Novels chinesas em português
    Índice do Capítulo

    Capítulo 75 — Metade de um crânio humano

    Eu lembrava que Gu Qiutang e Shi Qing já tinham me dito que os Humanos de Elite não morriam nem adoeciam. Mas a realidade que eu tinha diante dos olhos era outra.

    Aquela idosa estava claramente doente. E não era doença leve.

    Perguntei a ela:

    — A senhora está doente? Doente de quê? Não diziam que Humano de Elite não adoece?

    A velha ficou parada um instante, cravou os olhos em mim e só depois de um longo tempo abriu a boca:

    — Você realmente não é Humano de Elite. Entrou como clandestino? Cuidado, os Olhos Celestiais estão por toda parte. Eu não quero acabar envolvida nisso. Pode ir embora.

    Ela estava me expulsando? E eu que tinha acabado de salvá-la.

    Ouvir aquilo, tão sem cerimônia, também me deixou irritado. Eu ainda estava pensando em ajudar, em bancar alguma coisa para ela, e não esperava que me mandasse embora sem a menor consideração. Na hora, larguei a ideia de dar dinheiro.

    Mas, quando voei até a janela, deu pena. De todo modo, eu e Wei Liuqing já tínhamos nos cruzado uma vez, e eu tinha medo de que Zhang Zirui morresse dentro do sistema. Então tudo bem, uma ajudinha eu dava.

    Voei até o robô-cuidador da casa e, com o bico de pombo, fui tocando na máquina até transferir vinte pontos de desempenho. Deixei anotado também que eram para pagar ao sistema a taxa de armazenamento que mantinha a consciência de Zhang Zirui.

    Eu não sabia quanto a família dela devia ao sistema, mas, adiantando um pouco em nome deles, se a soltura de Wei Liuqing atrasasse, ao menos o corpo de consciência de Zhang Zirui não seria apagado de imediato.

    Quando eu já ia levantar voo do parapeito da janela, o robô-cuidador me chamou por trás e disse:

    — A senhora não está doente. Ela ajudou um clandestino, foi descoberta pela patrulha e recebeu uma punição corporal.

    Ah. Então era isso.

    Se tivesse me contado antes, talvez eu ainda tivesse doado um pouco mais. Agora que só falou depois, não vou aumentar a doação.

    Na verdade, quando ouvi a velha contando a história trágica da família, eu tinha pensado em doar cem pontos. No fim, fui enxotado por ela e perdi a vontade.

    Voei embora como uma criança emburrada.

    De todo jeito, eu não sentia culpa nenhuma. Afinal, a gente nem era próximo, e eu não devia nada àquela família.

    Ajudar era consideração; não ajudar também era meu direito.

    O clandestino nem era eu. Quem tinha que ajudar aquela família era o tal clandestino. Sem falar que eu ainda tinha ajudado com vinte pontos. O equivalente à verba anual de pesquisa de um Humano de Elite.

    Ao sair da casa da mãe de Wei Liuqing, vi que já era bem tarde e voei até uma igreja para passar a noite. Ali havia muitos pombos, e, misturado entre eles, eu me sentia um pouco mais seguro.

    Encolhi-me na janelinha da torre do sino da igreja e dormi tranquilo. Até que, na segunda metade da noite, minha percepção por sintonia de frequência me avisou que dois corpos de consciência estavam conversando.

    Abri os olhos devagar, querendo ver se eram corpos humanos ou corpos de pombo.

    Estava escuro demais, e a olho nu eu não conseguia identificar quem conversava. Só me restou ativar de novo minha capacidade de ondas de visão penetrante. Só então vi que, do outro lado da igreja, a pouco mais de cem metros de mim, havia duas pessoas em corpos de pombo conversando por meio da consciência.

    Eles conversavam com muito cuidado, mas minha percepção por sintonia de frequência tinha função de ajuste de frequência. Mesmo assim eu conseguia ouvir claramente aquele diálogo de consciência.

    O pombo A disse:

    — Já passou da metade da noite. Podemos entrar em ação?

    O pombo B olhou para o céu e disse:

    — Vamos esperar mais um pouco. A senhorita Pu disse que desta vez tem que sair sem falha nenhuma. A gente rastreou e fez reconhecimento por quase um ano; não vamos ter pressa agora. Daqui a pouco voamos primeiro até o prédio 3. De lá confirmamos a situação exata lá dentro e, depois de garantir que está seguro, avisamos a senhorita Pu e os outros.

    Quando ouvi o nome da senhorita Pu, fiquei todo animado.

    Que ação eles iam fazer? O que era esse prédio 3?

    Sacudi um pouco o corpo e fiquei de olho naqueles dois pombos. Como eu esperava, mais ou menos uma hora depois, os dois bateram as asas com um ruído e voaram para noroeste.

