Capítulo 307 — Fora do roteiro
por NexoNovelCapítulo 307 — Fora do roteiro
Donghai Huafu, villa nº 36.
Todos estavam na sala. Guo Qiqi e Tang Xinbao estavam sentados no sofá comprido. Ao lado de Tang Xinbao havia um homem de meia-idade, de uns quarenta e cinco anos, bem alto e também um tanto gordo.
O homem vestia uma túnica tradicional chinesa vermelho-escura, com calça de linho cinza. Nos pés, sapatos de pano com sola de mil camadas. No pulso, uma pulseira de contas de colecionador, já lustrosa de tanto uso.
Era preciso admitir: o visual era bem marcante!
Não era roupa que qualquer um conseguisse usar bem. Em gente comum, faltaria aquele ar, e a pessoa podia até parecer uma antiguidade ambulante.
Mas aquele homem sustentava o visual com perfeição!
Era uma roupa casual e formal ao mesmo tempo, que servia para qualquer ocasião! Tudo dependia da presença de quem a vestia!
Era Tang Jingbin!
— Senhor Tang, o chá — disse Zhuang Xiaodie, servindo-lhe chá fumegante. Tinha uma postura respeitosa, mas sem rigidez, bem natural.
— Senhorita Zhuang, não precisa se incomodar. É meu Segundo Tio, é de casa — disse Tang Xinbao depois que ela serviu o chá.
Tang Xinbao não tratava Zhuang Xiaodie como alguém de fora. Não só por causa de Wu Chen, mas porque já tinham pegado intimidade e se davam bem.
Fazia pouco tempo que se conheciam.
Mas Zhuang Xiaodie também vinha de Modu e era da mesma geração. Não só tinham idades parecidas como viviam a mesma fase da vida: eram todos universitários!
No dia anterior, Wu Chen tinha saído, e Zhuang Xiaodie ficara em casa com Tang Xinbao e Guo Qiqi. Os três conversaram, assistiram a séries e até jogaram cartas juntos. Tinham muito assunto em comum.
Jovens não têm a cabeça tão complicada, por isso fazer amizade é coisa fácil!
— É visita, ué. E é mais velho — respondeu Zhuang Xiaodie, com um sorriso doce e contido.
— Xiaobao, esta moça é…? — perguntou Tang Jingbin, olhando para Tang Xinbao e indicando Zhuang Xiaodie com um gesto.
Naturalmente, não sabia quem ela era. Só sabia que aquela era a casa de Wu Chen.
Pela roupa, pela aparência, pelo corpo e pela postura, Zhuang Xiaodie jamais poderia ser uma empregada.
E, se Tang Xinbao a chamava de “senhorita Zhuang”, naturalmente também não podia ser empregada.
Tampouco passaria pela cabeça de Tang Jingbin que ela fosse mulher de Wu Chen, porque ele sabia que Wu Chen, o homem que salvara seu sobrinho, era namorado de Li Ruobing, a neta mais velha da família Li. Tang Xinbao tinha lhe contado a situação por telefone no dia anterior.
— Hã… a senhorita Zhuang é amiga do irmão Wu Chen… — respondeu Tang Xinbao, depois de hesitar um instante e trocar um olhar com Guo Qiqi.
Os dois sabiam a verdade.
Mas não dava para contar.
Ainda mais na frente da própria Zhuang Xiaodie. Não dava para dizer que ela era amante de Wu Chen.
— Ah… — Tang Jingbin lançou um olhar de canto ao sobrinho, no tom de quem tinha entendido.
Na verdade, tinha percebido que o sobrinho estava mentindo.
Tang Jingbin tinha visto Tang Xinbao crescer e o conhecia bem demais. Mas… não tinha o menor interesse em desmascarar ninguém, porque quem Zhuang Xiaodie era não importava!
Tanto fazia. Tinha perguntado só por perguntar.
— Senhor Tang, fique à vontade — disse Zhuang Xiaodie mais uma vez, e saiu apressada para a cozinha.
Tang Xinbao conversou um pouco com o Segundo Tio. Tang Jingbin chegou a segurar o queixo dele, virar o rosto do sobrinho de um lado para o outro e examinar os machucados.
— E o laudo? Traz aqui pra eu dar uma olhada — pediu Tang Jingbin.
— Tá aqui, Segundo Tio — disse Guo Qiqi, tirando o relatório médico direto da bolsa.
Tang Jingbin examinou o laudo de Tang Xinbao.
Pouco depois.
Zhuang Xiaodie voltou da cozinha. Tinha ido lavar frutas e montar uma travessa. Era questão de hospitalidade: se a visita ia comer ou não, pouco importava; o importante era ter. Era questão de atitude!
Mal Zhuang Xiaodie pousou a travessa de frutas na mesa…
Ding!
As portas do elevador do térreo se abriram.
Wu Chen tinha voltado, subindo do subsolo.
Zhuang Xiaodie se virou para olhar e foi recebê-lo.
— O irmão Wu Chen chegou — disse Tang Xinbao, levantando-se e olhando naquela direção.
— Senhor Wu — cumprimentou Zhuang Xiaodie, ao chegar perto dele.
— A visita já chegou? — perguntou Wu Chen, casual.
— Uhum. — Zhuang Xiaodie assentiu.
