Capítulo 264 — Me dê a faca
por NexoNovelCapítulo 264 — Me dê a faca
Para Jiang Chuan, aqueles últimos dias tinham sido um pesadelo.
Ele pretendia fugir, mas, quando foi buscar o passaporte, levou uma pancada por trás na cabeça. Só ao acordar descobriu que quem o capturara eram os homens de Lao Dao. Perguntou por quê, mas ninguém lhe respondeu. Vendaram-lhe os olhos, amarraram-no, enfiaram-no num carro. Sacolejo atrás de sacolejo, vários lugares diferentes, dois dias de tormento, até que finalmente o levaram para ali.
Pelos nomes dos prédios comerciais que vira pela janela e pelos anúncios nos ônibus durante o caminho, deduzira que tinha sido trazido para Donghai.
E com isso vieram um medo e um desespero extremos!
Donghai era território de Li Ruotai!
Jiang Chuan não sabia exatamente o que se passava entre Li Ruotai, Wu Chen e Lao Dao, mas imaginava que, caísse nas mãos de Wu Chen ou nas de Li Ruotai, não sairia vivo. E não só isso.
Podia ter um destino pior que a morte e ainda arrastar a família junto.
Naquele mesmo dia, ao meio-dia, chegara a pensar em morrer.
Se ia morrer de qualquer jeito, morrer logo… faria a família Ding não considerá-lo um traidor, e ela não tocaria na família dele!
Já tinha tomado a decisão.
Mas, de repente, o amarraram.
Não sabia por quê. Até então, só o mantinham trancado no quarto, sem cordas.
Voltou a afundar no desespero.
Até Wu Chen aparecer.
Uma chance de sobreviver!
— Me deixe ir! Senão eu mato ele! — gritou Jiang Chuan de novo para Wu Chen, que continuava com a maior tranquilidade. Puxou a adaga mais para trás, contra o pescoço do refém, e recuou um passo.
O franzino, seu refém, já tinha um corte sangrando no pescoço.
Era muito bom de briga, mas agora a faca estava com Jiang Chuan.
Não ousava se mexer.
E Jiang Chuan era ainda melhor que ele! Embora já tivesse passado dos quarenta e não estivesse na forma da juventude, continuava fortíssimo! Até Lao Dao o chamava de “Mestre Chuan”. O tratamento não vinha só do fato de ele ser homem da família Ding, mas também do respeito por ser um homem de fibra!
E por lutar como poucos!
No mano a mano, desarmados, só Lao Dao conseguia enfrentá-lo de igual para igual!
Com arma de fogo, Jiang Chuan era ainda melhor!
Mas, com faca ou qualquer arma branca… aí Jiang Chuan não era páreo para Lao Dao.
— Que porra é essa?
— Vai se foder!
A porta estava aberta. Os outros dois na sala perceberam o que acontecia no quarto e ouviram os gritos de Jiang Chuan. Vieram xingando; um sacou uma faca curta, e o outro… o de pele clara e óculos tirou direto uma arma de dentro da roupa e a apontou para Jiang Chuan!
— Me deixe ir! — Jiang Chuan nem deu atenção a eles. Continuava gritando para Wu Chen, fora de si, com as veias da testa saltadas.
Jiang Chuan sabia muito bem que aqueles três homens de confiança de Lao Dao andavam armados.
Sabia também que os três eram gente disposta a tudo, todos com sangue nas mãos! Num confronto individual, nenhum deles era páreo para ele. Mas, se os três viessem juntos, derrubá-lo ou matá-lo seria moleza!
Era por isso que Jiang Chuan não tinha arriscado nada naqueles dias.
Sabia que não tinha chance.
Fazer um deles de refém também não adiantaria. Os outros dois eram capazes de correr o risco e atirar nele sem pensar duas vezes!
Eram todos homens acostumados a jogar com a própria vida.
Mas, com a chegada de Wu Chen, a situação mudava.
Wu Chen era quem podia decidir.
Fazer refém não funcionava com capangas dispostos a morrer, mas funcionava com quem dava as ordens. A diferença era que, se os primeiros deixassem alguém escapar, não teriam como se explicar ao chefe; por isso, não tinham autoridade para soltar ninguém. Já o segundo…
Era o chefe.
Podia decidir!
Por isso Jiang Chuan tinha feito o franzino de refém e gritava só com Wu Chen, ameaçando-o para que o deixasse ir!
Ignorava os outros dois.
Era sua única chance.
A saída de quem já não tinha saída!
Queria ver se Wu Chen teria coragem de ficar assistindo enquanto ele matava um dos seus homens…
Aquilo faria os outros subordinados perderem a fé nele.
— Para que chegar a esse ponto? — Wu Chen continuava tranquilo e sorriu para Jiang Chuan.
Enquanto falava, ergueu a mão e fez sinal para o homem ao lado baixar a arma.
— Me deixa ir que eu não machuco ele! Depois disso, o que houver entre vocês e a família Ding não tem nada a ver comigo! Me deixa ir! — Jiang Chuan estava cada vez mais descontrolado. Já não conseguia segurar as emoções que vinha reprimindo havia dias.
Se tivesse visto Wu Chen logo depois de ser capturado, jamais estaria naquele estado.
