Novels chinesas em português
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    Capítulo 12 — Pingdu

    No caminho até Pingdu, fiz várias trocas de rota e desvios. Quase sempre comi e dormi nos templos por onde passei — o mais importante era não deixar rastro.

    Com o certificado monástico, tudo isso ficou bem mais fácil. Alguns templos até davam dinheiro aos monges que apresentavam o certificado — o valor dependia dos recursos de cada templo.

    Na última parada antes de Pingdu, fiquei hospedado no Templo Longxing, em Zhengding. Ali tinha muito monge, muito peregrino e muito turista.

    Naquele dia, o abade do templo tinha justamente um compromisso em Pingdu, e aproveitei a chance pra pegar carona no carro dele.

    Normalmente, ele não deixava monge pegar carona. Mas disse que meu rosto lhe era familiar — eu era parecido demais com um conhecido dele. Esse conhecido também era abade de templo, com o nome monástico de Xuanhong.

    Antes, Xuanhong tinha sido um aluno de talento da Universidade de Pingdu e trabalhado como arquiteto-chefe de sistemas no Vale do Silício. No auge da carreira, largou tudo de repente pra se tornar monge — o que gerou muitos comentários. Como aquele abade era extremamente talentoso e ainda por cima bonito, sempre acabava cercado de peregrinas admiradoras.

    O que o abade contava não me interessava nem um pouco, mas fiquei ali, fingindo interesse e assentindo sem parar. Por dentro, só pensava em achar Gu Qiutang o quanto antes e perguntar sobre minha avó.

    Saí de Liutan e, depois de dezoito dias, finalmente cheguei a Pingdu. Não deu pra evitar uma certa empolgação.

    Pingdu tinha sido a capital, no passado. Depois, com a Guerra Humano-Máquina, a capital foi transferida pra Chang’an, e Pingdu virou a antiga capital. Ainda assim, continuava com muita empresa de alta tecnologia.

    Gu Qiutang era dono de uma delas.

    Eu tinha crescido desde pequeno numa região montanhosa e afastada. Nunca tinha visto uma cidade tão grande. Ao ver aquilo com meus próprios olhos, pela primeira vez, não consegui evitar ficar impressionado.

    Quando era mais novo, tinha lido “O Outono na Antiga Capital”, de Yu Dafu, e por isso, na minha cabeça, ainda ficava o assobio dos pombos-correio. Mas, quando fiquei parado na rua e olhei em volta, só via prédios altos por todo lado e gente em movimento. Não consegui deixar de admirar — aquilo era mesmo uma metrópole. Se a guerra não tivesse destruído tanta coisa, quem sabe o tamanho da prosperidade que aquele lugar teria!

    Segui o endereço que minha avó tinha me dado, olhei o mapa, confirmei a localização e fui direto pro metrô.

    Não imaginava que Pingdu fosse tão grande. Um trajeto que parecia curto exigia três linhas e duas baldeações. E as passagens das estações de transferência eram tão complicadas que fiquei zonzo — só conseguia seguir as placas.

    Na passagem da segunda baldeação, tinha bastante gente. Fui avançando devagar junto com a multidão quando, de repente, alguém vindo no sentido contrário me deu um esbarrão. Levantei a cabeça e olhei.

    Quase levei um susto.

    Aquela pessoa era parecida demais comigo. A diferença é que usava um manto monástico azul-esverdeado. Na mesma hora lembrei do conhecido que o abade do Templo Longxing tinha mencionado no caminho — Xuanhong.

    Mas, na verdade, não me importava quem ele fosse. Me senti como um carro com placa legítima que topa com outro de placa clonada — deu vontade de agarrar o sujeito. Afinal, Gao Minjun tinha morrido justamente por causa de alguém com “placa clonada”.

    Será que aquele ali era um segundo Gao Minjun?

    Eu só vestia o manto azul-esverdeado que o velho monge do Templo Mumen tinha me dado nos momentos em que passava por templo pra comer e dormir de favor. No dia a dia, continuava com minhas próprias roupas. E não tinha raspado a cabeça. Depois da Guerra Humano-Máquina, os templos, em geral, já não exigiam tonsura com tanto rigor — por isso eu continuava com cara de gente comum.

    Ao ver aquela “placa clonada”, de repente me ocorreu: se eu raspasse a cabeça e vestisse o manto, talvez ficasse igualzinho àquele homem.

