Capítulo 19 — Eu tenho um feitiço de imobilização
por NexoNovelCapítulo 19 — Eu tenho um feitiço de imobilização
Quando voltei ao meu lugar e separei as duas placas de jade verde, tudo voltou ao normal na mesma hora.
Liu Biao me olhou meio perdido e perguntou:
— Onde é que a gente tinha parado?
Respondi de imediato:
— A gente estava falando de Xuanhong. Ele se parece demais comigo, por isso fiquei curioso. Isso você entende, não é? Só que ele foi levado por vocês, e eu saí perguntando por aí, fui até a área onde os incapacitados se reúnem. Depois disso, você me trouxe pra cá. Você é que me deve uma explicação.
Depois que o ajudei a se lembrar, Liu Biao pareceu recordar tudo. Só que o assunto da placa de jade verde não voltou a ser mencionado. Não sei se ele estava evitando de propósito, ou se a própria placa tinha algum tipo de autoproteção. De todo modo, as coisas seguiram o rumo do interrogatório.
Liu Biao ainda parecia sentir que algo estava errado. Ele me disse:
— Não. Você ainda tem segredos que não explicou direito. Temos provas suficientes de que você usou meios não humanos. Pense bem: vai confessar por conta própria, ou vamos ter que usar nossos métodos?
— Claro que quero confessar, mas você também precisa me perguntar o quê. Você pergunta, eu respondo. Prometo que não vou esconder nada. Que tal?
Enquanto respondia, guardei as placas de jade verde às escondidas.
Agora, aquelas duas placas eram meu tesouro absoluto. Podiam fazer o tempo parar. Era como ter o feitiço de imobilização de Sun Wukong.
Quando eu lia Jornada ao Oeste, já tinha pensado nisso: Sun Wukong era simples demais, até um pouco bobo. Se tinha um feitiço de imobilização, por que ficava lutando com os monstros? Bastava paralisar o sujeito e dar uma paulada. Eu ainda teria tempo de ir colher pêssegos.
Liu Biao mandou um assistente me levar de volta ao dormitório. Parecia que ele tinha uma ligação importante para atender.
De volta ao quarto, tive muita vontade de tirar a placa de jade verde e examiná-la com calma. Mas fiquei com medo de haver câmeras ali. Só me restou ficar deitado na cama, pensando à toa:
Com essa placa de jade verde, eu podia fugir a qualquer momento. Ninguém mais conseguiria me impedir. Então, o próximo passo era salvar Xuanhong ou fugir direto?
Xuanhong, para mim, era uma existência estranha e maravilhosa. Ele dizia que era meu backup, e eu nunca tinha entendido bem o que aquilo significava. Agora, entendia um pouco.
Porque, naquele instante em que as duas placas se uniram, um fluxo poderoso de informações invadiu meu cérebro e mudou por completo boa parte das minhas memórias.
Era como se um computador tivesse recebido um software novo, criado associações-padrão e disparado a reinicialização dos meus programas. Todas as experiências passadas de Xuanhong, suas percepções sobre a vida, suas memórias e emoções, tudo foi copiado de uma vez para dentro da minha cabeça.
Ou seja, agora ele era eu, e eu também era ele.
Então quem tinha criado o Xuanhong de carne e osso? Ou será que eu tinha mesmo sido gerado pelos meus pais? Por que eu nunca os tinha visto?
Eles realmente morreram na guerra?
Cheguei a duvidar se eu era humano.
Aquilo era assustador demais.
Eu sou humano?
Será que eu era algo biomimético, uma cópia, um clone ou uma pessoa modificada? Se não, por que eu era diferente dos outros?
Não resisti e me belisquei com força. Doeu bastante, ficou até vermelho.
Enquanto me lembrava de mim mesmo, também surgiam fragmentos da vida de Xuanhong. Era como assistir a dois filmes ao mesmo tempo: um meu, outro de Xuanhong. E agora os dois tinham sido editados em um só.
Nesse filme, eu tinha amor, ódio, sofrimento, alegria, dor e amargura; tinha amigos, professores, parentes e histórias vivas de infância. Como é que eu não seria humano?
Ora — humano é você que não é.
Neguei essa ideia com toda a força. Até os Varredores já tinham me examinado várias vezes e nunca disseram que eu não era humano. Por que eu ia duvidar de mim mesmo?
Embora o fenômeno Xuanhong ainda fosse algo que eu não conseguisse explicar, eu confiava que, um dia, tudo viria à luz.
Decidi salvar Xuanhong primeiro, depois fugir junto com ele. Aí eu perguntaria tudo cara a cara.
Agora eu tinha um “feitiço de imobilização”. De quem eu ia ter medo?
