Novels chinesas em português
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    Capítulo 26 — Minha noiva

    Assim que terminei de me despedir dos Humanos de Elite, virei a cabeça de repente e vi o irmão de Dharma Guanghuai atrás de mim — não sei desde quando estava ali. Levei um susto e perguntei:

    — Irmão de Dharma, por acaso o senhor ouviu minha conversa com outra pessoa agora há pouco?

    O irmão de Dharma Guanghuai me olhou com o rosto tomado de espanto e disse:

    — O irmão de Dharma estava conversando com alguém? Cheguei ao pavilhão há uns três a cinco minutos. Só vi o irmão de Dharma parado sozinho no salão, com a forma do corpo meio esmaecida. Só agora, num instante, o irmão de Dharma ficou sólido de repente, e isso me deixou muito surpreso. Será que a consciência espiritual do irmão de Dharma tinha ido a outro lugar?

    Será? Mas eu estava aqui o tempo todo.

    Então, quando conversava com aqueles Humanos de Elite agora há pouco, será que quase entrei mesmo por uma porta de outro espaço? Não era à toa que aquela garotinha não queria que eu a seguisse. Mas por que eu sentia que estava dentro do pavilhão o tempo todo?

    Vendo minha cara de confusão, o irmão de Dharma Guanghuai explicou mais um pouco:

    — Antes de a forma do irmão de Dharma se tornar sólida, o senhor viu alguém? A forma esmaecida do irmão de Dharma dentro do pavilhão ficou imóvel o tempo todo, muito parecida com o fenômeno do corpo de arco-íris descrito nos textos budistas. Por isso pensei que o irmão de Dharma tivesse alcançado uma grande iluminação, ou que sua consciência espiritual já tivesse partido. Por isso, não me atrevi a perturbá-lo.

    Fenômeno do corpo de arco-íris?

    Era um fenômeno raro, no qual o corpo físico de um monge eminente se transformava em luz de arco-íris. Costumava ser narrado no budismo tibetano, ocorrendo quando um lama reencarnado entrava em parinirvana.

    Será que eu também tive esse fenômeno agora há pouco? Isso talvez mostrasse que o Mundo Oculto dos Humanos de Elite tinha alguma relação com o fenômeno do corpo de arco-íris? Não era bom chutar sem fundamento; por ora, tratava-se apenas de uma hipótese provisória.

    Falei baixinho ao irmão de Dharma Guanghuai:

    — De fato, agora há pouco eu estava conversando, dentro do pavilhão, com pessoas sem forma. Agora já foram embora. Vamos. Conversamos no pátio anexo. Chame os outros chefes monásticos e todos os administradores.

    Meia hora depois, no meu Pátio Anexo Yueying.

    Os responsáveis pelos Quatro Salões e os oito administradores foram chegando, um após o outro.

    Fui franco com eles e contei tudo o que tinha investigado e sentido naqueles dias. Disse:

    — Pelo que parece agora, existem de fato algumas pessoas de dimensão superior influenciando este templo. Meu resumo é o seguinte: primeiro, elas não têm más intenções, estão apenas concentradas em fazer o que precisam. Só que alguns dos nossos pavilhões, ao longo de um lado da montanha, ficam justamente no caminho que elas costumam percorrer. O que exatamente elas fazem, eu não sei dizer. Segundo, elas conseguem nos ver e nos afetar, mas nós não conseguimos vê-las nem afetá-las. Terceiro, os tais vórtices de ar, ou seja, o muro de fantasma, devem ser uma desordem espaço-temporal causada pela “barreira espaço-temporal” que essas pessoas liberam, o que ocasionalmente afeta os monges deste templo.

    Ao ouvir isso, todos os presentes — chefes monásticos e administradores — ficaram bastante espantados. Eu entendia bem como aquilo era difícil de aceitar e o quanto os preocupava, então expliquei melhor:

    — Chamar de “pessoas de dimensão superior” é apenas uma metáfora minha, uma forma de entender, e talvez não seja precisa. Já que consigo percebê-las, no plano físico elas ainda estão na mesma dimensão que nós. Por ora, não sei bem como defini-las. Mas uma coisa é certa: elas não pertencem aos seis reinos, não carregam carma. Podemos entendê-las, provisoriamente, como o Mundo Oculto.

    — Mundo Oculto? O abade quer dizer que elas ainda são pessoas? Só que vivem num campo perceptivo diferente do nosso? — perguntou o chefe monástico do Salão Oeste.

    Respondi:

    — O irmão de Dharma do Salão Oeste resumiu muito bem. É exatamente isso que quero dizer. Chamo de Mundo Oculto porque não conseguimos ver o mundo delas. Quando o irmão de Dharma Guanghuai me encontrou conversando com elas, notou o fenômeno do corpo de arco-íris; por isso, talvez o Mundo Oculto tenha relação com esse fenômeno. Então, do meu ponto de vista, elas ainda pertencem ao reino humano. Além disso, todas têm nomes humanos, e o jeito de se comunicar e o estado mental delas não são diferentes dos nossos. Só que, entre si, elas parecem se comunicar por intenção mental — ou seja, fazem contato pela força do pensamento.

