Capítulo 5 — Vá. Hoje você não pode voltar
por NexoNovelCapítulo 5 — Vá. Hoje você não pode voltar
Gao Minjun claramente se incomodava muito com o fato de eu ter colado no gaokao.
Ele devia estar quebrando a cabeça para entender o que tinha acontecido. Na verdade, nem eu entendia. E, além disso, não podia contar nada a ele.
Então respondi:
— Como assim, como eu consegui? Não estou entendendo.
Claro que eu sabia muito bem o que ele queria dizer. Só estava me fazendo de desentendido de propósito.
— Nada acontece sem motivo.
Gao Minjun falou com certa urgência:
— Você claramente não sabia resolver aquelas questões do gaokao. Mesmo assim, acertou tudo. Isso não pode ter acontecido sem uma razão.
— Eu colei.
Admiti, tranquilo. E daí? O que você pode fazer comigo?
— Então pode me dizer como colou? Copiou de alguém, espiou a prova de outra pessoa ou recebeu informações à distância? — Gao Minjun balançou a cabeça e continuou: — Analisamos as gravações com cuidado. A sala de prova também tinha bloqueio eletrônico. Você simplesmente não teve nenhum comportamento nem possibilidade de colar. E esse é justamente o maior problema.
Eu disse:
— A prova vazou, e daí? Comprei as questões de alguém por fora, antes da prova. Fui para casa, resolvi tudo e decorei. Na hora do exame, só escrevi o que tinha memorizado. Simples assim.
Sorri e continuei:
— Um método tão batido, e vocês nem investigaram?
— Não. Não pode ter havido vazamento nenhum. Com isso você não vai me enganar. As questões das avaliações para as universidades de elite são montadas no mesmo instante em que a prova começa, por meio de big data. Nem você, nem ninguém, tem tempo ou possibilidade de conhecer as questões com antecedência. Nem nós.
Gao Minjun falou de forma categórica.
É mesmo?
Essa eu realmente não sabia.
Gao Minjun continuou:
— Você com certeza tem algum método que nós não conhecemos. Beichen, isso é muito importante para nós. Muito importante para o país. Agora não estou falando com você como diretor, e sim como guardião da humanidade. Você acha que uma escola comum, de uma cidadezinha remota nas montanhas, poderia ter um metaverso tão avançado? Acha que eu sou só um diretor comum de ensino médio, enviado pela capital da província? Hoje deixei você ver tudo isso justamente para você entender uma coisa: essas cidadezinhas remotas nas montanhas são, na verdade, os lugares menos contaminados pela sociedade. E também são a base da sobrevivência da humanidade. Precisamos protegê-las com todo rigor. Não podemos permitir, de jeito nenhum, que exista aqui algo capaz de ameaçar a humanidade. Você entende?!
Respondi na mesma hora:
— Não entendo. Não entendo mesmo.
Balancei a cabeça e continuei:
— Eu sou só um aluno comum. Cresci desde pequeno nesta cidadezinha remota. Como é que eu teria capacidade para ameaçar a segurança da humanidade? O senhor está me superestimando.
Na verdade, eu sabia muito bem que seria difícil chegar a algum entendimento com Gao Minjun, a não ser que eu contasse a ele que tinha uma capacidade de percepção fora do comum.
Só que nem eu mesmo sabia explicar bem o que era aquilo, nem de onde tinha vindo. E as palavras da minha avó ainda estavam frescas na cabeça. Eu não podia confiar assim, de qualquer jeito, naquele Gao Minjun.
Ele estava tentando me enrolar. Eu sabia.
Mesmo assim, garanti:
— Que tal assim? Eu prometo uma coisa ao senhor. Eu nasci humano. Nunca fiz nada contra a humanidade e, no futuro, também nunca vou fazer. Serve?
Gao Minjun me encarou com uma seriedade fora do normal.
O plano dele de arrancar alguma coisa de mim tinha fracassado. Um pouco irritado, disse:
— Está bem. Já que você não quer colaborar, só resta investigar sua avó. Afinal, ela é sua responsável legal, foi quem criou você. Isso é obrigação dela. A lei determina. Não ache que isso é injusto só porque estamos investigando apenas você. Como guardiões da humanidade, nossa única missão é impedir que uma inteligência artificial capaz de ameaçar os seres humanos ressurja. Se você não sabe de nada, sua avó certamente sabe.
— Não, não. A velhinha já passou dos noventa, está até meio caduca. O que ela poderia saber? Pergunte para mim mesmo.
