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    Capítulo 16 — Duzentos metros no subsolo

    Eu até tinha imaginado que os Varredores pudessem me prender algum dia, mas não esperava que fosse tão rápido.

    Afinal, eu já tinha virado monge, e no caminho todo até Pingdu não tinha deixado rastro nenhum.

    Pelo visto, eu ainda tinha subestimado os Varredores.

    Eu já tinha pesquisado sobre eles antes. Eram diferentes da polícia: tinham muito poder, mas não se metiam em assuntos comuns, focados só na investigação de casos ligados à inteligência artificial.

    E eu não estava envolvido com inteligência artificial, então não me preocupei muito.

    Só que, quando fui levado pra dentro da base dos Varredores, percebi que talvez tivesse pensado tudo de um jeito simples demais. Entre os Varredores e os demônios, descobri, não havia distância nenhuma.

    Os Varredores eram muito mais complexos e cruéis do que eu imaginava.

    O lugar aonde Liu Biao me levou era um pequeno pátio no meio da mata da montanha Tansong, no subúrbio oeste de Pingdu, bem perto do Templo Tansong.

    Como o pátio não era grande, achei que devia ser só um posto de nível bem local. Não esperava que o verdadeiro mecanismo do lugar não estivesse ali em cima, mas no subsolo.

    Dentro do pátio havia um prédio de cinco andares com vários elevadores. Fui levado até lá e desci de elevador, bem fundo. Não sei dizer a profundidade exata, mas tive a impressão de que passava de duzentos metros.

    Ao entrar no subsolo, foi como entrar num labirinto. Caminhos por todo lado, muitos prédios, até rua, loja e área verde, parecia uma cidade inteira debaixo da terra.

    Pegamos um bonde elétrico subterrâneo e chegamos diante de um prédio. No letreiro sobre a porta estava escrito: “Departamento de Inteligência Cultural da CWP”.

    Primeiro me levaram pra uma sala dentro do prédio. Tinha muito equipamento profissional lá dentro. Alguns homens de preto estavam ocupados ajustando os aparelhos, se preparando pra me examinar.

    Entendi: eles queriam confirmar a fundo se eu tinha instalado algum produto de IA. Por isso, colaborei bastante com o exame.

    Esse procedimento eu já tinha passado, lá com Zhu Shaohua. Só que os equipamentos de lá eram mais simples; aqui, os aparelhos eram enormes, e a pessoa precisava se deitar neles pro exame.

    Depois de todo tipo de varredura e exame, eles não me interrogaram, me trancaram primeiro num quarto isolado. O quarto tinha uma cama e um banheiro simples, parecia uma casa de zona rural bem precária, só que sem janela.

    Fiquei deitado na cama de tábuas, ouvindo o ronco baixo do duto de ventilação, pensando: por que Liu Biao e os outros tinham me trazido pra um lugar tão escondido pra me investigar? Eu não era nenhum criminoso pesado. Se só queriam confirmar se eu tinha instalado IA, não precisava de toda essa complicação, muito menos me trazer direto pra base central deles.

    Isso me deixou inquieto. Suspeitei que eles tivessem outra intenção.

    O duto de ventilação do quarto era pequeno demais. Fugir por ali era simplesmente impossível. E ainda por cima, eu estava a mais de duzentos metros debaixo da terra.

    Pelo visto, só ia conseguir sair contando com a própria força dos Varredores.

    Depois de uns quatro dias, Liu Biao finalmente veio me interrogar. Achei que ele quisesse usar esse tempo pra desgastar minha paciência.

    Só que ele esqueceu de uma coisa: eu já tinha entrado pra vida monástica, era meio monge. E a maior vantagem de recitar sutras junto com os monges do templo era justamente a tranquilidade da mente.

    Esses dias sozinho, pra mim, passaram como o tempo de uma vareta de incenso queimando.

    No interrogatório, Liu Biao foi direto ao assunto: perguntou como eu tinha fugido junto com Gao Minjun.

    Pra isso eu já estava preparado. Desde a sala secreta de Gao Minjun até a fuga pra Pingdu, o tempo todo eu tinha vivido tentando escapar dessa perseguição. Já que era inevitável, só me restava enfrentar com seriedade.