De repente, minha porta foi escancarada com um empurrão. Liu Biao entrou correndo, apressado. Assim que passou pela porta, me agarrou e começou a me arrastar, dizendo:
— Rápido, vem comigo. Deu problema lá.
Que problema? E o que isso tinha a ver comigo?
Fui arrastado por Liu Biao, contrariado e sem a menor chance de resistir. A direção para onde íamos era justamente a base onde Xuanhong estava preso.
Chegamos àquela área especial de detenção.
Os guardas tinham reunido todos os prisioneiros no centro do pátio. Um dos quartos da área de detenção ainda soltava resquícios de fumaça azul-esverdeada.
Dava para ver que ali tinha pegado fogo.
Liu Biao me levou até aquele quarto, apontou para dentro e perguntou:
— O que aconteceu aqui?
Baixei o corpo e olhei para dentro. No meio da fumaça, havia uma silhueta carbonizada, sentada de pernas cruzadas, ainda soltando fiapos de fumaça. Ao lado, alguns guardas seguravam extintores.
Dava para ver que tinham chegado dez passos tarde demais.
Xuanhong… se autoimolou?
Reconheci Xuanhong de imediato, e meu espanto não era menor que o de Liu Biao. Fiz menção de correr para dentro, mas Liu Biao me puxou com força e disse:
— Vai fazer o quê?
— Salvar ele! — gritei.
Liu Biao me segurou, sem me deixar mexer, e foi ele mesmo quem entrou. Deu voltas em torno do corpo carbonizado e tirou um detector que eu não reconheci para fazer medições ali.
Fiquei desesperado, sem entender o que tinha acontecido de verdade.
As pessoas vestidas de preto que tinham vindo com a gente substituíram Liu Biao e passaram a me segurar, impedindo qualquer movimento. Só me restou usar meu “superpoder” de percepção para captar as informações de Liu Biao e das pessoas ao redor.
Descobri então que, momentos antes — bem quando Liu Biao me interrogava, ou melhor, no exato instante em que ele uniu as duas placas de jade verde — Xuanhong entrou em combustão espontânea.
Ouvindo os comentários das pessoas em volta e olhando para Xuanhong carbonizado, senti uma dor profunda. Será que a união das placas também significava a fusão do corpo com a alma?
Os pensamentos de Xuanhong ferviam dentro da minha cabeça, como se a alma dele estivesse vendo o próprio corpo em chamas.
Minha cabeça girou, e eu desabei sentado no chão.
Acho que fui carregado de volta ao alojamento por alguém.
De qualquer forma, lembro pouco disso.
A morte de Xuanhong me abalou profundamente.
Fui procurar Liu Biao e exigi ver o arquivo de Xuanhong. Liu Biao disse que eu não tinha autorização. Num acesso de raiva, usei a união das duas placas e fui buscar o arquivo por conta própria.
Nos registros dos Varredores, Xuanhong tinha, por incrível que pareça, apenas dez anos.
Ou seja, ele tinha aparecido de repente no campus da Universidade de Pingdu. Antes disso, não havia história alguma. Ou melhor: ele já tinha nascido daquele tamanho.
Dez anos era o resultado da datação por carbono-14 e da avaliação de idade óssea feita pelos Varredores em Xuanhong.
O Xuanhong que existia dentro da minha cabeça também começava na Universidade de Pingdu. Antes disso, não havia memória nenhuma.
Depois de se formar, Xuanhong entrou para o Grupo Du, no Vale do Silício, passando por uma carreira de programador, projetista e arquiteto de sistemas. Tinha se tornado monge no Templo Tansong dois anos antes, e o verdadeiro motivo era, por incrível que pareça, fugir de um casamento.
Fiquei sem palavras.
Um menino com menos de dez anos, perseguido por mulheres até se tornar monge.
Parece que ser bonito também é crime. E um crime imperdoável!
Depois de absorver as memórias de Xuanhong e cruzá-las com os dados dos Varredores, descobri então que ele também tinha um superpoder. Vinha, por um lado, da inteligência artificial, e por outro, de uma percepção por sintonia de frequência que já era natural dele.
Percepção por sintonia de frequência era a definição que os Varredores tinham dado ao caso de Xuanhong. Era também o motivo pelo qual ele fora capturado e mantido em detenção especial.
Segundo a teoria biológica registrada no arquivo, a transmissão dos neurotransmissores humanos existe por meio de micro-ondas elétricas e se apoia nelas; nas atividades cerebrais, essas micro-ondas são particularmente ativas, funcionando como o elemento que comanda o movimento do corpo, a memória e as emoções. Na mente de Xuanhong existia um mecanismo capaz de captar, de forma direcionada, ondas cerebrais por sintonia de frequência, entrar em sintonia com as ondas cerebrais de outras pessoas e devolver respostas a elas.