Fiquei preocupado com minha avó na hora e tratei de puxar o problema todo para cima de mim.
Gao Minjun claramente não queria mais perder tempo discutindo comigo. Levantou-se e disse, em voz baixa:
— Você não vai me dizer que acha que Meng Ran e o vice-diretor Bi explodiram sozinhos, vai? Se acha, você é idiota demais.
Depois disso, Gao Minjun saiu da sala antes de mim.
Que porra. Aquilo era uma ameaça escancarada!
Só experimenta!
Só que… eu realmente não tinha muito o que fazer contra ele. A lei de fato dizia aquilo. E, pelo jeito como aquele velho tinha falado antes de ir, a identidade dele podia não ser nada simples.
Chega. Eu precisava correr para casa e avisar minha avó.
Gao Minjun, vai se ferrar.
Assim que saí do cômodo onde tinha conversado com ele, meu primeiro pensamento foi correr para casa, contar tudo à minha avó e pedir que ficasse alerta.
Mas, quando cheguei correndo, parei na porta, sem entender nada.
Porque nossa casa nunca tinha estado tão limpa.
O chão, as janelas, tudo estava impecável. A cama também tinha sido arrumada com uma perfeição incomum. Minha avó estava sentada bem ereta numa cadeira, como se estivesse me esperando voltar.
Chamei por ela e contei, correndo com as palavras, tudo sobre a conversa que Gao Minjun tinha marcado comigo.
No fim, sugeri que a gente simplesmente se mudasse dali. Eu estava com medo de que Gao Minjun fosse capaz de fazer alguma coisa mesmo. Afinal, pelo que aquele velho tinha insinuado antes de sair, parecia até capaz de matar alguém.
O vice-diretor Bi, no fim das contas, era colega dele. E Meng Ran era só um estudante que nem entendia bem no que estava se metendo. Só porque os dois tinham instalado escondido uma cápsula de inteligência artificial, na minha cabeça, o diretor Gao mandou os dois para o outro mundo.
Minha avó, porém, ouviu tudo sem pressa nenhuma. Pegou minha mão e disse:
— Beichen, fugir nunca é solução. Você precisa aprender a manter a calma diante dos problemas, enfrentar as dificuldades de frente, resolver sozinho. Não fique se desesperando por qualquer coisa. Gao Minjun não é ninguém importante. No futuro, quem você vai ter de enfrentar de verdade são os Varredores, os membros da elite, estruturas organizacionais muito mais poderosas. Não precisa se preocupar comigo.
Depois disso, entregou-me uma carta e continuou:
— Leve esta carta até Ye Pingsheng. E hoje você vai passar a noite na casa dele. Vá. Hoje você não pode voltar. Volte só amanhã.
Ye Pingsheng? Por que minha avó queria falar com ele?
E quem eram esses Varredores? Quem eram os membros da elite? E de onde tinha saído essa estrutura organizacional poderosa que eu teria de enfrentar?
Eu estava completamente perdido.
Ye Pingsheng era o pai de Ye Ziping, funcionário do governo local de Liutan e também fã de jogos de ascensão à imortalidade.
No começo, ele queria muito que o filho entrasse na universidade. Mas Ye Ziping realmente não tinha jeito para aquilo. Então acabou deixando que ele seguisse o mesmo caminho e se dedicasse ao jogo de combate imortal. Afinal, ao chegar ao nível de Imortal Dourado Daluo, o jogador podia entrar oficialmente para o quadro, virando membro do Centro Municipal Kuzhan.
Todos os anos, províncias, cidades e distritos do país inteiro organizavam ligas de combate imortal. Participava gente demais, e as receitas de publicidade eram impressionantes. Por isso, os competidores oficiais ganhavam salários bem altos.
O jeito da minha avó naquele dia estava claramente estranho. Ainda mais com a casa arrumada daquela forma e aquelas instruções fora do comum. Em vez de me deixar mais tranquilo, aquilo só me deixou mais preocupado.
Será que ia acontecer alguma coisa?
Fiquei ali parado, carta na mão, sem saber o que fazer, hesitando, sem vontade de ir.
Minha avó percebeu minha hesitação e fechou a cara na hora.
— Vá logo! Não importa o que aconteça hoje, você não pode voltar! Não precisa se preocupar comigo. Sua avó já viu gente demais e passou por coisa demais nesta vida. Gao Minjun ainda não está à altura. E pare de imaginar bobagens. De agora em diante, aprenda a cuidar de si mesmo. Eu vou ficar bem.
