Capítulo 468 — Vou resolver um assunto importante
por NexoNovelCapítulo 468 — Vou resolver um assunto importante
Todos os olhares convergiram para Li Ruobing. Wu Jiao e Chen Xue pareciam encolhidas de pavor no canto, sobretudo Chen Xue, que acabara de ver o pai suar frio para tentar se justificar perante a empresária.
A chamada não demorou dois toques para ser atendida.
— Alô, senhorita — ecoou a voz submissa de Wang Xiangming, diretor da segunda fábrica da Huancai, do outro lado do alto-falante. Por ser um dos veteranos que haviam migrado junto com a comitiva da família Li, preservava o velho hábito de tratá-la pelo título cerimonioso de “senhorita”.
— Às duas da tarde em ponto, quero você plantado no meu escritório. Trate de vir agora mesmo, seu imprestável! — ordenou Li Ruobing, com uma frieza cortante na voz.
— S-senhorita… Sim, perfeitamente! — gaguejou Wang Xiangming, tomado de sobressalto no outro extremo da linha.
Ainda que fosse uma peça antiga no tabuleiro da família Li, a ponto de ter servido de motorista particular para Li Maoren na juventude, a fúria de Li Ruobing lhe causava arrepios viscerais na espinha.
Em situações extremas, a ira daquela mulher podia muito bem custar a cabeça de alguém.
Ela conseguia ser infinitamente mais aterradora do que Li Ruotai.
Li Ruobing pertencia àquela estirpe de mulheres com quem nem os próprios patriarcas conseguiam lidar; embora integrasse a terceira geração da dinastia, nem o pai, nem os tios, nem tampouco o velho líder do clã tinham autoridade real para freá-la.
Wang Xiangming considerava a si mesmo um servo leal a Li Ruobing até a medula. O que diabos havia saído dos trilhos para ela explodir daquele jeito?!
— E arraste o Bao Yuquan junto com você! — fuzilou ela.
— Sim, sim, senhorita, agora mesmo! — anuiu Wang Xiangming sem pestanejar.
— Outra coisa: os representantes da Shengye Química vão comparecer à fábrica nesta tarde. Deixe tudo esquematizado para retomar o contrato de fornecimento imediatamente.
— Shengye… — Wang Xiangming hesitou por uma fração de segundo.
— Algum problema com isso? — rebateu Li Ruobing, em tom perigoso.
— N-nenhum, nenhum problema! — apressou-se ele em emendar. Com a patroa cuspindo marimbondos desde o primeiro segundo da ligação, quem teria a audácia de levantar objeções? Ele apenas não conseguira resgatar o nome da Shengye Química de imediato nos arquivos da memória.
A empresa soava completamente obscura.
As grandes corporações químicas instaladas em Donghai podiam ser contadas nos dedos de uma mão, e Wang Xiangming conhecia cada uma delas; já as fábricas de pequeno porte proliferavam aos milhares.
Li Ruobing encerrou a chamada sem se despedir.
— Pode ficar sossegado, senhor Chen — disse ela, voltando o olhar para Chen Jinye. — Eu vou tomar as rédeas dessa situação e acertar as contas. O nosso contrato será restabelecido.
— Ah… C-claro… Muito obrigado — balbuciou Chen Jinye, com o rosto desfigurado pela tensão. Ele assentia mecanicamente, mas mal tinha coragem de articular uma frase inteira.
Wu Chen lançou um olhar bem-humorado para Li Ruobing e puxou levemente a mão dela.
Por instinto, Li Ruobing ergueu os dedos e entrelaçou-os com firmeza nos dele.
Ela encarou Wu Chen e, de repente, deu-se conta do próprio descompasso: acabara de disparar uma bronca fulminante ao telefone e não tivera tempo de suavizar a fisionomia; o modo como se dirigira a Chen Jinye devia ter parecido assustadoramente ameaçador!
— Senhor Chen, não precisa ficar com receio. Pode relaxar, por favor — disse ela, deixando transparecer um sorriso natural e sereno.
A muralha de gelo se desfez no mesmo instante.
— Ahahaha, pois é… Puxa vida! Hahaha… — Chen Jinye finalmente conseguiu respirar de novo. Bateu na própria coxa com um riso frouxo, recuperando o fôlego e a empolgação a galope.
— Eu nem sei como agradecer, presidente Li! Meu muito obrigado pela sua confiança! — Ele deu dois passos à frente e fez questão de apertar a mão dela com vigor.
Ainda que verbalizasse sua gratidão à benevolência de Li Ruobing, Chen Jinye tinha plena consciência de que aquele voto de confiança não fora creditado a ele, mas sim a Wu Chen.
