Capítulo 42 — Você devia me chamar de tio materno
por NexoNovelCapítulo 42 — Você devia me chamar de tio materno
O líder percebeu que eu não era alguém fácil de encarar. Mas, sendo mais numerosos e diante dos próprios companheiros, não dava para recuar. Esticou o pescoço, já quase explodindo de raiva, quando um dos homens atrás dele o puxou pelo braço.
Esse homem me encarou por um momento e disse:
— O senhor é… o grande mestre Xuanhong?
Assenti:
— Não mereço o título de mestre. Já voltei à vida secular. Sou só um civil.
Para minha surpresa, ele caiu de joelhos ali mesmo:
— Mestre, perdoe este homem por ter olhos e não ver, por tê-lo ofendido. Antes, meu pai estava no Hospital de Pingdu, com uma doença terminal, à beira da morte, e foi o senhor que o salvou de graça. Meu pai sempre nos mandou lembrar dessa bondade, mas eu nunca conseguia encontrá-lo. Não esperava topar com o senhor justo aqui.
Apressei-me em levantá-lo:
— Não precisa disso. O mestre ficou no passado. Hoje já voltei à vida secular e entrei nos negócios. Este casal de idosos é da minha terra; fazer negócio longe de casa não é fácil. Espero que vocês não dificultem as coisas para eles.
O brutamontes que liderava o grupo também parecia ter me reconhecido. Curvou-se várias vezes, pedindo desculpas, dizendo que tinha olhos e não vira quem estava diante dele, que jamais imaginaria encontrar hoje uma verdadeira figura divina, e implorou perdão.
Não esperava que, depois de tanto tempo, ainda houvesse gente que se lembrasse de mim. Talvez minha história tivesse sido bastante exagerada pelo caminho. Foi por isso, imagino, que aqueles brutamontes ficaram respeitosos de uma hora para outra.
Fiz uma saudação com uma mão só e disse:
— Tudo tem causa e efeito. Espero que, de agora em diante, vocês façam mais boas ações, dissipem o carma negativo e os maus vínculos. Ainda há tempo de voltar à margem.
Depois que aquelas figuras de aparência tão feroz se foram, o casal de idosos me agradeceu sem parar, dizendo que, dali em diante, toda vez que eu fosse ao restaurante, a conta seria por conta da casa.
Eu disse:
— Para vocês dois, fazer negócio já não é fácil. Se me isentarem da conta, é o mesmo que me pôr porta afora, sem deixar que eu volte a comer aqui.
Então insisti em pagar.
O velho não sabia se recusava ou aceitava, todo constrangido.
Não tive escolha a não ser guardar o dinheiro de volta:
— Está bem. Esta refeição fica sendo um convite de vocês. Da próxima, se não aceitarem meu pagamento, aí eu não tenho mais coragem de voltar.
O casal repetiu, insistente:
— O senhor precisa vir, precisa vir mesmo. Da próxima vez, vou fazer uma comida Sichuan bem autêntica para o senhor.
Saí do restaurante e voltei para a empresa.
Gu Kunling continuava sem aparecer. Vendo o céu escurecer pouco a pouco, comecei a me preocupar, sem saber como estava indo a transferência do lado dela.
Pelo plano, os Caçadores de Almas deveriam agir só à meia-noite. Mas, como eu tinha seguido Ren Jingze e os outros até o Templo Dazhong e resgatado Gu Qiutang, talvez tivesse alertado a cobra antes da hora.
Não era impossível que, por causa disso, tivessem antecipado a ação.
Lembrei, em linhas gerais, do mapa que Ren Jingze tinha mostrado na casa de Lü Qingyue. Havia duas bases dos resistentes: uma no subúrbio norte, outra no subúrbio oeste.
Ficar ali esperando de mãos cruzadas não valia tanto quanto ir ver com os próprios olhos.
Segundo o plano de ataque dos Caçadores de Almas, primeiro seria a base do norte, depois a do oeste. Mas, contando o tempo desde o resgate de Gu Qiutang, já tinham se passado mais de quatro horas. Se eles tivessem antecipado o ataque, a base do norte já estaria resolvida havia muito. Por isso, decidi ir primeiro checar a base do oeste. Se ali estivesse tudo bem, iria depois até a do norte.
No subúrbio oeste de Pingdu havia o Vale das Folhas Vermelhas de Xishan, ao sul de Xiangshan — uma área turística sazonal. A administração da área turística tinha cinco ou seis prédios, e era justamente aquele o local que Ren Jingze havia marcado com um círculo azul.