Depois de ouvir aquilo, fiquei ainda mais preocupado. Abri a boca, mas engoli as palavras antes de dizer qualquer coisa.
Minha avó claramente ficou irritada e gritou:
— Vá logo!
Não quis deixá-la mais brava. Guardei o envelope junto ao corpo e corri escada abaixo.
Na curva da escada, quase bati de frente com Zhu Shiqing, pai de Zhu Zhaojie, que estava subindo. Eu já não estava de bom humor e não tinha a menor vontade de falar com ele. Baixei a cabeça e continuei descendo.
Só que Zhu Shiqing me agarrou pelo braço.
Pela expressão dele, dava para ver na hora que ele estava enfrentando algum problema sério. Falou, gaguejando:
— Então… Beichen, né? Você viu nossa Zhaojie ultimamente? Já são três dias que ela não volta para casa. Também não atende o telefone. Três dias atrás, disse que ia passar um tempo na casa de Li Xiaoli. Mas ontem fui perguntar à família Li, e Zhu Zhaojie nunca esteve lá. Perguntei também para os outros colegas mais próximos dela, e ninguém sabe de nada. Pensei que, como vocês são colegas, talvez você soubesse alguma coisa.
Caramba, agora eu era colega, é?
Quando fazia de tudo para me manter longe dela, por que não dizia que eu era colega? Só sabia me chamar de péssimo aluno.
Além disso, eu não estava com cabeça para conversar com ele. Continuei andando sem levantar o rosto e só joguei uma frase por cima do ombro:
— Zhu Zhaojie está com Gao Minjun. Vá procurar ele.
— Gao Minjun?
Zhu Shiqing me encarou, chocado, de boca aberta, por um bom tempo sem conseguir falar nada.
Também fazia sentido. Uma garota tão comportada, que só pensava em estudar, desaparece de repente. E ainda por cima pode ter passado três dias com um solteirão velho, quase aposentado. Qualquer pai ficaria desesperado.
Eu até conseguia sentir como Zhu Shiqing estava. Não sabia se era emoção por ter finalmente uma pista, ou se aquilo só o deixava mais aflito. De qualquer jeito, estava quase chorando.
Na verdade, eu também não tinha certeza se Zhu Zhaojie estava com Gao Minjun.
Mas, já que eu a tinha visto no metaverso, ela certamente tinha alguma ligação com ele.
E, mesmo que não tivesse, causar problema para Gao Minjun já valia a pena.
Ao sair pela porta do prédio, não fui embora na hora. Fiquei rodeando por ali, pensando em esperar um pouco e ver o que aconteceria.
Mas, assim que levantei a cabeça, vi minha avó parada junto à janela, me olhando com uma cara séria.
Levei um susto e corri direto para a casa de Ye Ziping.
A casa dele não ficava muito longe da minha, mas era em outro conjunto residencial.
Quando cheguei, vi o pai dele preparando o jantar.
Assim que me viu, disse:
— O quê? Sua avó te expulsou de casa? Você também escolheu uma bela hora para colar. Meng Ran acabou de morrer, e o Departamento de Controle e Expurgo, junto com o Departamento de Educação, estão fazendo uma fiscalização pesada. E você resolve aprontar justo agora. Sabe as consequências que isso pode ter?
— Tio Ye, eu não colei. Ye Ziping me conhece.
Eu não queria carregar essa culpa.
Ye Pingsheng apontou a concha de cozinha para mim na hora.
— Você tirou o segundo lugar da escola inteira, e tem coragem de dizer que aquilo foi mérito seu?
— Bom… mérito meu, não foi. Só usei uns truquezinhos, não copiei nem olhei prova de ninguém — resmunguei.
— E isso não é colar? Você é mesmo uma peça. Depois do jantar, não volte para casa. Fique escondido aqui por alguns dias — disse Ye Pingsheng.
— Obrigado, Tio Ye. Ah, e esta carta é da minha avó, pediu para eu entregar ao senhor.
Aproveitei para passar a carta a ele.
Ye Pingsheng ficou surpreso.
Em que época a gente estava vivendo, para ainda mandar carta escrita à mão?
Olhou o envelope, intrigado.
Quando abriu, descobriu que, além de uma folha escrita, havia outro envelope lá dentro.
E, naquele segundo envelope, estava escrito o meu nome.
Fui pegá-lo, mas Ye Pingsheng me deteve.
— Vai, vai, vai. Você não viu que, nesta carta, sua avó pediu para eu entregar isso a você só daqui a um mês?