    Não ousei seguir de perto, com medo de ser descoberto. Se eles vinham rastreando e vigiando o alvo havia um ano, era sinal de que eram muito cautelosos.

    Se eu estivesse em forma humana naquele momento, poderia ficar invisível. Mas o meu corpo de pombo não podia, ainda mais porque o que eu usava agora era daquele tipo mais baratinho.

    Por isso, voei um trecho para o norte antes de virar para oeste.

    Como minha percepção por sintonia de frequência continuava travada nas ondas cerebrais do pombo A, mesmo dando aquela volta eu ainda conseguia acompanhar os dois.

    Depois de uns cinco ou seis quilômetros de voo, os dois pombos pousaram perto de uma área residencial bem discreta.

    Não era um conjunto residencial independente, nem tinha muro em volta. Todas as moradias tinham cara de casa de gente comum. Naquela Ouluocheng próspera e ultramoderna, o lugar parecia muito periférico e muito comum, comum ao ponto de quem passasse não olhar duas vezes.

    Com medo de ser descoberto, voei baixo e pousei não muito longe deles, mantendo uns trezentos metros de distância.

    Por azar, só depois de pousar percebi que, logo à minha frente e à esquerda, era justamente o prédio 3. Os dois pombos não tinham pousado no prédio 3; eu é que tinha pousado na frente do prédio 5, atrás e à direita do prédio 3.

    Não pude deixar de me preocupar que eles não ousassem se aproximar, e já pensava em blindar minhas ondas cerebrais. Só que descobri que nem precisava. Porque, no instante em que pousei, todos os sinais na minha cabeça foram cortados à força.

    Era óbvio: havia uma barreira ali. E uma barreira muito forte.

    Encolhi-me ao lado de um vaso de flores na sacada de uma residência no segundo andar, sem ousar me mover, mas com os olhos presos nos dois pombos a trezentos metros de mim.

    Por sorte, eu tinha entrado voando baixo, e havia um pouco de neblina na rua. Os dois pombos, pelo que parecia, não tinham notado minha presença.

    Uns quinze minutos depois, os dois finalmente pousaram, um atrás do outro, no terraço do prédio 3. Observaram os arredores, desceram até o primeiro andar e, de repente, se enfiaram numa pilha de tralha no térreo daquele prédio.

    No térreo do edifício havia uma pilha de objetos variados, nada chamativa. Depois que os dois pombos entraram ali, não houve mais movimento.

    Olhei em volta e também alcei voo de supetão, mergulhando direto para dentro.

    Ao atravessar a pilha de tralha, só então descobri que, no meio dela, havia um tubo que levava para dentro do prédio. Os dois pombos tinham entrado por ali, com certeza.

    Entrei na mesma hora.

    Já dentro do prédio, assim que coloquei a cabeça para fora da boca do tubo, vi que o interior era luxuoso, parecia um instituto de pesquisa: espaço amplo, muitos equipamentos e instrumentos, mas com um ar extremamente esquisito.

    Varri tudo uma vez com minha percepção por sintonia de frequência e com as ondas de visão penetrante. Além daqueles dois pombos, não havia ninguém em canto nenhum. E, ao mesmo tempo, parecia haver gente em todo lugar.

    Porque cada objeto lá dentro parecia capaz de falar e de pensar. Não eram só os equipamentos e instrumentos que se moviam; até as vassouras e os mouses participavam daquelas trocas, discussões e movimentos entre eles.

    Lá dentro estava tudo escuro, nenhuma luz acesa, mas isso não atrapalhava em nada a correria e a comunicação deles. Era como uma colmeia: cada um ocupado com seus próprios afazeres, sem dar a menor bola para a nossa chegada.

    Será que aqueles objetos que se moviam, falavam e pensavam eram outra forma dos seres de IA?

    Pena que eu era apenas um corpo de pombo e não podia ficar invisível. Mantive minhas ondas cerebrais rigidamente blindadas, com medo de que aqueles dois pombos descobrissem que eu era uma pessoa.

    Percebi que, depois de entrarem, os dois pombos não fizeram mais movimento nenhum.

    Fiz uma sondagem na direção deles e descobri que já tinham ido embora, desligando-se da parasitagem e deixando para trás apenas dois corpos vazios de pombo.

    O que estava acontecendo?

    De repente me deu um mau pressentimento, e também me desliguei depressa da parasitagem, acordando na base do meu tio.

    Meu tio e os outros ainda estavam descansando, mas mesmo assim eu o acordei na hora e relatei tudo o que tinha visto.

