Novels chinesas em português
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    Capítulo 15 — Os condenados da cidade

    Entendi o que ele queria dizer.

    Mas por que eu teria que fingir ser outra pessoa?

    Eu era monge, sim, isso não tinha erro. Mas não precisava ser justamente aquela pessoa. E eu nem conhecia bem Xuanhong. O mal-entendido de agora há pouco foi só porque Lu Linfeng se enganou; minha ideia era esperar todo mundo se acalmar, pra depois explicar tudo com calma.

    Lu Ruixin evidentemente estava preocupado com isso mesmo, com medo de eu me atrapalhar depois e contar a todos que eu não era Xuanhong. Por isso fez questão de me explicar.

    Olhando aquele jeito aflito dele, fiquei até com pena. Mas, pensando bem, também não fazia tanta diferença — será que importava tanto quem eu era? Vamos ver aonde isso leva.

    Quanto a continuar fingindo, eu até dava conta. Mas dar esperança de verdade pra essas pessoas era outra história: eu nem sabia quem eram, nem por que tinham chegado a esse ponto. Que esperança eu podia oferecer? Isso, sim, eu não tinha como fazer.

    O velho Lu Linfeng finalmente captou o clima. Deu um passo à frente, fez uma reverência com as mãos e disse:

    — Mestre, as palavras de Ruixin, eu mesmo só acabei de ouvir agora. Não me atrevo a acreditar em tudo, mas também não me atrevo a duvidar. Mesmo que o senhor não seja Xuanhong, com certeza é um monge que alcançou o Caminho. Eu vejo bem: a disposição do seu espírito e a solenidade com que trata os assuntos de Buda não enganam ninguém. Peço que tenha compaixão e ajude estes condenados a saírem do fogo e da água.

    Eu não sabia bem o que ele queria dizer com “condenados”, mas entendi que ele estava me bajulando, com medo de eu recusar o pedido do filho.

    Eu não queria prometer nada a ele. Claro, também não precisava desmascarar tudo aquilo. Além do mais, eu tinha ajudado a garotinha de coração, agora há pouco, e isso, no fundo, todo mundo reconhecia.

    Então juntei as palmas diante deles e disse:

    — Então que seja como o destino quiser.

    Ao ouvir isso, pai e filho da família Lu ficaram radiantes na hora e correram pra chamar todo mundo pra dentro.

    As pessoas do lado de fora foram entrando uma atrás da outra no salão, que ficou lotado num instante.

    Alguns, por causa do corpo fraco, tiveram que sentar. A maioria, porém, ficou de pé pra me ouvir pregar o Dharma.

    Vestido com o manto monástico azul-esverdeado, segurando o certificado monástico, dei um passo à frente e me sentei na cadeira vermelha. A multidão se aquietou na mesma hora.

    Comecei seguindo os “Quatro Métodos de Acolhimento” indicados nos sutras, guiando todos a um princípio de compreensão. Foi algo que o mestre do Templo Mumen me ensinou de propósito: generosidade, palavras gentis, ações benéficas e convivência, pra atender à disposição de cada ser, sem falar de mistérios nem poderes sobrenaturais, revelando os princípios do Dharma através de exemplos da vida cotidiana.

    Como eu já tinha ajudado a garotinha antes, quando passei a ensinar a visão correta e a afastar o medo de todos, os ouvintes ficaram ainda mais convencidos.

    O núcleo do budismo está em guiar com sabedoria e acolher com compaixão, não em discursar com termos profundos e vazios. Por isso, respondia mais com perguntas do que com respostas, levando todos à reflexão, apontando de forma simples e direta pro coração. Assim, fui conquistando a admiração de todos.

    Depois, preferindo interagir com a multidão, desci do estrado e fui até o meio deles, pra praticar o que o Dharma mais valoriza: selar mente com mente, transformar as pessoas através da própria conduta.

    Vendo isso, Lu Linfeng foi, pouco a pouco e de propósito, me conduzindo pra fora do salão, levando-me pra conhecer o bairro. Enquanto caminhávamos, ia me contando a situação daquele lugar e algumas figuras conhecidas por ali.

    Descobri então que todos que moravam ali eram pessoas atingidas pela IA, ou mutiladas por terem instalado IA. Isso me fez pensar na hora em Meng Ran. Se ele não tivesse morrido, provavelmente teria acabado como um deles.

    Dava pra entender assim: antes, todos ali tinham sido super-humanos de IA, e também eram vítimas da própria IA.

