cova clandestina da amante de Xu Zhenyuan, arrematando ao final:
— As obras da nova fábrica da Tianhe começaram três anos atrás. Quando os capangas de Xu Zhenyuan desovaram o corpo, quatro anos atrás, aquele solo não passava de um descampado abandonado…
Ao escutar aquilo, Su Ruiwen sentiu a narrativa atingir o ápice do absurdo.
Enterrar um cadáver em um terreno baldio para, anos depois, erguerem uma planta industrial pesada por cima… Aquilo apagaria quaisquer marcos de relevo da superfície original. Nem o próprio mandante conseguiria apontar a cova de imediato; no máximo, balizaria o quadrante geral.
Como Wu Chen detinha coordenadas com margem de erro nula? A menos que houvesse escavado o corpo com as próprias mãos no passado recente, seria humanamente inviável tamanha certeza!
O raciocínio de Su Ruiwen era impecável. Sem ter exumado os ossos pessoalmente, ninguém no planeta cravaria aquele ponto com tanta segurança.
E Wu Chen havia, sim, desenterrado a mulher! Ao longo dos seus mil anos de repetição temporal!
— Hum… — Su Ruiwen murmurou, pensativo. Desistiu de questionar a veracidade da fala; o teste prático se encarregaria de liquidar a dúvida. Bastaria mandar a equipe de campo passar a pá naquele perímetro.
O presidente lançou um olhar ao celular sobre a mesa, ponderou por um instante e voltou os olhos para Wu Chen:
— Senhor Wu, o senhor mencionou que há peças internas na empresa a par dos desvios de recursos operados por Xu Zhenyuan. Quem são esses nomes, precisamente…?
Durante os sessenta minutos seguintes, a dinâmica manteve-se estrita: Su Ruiwen interrogava e Wu Chen decupava os alvos.
Su Ruiwen calculava que, se um terço daquele material se sustentasse… Xu Zhenyuan estava liquidado! Diante da chance de ouro de expurgar a ameaça antes da sucessão da filha, agarraria a oportunidade com unhas e dentes.
Portanto, estendeu a conferência ao limite.
Queria sugar cada vestígio de podridão que cercava o traidor!
A manobra poderia render mais do que uma condenação penal ordinária. Havia margem real para… barganhar a sobrevivência física de Xu Zhenyuan, trocando uma sentença perpétua branda pela cessão compulsória das ações da Jinfu diretamente para Su Qingying!
Sem que notassem o fluxo dos minutos, os ponteiros já ultrapassavam as três da tarde.
Ao longo daquela hora de inquirição, para além do choque diante dos supostos ardis de Li Ruobing, Su Ruiwen foi tomado por uma admiração crescente em relação a Wu Chen.
O garoto ostentava uma têmpera gélida, domínio absoluto das próprias reações e uma memória assombrosa. Sem bater os olhos em uma única folha de papel, despejara o arsenal de dados que, em tese, a rede de inteligência de Li Ruobing coligira nas sombras.
A pauta estava esgotada.
Wu Chen conferiu o relógio de pulso, ergueu-se com desenvoltura e abriu um sorriso:
— Presidente Su, já que todos os pontos foram esclarecidos e não restam pendências, despeço-me por aqui.
Su Ruiwen pôs-se de pé de pronto e estendeu a mão com respeito espontâneo.
Os dois selaram um aperto firme.
Sem adendos protocolares, Wu Chen girou nos calcanhares e cruzou o limiar da sala.
Su Ruiwen acompanhou a silhueta esguia até o homem desaparecer pelo corredor.
Sentou-se lentamente na cadeira de espaldar alto, ruminou a cena por instantes e voltou a atenção para a mesa, onde interrompeu a gravação de áudio do telefone.
Pousou o aparelho com movimentos maquinais.
Sua mente vagava dispersa. O turbilhão não se limitava ao destino de Xu Zhenyuan; outra interrogação martelava com fúria… Li Ruobing era tão aterradora a esse ponto?!!
