Capítulo 340 — Queria elogiar você
por NexoNovelCapítulo 340 — Queria elogiar você
— Bingbing. — Uma voz envelhecida soou do outro lado. — Tantos anos, e você nunca voltou pra ver o seu avô, nem um telefonema. O que foi? Ainda guarda rancor do vovô?
O tom era completamente diferente do de antes. Não batia em nada com o velho teimoso das lembranças de Li Ruobing. Era tranquilo demais, e tinha até um quê de saudade e de emoção.
— Voltar pra te ver? Ha! — Li Ruobing chegou a rir de tanta raiva. E respondeu, gelada: — Pode ficar tranquilo, velho. No dia em que você morrer, eu volto, sim, pro seu enterro!
O gênio explosivo de Li Ruobing simplesmente não se continha mais. Além dela, ninguém teria coragem de falar assim com o velho patriarca da família Li.
Ela odiava de verdade!
Odiava o próprio avô!
Um ódio maior até do que o que sentia por Ding Ruilong!
Porque nem Ding Ruilong nem o pai, Li Maoren, conseguiam mandar na vida de Li Ruobing. Nenhum deles tinha como obrigá-la a nada!
Desde pequena, Li Ruobing buscava a independência. Ótima aluna, de comportamento exemplar, era a menina que os outros pais citavam de exemplo. Tinha os próprios sonhos. Escolhera estudar no exterior e já planejava abrir o próprio negócio lá fora para realizá-los.
Não precisava se apoiar na família. Nem achava que o prestígio que a família lhe dava na China fosse lá grande glória.
No começo, estava tudo bem.
Tudo seguia nos trilhos.
Até que, quatro anos antes, Li Ruobing soube que a mãe estava gravemente doente e voltou às pressas ao país. Ao chegar em casa, descobriu que era tudo mentira, uma armação do pai para trazê-la de volta e casá-la com Ding Ruilong!
E quem tinha decidido tudo aquilo era o avô, Li Huaigeng!
Li Ruobing reagiu por instinto. A primeira reação foi ir embora e que os outros se virassem!
Mas a mãe chorou e implorou, chegou até a ameaçar se matar. Antes, a mãe sempre estivera do lado dela. A família materna, os Sun, os tios, o avô materno, todos sempre a tinham mimado e nunca a forçado a nada!
Tudo por causa do avô Li Huaigeng.
Ele convencera todo mundo e calara todas as vozes contrárias, inclusive as da família Sun!
Uma pressão como nunca tinha sentido desabou sobre ela, feito avalanche, feito tsunami!
Li Ruobing podia não ligar para mais ninguém, mas não podia ignorar a mãe, uma das pessoas que mais amava no mundo!
Foi assim que nasceu a aposta!
E a vida dela virou de cabeça para baixo!
Vencer a aposta?
Li Ruobing nem sabia se conseguiria. Nos últimos dois anos, chegara a achar que tinha menos de dez por cento de chance.
Não por se achar incapaz, mas porque… Ding Ruilong roubava no jogo! Usava o poder da família, e a família Li fazia vista grossa e, às vezes, até ajudava Ding Ruilong!
Antes de conhecer Wu Chen, Li Ruobing chegara a achar que a própria vida já estava praticamente arruinada. O mais provável era perder e acabar casada com um homem desprezível como Ding Ruilong!
Por mais que se esforçasse, por mais horas extras que fizesse, por mais noites que passasse em claro trabalhando, nada parecia capaz de mudar aquele destino miserável!
Tudo por causa do avô Li Huaigeng!
Como não odiá-lo?
— Bingbing, eu sei que você torce pra que o vovô morra. E, com a saúde que eu tenho, também não devo durar muito… — continuou o velho patriarca, no mesmo tom de lamento. Não se irritou, embora a neta tivesse acabado de desejar a morte dele!
Já que fizera aquela ligação, naturalmente imaginara o que a neta ia dizer e estava preparado.
— Você cresceu mesmo! — continuou o velho, suspirando. — Ainda lembro de quando você era pequena e aprendia caligrafia comigo. Você era diferente das outras crianças, conseguia se concentrar. O Atai não era como você, vivia aprontando. Estragava as pinturas e caligrafias que eu colecionava, e você ainda acobertava ele, assumia a culpa…
— Você ligou pra ficar contando histórias da minha infância? — Li Ruobing não aguentou e o interrompeu, sem a menor paciência. — Se tem alguma coisa pra falar, fala! Se não tem, vou desligar! Tô ocupada!