    Virei rápido e fui atrás do monge, querendo alcançá-lo pra entender o que estava acontecendo. O caso de Gao Minjun tinha me deixado assustado demais com esse tipo de coisa.

    Bem quando eu estava quase alcançando ele, de repente um alarme estourou na passagem. Um foco de luz caiu do teto, direto sobre o monge.

    As pessoas em volta se espalharam num instante, “tchá”, como se tivessem sido treinadas — todo mundo se apertando pras laterais, desesperado para não se envolver.

    E, no meio daquela multidão, quatro pedestres vestidos normalmente viraram gente de preto num piscar de olhos.

    CWP?

    Como assim a roupa também mudava?

    Da outra vez eu tinha tocado a roupa daquela pessoa de preto chamada Liu Biao. Era lisinha demais, e eu não fazia ideia de que material era. Não esperava que tivesse até essa função.

    Todo mundo reagiu rápido demais. Eu nem tive tempo de processar nada — fiquei parado ali, feito bobo.

    Bem no momento em que a multidão se dispersava, as pessoas de preto apareciam e o alarme não parava de tocar, o monge também se moveu com uma velocidade absurda. Só ouvi uns estalos secos — pá, pá, pá — e várias pessoas de preto, junto com alguns pedestres ao redor, caíram no chão.

    Depois, o monge se lançou para a frente e disparou pra saída, que nem vento.

    Como tudo aconteceu rápido demais, não deu tempo de eu sair do caminho — acabei exatamente na rota de fuga dele. O monge estendeu a mão grande, me agarrou e me arremessou pra trás.

    Deu vontade de xingar bem alto. Mas, num “bum”, bati direto numa pessoa de preto que tinha acabado de se levantar, e caímos os dois, com força, no chão.

    $%@!

    Porra! Aquele desgraçado tinha me usado como projétil humano! Não tinha caráter nenhum.

    A pessoa de preto que eu derrubei se levantou, já ia sair correndo atrás do monge, mas travou ao ver meu rosto. Me agarrou na hora e me escaneou com os óculos escuros que estava usando. Aquilo me fez lembrar da primeira vez que vi uma pessoa de preto no quartinho escuro da escola.

    Mas ele logo relaxou e me empurrou pro lado.

    Pelo visto, eu não era o que ele procurava.

    Enquanto eu ficava enrolado com aquela pessoa de preto, o monge e as outras três pessoas de preto que ainda o perseguiam já tinham desaparecido do meu campo de visão.

    Levantei do chão e corri na direção do barulho de perseguição e luta. Queria saber como aquilo ia terminar.

    Quando saí ofegante pela saída da estação, já tinha um monte de curioso reunido na beira da rua. Do lado, estava parado um carro oficial preto.

    Me empurrei depressa pra dentro da multidão de curiosos, querendo ver de perto.

    O monge estava todo ensanguentado, imobilizado no chão por várias pessoas de preto.

    Um jovem que tinha descido do carro oficial usava um aparelho especial pra retirar da nuca do monge uma coisa parecida com uma lagarta.

    No meio dos curiosos, tinha gente suspirando e comentando sem parar.

    Algumas coisas que diziam eu não entendia bem. Mas certas falas chamaram minha atenção. Por exemplo, alguém comentou:

    — É um Varredor.

    — Ah, que pena… um mestre Xuanhong tão admirável.

    Varredor? Não era esse mesmo o nome que minha avó tinha mencionado uma vez pra mim?

    Estavam falando das pessoas de preto ou daquele monge? Se o monge caído era Xuanhong, então “Varredor” devia se referir às pessoas de preto.

    A organização internacional de expurgo CWP seria a dos Varredores?

    Pela raiva e pesar estampados na cara das pessoas em volta, Xuanhong realmente devia ter bastante fama.

    Mas eu nem o conhecia. Não me incomodava muito em ter visto uma “placa clonada” ser tirada de circulação.

    As pessoas de preto colocaram o monge dentro do carro oficial. Os que tinham descido do veículo e os que fizeram a captura começaram a conversar em voz baixa entre si.

    Uma pessoa comum, com certeza, não conseguiria escutar nada. Mas eu tinha meu “superpoder” de percepção e ainda captei um pouco do que diziam — só que não entendia bem do que estavam falando.

    Coisas como fibras inteligentes, redes neurais, Departamento de Supressão, Departamento de Inteligência Cultural, fãs mulheres, bônus, e por aí ia. Nada daquilo eu entendia.