    Admiti que tinha fugido da sala secreta junto com Gao Minjun, e disse que o falso Gao Minjun era o verdadeiro culpado por trás de tudo. Foi ele quem mandou alguém espancar até a morte o delegado Zhu Shaohua; o Gao Minjun verdadeiro tinha sido completamente injustiçado.

    Só que Liu Biao não estava nem um pouco interessado nisso.

    Eles eram Varredores, não polícia. Por isso, o foco dele o tempo todo era em como a gente tinha entrado em contato com Zhu Shaohua.

    Nesse ponto, empurrei a culpa pros mortos. Zhu Shaohua e Gao Minjun já tinham morrido, de qualquer jeito, defunto não contesta.

    Disse que tinha sido Gao Minjun quem contatara Zhu Shaohua. Claro, também podia ser o contrário, Zhu Shaohua indo atrás de Gao Minjun por conta própria. Como exatamente os dois se conectaram, eu mesmo não sabia.

    Sobre os policiais mortos e feridos sob controle dos Varredores, eu não sabia quem tinha atacado quem. Estava escuro demais, tudo uma confusão, não dava pra ver nada. Na hora, eu só pensava em salvar a própria pele.

    O assistente de Liu Biao ficava ajustando sem parar um detector de mentiras, tentando ver, pelo aparelho, se eu estava mentindo.

    O que ele não sabia era que eu conseguia, através do meu “superpoder” de percepção, captar perfeitamente os pensamentos deles. E, ao mesmo tempo, usando a intenção mental, também conseguia controlar um pouco as reações do aparelho.

    Pelo jeito, tanto pelo interrogatório quanto pelas reações do equipamento, eles não descobriram que eu estava mentindo. Mas também não quiseram me soltar, me mandaram pra uma área de alojamento nos fundos do Departamento de Inteligência Cultural.

    Naquela área morava muita gente. Só no quarto que me designaram, viviam seis pessoas. O lugar inteiro tinha um cheiro ruim, insuportável.

    Encontrei minha cama e me sentei quieto, de pernas cruzadas, em meditação. Mas, na cabeça, usava o “superpoder” de percepção pra observar tudo em volta.

    Percebi que aquela gente não era toda suspeita, a maioria era formada por recrutas em potencial. Só que, por enquanto, nenhum deles tinha passado pela transformação com a Cápsula da Sabedoria, nem recebido treinamento profissional.

    Aproveitando as idas ao refeitório, observei que havia oito quartos como o meu, todos com gente misturada. Imaginei que aquilo talvez fosse parte da rotina do Departamento de Inteligência Cultural: recrutamento e triagem.

    Será que os Varredores queriam me recrutar? Eu não sabia. Liu Biao também não tinha me falado nada sobre isso.

    Onde tem muita gente, tem disputa.

    Mais de quarenta homens vivendo apertados juntos sempre dão em conflito. Os mais fortes, de temperamento explosivo, gostavam de intimidar os mais fracos.

    Um dia, detectei que dois sujeitos robustos estavam planejando dar uma lição num acadêmico de modos finos que dividia o quarto comigo. O acadêmico se chamava Lin Xiaowen. Antes, era pesquisador universitário; sob suspeita de revender equipamentos inteligentes, foi capturado e trazido pra ali.

    Não queria me meter, mas senti que aqueles dois nem conheciam Lin Xiaowen, só queriam achar alguém pra descarregar a raiva. Isso me tocou.

    A área onde eu morava tinha uma administração bem frouxa. No dia a dia, todo mundo ficava sem nada pra fazer, e briga particular era coisa comum. E talvez uma briga fosse o jeito mais rápido de avaliar a capacidade e o caráter de alguém. Por isso suspeitei que Liu Biao e os outros talvez deixassem aquilo acontecer de propósito.

    O Departamento de Inteligência Cultural era, por natureza, um lugar que brincava com a cabeça das pessoas.

    Calculei que, observando o comportamento natural daquele grupo de prisioneiros e a capacidade deles de resolver problemas, dava pra descobrir talentos da forma mais rápida possível.

    Por isso pensei que essa devia ser a razão de aquele grupo andar sempre tão carregado de agressividade.

    E, de fato, no dia seguinte, na hora do almoço, vi os dois se aproximando de Lin Xiaowen, um pela frente, outro por trás. Usei então a intenção mental pra avisá-lo do perigo.

