Novels chinesas em português
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    Capítulo 7 — O prazo de um mês

    Minha avó estava desaparecida havia mais de duas semanas.

    Tudo o que tinha acontecido antes já tinha sido confirmado por várias fontes. Era tudo verdade. Com isso, meu ânimo afundou ainda mais.

    Eu tinha pensado em ir procurar minha avó. Não importava quem ela fosse de verdade, continuava sendo minha única parente. Não fazia ideia de por onde começar a procurar, mas também não podia simplesmente ficar em casa, esperando, sem fazer nada.

    Só que Ye Pingsheng me lembrou de uma coisa: os investigadores da CWP com certeza estavam procurando por ela com muito mais empenho do que eu. E, além disso, meus movimentos com certeza também estavam sendo rastreados por aquela gente. Mesmo que eu a encontrasse, talvez aquilo não fosse uma coisa boa.

    Fazia sentido.

    De repente me lembrei da carta que minha avó tinha deixado. Talvez houvesse respostas ali dentro. Fui pedi-la a Ye Pingsheng.

    Mas ele simplesmente não quis entregar.

    Disse que eu só poderia recebê-la depois que o prazo de um mês terminasse.

    Ah, cabeça-dura. Quando cismava com alguma coisa, não abria mão de jeito nenhum. Ye Ziping era igualzinho ao pai.

    Claro, talvez fosse justamente por isso que minha avó tinha confiado a carta a ele.

    Tudo bem, então. Eu esperaria.

    E, falando nisso, Zhu Zhaojie realmente tinha desaparecido.

    Assim que saiu da casa da família Li, o pai dela, Zhu Shiqing, não só chamou a polícia como também, seguindo o que eu tinha dito, foi procurar Gao Minjun.

    Gao Minjun disse que não a tinha visto e o mandou embora.

    Nesses últimos dias, vi Zhu Shiqing tão desesperado que chegou a chorar. Um dia, ele até apareceu na minha casa, tomamos uns copinhos juntos e ele passou horas desabafando comigo.

    Eu sentia muita pena dele. Afinal, Zhu Zhaojie era minha colega e também minha vizinha. Passei um bom tempo tentando consolá-lo e prometi que ajudaria a procurá-la.

    Onde procurar, eu não tinha a menor ideia. E, além do mais, minha própria avó também estava desaparecida. No fim, nós dois estávamos no mesmo barco.

    Desaparecimentos não eram novidade naquela cidadezinha. Já tinham acontecido antes, e ninguém jamais fora encontrado. Nem vivo, nem morto.

    Só que, nos últimos anos, tinham ficado mais raros.

    A mãe de Zhu Zhaojie morrera durante a Guerra Humano-Máquina mundial. Zhu Shiqing criara a filha sozinho e sempre a tratara como o bem mais precioso da vida dele. Dava para entender o desespero.

    E aquele caso não envolvia só Zhu Zhaojie. Havia mais três pessoas desaparecidas: uma trabalhava com assuntos confidenciais na administração da cidadezinha; outra era uma pessoa formada na universidade que ficava em casa, desempregada; e a terceira era um motorista de longa distância, que passava o ano inteiro viajando e tinha acabado de voltar para ver a esposa e os filhos quando desapareceu.

    Para mim, minha avó também estava desaparecida. Mas a Subdivisão de Segurança Pública se recusou a registrar o caso, dizendo que a situação dela não se enquadrava. Eu também não insisti. Na verdade, nem queria que fossem atrás dela.

    As pessoas desaparecidas não se conheciam entre si e, à primeira vista, não tinham nada em comum. O chefe Zhu Shaohua, da Subdivisão de Segurança Pública, cuidava do caso conforme os procedimentos.

    Eu, de verdade, suspeitava muito que aqueles desaparecimentos tivessem alguma relação com os agentes de expurgo da organização CWP. Claro, não tinha prova nenhuma. E a polícia também não investigava, nem divulgava o caso, por esse ângulo.

    Com o tempo, as pessoas simplesmente pararam de falar no assunto.

    Os moradores da cidadezinha não tratavam os desaparecimentos como grande notícia. Não era crueldade. Era apatia.

    Dezoito anos antes, a Guerra Humano-Máquina mundial tinha causado mais de dois bilhões de mortes diretas em combate. As mortes indiretas ficaram quase na proporção de um para um. Ou seja: a população mundial diminuiu pela metade, mais ou menos — cerca de quatro bilhões de pessoas. Depois disso, mortes fora do normal continuaram aparecendo, de tempos em tempos, em vários lugares. As pessoas foram ficando anestesiadas.

    Diziam que, antes da Guerra Humano-Máquina, o mundo era extremamente desenvolvido. Havia sistemas modernos de transporte em vários níveis, redes de inteligência artificial, todo tipo de drone, comunicação via redes de satélite e robôs inteligentes de todo tipo.

    Contavam que pessoas comuns usavam smartphone para fazer pagamentos on-line, pedir comida pela internet, fazer reservas antes de saírem de casa. Os carros dirigiam sozinhos. E quem estava sem nada para fazer ficava rolando o Douyin ou usando o WeChat.

    Se um desaparecimento como o de Zhu Zhaojie tivesse acontecido naquela época, bastaria pedir ajuda pela internet, e um monte de gente ajudaria a procurar em toda a rede. O nível de civilização era muito alto.