A harmonia voltou a reinar na sala de estar.
Chen Jinye sentia-se flutuando de tanta alegria. Os negócios da fábrica vinham sangrando nos últimos tempos, com o mercado retraído e margens sufocantes; reatar laços com a Huancai Fashion não significava apenas dar sobrevida ao maquinário, mas sim garantir uma verdadeira era de ouro para o seu patrimônio.
Dois anos atrás, quando a segunda fábrica da Huancai acabara de ser erguida, a marca ainda ocupava um nicho modesto e com pouca visibilidade no mercado.
Contudo, ao longo desse biênio, a Huancai decolara de forma avassaladora, e o apetite da empresa por matéria-prima cosmética multiplicara-se em proporções astronômicas.
Chen Jinye até começou a se preocupar se a capacidade instalada da sua linha de produção daria conta de tamanha demanda.
— Hahaha, eu já ouvia falar há muito tempo que a presidente Li é a maior liderança empresarial de Donghai, uma mulher de pulso firme e eficiência cirúrgica… — derramou-se ele em novos elogios.
Sem que percebessem o tempo passar, o relógio já marcava onze da manhã.
Na cozinha, Zhang Xiujuan começara a refogar os primeiros pratos.
— Bem… acho que preciso dar no pé agora — anunciou Chen Jinye de repente, pondo-se de pé com pressa.
— Mas já vai embora? A comida já está quase pronta no fogo, e foi você mesmo quem trouxe os ingredientes. O que deu em você, velho Chen? — estranhou Wu Dahai.
— A comida… a minha menina almoça aqui com vocês, ela fica aí brincando com a Jiaojiao. Eu preciso voar de volta para a fábrica…
— Voltar para a fábrica para fazer o quê?
— Tenho que juntar a papelada, preparar as certidões e as amostras! Hahahaha! Esta tarde eu tenho que bater na porta da fábrica da presidente Li, preciso deixar tudo nos trinques…
Tratava-se de negócios cruciais, de modo que Wu Dahai não insistiu para retê-lo à mesa.
— Sendo assim, vá em frente… Presidente Li, eu vou me adiantar… — Chen Jinye fez questão de apertar a mão de Li Ruobing mais uma vez antes de se despedir com reverência.
Wu Dahai acompanhou o compadre até o hall de entrada.
Uma hora mais tarde, Wu Chen e Li Ruobing também concluíram sua refeição em família. Fora um almoço simples e ligeiro; até Wu Dahai abrira mão do habitual gole de destilado.
— Pai, mãe, nós já vamos indo.
— Já vão pegar a estrada…? Quando voltam de novo?
— É pertinho daqui, voltamos a qualquer momento. Se vocês estiverem com tempo livre, também podem dar uma passada na cidade grande para passear…
Não havia nenhum traço de melancolia naquela despedida.
Afinal, o trajeto era curto, e Wu Chen estivera sob aquele teto havia apenas um mês. Além disso, pelo respeito cerimonioso que tinham por Li Ruobing, Wu Dahai e Zhang Xiujuan fizeram menção de acompanhá-los até o térreo para vê-los partir, mas Wu Chen não permitiu que se dessem ao trabalho.
Os dois desceram sozinhos pelo lance de escadas.
Entraram no veículo.
Wu Chen assumiu a direção, com Li Ruobing no banco do carona, e arrancaram.
— Dirija devagar, com cuidado! — gritou Wu Dahai da janela aberta da varanda, esgoelando-se para o pátio.
Wu Chen baixou o vidro e acenou em despedida para o pai.
Tomaram o rumo do asfalto.
Pouco mais de vinte minutos depois, na rodovia que cortava o acesso ao coração urbano de Donghai…
— …Quer dizer então que o Bao Yuquan já tinha histórico desse tipo de armação e desviava verba por fora? — questionava Li Ruobing, analisando as pontas soltas da conversa.
— Exatamente — confirmou Wu Chen, assentindo levemente sem desviar os olhos da pista.
— E o Wang Xiangming?
— O Wang Xiangming levava uma fatia de cada propina que o Bao Yuquan arrancava dos fornecedores. Só que… na prática, a cumplicidade dos dois não é tão sólida quanto as pessoas de fora imaginam. O Bao Yuquan tem mais idade e muito mais tempo de casa, mas você bateu o martelo e entregou a diretoria-geral da fábrica nas mãos do Wang Xiangming…
— Porque o Wang Xiangming é mais competente tecnicamente — atalhou Li Ruobing.
