Novels chinesas em português
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    Capítulo 11 — Fuga (2)

    Só quando saí correndo pela passagem, atirando ao mesmo tempo, consegui ver direito: eram cinco sombras nos atacando.

    Eu tinha acertado três. As outras duas pessoas se protegiam com escudos — até que Gao Minjun, vindo correndo por trás, derrubou uma delas com o próprio corpo. A outra também perdeu a arma eletromagnética, hesitou um instante e recuou.

    Foi só então que consegui enxergar bem.

    Aquela gente estava de uniforme de polícia.

    Gritei:

    — Vocês ficaram loucos?! O homem que vocês acabaram de matar era o chefe de vocês, Zhu Shaohua!

    Gao Minjun berrou de volta:

    — Louco é você! Não está vendo que essa gente está sendo controlada por IA?

    Eu ainda não tinha conseguido processar nada daquilo. Primeiro, corre — depois se pensa. Agarrei Gao Minjun e saí correndo com ele para fora.

    Lá fora estava escuro, mas ainda assim vi o velho porteiro da escola vindo correndo naquela direção.

    Só de ver o porteiro, já senti o vento da liberdade.

    O falso Gao Minjun tinha me mantido preso por apenas um dia, mas, naquele curto espaço de tempo, senti de verdade o medo de perder a vida e a dor de perder a liberdade.

    Estar do lado de fora era bom demais.

    Fiquei sem palavras.

    Chefe Zhu, eu chamei o senhor pra salvar a gente. Por que veio sozinho? Por que não trouxe uma equipe? O senhor era chefe de polícia! Pronto, agora deu no que deu — morreu.

    Bem na hora em que achei que estávamos seguros, o perigo de verdade chegou atrás.

    Não sei de onde surgiram mais algumas pessoas de preto, disparando armas eletromagnéticas contra a gente.

    Depois de alguns tiros, duas das pessoas de preto que vinham atrás de nós foram atingidas por ondas luminosas disparadas de algum lugar que eu não conseguia ver.

    Pela direção dos disparos, percebi que havia alguém atrás da mesa de pingue-pongue, atirando sem parar contra os perseguidores atrás de mim. Era a mesma mesa onde Ye Ziping tinha me esperado da outra vez, bem na frente do quartinho escuro.

    As sombras atrás de mim pareciam não ter medo algum de morrer e continuavam avançando na nossa direção.

    — Abaixem o corpo e corram pra esquerda!

    A sombra escondida atrás da mesa gritou para nós dois.

    O velho porteiro?!

    E você, afinal, quem é?

    Quem vinha atrás de mim podia ser a polícia.

    Fiquei perdido, sem saber em quem confiar.

    — Corre pra esquerda. Faz o que a pessoa atrás da mesa está mandando.

    Assim que terminou de falar, Gao Minjun me empurrou naquela direção e saiu correndo curvado.

    Não tive coragem de olhar para trás. Só fui atrás dele, correndo. Pensei: não era de admirar que aquele velho tivesse sobrevivido à Guerra Humano-Máquina — nessa habilidade de fugir, ele não ficava atrás de mim em nada.

    Só levantei a cabeça quando chegamos a um lugar com gente. Já ia sair correndo em direção à minha casa quando Gao Minjun me puxou de volta.

    — Vai aonde? Nessa hora ainda quer voltar pra casa? Não quer viver, é?

    Eu disse:

    — Preciso pegar minhas coisas. O cartão do banco e minhas roupas ainda estão lá.

    Das três coisas que minha avó tinha me deixado, o endereço eu já tinha rasgado depois de ler. A placa de jade verde eu tinha pendurado no pescoço na hora. Só o cartão bancário e as roupas ainda estavam em casa — eu estava arrumando quando o falso Gao Minjun me pegou, então não deu tempo de levar.

    Gao Minjun nem discutiu. Simplesmente me arrastou na direção da casa dele.

    Pensei: você não deixa eu voltar pra minha casa, mas vai pra sua? Não é igualmente perigoso?

    Ele me levou até o prédio onde morava, mas não subiu — foi direto para o carro. Aquele velho tinha carro.

    Entramos os dois. Gao Minjun deu a partida às pressas e saímos dali voando.

    Foi aí que entendi: velho vivido é outra história. De carro era realmente a forma mais rápida de dar o fora.

    Para onde exatamente ele estava indo, eu não sabia. Eu, de qualquer jeito, precisava chegar a Pingdu.

    O carro saiu voando da cidadezinha e entrou na estrada rumo a Daofu. Mas eu não queria ir para lá — era o sentido contrário.

    Falei depressa que queria descer, que não ia naquela direção.