Dirigi um carro da empresa direto para lá.
Como era início do verão, as árvores do Vale das Folhas Vermelhas ainda estavam todas verdes, e havia poucos turistas e pedestres.
Quando o carro passou pelo Templo Fahai, lembrei que ali também havia uma casa segura.
Gu Qiutang tinha marcado três casas seguras para mim, pensadas originalmente para eu usar em emergências. Não esperava que, no fim, seria ele mesmo quem precisaria de uma delas.
Perto do portão da área turística do Vale das Folhas Vermelhas, desviei o carro para a aldeia Chenjiagou, ali perto. Depois segui só, invisível.
Ao anoitecer, o Vale das Folhas Vermelhas já tinha fechado o portão da área turística. Só um idoso vigiava a portaria.
Saltei para dentro do portão e fui direto para a área administrativa da área turística.
O sol descia no horizonte, as árvores cobriam tudo de verde, e reinava o silêncio.
De repente, uma sombra saltou de uma copa de árvore para outra. Levantei a cabeça e vi: havia muita gente escondida nas árvores.
Pelas roupas, todos usavam vestes pretas de estilo xuan. Deviam ser Varredores.
Observei com a visão penetrante e não encontrei nenhum Caçador de Almas. Talvez os Varredores tivessem vindo controlar o local, enquanto os Caçadores de Almas ainda estivessem ocupados na base do norte.
Esgueirei-me em silêncio até a área administrativa da área turística e vistoriei algumas salas — nenhuma tinha gente trabalhando. Só uma pessoa da limpeza varria o corredor.
Eu não sabia onde ficava a entrada da base. Melhor me esconder em silêncio e esperar para ver como as coisas se desenrolavam.
Voltei então até a portaria, entrei escondido e me deitei na cama do cômodo interno, esperando tranquilo. Ficar em cima de árvore, sendo sacudido pelo vento, não era comigo.
O quarto era muito mais confortável.
O idoso da portaria ficou o tempo todo sentado junto à janela da sala externa, mexendo no celular. Uns trinta minutos depois, ouvi ele gritar para um carro parar.
Inclinei o corpo para olhar. Tinha chegado uma minivan executiva preta, muito parecida com a que tinha capturado Xuanhong da outra vez.
Dois Varredores desceram do carro e disseram ao idoso:
— CWP conduzindo investigação. Abra o portão, rápido.
O idoso olhou os documentos deles e liberou o controle de acesso.
Segui atrás, invisível.
O carro dos Varredores parou na área administrativa. Contando o motorista, desceram nove pessoas. Logo se dividiram em grupos de três, cada grupo com um equipamento de detecção, e invadiram as salas para vasculhar.
Mas aquela gente nas copas das árvores não desceu — continuou escondida.
Não demorou até ouvir um Varredor gritar:
— Capitão, aqui tem uma anomalia.
Os outros se reuniram na hora ali. Eu também me aproximei às escondidas para olhar.
Era uma sala do lado leste do primeiro andar do prédio mais ao fundo.
Os nove Varredores afastaram uma fileira de armários, e atrás deles apareceu uma porta de ferro.
Começaram a colocar explosivos na porta.
Com um estrondo, abriu-se um buraco.
Vi oito deles entrarem, um atrás do outro, deixando só uma pessoa de guarda na entrada.
Alguns minutos depois, veio um estrondo forte de dentro do buraco, e uma nuvem de fumaça espessa disparou para fora. Logo em seguida, a entrada desabou em grande escala.
A explosão lá dentro claramente tinha o objetivo de enterrar vivos aqueles Varredores.
O Varredor que ficara de guarda na entrada ficou sem saber o que fazer, quase indo tentar socorrê-los, quando, de repente, as pessoas nas copas das árvores desceram uma após outra, invadiram o prédio com uma agilidade impressionante e, juntas, deixaram inconsciente o Varredor que tinha ficado para trás.
Fiquei observando escondido, sem interferir — não conseguia distinguir quem era quem.
Aquele grupo então correu para outra sala secreta e começou a carregar coisas. Eram todos equipamentos, que foram colocados dentro do carro que os Varredores tinham trazido.
Depois, saíram dirigindo.
Aquilo era, claramente, um grupo de falsos Varredores.
Será que queriam usar a identidade e o veículo dos Varredores para transferir os equipamentos? Fazia sentido — a maior vantagem disso era evitar a detecção sem fio do Departamento Qiankun.
Segui de perto o carro que ia saindo da montanha, mas mantendo distância.
