Novels chinesas em português
    Índice do Capítulo

    Capítulo 494 — Tem certeza de que quer ouvir?

    A expressão de Su Ruiwen mudou ligeiramente. É claro que ele não sabia que Wu Chen viria, mas, pela expressão de Wu Yurong, era evidente que ela já sabia.

    Naturalmente, fora Wu Yurong quem avisara Wu Chen.

    Se ela própria o convidara ou se Wu Chen soubera do encontro e decidira vir, Su Ruiwen não tinha como saber.

    Rangido!

    O segurança empurrou a porta da sala privativa. Wu Chen surgiu como sempre, de terno e gravata e com um sorriso no rosto. A figura de Wu Chen nunca parecia uma pessoa comum. Vestido daquele jeito, à primeira vista passava a impressão de ser um jovem herdeiro de família rica. Mas qualquer um que tivesse investigado sua vida saberia que ele vinha de uma família absolutamente comum.

    — Chegou — saudou Wu Yurong, levantando-se com um sorriso doce e radiante. Deu uma espiada discreta no relógio de pulso: Wu Chen adiantara-se em cinco minutos, praticamente na hora marcada.

    Su Ruiwen, que estava mais perto da porta, virou o corpo e olhou para trás. Sua expressão era de uma placidez absoluta, tão serena que não deixava transparecer emoção alguma.

    Su Ruiwen não se levantou da cadeira.

    Wu Chen tampouco estendeu a mão em cumprimento cortês.

    Ficava evidente que, naquela situação, não havia necessidade de fingirem cortesia.

    — Ainda não fizeram os pedidos?… — indagou Wu Chen sorrindo, enquanto caminhava para o lado de dentro, puxava uma cadeira e se sentava.

    — Estávamos apenas aguardando você, ora — respondeu Wu Yurong, com uma voz suave e um sorriso doce. Seus olhos brilhavam ao olhar para Wu Chen, e toda a sua postura parecia muito mais descontraída do que minutos antes.

    — Dá uma olhada no que você quer comer… — Logo após sentar-se, Wu Yurong pegou o cardápio, abriu-a e estendeu-o na direção dele.

    — Tanto faz, escolha você. Ninguém veio aqui hoje propriamente para jantar — devolveu Wu Chen, mantendo o sorriso leve.

    — Disso não há dúvida… — concordou Wu Yurong, rindo também, enquanto seus belos olhos deslizavam de soslaio sobre o jovem, como se lhe transmitisse algum sinal.

    Su Ruiwen observava tudo.

    Convivera com Wu Yurong por décadas e jamais a vira se comportar daquele jeito. Não era exatamente uma atitude de menina mimada que ela estivesse encenando, mas aquela iniciativa um tanto inadequada à ocasião.

    Su Ruiwen também não pôde deixar de admirar a firmeza psicológica de Wu Chen.

    O rapaz fora capaz de se sentar ao lado de Wu Yurong com toda a naturalidade, conversando com familiaridade, como se nada de especial tivesse acontecido e estivessem ali apenas para uma refeição.

    Wu Yurong fez o pedido primeiro.

    Chamou o segurança à porta, que trouxe um garçom. Como ninguém se importava com o que comeria naquela noite, selecionou alguns pratos típicos da casa do Laopinxuan. Em seguida, veio a escolha da bebida; o vinho era mais importante do que a comida.

    Embora Su Ruiwen não fosse beber muito por causa da saúde.

    E a ocasião também não fosse apropriada para beber demais.

    Ainda assim, precisavam ter alguma bebida.

    Wu Yurong encomendou duas garrafas do vinho tinto mais caro do Laopinxuan. Como o serviço da garrafa levaria alguns minutos, depois que o garçom saiu, ela girou a parte central da mesa, trouxe a bandeja de chá de volta e serviu uma xícara para Wu Chen.

    Su Ruiwen permanecia calado, com os olhos fixos em Wu Chen.

    Enquanto Wu Yurong servia o chá, ele ergueu a própria xícara e tomou um gole em silêncio, sem desviar o olhar de Wu Chen.

    — Chefe Su, não pretende dizer nada? — Wu Chen tocou de leve a xícara e fitou Su Ruiwen com um meio sorriso: — Sobre os episódios desta tarde, Ruobing me ligou e contou…

    — …Tudo o que a senhorita Li me relatou é verdade? — perguntou Su Ruiwen, pousando a xícara na mesa. Tanto os seus movimentos físicos quanto a cadência de sua fala eram lentos.

    Na verdade, ele sequer definira como conduziria aquele diálogo.

    Não estava preparado de maneira alguma!

    Para Su Ruiwen, conversar francamente com Wu Chen exigia o mesmo preparo psicológico que ter uma conversa franca com sua filha, Su Qingying.

    Pois sabia perfeitamente que havia uma grande possibilidade de a conversa dar errado e chegar ao ponto de exigir uma decisão!

    Não sabia se Wu Chen ficaria numa situação difícil por causa disso, mas ele próprio certamente ficaria! Se Wu Chen fosse um homem comum, seria fácil lidar com o assunto. Mas Wu Chen estava muito longe de ser comum. Naquele exato momento, Su Ruiwen chegava a sentir que, se rompesse com Wu Chen, talvez não fosse capaz de enfrentá-lo!

    Havia ainda muitos outros pensamentos sutis em sua mente.

    Por exemplo… por que romper com ele? Pela felicidade da filha? Ou para proteger os negócios da família Su? Romper talvez não alcançasse nenhum desses dois objetivos. E, se não rompesse, talvez…

    O coração de Su Ruiwen era um mar de incertezas.

