Novels chinesas em português
    Índice do Capítulo

    Capítulo 1 — O péssimo aluno que sabia de tudo

    Meu nome é Gu Beichen e moro na cidadezinha de Liutan, no oeste de Sichuan.

    Segundo a minha avó, nossa terra natal ficava em Gucheng, na região de Jiangnan. A família só se mudou para as montanhas por causa da guerra. Meus pais também morreram naquela Guerra Humano-Máquina.

    A cidadezinha na montanha não era grande, mas não faltava gente de elite que tinha fugido para lá de todos os cantos do país. Essa gente adorava se reunir para falar de tudo e discutir os rumos do mundo. Desde pequeno, eu vivia no meio deles. Com o tempo, fui percebendo que nenhum deles conseguia me vencer numa discussão. E começou a correr pela cidade a história de que eu sabia de tudo um pouco.

    Isso se devia principalmente à biblioteca lá de casa. Era livro demais.

    Durante a guerra, todo mundo disputava comida, roupa, remédio, utensílios… Quem é que ia brigar por livro?

    Minha avó, porém, não. Ela trouxe uma quantidade absurda de livros. Tantos que ocuparam dois cômodos inteiros. Até hoje não faço ideia de como ela conseguiu aquilo tudo.

    Só que, apesar de eu ler todo tipo de livro, minhas notas em sala de aula eram um desastre. Um desastre a ponto de eu ser o penúltimo colocado da série.

    Isso porque minha avó nunca ligou para os meus estudos escolares. Desde pequeno, mesmo quando eu tirava nota vermelha, ela não se importava. E foi assim até eu terminar o ensino médio.

    O último colocado era Ye Ziping, meu colega de carteira.

    Como nossas notas eram um lixo, os professores nos colocaram na última fileira, perto da porta, para não atrapalharmos os outros.

    O que, por sinal, era ótimo para a gente conversar. Às vezes, até escapávamos escondidos para nos divertir.

    Ye Ziping adorava jogar cultivo da imortalidade e já tinha chegado ao nível de Imortal Verdadeiro. Ele dizia que, quando alcançasse o nível de Imortal Dourado Daluo, poderia entrar no Centro Municipal Kuzhan, representar a cidade nas competições e, se vencesse, entrar oficialmente para o quadro.

    Foi aí que percebi que eu era o mais ferrado de todos. Eu tinha lido uma montanha de livros, mas nada daquilo me ajudava nas provas.

    Eu até queria mudar. Só que nota não melhora só porque você decide se esforçar. Se você não aprendeu o que vinha antes, também não entende o que vem depois.

    É mesmo quando a gente precisa que descobre que leu pouco. Por que minha avó nunca cuidou dos meus estudos?

    Mais tarde, aconteceu uma coisa séria na escola. Uma coisa que mudou completamente a minha vida.

    Faltava menos de uma semana para a pré-seletiva do gaokao quando duas pessoas morreram de repente na escola.

    Uma era Meng Ran, o segundo colocado da nossa série. A outra era Bi Songjian, o vice-diretor.

    A morte de Meng Ran não fez sentido nenhum. Ele estava normal durante a aula e, de repente, a cabeça explodiu. O sangue espirrou e cobriu o colega de carteira, e a turma inteira saiu correndo, gritando em pânico.

    Eu não era da sala dele. Nossa série tinha duas turmas. Ele era da Turma 1; nós, da Turma 2.

    Só quando ouvimos a gritaria e a correria lá fora é que a nossa turma percebeu que alguma coisa tinha acontecido e saiu para ver. Eu e Ye Ziping fomos dos primeiros a chegar. Também, sentávamos perto da porta.

    Quando entramos na Turma 1, a cena era um horror.

    Se alguém tivesse me contado, eu não acreditaria. Mas eu vi com meus próprios olhos e fiquei três dias sem conseguir comer de tanto nojo.

    Meng Ran estava caído sobre a carteira. O corpo estava inteiro, mas havia um buraco aberto na parte de trás da cabeça. O sangue tinha espirrado nas carteiras dos dois lados. Dava para ver que a explosão tinha vindo de dentro.

    Depois chegaram alguns policiais e gente da direção da escola. Todo mundo ficou em volta, comentando, sem saber o que tinha acontecido.

    Umas duas horas depois, o vice-diretor Bi também morreu. Diziam que talvez tivesse sido suicídio. Ele caiu da varanda de casa.

    Eu conhecia o prédio dele. Em Liutan, os prédios não eram altos. Ele morava no quarto andar. Como é que uma queda dali podia matar daquele jeito?

    Eu e Ye Ziping também corremos para ver. O vice-diretor Bi estava caído de bruços no chão, e havia um buraco entre a cabeça e o pescoço. A cabeça estava quase vazia de tão destruída.

    Olhando só para os dois casos, parecia que não havia relação nenhuma entre eles. Afinal, um era vice-diretor, o outro, aluno. Mas, olhando para a cabeça dos dois, já dava a impressão de que havia alguma ligação.