Assim que o carro chegou ao cruzamento de Chenjiagou, ouvi outra explosão. O veículo foi atingido pela explosão e capotou à beira da estrada.
Vi quatro pessoas em forma de névoa saltarem dos dois lados da mata. Com um estalo seco, quebraram a porta do carro e avançaram para dentro. De lá veio uma sequência de sons confusos.
Chicote Caça-Almas!
Só então entendi: os Caçadores de Almas estavam emboscados justamente ali. Os Varredores que tinham entrado antes eram só a equipe de vanguarda.
Bom que eu não estava colado no carro — do contrário, com certeza teria me ferido.
Os Caçadores de Almas jogaram do carro alguns corpos e já iam continuar a busca quando, de repente, ouviu-se um grito forte. Uma pessoa invisível foi chutada para fora. Em seguida, saltou de dentro do veículo uma pessoa ensanguentada da cabeça aos pés, segurando uma mala.
Os Caçadores de Almas saltaram atrás dela, gritando:
— Finalmente conseguimos alguma coisa. Pegamos um peixe grande!
Quatro Chicotes Caça-Almas se lançaram ao mesmo tempo contra a pessoa ensanguentada.
A pessoa ensanguentada se movia com uma agilidade incrível — saltava para um lado, esquivava para o outro, contra-atacando sem parar, indo e vindo na briga. E, em nenhum momento, largou a mala.
Quem era quem naquela confusão toda?
Fiquei observando com a visão penetrante, mas aquela pessoa eu realmente não conhecia.
Só quando vi que a pessoa ensanguentada estava quase no limite é que ativei a união das duas placas de jade verde.
Num instante, o tempo se congelou.
Desativei os mecanismos de invisibilidade daquelas pessoas invisíveis.
Como esperado, eram Ren Jingze, Tang Tingsheng, Ran Weiping e Luo Shu. Não vi Lü Qingyue.
Mesmo que estivesse emboscada por perto, não faria diferença.
Em um raio de pelo menos quinhentos metros, eu tinha congelado o tempo. E, além disso, eu continuava invisível. Ela não veria nada — o que ela poderia fazer?
Vasculhei os arredores com o olhar e não encontrei nem ela nem o marido dela.
Eu não conhecia aquela pessoa ensanguentada, mas, já que estava sendo perseguida pelos Caçadores de Almas, dava para supor que fosse dos nossos, não é?
Carreguei aquela pessoa nas costas, peguei a mala que ela tratava como tesouro e corri de volta para a aldeia Chenjiagou.
Ao chegar lá, encontrei o carro que eu tinha deixado estacionado, coloquei aquela pessoa ensanguentada e a mala no banco de trás e senti os arredores mais uma vez. Nada de anormal.
Só então dirigi para fora da montanha, por outra direção.
O carro contornou o lado sul da montanha e depois seguiu para o norte. Quando dobrei em direção ao Templo Fahai, lembrei de novo daquela casa segura e planejei transferir aquela pessoa para lá, para se esconder.
— Você… você é Gu Beichen?
A pessoa ensanguentada no banco de trás já tinha acordado. Enquanto dirigia, eu também tinha desfeito minha invisibilidade. Ele estava reclinado no banco traseiro, ofegante, e me perguntou aquilo.
Fiquei um pouco surpreso:
— Você me conhece?
Ele disse:
— Claro. Você… você é filho da minha irmã. Você… devia me chamar de tio materno.
Virei a cabeça para olhar:
— Está querendo tirar vantagem de mim? E eu que acabei de salvar você. Desde quando eu tenho tio materno?
Ele riu baixinho:
— Também é verdade, ninguém nunca te contou nada. Você nem conhece a sua própria mãe biológica; como ia conhecer este seu tio materno aqui?
Fiquei meio irritado:
— O que você quer dizer com isso? Meus pais morreram em combate há muitos anos. Fui criado pela minha avó. Quando minha mãe morreu, eu tinha só um ano. Como é que eu ia conhecer alguém?
O homem não insistiu no assunto:
— Meu nome é Wang Rongliang. Daqui em diante, pode… me chamar de tio Liang.
Eu disse:
— Não. Acho melhor continuar chamando você de velho Wang. Nem conheço você.
Ele respondeu:
— Moleque danado, que “velho Wang” é esse? Está querendo me chamar de velho canalha?
Ele até me fez rir de raiva.
Nem sabe distinguir palavra boa de palavra ruim. Deixa passar — como você é mais velho do que eu, e eu, afinal de contas, já fui um monge eminente, não vou ficar discutindo com você por isso.