Wu Chen sorriu e apertou de leve a bochecha dela, num gesto bem descontraído. Depois, com uma das mãos no bolso do paletó, seguiu para a sala.
— Irmão, esse é meu Segundo Tio.
— Segundo Tio, esse é o irmão Wu Chen, que me salvou.
Tang Xinbao deu dois passos à frente e fez as apresentações.
Enquanto ele falava, Tang Jingbin já tinha se levantado e examinava Wu Chen. Naquele dia, Wu Chen usava um terno executivo azul-claro, de corte ajustado. Tudo o que vestia tinha sido comprado por Wu Yurong. Naturalmente, era caríssimo, na casa das centenas de milhares.
Mas, perto do relógio, aquilo era troco!
— Chefe Tang, muito prazer.
— Hahahahaha! Irmãozinho, obrigado! Foi graças a você! Meu sobrinho já me contou tudo. Se não fosse você, esse menino podia ter morrido anteontem à noite!
Depois da apresentação, Wu Chen e Tang Jingbin apertaram as mãos.
Tang Jingbin falava entre gargalhadas, como se estivesse mesmo agradecidíssimo a Wu Chen, mas o que dizia… dava muito o que pensar!
Wu Chen conhecia Tang Jingbin!
Na verdade, Tang Jingbin era uma espécie de “ovelha diferente” na família Tang. A família tinha tradição militar, mas ele não tinha nada de militar no jeito. E não só não tinha, como tinha ido na direção oposta… Era um comerciante dos pés à cabeça! Passava uma sensação de comerciante em estado puro!
Comerciante vai atrás de lucro!
Tang Jingbin era exatamente assim.
Além disso, dava para chamá-lo de raposa velha, do tipo tigre sorridente. Tinha a cabeça muito profunda e não soltava o falcão antes de ver a lebre!
Mal tinham se conhecido.
E Tang Jingbin já falava em “Tang Xinbao quase morreu”. Parecia estar demonstrando uma gratidão enorme a Wu Chen, mas, na verdade, provavelmente já sabia que Wu Chen pretendia mediar o caso.
Não era difícil deduzir, já que Li Ruotai era o “cunhado mais novo” de Wu Chen!
— Chefe Tang, desculpa te fazer esperar — disse Wu Chen, sorrindo, quando soltaram as mãos.
— Imagina, imagina. — Tang Jingbin abanou a mão, todo sorrisos. — Eu também acabei de chegar. Foi quase junto.
Depois de mais algumas cortesias, os dois se sentaram.
O jeito como Tang Jingbin chamava Wu Chen era meio peculiar: “irmãozinho”. Tang Xinbao chamava Wu Chen de irmão mais velho, mas Tang Jingbin usava o tratamento a que estava acostumado.
Com um jovem relativamente desconhecido, mas com quem tinha uma relação amistosa, sem parentesco nem diferença de geração na família, Tang Jingbin costumava usar “irmãozinho”.
E a relação entre Tang Jingbin e Wu Chen era, naturalmente, “amistosa”!
Porque Wu Chen tinha salvado a vida de Tang Xinbao.
Aquele favor, ou melhor, aquela dívida de gratidão, a família Tang com certeza ia pagar. Mas uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra. Tang Jingbin sabia que Wu Chen talvez tentasse mediar, mas não ia mudar facilmente o modo de tratar o caso só porque Wu Chen intercedia.
— O irmãozinho parece mesmo bem jovem. O Xiaobao disse que você tem vinte e dois anos?
— Isso. Um ano a mais que o Jovem Mestre Tang.
— Tão jovem e já tão bem-sucedido! Hahahaha.
— O chefe Tang me elogia demais.
— Não, não, não é elogio demais. Irmãozinho, deixa eu te dizer: eu sempre fui muito bom pra julgar gente. A gente acabou de se conhecer, mas foi só eu bater o olho em você, nesse rapaz tão bem-apessoado, pra saber que o seu futuro… não tem limite! Hahahahaha!
Papo furado!
Continua aí no papo furado!
Tang Jingbin tinha uma mania: adorava elogiar os outros! Muitas vezes, elogiava a pessoa até ela ficar nas nuvens e baixar a guarda com ele.
Era tudo técnica!
O hábito virou natureza. Tang Jingbin sempre falava daquele jeito!
Levados pelo ritmo de Tang Jingbin, os dois passaram uns bons dez e tantos minutos jogando conversa fora antes de chegar ao assunto principal.
— …Irmãozinho, não tem o que dizer. Você salvou o nosso Xiaobao. Uma dívida de vida dessas não tem como pagar… — Enquanto falava, Tang Jingbin tirou um cartão bancário, pousou-o sobre a mesa de centro e o empurrou até ficar diante de Wu Chen.
— É só uma pequena lembrança da nossa família Tang. A senha são os seis últimos números do cartão. Irmãozinho, você tem que aceitar, hein! — concluiu Tang Jingbin, todo sorridente, dando duas batidinhas na perna de Wu Chen.
— Então eu aceito — respondeu Wu Chen, sorrindo.
Pegou o cartão e meteu no bolso!
Aceitou!
Sem uma palavra de cortesia, sem nem fingir recusar por educação, Wu Chen simplesmente aceitou!
O sorriso de Tang Jingbin congelou na hora.
Wu Chen tinha saído completamente do roteiro, e o golpe deixou Tang Jingbin atordoado por um instante.