    — O abade quer dizer que consegue conversar com elas? — perguntou o chefe monástico do Salão Posterior.

    — Consigo. Quando o irmão de Dharma Guanghuai me encontrou, eu estava justamente conversando com elas. Mas não querem trocar muita conversa comigo. E, como estão no Mundo Oculto, o irmão de Dharma Guanghuai não sentiu presença nenhuma. Isso mostra que a conversa entre nós é, na verdade, uma interação entre consciências, e não uma transmissão de som. Nos dias anteriores de observação, eu só conseguia sentir a existência delas, sem vê-las ou tocá-las. Mas conseguia escutar as conversas entre elas. É evidente que o nível de existência delas é mais alto que o nosso. Por isso penso que, já que não estão de fato nos afetando, não há necessidade de investigar mais a fundo.

    Depois de responder, reforcei ainda mais:

    — Estou compartilhando essas informações apenas para tranquilizar todos os irmãos de Dharma deste templo. Este assunto não envolve comunicação entre os seis reinos, não é assombração de fantasmas, não é obra de malfeitores, nem aplicação da lei pelos Varredores. O Mundo Oculto é um domínio que ainda precisa ser explorado. Por ora, estamos em estado de não interferência mútua. Basta a todos cultivar em paz, difundir o Dharma e praticar boas ações.

    Depois de organizar essas pequenas questões, decidi não me preocupar mais com o assunto.

    Não fazia sentido.

    Aquelas pessoas do Mundo Oculto claramente tinham um nível de existência mais alto que o nosso e desdenhavam se relacionar com gente comum como a gente. Se eu não conseguia alcançá-las, e elas não estavam de fato me afetando, por que se meter naquilo? Só ia criar problema à toa.

    Bem na hora em que eu pensava em passar alguns dias em cultivo tranquilo, Du Xinlang apareceu.

    Du Xinlang era noiva de Xuanhong. Era um compromisso de casamento que já existia antes de ele se tornar monge.

    Antes de entrar para a vida monástica, o nome secular de Xuanhong era Gu Yuehu — soava até como nome falso, e, além disso, tinha o mesmo sobrenome que o meu. Ele trabalhava no Grupo Du, no Vale do Silício, e foi assim que conheceu Du Xinlang. Depois, incapaz de suportar aquela perseguição toda, tornou-se monge.

    Gu Yuehu tinha se dado muito bem no Vale do Silício, e isso tinha bastante a ver com essa senhorita Du. Pode-se dizer que o Grupo Du o vinha preparando como sucessor. Por isso, embora não quisesse de coração, Xuanhong, por dívida de gratidão, firmara o compromisso de casamento com a senhorita Du. Mas, no fim, ele não passava de alguém com apenas oito anos de existência como pessoa, e não podia contar a verdade. Só lhe restou fugir para a vida monástica.

    De repente, lembrei do xingamento de Min Long, quando disse que eu era o substituto de Xuanhong. Pensando bem agora, aquilo nem parecia mais xingamento — parecia fato.

    Na verdade, eu não queria assumir a herança de Xuanhong, incluindo a beldade. Mas também era verdade que fui forçado a receber suas memórias, compreensões, habilidades e posição — incluindo o cargo de abade do Templo Tansong.

    Só que nada daquilo era o que eu queria.

    Sentia que tinha acabado de completar a maioridade. Como, de repente, já tinha chegado à hora de falar em casamento?

    A aparição de Du Xinlang me deixou sem coragem de magoá-la. Porque aquele rosto lindo e aqueles olhos profundos transpiravam uma paixão intensa, quase impossível de conter.

    Mas eu de fato não queria me aproveitar daquela beleza que não era minha. Então preparei um bule de bom chá para ela. Nós dois nos sentamos, e fui contando tudo devagar.

    Contei o que tinha visto na base dos Varredores: a comunhão mental com Xuanhong, a leitura de rosto das pessoas de preto, a briga com Min Long, o recrutamento pela CWP, o encontro com minha bela colega Zhu Zhaojie, e até mencionei Lin Xiaowen e a pessoa invisível. Contei também que tinha visto, com meus próprios olhos, Xuanhong se autoimolar. Claro que não mencionei as placas de jade verde nem a lista — aquilo era meu segredo.

    Du Xinlang ficou o tempo todo com o rosto apoiado nas duas mãos, fingindo escutar com toda a seriedade, soltando de vez em quando alguma frase, do tipo: “Zhu Zhaojie é bonita?”, “Você conseguiu vencer Min Long, que incrível”, coisas assim. Mas eu conseguia sentir que, no fundo, ela não estava dando a mínima importância ao que eu dizia.

    Fui obrigado a repetir, insistindo: eu era Xuanchen; Xuanhong, eu tinha visto com os próprios olhos, se autoimolando ali na base dos Varredores!

    A garota boba continuou com aquele sorrisinho travesso e respondeu:

    — Entendi, meu Xuan querido.

    Eu #$%@!