Ao chegar a esse ponto, tive uma súbita iluminação.
Meu chamado “superpoder” de percepção, evidentemente, também era percepção por sintonia de frequência. E, mais que isso, os Varredores já tinham estudado e analisado esse fenômeno há muito tempo. Ou seja, essa minha capacidade não era mistério nenhum para eles. Só que, por ora, ainda não conseguiam detectá-la nem entender seu mecanismo de funcionamento.
Ao perceber isso, senti que estava em grande perigo.
Os Varredores com certeza não desistiriam de me estudar.
Na primeira vez que usei a união das placas por iniciativa própria, descobri ainda outro problema grave: o “feitiço de imobilização” tinha limite de tempo.
Enquanto eu consultava às escondidas os arquivos dos Varredores, passados oito minutos, o tempo parado voltou a correr por conta própria. E eu ainda não tinha terminado a consulta. Assustado, tive que unir as placas de novo. No total, essa incursão clandestina exigiu três uniões até eu conseguir terminar.
E essas três pausas no tempo causaram, de forma direta, travamentos de informação em todo o sistema de vigilância dos Varredores.
Isso disparou um alerta sistêmico imediato na base, e Liu Biao foi convocado às pressas por seus superiores. Nos dias seguintes, eles ficaram ocupados investigando o caso a fundo.
Com isso, percebi também que não podia usar o “feitiço de imobilização” à toa, só em caso de real necessidade. Se descobrissem que a união das placas tinha esse efeito, eu estaria em sérios apuros.
A placa de jade verde, essa eu certamente não conseguiria manter.
Por sorte, Liu Biao e os outros já sabiam desde o início que eu tinha uma placa de jade verde. Além disso, aquilo tinha só uma polegada de tamanho e já fora examinado várias vezes, sem despertar atenção excessiva.
A princípio, pensei em simplesmente fugir. A situação parecia perigosa demais.
Mas, pensando bem depois, concluí que fugir não era a melhor opção. O segredo da placa acabaria exposto de qualquer jeito, e os Varredores, como a organização de maior poder do mundo, estavam praticamente em todo lugar. Fugir significaria viver para sempre em fuga, sendo caçado.
Não valia a pena.
Não é como se eu não entendesse o que eles estavam pensando.
Se houvesse perigo de verdade, eu podia usar o “feitiço de imobilização” a qualquer momento.
Por isso, nos dias que se seguiram, fiquei quietinho como um bom menino, ajudando com frequência no Departamento de Inteligência Cultural. Recebia e entregava documentos, transportava e ajustava equipamentos, treinava novatos — me tratava por completo como um membro dali.
Nas horas vagas, ainda fazia leitura de rosto para as pessoas vestidas de preto.
Ler o rosto dos Varredores era, sem dúvida, o meu ponto forte. Porque, usando a percepção por sintonia de frequência, eu conseguia acertar seus segredos mais íntimos: nomes, situação familiar, e até detalhes que só cada um deles sabia. Bastava que aquilo já tivesse passado pela mente da pessoa, e eu conseguia, por meio da sintonia de frequência, repetir tudo como se estivesse fazendo mistério.
Isso despertou o interesse dos Varredores comuns.
Nem todos os Varredores sabiam da existência da percepção por sintonia de frequência. Aquilo era arquivo ultrassecreto — era até difícil dizer se o próprio Liu Biao sabia.
Rapidamente, usando essa capacidade, deixei muitos Varredores quase no ponto de me venerar.
Já Liu Biao e os outros administradores pareciam bastante satisfeitos com esse meu comportamento. Talvez fosse justamente a oportunidade perfeita para me observarem e me estudarem.
Isso eu conseguia entender.
Por isso, eu também encenava de propósito para eles, quase sem escolher hora nem lugar. Afinal, para a cúpula dos Varredores, aquilo já não era segredo havia tempos.
Os funcionários comuns dos Varredores vinham todos de gente comum. Mais precisamente, eram pessoas comuns modificadas por IA.
Aproveitando as leituras de rosto, descobri ainda um grande segredo — um que talvez nem Liu Biao e os outros tivessem previsto.
Primeiro: reuni uma quantidade enorme de informações sobre os Varredores. Todo mundo carrega sinais de informação; uma pessoa sozinha não é nada, mas somadas, formam um acervo gigantesco.
Segundo: descobri que a Cápsula da Sabedoria também tinha ondas cerebrais. Porque, no fundo, a Cápsula da Sabedoria nada mais era que uma microinterface biológica cérebro-máquina de IA.
E eu, por incrível que pareça, conseguia replicá-la.