    Ele realmente não estava preparado para aquela mesa.

    — Para ser sincero, não sei exatamente o que Ruobing lhe contou. Também não pedi que me relatasse a conversa com tantos detalhes — ponderou Wu Chen, sustentando o sorriso plácido: — Mas acho que tudo o que ela se dispôs a contar deve ser verdade.

    — Senhor Wu, você realmente conseguiu… abrir os meus olhos — disparou Su Ruiwen. Esboçou um sorriso rápido para o jovem, mas recolheu o semblante no ato, voltando à expressão serena.

    — Chefe Su, você não é o primeiro a dizer isso a meu respeito… — retrucou Wu Chen, rindo.

    Os olhares de ambos continuavam fixos um no outro.

    A imponência do olhar de Su Ruiwen era incapaz de abalar a espinha de Wu Chen em qualquer medida. Em contrapartida, Su Ruiwen tampouco era homem de desviar os olhos intimidado simplesmente por tomar conhecimento das feitos do rapaz.

    Na condição de homem mais rico de Donghai, Su Ruiwen não admitia ser acuado dentro do próprio território: um dragão vindo de fora não conseguiria dominar a serpente local. Mesmo que Li Maoren desembarcasse na cidade, ainda que Su Ruiwen não ombreasse com a estatura nacional do patriarca, se mobilizasse as relações que tinha por trás de si, poderia até levar vantagem sobre Li Maoren.

    Quem alcança o topo em qualquer indústria de grande porte constrói canais de interlocução que tocam, no sentido literal da palavra, os escalões mais altos!

    E Su Ruiwen personificava o topo incontestável no mercado de ouro e joias!

    Todos os anos, ele precisava ir à capital participar de reuniões.

    É verdade que Su Ruiwen carregava temores em relação a certas figuras; contudo, em condições normais, tal cautela afetava os métodos que empregava, e não o fazia ceder nas questões importantes.

    Agora, porém, ao ser obrigado a tomar qualquer decisão importante que envolvesse riscos, Su Ruiwen via-se forçado a ponderar repetidas vezes os ganhos, as perdas e a possibilidade de ceder. Tudo isso por um único e cruel motivo… ele realmente não tinha muito tempo de vida.

    Os contatos mais importantes e sólidos da família Su nos altos escalões existiam porque Su Ruiwen ainda estava vivo. Quando ele morresse, talvez desaparecessem.

    Isso se aplicava tanto a famílias empresariais quanto às grandes famílias poderosas: quando a geração mais velha partia, eram raríssimas as relações mais fortes que permaneciam.

    Por essa razão, a hipótese de ceder passava por sua cabeça: sem estrita necessidade, não queria deixar uma confusão para a filha resolver.

    Su Ruiwen não deixou suas emoções aparecerem no rosto.

    — É realmente surpreendente… Hoje, durante o casamento do velho Lu, o assunto dominante era a prisão dos irmãos Qi. Quem diria que foi obra do senhor Wu! Pelos relatos da senhorita Li, foi por causa de uma mocinha de sobrenome Zhuang… — comentou Su Ruiwen, encarando Wu Chen com ares de quem apenas joga conversa fora.

    — Você acredita nisso, Chefe Su? — devolveu Wu Chen, com um sorriso inquisitivo.

    — Custa crer que o senhor Wu provocasse uma coisa tão grande por causa daquela moça. Mas foi o que a senhorita Li disse. Ela própria parece não ter muita certeza. Talvez haja outras coisas envolvidas… — soltou Su Ruiwen num ritmo pausado, carregando a frase de insinuações táticas.

    — Há coisas que Ruobing realmente não sabe muito bem — anuiu Wu Chen, sorrindo. — E julgo desnecessário que ela venha a saber. Quanto mais souber, maior será a pressão. Além do mais, ela não tem muito interesse nesses assuntos…

    — Que assuntos? — Su Ruiwen ergueu de leve as sobrancelhas, travando a mira em Wu Chen.

    Aquilo ultrapassara os limites da mera sondagem indireta; ele estava perguntando diretamente a Wu Chen!

    Ignorava se o rapaz lhe responderia, mas precisava colocar a pergunta na mesa!

    O que teria a força de mobilizar o Segundo Mestre Tang e Gu Ruibo simultaneamente, a ponto de fazê-los correr o risco de romper com a família Xiang? Que assunto era aquele? Que interesses estavam envolvidos? O caso em si não tinha relação com Su Ruiwen, mas ele precisava compreender de que capacidades e métodos Wu Chen realmente dispunha.

    Isso era extremamente importante!

    Wu Chen mirou Su Ruiwen e deixou escapar um riso discreto. O temperamento daquele patriarca era fascinante: muitas vezes falava de forma particularmente direta, mas seus pensamentos eram muito profundos. Aquilo tornava fácil deduzir a intenção primária de suas perguntas, mas extremamente difícil adivinhar a que conclusão chegaria.

    — Chefe Su, o senhor é o pai da Qingying — declarou Wu Chen, sustentando o sorriso calmo enquanto o fitava nos olhos: — Por isso, acho que preciso lhe fazer um alerta. Há coisas que, depois que eu contar e você ouvir, não haverá mais volta. Você terá que fazer uma escolha. Tem certeza de que quer ouvir?

    Wu Chen manteve o sorriso.

    O semblante de Su Ruiwen permaneceu impassível, sem a menor alteração.

    Os dois se encararam.

    Silêncio.

    Nota