— Eu sei que você está ocupada. Também fiquei sabendo de umas coisas que andaram acontecendo com você. — O velho patriarca seguia sem pressa. — E então? Esse rapaz chamado Wu Chen… você gosta mesmo dele?
— E o que você tem a ver com isso? — rebateu Li Ruobing.
— Sou seu avô. Como não tenho nada a ver? — respondeu o velho.
— Ha! — Li Ruobing soltou uma risada fria. — Velho, para de me enrolar com esse papo inútil. Se você ainda tem um pingo de vergonha na cara, não me liga pra me encher. Eu também não tô a fim de ficar te xingando!
— Bingbing, isso é jeito de falar com o seu avô?! — A bronca de Li Maoren soou de repente pelo celular!
Li Maoren estava naquele momento ao lado do pai, Li Huaigeng.
A voz dele vinha de um pouco mais longe.
Evidentemente tinha ouvido o que Li Ruobing dissera e, não aguentando mais, gritara de onde estava.
O velho patriarca, já bem idoso, era um pouco surdo, e usava o celular no volume máximo. Pelo visto, Li Maoren tinha ouvido toda a conversa entre avô e neta.
— Não, não, não. A menina está com raiva guardada. Você fica quieto… — A voz do velho voltou logo em seguida, agora um pouco mais distante.
Mandava Li Maoren se calar.
Li Maoren se calou na hora, sem nem rebater.
Não se atrevia!
— Bingbing. — A voz do velho voltou, agora mais perto. — Família é família, o sangue fala mais alto. Que rancor dura pra sempre? O vovô sabe que a decisão que tomou naquela época te machucou, mas eu também estava pensando na família. Você é estudada, sensata, devia conseguir…
— Para de me dar sermão! — Li Ruobing voltou a interrompê-lo, sem aguentar ouvir.
Detestava quando os mais velhos vinham com lição de moral!
Para ela, usar grandes princípios, moral ou uma devoção filial cega para encurralar os outros era a coisa mais sem-vergonha que existia!
Tudo tinha que ter lógica!
E aqueles sermões nunca tinham lógica nenhuma!
— Não é sermão — disse o velho, ainda sem pressa. — Bingbing, eu não liguei hoje pra brigar com você. Se acalma também. Somos avô e neta, que rancor existe que não se resolva? O que passou, passou. Aquela decisão que eu tomei na época foi mesmo…
— O que passou, passou? Fácil falar, velho! Você sabe o que eu passei nesses anos todos… — Li Ruobing o cortou de novo, a ponto de explodir.
— Bingbing! — O velho a interrompeu, subindo o tom, mas logo voltou a suavizá-lo. — Me deixa terminar! Na verdade, eu liguei hoje porque queria elogiar você. Você fez muito bem, principalmente na hora de escolher homem… você sabe escolher muito bem!
A expressão de Li Ruobing se suavizou de repente.
E muito!
Ela entendeu o que o avô queria dizer, mas mal conseguia acreditar.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou, querendo confirmar.
— O vovô é que estava caduco naquela época. Aquele moleque da família Ding não presta mesmo. Bingbing, você estava certa! — disse o velho Li.
Li Ruobing ficou chocada pra caralho!
O avô estava admitindo que tinha errado?!
Sem perceber, lançou um olhar a Wu Chen, ao lado. Não sabia exatamente o que tinha acontecido, mas não era boba. Naturalmente imaginava que, nos últimos tempos, Wu Chen parecia ter conversado em particular sobre muita, muita coisa com o pai dela e também com o tio materno!
Mas aquilo bastava para fazer o velho mudar de ideia?!
Se o velho patriarca tivesse mesmo mudado de posição, isso significava uma virada radical em todo o rumo dos planos futuros da família Li!
— Bingbing, você está na rua? Pelo barulho, parece bem movimentado aí — perguntou de repente o velho Li.
— Ah… é. No shopping. — Diante da mudança do avô, Li Ruobing, por um instante, nem sabia que postura adotar.
— Fazendo compras? Com quem? — perguntou o velho Li.
— Com o Wu Chen — respondeu Li Ruobing.
— Ah, é? Então ótimo. Eu ia mesmo ligar pra ele depois de falar com você. Faz assim: passa o celular pra ele. Quero trocar umas palavras…
— Hum… espera um pouco. — Li Ruobing se virou para Wu Chen e estendeu o celular. — O velho quer falar com você…
Wu Chen estava totalmente tranquilo. Ainda sorrindo, pegou o aparelho, levou-o ao ouvido e disse:
— Velho patriarca, o senhor queria falar comigo?
Sem cautela demais, sem reverência servil. Só um tom naturalmente familiar, com o respeito que se deve a um mais velho.