    Meu tio também achou muito estranho tudo o que eu descrevia. Fomos verificar as coordenadas, e ele disse que aquele lugar não era uma instituição de pesquisa criada por eles, nem sequer uma instituição de pesquisa de outras forças da resistência. As forças da resistência mantinham contato entre si.

    Meu tio mandou que eu voltasse imediatamente à parasitagem e usasse o corpo de pombo apenas para observar o que iria acontecer lá embaixo. Ele também providenciaria pessoal de Ouluocheng para monitorar de perto os movimentos no local.

    A mais de mil quilômetros de distância, parasitei de novo meu corpo de pombo. Os dois pombos continuavam sem se mexer. Pelo visto, não tinham voltado.

    Eu tinha acabado de voar até uma fresta no telhado para me esconder quando ouvi vários estrondos.

    Com uma nuvem de tijolos partidos e poeira levantada, aquela sala, que originalmente não tinha janela nenhuma, foi explodida e aberta em vários buracos enormes. Em seguida, por aqueles buracos, dezenas de patrulheiros invadiram totalmente armados.

    E a sala ativou de imediato seus equipamentos de contra-ataque. Uma quantidade enorme de armas a laser disparou de ângulos diferentes e carbonizou, num instante, mais de dez patrulheiros. Os que sobraram eram todos gente empunhando escudos quânticos. Eles também ativaram um tipo de equipamento e destruíram na hora todas as armas de contra-ataque.

    Quando tudo voltou à calma, vi Pu Liuqian entrar voando junto com o grupo que veio depois, e ela comandou a patrulha para bloquear tudo ali.

    A sala finalmente ficou iluminada. Vi que todos os equipamentos inteligentes, agora, tinham se calado, imóveis.

    Pu Liuqian caminhou sozinha até a parede norte da sala e girou com a mão um vaso encostado na parede.

    Com um ruído, um quadro enorme no centro daquela parede deslizou, abrindo uma porta.

    Não era uma sala secreta, mas um espaço parecido com um nicho budista.

    No centro do espaço flutuava um suporte, e sobre ele estava um objeto coberto por uma cúpula de cristal.

    Pu Liuqian estourou a cúpula de cristal com um soco, tirou de dentro o objeto e o ergueu diante dos olhos para observar.

    Era metade de um crânio humano.

    Aquele crânio parecia muito antigo, velho como um fóssil.

    No instante em que aquela metade de crânio foi retirada da cúpula de cristal, minha cabeça também tremeu de repente, como se tivesse percebido alguma coisa.

    E aquela percepção mínima chegou a alarmar Pu Liuqian.

    Pu Liuqian virou-se de repente na minha direção, cravou os olhos no meu corpo de pombo, sorriu e disse:

    — Você viu? Sabe o que é isto? É o Cérebro Multidimensional, a outra metade que realmente falta ao supercomputador central quântico. Sentiu um pouquinho, não sentiu? Se o seu corpo verdadeiro estivesse aqui, acredito que a percepção seria muito mais forte.

    Ela estava falando comigo?

    Por que me contar isso?

    Fingi ser um pombo sem ninguém parasitando e fiquei completamente imóvel.

    Pu Liuqian apenas soltou outro sorriso frio e parou de me dar atenção. Com um gesto casual, entregou aquela metade de crânio humano a um dos serviçais que a acompanhavam. O serviçal a colocou imediatamente numa caixa metálica especial.

    Pu Liuqian disse ao capitão da patrulha:

    — Este lugar fica com vocês. Vasculhem com calma e copiem para mim tudo o que houver de dados. Além disso, usem a Cortina Celestial para ampliar a faixa de detecção nos arredores. Com certeza alguém vai vir espiar. Prendam todos os suspeitos e interroguem.

    Dito isso, Pu Liuqian partiu com alguns serviçais em carros voadores.

    Eu também abandonei o corpo de pombo, retornei com minha consciência à base do meu tio e contei à minha mãe e ao meu tio tudo o que tinha visto.

    Eu não esperava que, ao ouvir, minha mãe ficasse com o rosto tão sério. Ela disse em voz baixa:

    — Então o Cérebro Multidimensional estava escondido em Ouluocheng.

    Meu tio também disse, sério:

    — Irmã, e agora, o que fazemos? Não vai ser fácil encontrar de novo. A gente procurou essa metade de crânio por quase vinte anos e, no fim, Pu Liuqian chegou primeiro. Que pena. Agora há pouco, se o corpo biônico de Beichen estivesse lá, talvez ainda desse para disputar.

    Ao ver a expressão séria da minha mãe e do meu tio, senti que aquilo devia ser algo muito especial. Então perguntei:

    — Mãe, que coisa é esse Cérebro Multidimensional? Por que vocês dão tanta importância a ele? E, originalmente, ele estava nas mãos de quem?

    Nota