— Sem dúvida. Só que o Bao Yuquan nunca engoliu esse golpe. Ele vive maquinando nos bastidores uma forma de derrubar o Wang Xiangming para sentar na cadeira de diretor — revelou Wu Chen, com um meio sorriso cínico.
Ao longo do percurso, os dois dissecaram minuciosamente as engrenagens podres da segunda fábrica da Huancai. Na maior parte do tempo, Li Ruobing lançava as dúvidas estratégicas e Wu Chen fornecia os diagnósticos cirúrgicos.
— E o que você sugere… que eu faça com os dois? — sondou ela mais uma vez, querendo medir a perspectiva dele.
— Você é a dona do negócio. A decisão é sua — esquivou-se Wu Chen, virando o rosto para presenteá-la com um sorriso descontraído.
A competência executiva de Li Ruobing era incontestável! Ela dominava a arte da governança corporativa e, de forma geral, a saúde financeira e operacional da Huancai Fashion beirava a perfeição.
Contudo, qualquer conglomerado que atinja escala expressiva carrega seus próprios tumores internos, e a Huancai obviamente não escapava a essa regra.
Wu Chen tinha convicção plena de que, com a envergadura intelectual e a autoridade que Li Ruobing ostentava, se ela não fosse capaz de extirpar um contratempo tão pedestre quanto aquele, então não mereceria continuar ocupando o trono de presidente!
Por volta de uma da tarde, o carro chegou à Torre 7 do CBD de Nancheng.
No estacionamento subterrâneo, Wu Chen manobrou o sedã Audi até a vaga demarcada. Ele e Li Ruobing desceram lado a lado; ela subiria para retomar o expediente na sede da matriz, mas Wu Chen não pretendia acompanhá-la até os escritórios superiores, onde não tinha compromissos pendentes.
— Você vai para casa agora? — perguntou ela.
— Não. Vou me encontrar com uma pessoa — respondeu Wu Chen.
— Quem? A Wu Yurong? — Li Ruobing estreitou os olhos de imediato.
— Hahaha! — Wu Chen caiu na gargalhada. A mira de Li Ruobing estava verdadeiramente travada naquela mulher. — Não tem nada a ver com a Wu Yurong. Vou atrás da Qingying.
— Da Qingying? — A feição de Li Ruobing tornou-se indecifrável. Ela deu um passo à frente, laçou o pescoço dele com os dois braços e sussurrou bem próxima aos seus lábios: — Meu querido marido… A Qingying soltou ontem mesmo que queria um filho seu. Você está com tanta pressa assim de providenciar a encomenda?
— Em plena luz do dia? Você acha mesmo que sou esse tipo de homem desenfreado? — rebateu Wu Chen, achando graça.
— E você não é? — provocou Li Ruobing, semicerrando os olhos com um sorriso sarcástico.
— Não sou, não. Eu vou lá para resolver um assunto de extrema importância; hoje calhou de eu ter uma brecha na agenda. — Wu Chen sorriu de canto, fez uma breve pausa e completou: — A propósito, se por acaso alguém perguntar por aí, você diz que me pediu para entregar uns documentos urgentes para a Qingying.
Li Ruobing foi pega de surpresa e processou a informação internamente por um segundo.
Quem se daria ao trabalho de perguntar?
E que assunto de extrema importância seria aquele?!
— Meu querido marido, que tipo de… golpe mirabolante você está planejando desta vez? — indagou ela, modulando o tom de voz com afetação teatral.
— Eu sou um cidadão de bem — limitou-se Wu Chen a sorrir.
— Humpf! — Li Ruobing bufou com escárnio.
Não quis insistir no interrogatório.
Ali mesmo, em meio às vagas de concreto do subsolo, Li Ruobing puxou o rosto dele e plantou-lhe dois beijos audazes na boca. Poderia haver funcionários ou curiosos passando por perto, mas ela não dava a mínima: teria vergonha de beijar o próprio homem por medo do que os outros pensariam?
— Pois bem, amor. Boa sorte — despediu-se ela ao soltá-lo, estendendo a mão para ajeitar o colarinho da camisa dele com zelo.
Virou-se com imponência e afastou-se com passadas elegantes.
Li Ruobing seguiu em direção aos elevadores do complexo corporativo.
Wu Chen, por sua vez, retornou ao interior do veículo, ligou a ignição, manobrou para fora do subsolo e tomou o rumo da imponente sede da Joalheria Jinfu.
Àquela hora do expediente, Su Qingying certamente estaria trabalhando no prédio da presidência.
E ela não estaria sozinha.
O pai dela, Su Ruiwen — o homem mais rico de Donghai —, também estaria por lá!