Antes daquela tarde, ele já reconhecia a grandeza da jovem — herdeira de um clã mastodôntico e dotada de talento empresarial de primeiro escalão.
No entanto, o horizonte revelado naquele diálogo redefinira completamente o conceito de capacidade que ele atribuía a ela.
Se o relato de Wu Chen fosse cem por cento verídico… Li Ruobing transcendia o patamar humano; roçava o sobrenatural!
Com os dedos entrelaçados sobre a mesa, Su Ruiwen imergiu em silêncio por mais de dez minutos. Finalmente, desbloqueou a tela do celular, percorreu os contatos e selecionou o número sob a alcunha de “Chefe Li da Huancai”.
Julgou imperativo confrontar Li Ruobing diretamente.
Discou.
Ajustou o receptor ao ouvido e aguardou alguns toques até que a voz no outro extremo atendesse.
— Alô? Presidente Su — atendeu Li Ruobing, deixando entrever uma pitada de estranheza no tom.
Os dois quase não trocavam palavras. Mesmo diante da joint venture entre a Huancai Fashion e o Grupo Jinfu, as tratativas de Li Ruobing davam-se invariavelmente com Su Qingying; o patriarca jamais acionara sua linha particular para debater o negócio. Aquela chamada soava inteiramente anômala.
— Hahaha, senhorita Li! — soltou Su Ruiwen, com uma risada cordial. — O senhor Wu esteve em meu gabinete há pouco. Concluímos a conversa e ele acaba de descer.
— Ah… — Li Ruobing arrastou a monossílaba, enquanto o peito dava um solavanco de susto.
Wu Chen fora procurar Su Qingying e dera de cara com Su Ruiwen?!
A mente dela resgatou na mesma fração de segundo a recomendação expressa dele: se alguém indagasse sobre sua presença, a justificativa era a entrega de documentos corporativos.
— …Fui eu quem solicitou a ida dele. Precisava entregar papéis em mãos à senhorita Su — sustentou ela, imprimindo a mais pura naturalidade à voz.
— Ora, senhorita Li, não há necessidade de rodeios comigo. O senhor Wu colocou tudo em pratos limpos — rebateu Su Ruiwen, mantendo um tom aveludado e afável.
— Hã? — Mais um choque estalou na espinha de Li Ruobing. O que diabos Wu Chen havia revelado?! Confessara o romance clandestino com Su Qingying?! Não, a lógica desmoronava… Fosse essa a confissão, Su Ruiwen não estaria destilando gentilezas daquela maneira.
Tratava-se, então… de um teste do patriarca, que começara a suspeitar e ligara para encurralá-la?
— O que Wu Chen disse exatamente? Eu realmente o despachei para entregar papéis… A que assunto em específico o senhor está aludindo, presidente Su? — devolveu ela, contra-atacando com cautela cirúrgica.
— Hahahahaha! — Su Ruiwen gargalhou com gosto. — Senhorita Li, reconheço a nobreza do seu gesto e o zelo com a nossa Qingying; não precisamos de cerimônias aqui. Falemos de peito aberto… O senhor Wu me muniu de todos os detalhes. Estou, inclusive, aparelhando uma equipe para desenterrar um cadáver…
Li Ruobing emudeceu no ato, paralisada pelo choque mais visceral.
Desenterrar um cadáver?!
O cadáver de quem, em nome de Deus?!!
Porra, que tipo de insanidade Wu Chen fora aprontar naquele prédio?! Que conversa tivera com Su Ruiwen? Estava manipulando o velho daquele jeito?!!
Mais uma vez ele se metera numa jogada monumental! E que assunto importante, com todos os diabos!
E, para piorar… aquilo não era uma falha primária imperdoável? Su Ruiwen ligava cobrando coerência e ela boiava em ignorância absoluta. O que responderia? Não levantaria suspeitas de imediato? Como Wu Chen, mestre em antecipar cada milímetro do jogo, cometera um vacilo tão grotesco?!
Espere…
Um segundo!
No meio do silêncio assombrado, um relâmpago de lucidez cortou os pensamentos de Li Ruobing.
Aquilo… era mesmo uma falha?