    Lu Linfeng apontou pra um homem de meia-idade magro, de movimentos rígidos, que vinha atrás de nós, e disse:

    — Olhe este senhor Zhang aqui. Já foi pesquisador sênior do Instituto Xuman, fez várias invenções e resultados avançados de pesquisa. Depois, os Varredores descobriram que ele tinha instalado por conta própria uma rede neural de IA e um sistema cérebro-máquina. Quando removeram o sistema de dentro do cérebro dele, o cérebro foi afetado. Hoje, ele é uma pessoa inválida.

    Lu Linfeng apontou então pra outra mulher, de corpo inchado, e continuou:

    — Aquela doutora Lin ali era médica-chefe do Hospital Huamai. Quando a tecnologia de IA substituiu o diagnóstico feito por médicos, todo esse grupo encarou o desemprego. Ela arriscou e instalou por conta própria um sistema inteligente cérebro-máquina, e também foi descoberta pelos Varredores. Não só perdeu a licença pra praticar medicina, como pegou dois anos de prisão. Depois que saiu, o sistema removido deixou um vazio fisiológico nela, que afetou gravemente todo o sistema nervoso do corpo. Acabou aqui também.

    — E aqueles jovens, qual é a história? — perguntei, sem entender.

    Lu Ruixin captou o que eu queria dizer, provavelmente eu falava do cabelo amarelo e da garotinha. Ele completou:

    — Os irmãos Zhang Yu vieram com os pais. Os pais deles costumavam revender por conta própria, aqui na região, produtos de IA proibidos. Esses produtos conseguiam corrigir os defeitos fisiológicos causados pela remoção do sistema cérebro-máquina. No fim, os Varredores pegaram os dois e os executaram. Os irmãos ficaram órfãos, sem ninguém pra sustentá-los, e acabaram se fixando aqui.

    — Então por que esses condenados não voltam pra própria família, em vez de vir parar aqui? — perguntei, ainda sem entender.

    Lu Linfeng pareceu surpreso com minha pergunta, mas explicou com paciência:

    — É que o senhor vive recolhido nos templos, talvez não conheça bem as políticas do mundo secular. Depois da grande guerra, a ONU tomou uma resolução especial: além da pena máxima pra quem usa ou revende produtos de IA por conta própria, os incapacitados depois da punição precisam ficar sob administração concentrada, com a subsistência garantida pelo governo.

    — Quer dizer que esta região é como uma espécie de clínica de desintoxicação da IA? — completei.

    Lu Linfeng respondeu:

    — Pode entender assim. Por um lado, serve de alerta pro mundo. Por outro, há o medo de que eles se conectem de novo à IA e voltem a ser existências sobre-humanas. Afinal, todo mundo já viu o poder da IA. Por mais severo que seja o castigo, sempre vai ter quem se arrisque. O senhor mesmo viu: as pessoas que perderam a IA não passam necessidade de comida ou roupa, mas a vida delas é extremamente amarga. Essas ruas não eram tão arruinadas assim originalmente; na verdade, foram destruídas por esses condenados, depois que entraram em colapso mental.

    — E eles não fogem? Não vi cerca nenhuma. Nem sequer vi guarda — perguntei, confuso.

    Lu Linfeng disse:

    — É que aqui tem vigilância eletrônica bem rígida. Além disso, cada pessoa tem um sensor eletrônico implantado no corpo. Pode-se dizer que fugir é morte certa.

    Então era isso. Não era de estranhar que todo mundo ali andasse tão sofrido.

    Comecei a sentir pena deles.

    Gente que antes era quase sobre-humana, de uma noite pra outra virou inválida, e ainda tinha que suportar tanta dor física e espiritual junto. Ninguém aguentaria uma coisa dessas com facilidade.

    Mas eu ainda tinha uma dúvida que me incomodava: se os produtos de IA eram controlados de forma tão rígida pela ONU, por que empresas modernas de alta tecnologia, como as de Lanqiyuan, ainda tinham tanta tecnologia de pesquisa e desenvolvimento de inteligência artificial?

    Já tinha pensado nisso no caminho de volta de Pinghu. Minha ideia era perguntar ao Gu Qiutang, que tinha mais autoridade no assunto. Mas, já que a conversa com Lu Linfeng tinha chegado até esse ponto, aproveitei pra ouvir a opinião dele também.