    Lin Xiaowen claramente não entendia bem o que estava acontecendo, mas, depois de captar o aviso, olhou pra todo lado, nervoso, apertou os hashis de bambu na mão e encarou com raiva os dois homens que se aproximavam. E isso, sem querer, deu a eles a desculpa perfeita pra agir.

    Ouvi um dos dois gritar:

    — Por que você me espetou?!

    E, no mesmo instante, jogou a comida quente que tinha na mão em Lin Xiaowen e atacou com o hashi, cravando com força.

    O outro, vindo de outro lado, soltou um soco violento contra Lin Xiaowen.

    Lin Xiaowen levou duas picadas de hashi e ainda um golpe forte. O sangue espirrou. Por sorte, briga de gente comum não é tão precisa assim, nenhum ferimento foi fatal.

    O refeitório virou um caos na hora.

    Eu me escondi de lado na mesma hora, usando a intenção mental pra confundir os dois e dar a chance de Lin Xiaowen escapar.

    Mas o que eu não esperava era que, depois de se soltar, Lin Xiaowen não fosse pedir ajuda aos guardas. Em vez disso, pulou pra cozinha e começou a atirar contra os dois homens vários fogareiros a gás já acesos.

    Na hora, fogo e fumaça densa tomaram tudo em volta. Aquele espaço subterrâneo, já fechado por natureza, ficou cheio de gente correndo em pânico, chamas e fumaça.

    Segui a multidão e corri pra fora do refeitório.

    Os guardas controlaram a situação rapidamente e mandaram todo mundo de volta pros quartos. O incêndio no refeitório também foi apagado logo pelos sistemas automáticos.

    De volta ao alojamento, só faltava Lin Xiaowen.

    Não entendi por que ele tinha feito aquilo. Enfrentar na força claramente não era a melhor saída.

    Passaram uns três, quatro dias, e eu não via Lin Xiaowen de novo.

    Fui perguntar a um guarda, mas ele não me respondeu direito. Tanto faz, se ele quisesse falar ou não, eu ia descobrir de outro jeito. Usando o “superpoder” de percepção, consegui captar, entre vários guardas, mais ou menos o que tinha acontecido.

    Acontece que os Varredores sempre quiseram recrutar Lin Xiaowen, mas ele nunca aceitou entrar pra corporação. O confinamento longo demais o levou quase ao colapso. Por isso, acabou tomando aquela atitude extrema.

    Os dois homens, na verdade, também tinham sido mandados pelos Varredores, especialmente pra dar uma lição em Lin Xiaowen. O objetivo era fazê-lo se render.

    Que organização sem nenhum traço de humanidade.

    Uns três dias depois, o rapaz do norte que dormia na cama do lado me contou, em segredo, que Lin Xiaowen já tinha sido executado.

    Antes da morte, tinha sido esse rapaz o encarregado de ajudar Lin Xiaowen a se trocar pra execução. Na despedida, Lin Xiaowen pediu que ele me passasse um recado: eu não deveria, em hipótese alguma, entrar pros Varredores.

    O que havia de tão terrível nos Varredores pra ele preferir morrer do que se juntar a eles? Por enquanto, eu ainda não tinha resposta.

    Depois desse episódio, a segurança ali foi reforçada, e todo mundo entrou numa fase de estudos.

    Isso mesmo. A partir daquele dia, todos passaram a ter aulas programadas. Todos os dias, instrutores davam lição conforme as exigências. O conteúdo, em sua maior parte, era sobre normas técnicas e algumas teorias políticas.

    Foi só nessa época que entendi a intenção da minha avó.

    Durante tantos anos, ela nunca se preocupou com meus estudos formais porque sabia: desde que a inteligência artificial existia, conhecimento puro e habilidades técnicas, na verdade, não precisavam ser aprendidos do jeito tradicional.

    Conhecimento podia ser despejado em alguém como água.

    Minha avó me fez ler um monte de livros variados justamente pra treinar meu jeito de pensar e minha capacidade de discernir e enxergar o fundo das coisas.

    Bem quando eu já achava que não teria escolha, que seria forçado a entrar pros Varredores, uma competição na base trouxe uma virada nova pra tudo.

    Nota