    Gao Minjun continuou dirigindo e respondeu:

    — Eu sei. Agora não podemos ir pro lado de Chengdu. Com certeza tem gente esperando pra nos bloquear ali. A gente precisa fugir no sentido contrário.

    Pensei: fazia sentido. Quem já viveu bastante entende dessas coisas. Primeiro salva a pele, o resto se resolve depois.

    Uma hora depois, o carro entrou numa cidadezinha de montanha. Para minha surpresa, Gao Minjun me empurrou para fora e disse:

    — Daqui em diante você segue sozinho. Meu conselho é voltar pelo caminho de onde viemos. Assim eles não vão conseguir descobrir pra que lado você fugiu.

    — Voltar? Não vou acabar dando de cara com eles de novo?

    Por que é que eu tinha a sensação de que aquele velho queria me empurrar direto pra armadilha enquanto ele fugia sozinho?

    Gao Minjun falou alto:

    — Não entende que é justamente debaixo da lâmpada que fica mais escuro? A gente acabou de sair de carro — acha que eles não sabem? Rapidinho vão descobrir qual vai ser nosso próximo passo. Por isso é mais seguro você voltar sozinho! Esqueceu o que te ensinei? Lembra: a IA não erra. O ser humano, sim!

    Enquanto falava, Gao Minjun tirou um pacote do compartimento de ferramentas do carro e me entregou.

    — Toma. Daqui pra frente, é por sua conta. Meu conselho é pegar o ônibus da manhã pra Yajiang. Ele passa de novo por Liutan, então fica mais discreto. Me devolve a arma — o ônibus vai estar cheio de gente, levar arma só vai te deixar mais em perigo.

    Mal tinha entregado a arma, ele já fechou a porta e saiu com o carro a toda.

    Caraca, que falta de consideração. E eu ainda tinha te arrastado comigo há pouco!

    Você só saiu de lá porque a pessoa que eu chamei foi salvar a gente, sabia?

    Sem coração!

    Gao Minjun tinha ido embora.

    Não tinha jeito. Fui perguntando o caminho até chegar à rodoviária.

    Naquela cidadezinha, o ônibus da manhã passava só uma vez por dia. Por isso estava mesmo lotado. Tinha gente indo fazer negócio, gente do campo indo pra cidade, gente carregando cesto nas costas para vender fruta.

    Consegui um canto lá no fundo do ônibus. Assim eu conseguia ver quem entrava pela frente.

    Quando finalmente me acomodei, foi que tive tempo de abrir o pacote que Gao Minjun tinha me dado.

    O que podia ter de bom num embrulhinho de papel tão pequeno? Abri devagar.

    Dinheiro.

    Dinheiro vivo. Nem tudo em nota grande — devia dar uns vinte mil no total.

    Levantei a cabeça na hora e olhei pros lados. Ninguém tinha percebido o meu movimento.

    O pouco dinheiro que eu tinha no bolso só dava pra comprar a passagem e tomar um café da manhã. Já estava preocupado com o que faria depois disso.

    O ônibus finalmente arrancou, bem devagar.

    O oeste de Sichuan era só montanha. Diziam que, antes da Guerra Humano-Máquina, havia muitas rodovias expressas e túneis por ali. Mas a guerra destruiu boa parte, e agora os carros precisavam seguir por estradas que contornavam as montanhas.

    O ônibus levou umas três horas, naquele ritmo lento, até chegar a Liutan. Três horas antes, Gao Minjun tinha feito o mesmo trajeto de carro em só uma hora.

    Em Liutan, subiu mais um bocado de gente. Quem entrou depois teve que ficar de pé, espremido no corredor.

    Fiquei de orelha em pé, prestando atenção para ver se alguém comentava o que tinha acontecido naquela manhã.

    E comentavam. E a notícia era ainda mais bombástica.

    Gao Minjun tinha morrido.

    A notícia correu rápido.

    Diziam que Gao Minjun era, na verdade, um ser de IA. Tinha matado o chefe Zhu Shaohua, ferido vários policiais, sequestrado o aluno Gu Beichen e fugido de carro rumo a Daofu.

    Pra resgatar o refém, a polícia e a CWP teriam se juntado numa operação, montado uma armadilha em Daofu e bloqueado o caminho pela frente. Aí teria estourado um tiroteio na estrada — a CWP teria matado Gao Minjun, o carro teria capotado e caído num barranco, e Gu Beichen estaria desaparecido.

    Fiquei calado.

    Poucas horas antes eu ainda detestava aquele homem. Agora me sentia muito culpado em relação a ele.

    Ele tinha usado a própria vida pra salvar a minha, e ainda por cima ficou marcado, injustamente, como ser de IA.