    Lu Linfeng respondeu:

    — Hum, é como remédio: pode ser tóxico, mas também cura a doença. Pra controlar bem essa contradição, os governos ainda permitem que algumas empresas de alta tecnologia produzam produtos que não causem dano evidente às pessoas e que, além disso, sejam úteis.

    Dava pra notar que a explicação dele não era muito técnica, mas, de algum jeito, entendi.

    Acompanhado pelo pai e pelo filho da família Lu, fui conversando e caminhando assim até percorrer toda aquela rua arruinada. No caminho, sempre tinha alguém se curvando em reverência diante de mim. Eu retribuía a todos e lhes dava bênçãos.

    Dava pra ver que a vida amarga e a enorme queda espiritual forçavam aquelas pessoas a buscar em deuses e budas alguma libertação pra alma. Minha chegada não importava pelo que eu dava a elas, mas porque minha presença provava que os deuses e budas ainda cuidavam delas, e que a esperança de não terem sido completamente abandonadas continuava viva.

    Bem quando eu já pensava que podia encerrar aquela visita sem maiores problemas, um carro oficial preto veio disparado, freou de repente e parou bem na minha frente.

    Nesse momento, quatro pessoas vestidas de preto desceram do carro.

    Reconheci na hora: eram Varredores.

    Uma delas se aproximou de mim e tirou os óculos escuros.

    Era Liu Biao.

    O que ele fazia ali? Ele não estava em Shuzhou?

    Liu Biao continuava sem expressão nenhuma. Disse:

    — Gu Beichen, então era verdade que você estava com esses condenados. Parece que a suspeita do Gao Minjun não estava errada. Você realmente tem alguma coisa por trás. Qual é a sua relação com Xuanhong? Vem com a gente. Lá você pode explicar melhor.

    Não esperava que os Varredores fossem tão profissionais assim. Não importa onde a pessoa se escondesse, eles achavam.

    Não tinha jeito. Só me restava ir com eles. Mas, pra não decepcionar os fiéis ali, ainda falei com Liu Biao:

    — Liu Biao, me dê alguns minutos, por favor. Preciso me despedir de todos.

    Liu Biao pareceu não se importar com esses poucos minutos e não me impediu.

    Tirei meu certificado monástico, juntei as palmas diante dos fiéis presentes e disse:

    — A CWP quer me levar pra prestar depoimento, e não tenho escolha senão acompanhá-los. Antes de ir, preciso fazer uma declaração especial a todos vocês. Este humilde monge tem o nome monástico Xuanchen; meu nome secular é Gu Beichen. Entrei pra vida monástica no Templo Mumen, em Sichuan. O abade Xuanhong, do Templo Tansong, é meu irmão de Dharma. Por conta das regras da CWP, ele não pôde vir até aqui pra transmitir o Dharma a vocês. Por isso, usei o nome do meu irmão Xuanhong sem autorização. Peço perdão a todos!

    A multidão levou um susto com a chegada repentina dos Varredores. Afinal, cada pessoa ali já tinha sido alvo da repressão deles algum dia; era natural que ainda sentissem medo.

    Mas, quando perceberam que os Varredores iam me levar, mostraram indignação, isso sim, bem clara.

    Pai e filho da família Lu tinham um sentimento ainda mais complicado. Tudo isso eu conseguia sentir.

    Lu Ruixin realmente não esperava que eu fosse um monge de verdade, com o nome monástico Xuanchen, e ainda tivesse uma relação difícil de explicar com Xuanhong. Eu até sentia que, por baixo daquela cara de espanto, havia um certo alívio escondido.

    Afinal, ele tinha cumprido a missão que todos lhe confiaram. Nunca mais seria xingado por ninguém.

    Chegando a esse ponto, não tinha mais como me preocupar com muita coisa. Só restava fazer o que podia e deixar o resto pro destino. De qualquer jeito, eu não tinha como vencer aqueles Varredores numa briga.

    Assim, deixei a máscara de lado e entrei no carro dos Varredores.

    Por sorte, os Varredores não usaram violência comigo. Foram até educados ao me convidar pro carro.

    Claro, eu também não tinha nenhuma Cápsula da Sabedoria instalada pra eles arrancarem, isso Liu Biao sabia muito bem. Ele mesmo já tinha me examinado várias vezes.

    Achei que, dessa vez, ele não tinha vindo me prender só por eu ter ido à área onde os condenados se concentravam. Era mais provável que fosse por causa do caso do falso Gao Minjun.

    Se fosse isso, não havia mesmo nada que eu pudesse fazer.

    Nota