    Ye Ziping disse que o ferimento na cabeça podia ter sido causado pela queda. Eu disse que era besteira. A cabeça dele claramente já tinha explodido antes de cair. Quatro andares não eram altura suficiente para fazer aquilo.

    Depois vieram algumas pessoas da cidade. Talvez fossem investigadores.

    Eram quatro pessoas vestidas de preto. Preto da cabeça aos pés. Não mostravam expressão nenhuma e usavam óculos escuros — até dentro de uma sala escura.

    No começo, achei que era só pose. Depois pensei que os óculos talvez fossem algum tipo de equipamento de detecção.

    As roupas deles também eram estranhas. Eu não sabia de que material eram feitas. De longe, pareciam ternos muito bem cortados; mas, ao tocar, eram lisas demais, quase como se você não conseguisse encostar de verdade.

    Os alunos das duas turmas do último ano foram chamados pelo diretor para formar uma fila diante de um cômodo no canto noroeste da escola. Eu e Ye Ziping já tínhamos explorado aquele lugar antes. Por fora, parecia bem velho, coberto de trepadeiras e sem nenhuma janela. Só havia duas portas, uma de cada lado, ambas muito bem fechadas. Nunca descobrimos para que servia.

    Depois, nos fundos, encontramos uma saída de ventilação. Era grande e não ficava muito alta. Olhando para dentro, só dava para ver escuridão. Nem com lanterna enxergávamos direito.

    Os alunos ficaram na fila, entravam um por um por uma porta e saíam, também um por um, pela outra.

    Quando chegou a minha vez, bastou entrar para eu me sentir meio esquisito. A sala era escura demais e nem sequer acendiam uma luz. Dava para distinguir vagamente alguns equipamentos graças às luzes fracas dos próprios aparelhos. E, pior, fazia um pouco de frio ali dentro.

    Eu mal conseguia ver o rosto daquelas pessoas de preto. Só tinha a impressão de que os rostos eram rígidos, quase falsos, sem expressão nenhuma. Mas agiam rápido. Sem dizer uma palavra, me fizeram sentar à força numa cadeira. Depois passaram um dispositivo eletrônico portátil pela minha cabeça, escaneando de um lado para o outro.

    Ao mesmo tempo, outra pessoa de preto aproximou o rosto do meu até ficar bem perto e fixou os olhos nos meus, encarando-os intensamente.

    Aquilo me deixou intrigado. Com esse breu todo, e ainda de óculos escuros, o que é que você consegue enxergar?

    Mas logo percebi que os óculos deviam ser usados para detecção.

    Quando aquelas lentes passaram diante dos meus olhos, emitiram uma luz que eu não soube identificar. Era um brilho fraco azul-violeta, meio parecido com o de um scanner médico.

    Quando aquela luz azul-violeta passou por mim, senti uma coceira leve no cérebro, junto com uma sensação parecida com picadas de agulha.

    Enfim, meu cérebro ficou estranho. Difícil explicar. Coçava, mas não havia onde coçar, como tentar aliviar uma coceira por cima de uma bota. Era muito incômodo.

    Em teoria, o córtex cerebral humano não tem nervos. Mesmo assim, eu sentia uma coceira formigante lá dentro, e aquilo me deixava ansioso, irritado, sem saber o que fazer.

    Eu lembrava que os alunos anteriores tinham saído bem rápido. Mas, quando chegou a minha vez, as quatro pessoas de preto ficaram circulando ao meu redor e me examinando. Uma delas ainda apertou a minha cabeça com as duas mãos, com tanta força que doeu bastante.

    Quando eu já estava prestes a reclamar de dor, elas finalmente me soltaram e fizeram sinal para eu ir embora.

    Assim que saí pela porta lateral daquele cômodo, minha visão ficou meio turva e minha consciência, meio enevoada. Achei que fosse por causa do sujeito que tinha apertado a minha cabeça.

    Atordoado, só consegui dizer a Ye Ziping que não estava me sentindo bem. Depois fui para casa dormir.

    Não lembro como voltei para casa nem do que aconteceu depois.

    Na verdade, nem sei quanto tempo fiquei dormindo.

    Quando acordei, vi minha avó sentada ao lado da cama, chorando. Ela acariciava de leve a minha cabeça com uma das mãos, os olhos vermelhos.

    Perguntei o que tinha acontecido.

    Ela disse que, quando cheguei em casa, eu estava com a cabeça coberta de suor, a roupa encharcada. Nem tirei a roupa. Simplesmente caí na cama e dormi. E, segundo ela, dormi por três dias inteiros.

    Três dias?

    Eu não tinha percebido nada.

    Só lembrava de ter dormido profundamente, muito bem. E, depois de acordar, não sentia desconforto nenhum. Isso queria dizer que eu estava bem.