    Ainda não tinha ficado claro, era isso?

    Eu estava falando coisa séria, e ela agia como se eu estivesse brincando, contando uma história, inventando uma mentira de propósito só pra me livrar dela. Que tipo de poção do amor Xuanhong tinha dado pra essa mulher beber?!

    Fiquei tão aflito que não sabia mais como provar quem eu era.

    De repente, perguntei:

    — Senhorita Du, você consegue dizer alguma marca evidente no corpo de Xuanhong? Por exemplo, algum lugar com uma pinta escura.

    Pensei que, já que experiências e aparência não bastavam como prova, uma marca física ao menos não deveria ser igual, certo? Bastava ela apontar, eu mostraria o contrário, e ela desistiria.

    Como eu esperava, Du Xinlang ficou pensando “hum” por um bom tempo, até se lembrar de que Xuanhong tinha, na base das duas orelhas, uma marca parecida com mordida — era uma textura natural da pele, mas se parecia muito com a marca de dentes. Assim que ouvi aquilo, fiquei animado. Eu não tinha isso.

    Chamei o acompanhante que tinha vindo com Du Xinlang para servir de testemunha. Depois, devagar, puxei minhas próprias orelhas pra mostrar a ela.

    — Ah — e ainda diz que não tem. Olha aí, não é isso?

    Du Xinlang soltou uma vozinha manhosa e apontou para o acompanhante ver.

    — É, mestre Xuanhong, o senhor tem mesmo. Posso trazer um espelho pro senhor.

    Depois de dizer isso, o acompanhante voltou trazendo, de fato, dois espelhos. Olhei através dos dois, um refletindo no outro:

    Como assim?

    Eu tinha, sim.

    Como eu nunca soube disso antes? Minha avó nunca tinha me contado. Ye Ziping, quando éramos pequenos, já tinha puxado minha orelha várias vezes e nunca disse que eu tinha marca de mordida ali.

    Eu de verdade não sabia.

    Eu #$%@!

    Eu… tá bom, admito. Uma beldade dessas, quem não ia querer? No fim das contas, eu também era homem. Xuanhong, não vem me xingar não.

    Não quis mais discutir com a senhorita Du. Não valia a pena.

    Aquilo não tinha explicação.

    Então deixei que ela enlaçasse meu braço, e passeamos entre as flores do pátio. Fiquei ouvindo as histórias e intrigas da empresa dela. De vez em quando, eu ainda soltava um comentário ou outro sobre conhecidos de Xuanhong, o que fazia Du Xinlang apertar meu braço com ainda mais força.

    O Grupo Du e o Grupo Gu pertenciam ao mesmo setor, mas em ramos diferentes. O Grupo Du concentrava-se no desenvolvimento de software e hardware, incluindo chips e componentes; o Grupo Gu, por sua vez, concentrava-se na produção de robôs industriais.

    Antigamente, a sede do Grupo Du ficava no país de Maierken. Antes da queda de Maierken, o Grupo Du já tinha levado sua equipe de volta para Pingdu. A Guerra Humano-Máquina atingiu os negócios do Grupo Du, destruindo quase metade deles. Depois da guerra, houve alguma recuperação, mas claramente sem voltar à escala anterior. O Grupo Du não era apenas um dos principais alvos de vigilância da CWP — era também parceiro dela. Para pesquisa, desenvolvimento e manutenção de muitos produtos, a CWP dependia das empresas do Grupo Du.

    Du Xinlang insistiu bastante para que eu fosse até a casa dela conhecer e visitar o pai. Hesitei um instante, mas acabei aceitando. Minha avó já tinha dito: fugir simplesmente não era solução. Nesse ponto, Xuanhong claramente não tinha sido tão bom quanto eu.

    Também não havia muito o que arrumar. Avisei o irmão de Dharma Guanghuai, peguei apenas uma bolsa pequena e entrei no carro de Du Xinlang.

    O carro saiu pelo anel viário externo e foi direto ao Lago Yanqi, na periferia da cidade. Ali ficava a casa de Du Changfeng, presidente do Grupo Du.

    Du Changfeng tinha sido o chefe de Xuanhong e alguém que reconhecera seu talento e o apoiara.

    Por isso, antes de chegar até lá, fiz questão de ligar primeiro para saudar Du Changfeng. Não me parecia adequado ir como futuro genro, nem como abade de templo — fui na condição de antigo subordinado.

    A mansão da família Du era extremamente luxuosa, mas também muito discreta. Ficava num lugar bem escondido, cercada de flores e árvores que bloqueavam a visão de todos os lados. Uma pessoa comum passaria por ali sem nem imaginar que havia uma mansão daquelas.

    Do portão de entrada até o prédio principal, ainda era preciso rodar de carro por um bom trecho. Havia muitos empregados e ajudantes na casa. Assim que chegamos ao portão interno, o mordomo já estava parado ali fora, esperando para nos receber.

    Ao entrarmos na sala de visitas, Du Changfeng veio ao meu encontro com uma atitude relativamente calorosa.

    Mas eu conseguia perceber: ele estava doente.

    Nota