Mas, naqueles dias, pensara demais. Quanto mais pensava, mais medo sentia. Quanto mais pensava, mais desesperado ficava. Seus pensamentos já tinham passado por todos aqueles altos e baixos e chegado ao estado atual, em que acreditava ter finalmente entendido tudo:
Se pudesse fugir, fugiria.
Se não pudesse, morreria.
Não havia mais volta!
— Muita coisa não deixa de ter a ver com você só porque você diz que não tem. — Wu Chen olhou para Jiang Chuan com um sorriso, num tom muito calmo. — Por exemplo, todo o trabalho sujo que você fez para a família Ding ao longo desses anos. Se isso vazar, sua mulher e seus filhos, lá na Califórnia, nos Estados Unidos… podem acabar morrendo num incêndio, ou num assalto, não acha?
A expressão de Jiang Chuan mudou.
— Ouvi dizer que Santa Clara é muito bonita. Já faz dois anos que você não vai lá, não é? — acrescentou Wu Chen, e sorriu.
O rosto de Jiang Chuan se transformou por completo.
Com apenas duas frases simples, Wu Chen tinha revelado uma quantidade enorme de informação.
Santa Clara era um condado da Califórnia, nos Estados Unidos, e uma cidade muito conhecida, parte do Vale do Silício. Muitas gigantes internacionais tinham sede ali. Quanto à composição da população, mais de 35% dos habitantes eram de origem asiática.
A mulher e os filhos de Jiang Chuan moravam em Santa Clara.
Isso era algo que nem dentro da família Ding alguém sabia!
Se investigassem, provavelmente descobririam, mas, antes de investigar, com certeza não sabiam!
Wu Chen, porém, sabia.
E sabia também que a última vez que Jiang Chuan saíra do país para visitar a mulher e os filhos tinha sido dois anos antes!
— Não quer conversar comigo? — perguntou Wu Chen outra vez, com um leve tom de diversão na voz.
Wu Chen voltara a mencionar onde a mulher e os filhos dele moravam e ainda falara em incêndio, acidente de carro e coisas do tipo…
Isso mesmo!
Jiang Chuan não tinha entendido errado.
Wu Chen o estava ameaçando!
Quando conversara com Lao Dao, Wu Chen não quisera que ele se sentisse ameaçado. Preferira que Lao Dao tomasse a decisão por conta própria e chegara até a lhe entregar uma arma.
Com Jiang Chuan, não havia necessidade disso.
As pessoas eram diferentes umas das outras.
A personalidade de Jiang Chuan e a de Lao Dao eram muito diferentes. Lao Dao era do tipo que podia ser torturado de todas as formas e, ainda assim, não abriria a boca. Jiang Chuan não. Sua forma de pensar costumava ser mais maleável que a de Lao Dao.
Além disso… a situação de Jiang Chuan era muito mais complicada.
Afinal, ele trabalhara vinte anos para a família Ding, e Wu Chen e Ding Ruilong estavam numa guerra que só terminaria com a morte de um dos dois!
Wu Chen sabia que Jiang Chuan já tinha pensado em tudo.
E sabia também que, se naquele meio-dia não tivesse ligado para Lao Dao e mandado amarrar Jiang Chuan, ele já teria se jogado do prédio…
A única coisa que ainda podia segurá-lo eram a mulher e os filhos.
Jiang Chuan encarava Wu Chen de olhos arregalados. As veias da testa continuavam saltadas, e a respiração foi ficando mais pesada.
Finalmente.
De repente, afastou para o lado a mão que segurava a faca e, com a outra, empurrou o franzino, que cambaleou dois passos em direção à porta antes de se equilibrar.
Jiang Chuan continuou com a faca na mão e recuou até a janela.
Tinha soltado o refém.
Tinha mostrado sua disposição.
Mas se recusava a largar a faca.
Queria conversar com Wu Chen, mas não queria ficar totalmente à mercê dele. A faca era sua única garantia.
Na verdade, aquilo não passava de um consolo psicológico para si mesmo.
Afinal, o lado de Wu Chen tinha uma arma de fogo.
A faca não significava nada.
O franzino tocou o próprio pescoço, virou-se e fuzilou Jiang Chuan com os olhos.
— Todo mundo para fora! — disse Wu Chen nesse momento.
O franzino olhou para Wu Chen, lançou mais um olhar furioso para Jiang Chuan e só então saiu. Os outros dois, à porta, também recuaram. Os três voltaram para a sala, e Wu Chen fechou a porta do quarto.
Wu Chen, junto à porta.
Jiang Chuan, junto à janela.
No quarto, só os dois.
Wu Chen deu uns passos pelo cômodo, observou o ambiente sujo e bagunçado e parou a pouco mais de um metro de Jiang Chuan. O olhar voltou a pousar nele.
Então estendeu a mão.
— Me dê a faca.
Jiang Chuan encarava Wu Chen de olhos arregalados. A respiração continuava pesada.
Ergueu a mão…
E, muito devagar, começou a estender a faca para Wu Chen.
De repente!
Abriu a mão.
A faca despencou em direção ao chão. Normalmente, aquilo desviaria a atenção de qualquer um; por instinto, os olhos acompanhariam a faca caindo.
No instante seguinte em que soltou a lâmina, Jiang Chuan desferiu um chute contra Wu Chen!
Violento e rapidíssimo!