    Para deixar minha avó mais tranquila, falei:

    — Vó, eu estou bem. Estou me sentindo ótimo. Não tem nada de errado comigo.

    Ela não disse nada. Apenas soltou um longo suspiro e saiu em silêncio.

    Quando ela foi embora, por algum motivo consegui sentir que minha avó estava preocupada com alguma coisa.

    Na verdade, desde o instante em que acordei, eu sentia que meu cérebro não era mais igual ao de antes.

    O que exatamente tinha mudado? Eu não sabia dizer.

    Era como se meu cérebro tivesse sido lavado. Ou como um computador cujo sistema tivesse sido reiniciado. Havia uma sensação de leveza e vazio, uma lucidez penetrante. Minha consciência também tinha ficado incrivelmente clara.

    No instante em que minha avó virou as costas para mim e saiu do quarto, tive até a impressão de ouvi-la dizer:

    — Ah… no fim, este dia chegou mesmo.

    Aquilo tinha sido um murmúrio dela ou um monólogo interior? Eu não sabia. Só sei que parecia que eu conseguia sentir os pensamentos da minha avó só de olhar para ela de costas.

    Eu queria ter perguntado diretamente, mas ela já tinha entrado no outro cômodo.

    Na manhã seguinte, corri cedo para a escola.

    Eu tinha olhado o calendário e descoberto que, no dia seguinte, seria o exame preliminar de seleção antes do gaokao.

    Todo ano, as autoridades da educação usavam esse exame preliminar para dividir os candidatos em diferentes grupos. Os melhores fariam as avaliações para universidades de elite; os medianos, os exames para universidades regulares; e os que tivessem resultados mais baixos poderiam disputar vagas em escolas técnicas.

    Achei que ainda dava para salvar a minha situação.

    Afinal, eu sabia muita coisa. O problema era que aquele conhecimento não tinha quase nada a ver com o que ensinavam em sala.

    Mas… e se desse certo?

    Assim que entrei na sala, Ye Ziping me agarrou e tentou me puxar para fora, dizendo:

    — Você veio também? Você não vai passar nem a pau. Achei que nem viesse.

    O que ele queria dizer com “também”? Parecia até que eu não era aluno dali. E, mesmo que eu não passasse, pelo menos sairia com uma nota. Hoje em dia, para procurar emprego em qualquer lugar, você precisava apresentar algum resultado.

    Ye Ziping disse que não faria mais prova nenhuma. Ia para casa pressionar o pai a comprar equipamentos melhores para ele e apostar tudo de vez.

    Eu era diferente. Não jogava cultivo da imortalidade. Então corri até a professora responsável pela turma para preencher o formulário e me inscrever.

    Nossa professora responsável era uma mulher chamada Mei Qili. Em particular, a gente a chamava de “não se levantou”, porque, em chinês, o nome dela soava quase igual a essa expressão.

    Na manhã seguinte, a pré-seletiva começou oficialmente.

    A professora Mei ficou diante da turma, explicando as regras da prova. Eu olhava para um lado e para o outro, um pouco nervoso.

    Afinal, aquela era a primeira prova realmente importante da minha vida. Ou, melhor dizendo, um divisor de águas.

    Enquanto esperava as provas serem distribuídas, de repente reparei em Zhu Zhaojie. Ela estava sentada na diagonal à minha frente, e eu conseguia ver claramente suas costas delicadas e bonitas e o pescoço de pele clara.

    Zhu Zhaojie era a garota mais bonita da escola — e também uma aluna brilhante. Brilhante de verdade. Em praticamente todas as provas da nossa série, ela ficava em primeiro lugar.

    E com uma vantagem enorme.

    Na entrada da escola, pouco antes, eu tinha ouvido gente dizendo que Meng Ran, que vivia ficando em segundo lugar, queria tanto alcançar Zhu Zhaojie que tinha arranjado, sabe-se lá onde, uma tecnologia avançada chamada Cápsula da Sabedoria e colocado aquilo dentro da cabeça.

    Diziam que, depois de instalar a coisa, era como ter um computador dentro do cérebro. Uma integração humano-máquina. Todo o conhecimento podia ser colocado lá dentro e você aprendia tudo sem professor. Só que… explodiu.

    Pelo que diziam, o vice-diretor Bi tinha recebido dinheiro da família dele às escondidas para ajudar, e também arranjou uma para si.

    Resultado: os dois morreram de forma violenta.

    Inteligência artificial, ou IA. A escola já tinha avisado fazia tempo: aquilo era como droga. Era proibido mexer com aquilo. Quem mexesse com IA estava cometendo crime e virava alvo de repressão pesada.

    Fiquei viajando nesses pensamentos por um tempo. Quando percebi, as provas já tinham sido distribuídas e cinco minutos tinham se passado desde o início.

    Eu ainda não tinha escrito uma linha.

    Ah… eu realmente não sabia fazer.

    Nota