    Mas “Cápsula da Sabedoria” eu conhecia bem. Foi uma dessas que explodiu e matou Meng Ran.

    Será que aquela coisinha parecida com uma lagarta era justamente isso?

    Já tinha visto o suficiente. Decidi ir embora. Só fiquei com pena de não ter conseguido perguntar a Xuanhong por que ele era tão parecido comigo.

    O que aconteceu com ele acabou de vez com a empolgação que eu tinha sentido ao ver, pela primeira vez, a prosperidade daquela cidade. Comecei a achar que Pingdu era ainda mais perigosa do que Liutan.

    Dali até Lanqiyuan, meu destino, já não era longe. Parei um táxi e disse ao motorista aonde eu queria ir.

    O táxi foi virando de rua em rua. Eu já não estava tão interessado na paisagem, mas ainda tinha uma ideia razoável da direção em que estávamos indo.

    Pouco depois, o táxi entrou de repente numa área de ruas abandonadas e sombrias. Em volta só tinha prédios em ruínas e estruturas abertas e deterioradas. Muita porta e janela quebrada, lixo espalhado por todo canto.

    Não sabia se aquilo era resquício da guerra ou obra abandonada, mas comecei a sentir que tinha algo errado. Perguntei logo pro motorista:

    — Senhor, tô com a impressão de que o senhor tá dando uma volta. Por que não vai pela avenida?

    — A avenida está engarrafada. Pelas ruas menores não tem trânsito.

    A explicação até fazia sentido, então não pensei muito.

    Pouco depois, o táxi parou de repente na frente de um conjunto de casas baixas, isoladas, velhas e caindo aos pedaços. E não saiu mais do lugar.

    O que era aquilo?

    Ia perguntar. Mas, para minha surpresa, o motorista simplesmente saltou do carro e saiu correndo.

    @#$%!

    Que absurdo. O que aquilo significava?

    Abri a porta e desci pra ver o que estava acontecendo.

    Nesse momento, começaram a surgir pessoas estranhas de dentro e dos arredores das casas baixas e velhas. A maioria estava com roupa desalinhada e se movia de maneira rígida — tinha até gente com deficiência apoiada em muleta. Parecia que eu tinha caído no cenário de um filme de zumbi.

    Tive um mau pressentimento. Voltei correndo pro carro, fechei a porta e acionei os controles para fechar todos os vidros.

    Um sujeito de cabelo amarelo correu até a janela. Com uma mão suja, começou a bater com força no vidro, resmungando alguma coisa.

    Liguei na hora pra polícia.

    Mais gente foi se juntando em volta do carro. Começaram a puxar as quatro portas, cada um de um lado. Mas não conseguiram abrir — eu já tinha travado tudo.

    Foi então que vi o cabelo amarelo tentando quebrar o vidro. O motorista correu de volta pra impedir. Ficou um tempão do lado de fora tentando abaixar o vidro pelo controle, mas não conseguia — porque eu estava com o botão de trava principal apertado.

    O motorista tirou a chave e tentou usar a chave mecânica pra abrir. Continuei segurando a trava principal, e ele também não conseguiu nada.

    Nessa hora, o cabelo amarelo e o motorista começaram a discutir alguma coisa. Não tive vontade de usar meu “superpoder” de percepção pra saber o assunto. Só queria sair dali o mais rápido possível.

    Ficamos naquele impasse por um bom tempo. De repente, ouvi uma sirene vindo do céu.

    Pela janela, vi um drone policial pairando no ar, emitindo avisos para todo mundo em volta do carro.

    O motorista e as pessoas ao redor se espalharam na hora.

    Fiquei sentado dentro do carro, sem coragem de me mexer, esperando a polícia chegar de verdade. Não pude deixar de pensar: Pingdu realmente merecia o nome de metrópole — até drone a polícia usava pra atender ocorrência. Mas, ao mesmo tempo, o lugar parecia mesmo perigoso demais!

    Esperei mais de dez minutos até a polícia chegar.

    Depois vieram as perguntas, o depoimento. Em tudo, dei só o meu nome monástico.

    O que eu não esperava era que, quando os policiais ouviram que eu queria ir a Lanqiyuan procurar o Grupo Gu, acabaram me levando até lá de viatura, já que ficava no caminho.

    Nota