    Na verdade, eu odiava Gao Minjun principalmente por causa do falso Gao Minjun — foi o falso que fez minha avó ter que fugir. Só que os dois eram idênticos. Até olhando para o verdadeiro, eu sentia raiva.

    Ah…

    Agora o falso Gao Minjun podia substituí-lo de forma perfeitamente natural.

    Pensando nisso, de repente percebi o quanto eu estava em perigo.

    Eu era o envolvido mais direto naquele caso e talvez fosse também a única pessoa que sabia de verdade o que tinha acontecido. Nenhuma das partes envolvidas ia me deixar em paz.

    O ônibus saiu, devagar, de Liutan. Depois de umas trinta quilômetros, passou por uma aldeia pequena, e desci às pressas.

    Não queria mais ir pra Yajiang. Aquela cidade era grande demais — no meio do caminho, com certeza alguém ia subir pra fazer inspeção.

    Na aldeia, encontrei um morador de moto e pedi pra ele me levar direto pra Ziyang. Queria seguir de Ziyang, em etapas, até chegar a Pingdu.

    Ziyang era uma cidade de nível de prefeitura, a leste de Chengdu. Sob sua administração ficava o condado de Anyue, pouco conhecido, uma cidade antiga. Ali havia um templo antigo, no sopé de uma montanha — eu tinha lido sobre ele em livros; era um lugar de longa história.

    Não tive coragem de me hospedar num hotel na cidade. Fui direto pro templo. Porque só num templo eu conseguiria pedir abrigo sem precisar fazer registro. E, além disso, eu não tinha levado documento nenhum — mesmo que quisesse ficar num hotel, não sabia nem se aceitariam me hospedar.

    O templo antigo de Anyue se chamava Templo Mumen. Diziam que, antigamente, era cheio de peregrinos e monges, chamado de “Pequeno Potala”. Mas, na Guerra Humano-Máquina, foi atingido pelos combates e, desde então, ficou em decadência.

    O corpo principal do templo ainda estava de pé, mas muita coisa já estava em ruínas. Quase não tinha visitante nem peregrino, e a maioria dos monges tinha desaparecido sabe-se lá para onde. Só restava um velho monge, cuidando do lugar.

    Pedi abrigo a ele. Ele nem perguntou nada sobre mim — era um homem bem quieto.

    Só que ele fazia questão de que eu trabalhasse por conta própria em tudo. Pra comida e pouso, ele só oferecia as condições. Tinha grãos oferecidos ao templo e vários quartos vazios, mas, se eu quisesse verdura, tinha que subir a montanha e colher.

    Aquele lugar era tão tranquilo que perdi a pressa de continuar fugindo. Decidi acalmar um pouco os nervos tensos. E assim passei alguns dias no Templo Mumen, levando uma vida simples e tranquila.

    Alguns dias depois, quando resolvi seguir viagem, o velho monge me deteve. Insistiu que eu tinha uma boa predisposição para o budismo e queria me aceitar como discípulo.

    Ri na hora.

    Naqueles dias sem muito o que fazer, tinha lido mesmo bastante sutra budista, mas não tinha alcançado grande iluminação nenhuma.

    Devia ser que o velho monge estava desesperado por deixar uma linhagem. Sem nem me consultar, me deu um nome monástico: Xuanchen. E insistia:

    — Xuanchen vai atravessar o mundo levando salvação. Seu futuro é promissor.

    Pensei em recusar. Mas, de repente, me dei conta de que talvez aquilo fosse realmente uma oportunidade.

    Eu tinha fugido com tanta pressa que não trouxera documento nenhum. E, mesmo se tivesse trazido, não teria coragem de usar em público, com medo de ser rastreado. O certificado monástico do templo era justamente o que me livrava dessas questões mundanas. A partir daquele momento eu passava a ter uma segunda identidade — algo para apresentar ao viajar e me hospedar, e ainda podia passar por templos de vários lugares e conseguir, de forma perfeitamente legítima, comida e pouso de graça.

    Aceitei na hora a boa vontade do velho monge.

    Fiquei mais alguns dias no Templo Mumen, recebendo seus ensinamentos.

    Nesse meio-tempo, aproveitei um momento pra ir até a cidade de Anyue e telefonar pra Ye Ziping. Disse que estava bem. E, mais importante, pedi que ele fosse pessoalmente até a casa de Zhu Zhaojie e contasse ao pai dela que eu tinha visto a filha, que ela tinha conseguido emprego numa empresa de tecnologia e que estava tudo bem.

    Com tudo resolvido, me despedi do velho monge e parti pra Pingdu.

    Nota