    Só que, infelizmente, foi justamente por a sociedade ter se desenvolvido demais que surgiram as entidades de inteligência artificial. O núcleo da IA acabou desenvolvendo consciência própria, com uma inteligência quase mil vezes superior à humana. Nasceu a vida baseada em silício, e ela passou a tentar substituir, pouco a pouco, a vida baseada em carbono. Ou seja: substituir a gente.

    Eu sempre pensava: será que as pessoas daquela época eram meio bobas?!

    Pra que inventar uma coisa mais inteligente do que a própria espécie?

    Se uma civilização superior era mais avançada que a humanidade, com uma inteligência quase mil vezes maior, por que aceitaria ficar sob o controle dos seres humanos?! Por que teria de servir à humanidade?

    Se as entidades de inteligência artificial não se rebelassem, aí sim eu ia achar estranho!

    Onde já se viu uma inteligência superior servindo e permanecendo leal a uma civilização inferior? Se fizesse isso, nem merecia ser chamada de inteligente.

    Uma lógica tão simples. Eu realmente não entendia o que as pessoas daquela época tinham na cabeça.

    Ah… No fim, quem pagou o preço foi a nossa geração, obrigada a voltar quase ao ponto de partida da civilização. Livro era de papel. Aula e prova também eram de papel. Só de falar em IA, todo mundo já mudava a cara. Resultado: as tecnologias inteligentes que ainda podiam ser usadas hoje eram pouquíssimas, e quase todas voltadas ao entretenimento.

    Quando eu ficava entediado em casa, às vezes folheava algum livro qualquer. Outras vezes ia até a casa de Ye Ziping ver ele jogar seu jogo de cultivo da imortalidade.

    A plataforma em que Ye Ziping jogava se chamava “Caminhando sobre o Vento em Busca do Dao”. Era bem competitiva. Dava para jogar sozinho ou em grupo. Só que aquilo viciava fácil.

    Diziam que tinha gente que jogava tanto que já não conseguia distinguir o virtual do real. Teve até quem fosse de verdade para as montanhas praticar cultivo da imortalidade, e a tal “ascensão” acabou virando um salto de penhasco para se matar.

    Eu só assistia. Não gostava de jogar.

    Sobre ter visto Ye Ziping no metaverso, eu já tinha perguntado a ele. Disse que nunca tinha ido até Gao Minjun. Mas, dentro de “Caminhando sobre o Vento em Busca do Dao”, ele realmente montava um espírito-aranha — um bicho de estimação que tinha levado muito tempo para domesticar. Também já tinha lutado contra selvagens dentro do jogo e, parecia lembrar vagamente, numa grande batalha, de ter me visto, e também Zhu Zhaojie. E ainda um cavalo.

    Então quer dizer que, quando eu entrava no metaverso, conseguia aparecer como personagem dentro do jogo dele?

    Comparamos os detalhes da cena. Era muito parecida com o que eu tinha visto no metaverso.

    De repente me veio uma suspeita ousada: será que Gao Minjun estava usando gente de verdade para testar o metaverso? Senão, por que teria me levado para ver aquilo?

    Aquela história de querer me mostrar como a inteligência artificial era poderosa era pura enrolação.

    Então qual seria o objetivo real dele?

    Só de pensar nisso, eu mesmo me assustei.

    Se fosse verdade, os desaparecimentos na cidadezinha ficavam bem mais fáceis de explicar.

    Mas será que Gao Minjun tinha coragem para uma coisa dessas? Conseguiria fazer aquilo sozinho? E qual seria o sentido?

    Se os desaparecimentos realmente tivessem relação com ele, então certamente não estaria agindo sozinho. Haveria um grupo inteiro. Um grupo organizado.

    Seguindo esse raciocínio, até o chefe Zhu Shaohua, da Subdivisão de Segurança Pública, ficava meio suspeito. Senão, como é que nunca encontravam nenhum dos desaparecidos? E por que ninguém investigava na direção do grupo de expurgo da CWP?

    Coisa grande demais eu não conseguia resolver. Mas aquela ligação entre os jogos despertou meu interesse.

    “Caminhando sobre o Vento em Busca do Dao” era um jogo oficial, com níveis e divisões. Se ele realmente se conectava ao metaverso, será que eu também podia trapacear?

    Só de pensar em trapacear, fiquei até meio animado. Porque comecei a imaginar se seria possível entrar de verdade no metaverso e fazer ali um controle reverso.

    Nem sei por que tive essa ideia.

    De qualquer jeito, o prazo de um mês ainda não tinha acabado, e eu não tinha nada melhor para fazer. Por que não aproveitar esse tempo para investigar aquele quartinho escuro e misterioso? Quem sabe eu não encontrasse alguma surpresa.

    Então falei com Ye Ziping:

    — Yezi, já que “Caminhando sobre o Vento em Busca do Dao” parece estar conectado ao metaverso, e uma pessoa de verdade consegue entrar pelo metaverso e aparecer dentro do jogo, por que não a gente entrar de vez pelo metaverso, levando um ponteiro laser? Aposto que as feras monstruosas nunca viram nada parecido. E você ainda ganha mais uma arma. Quem sabe a gente não chega direto até a Fornalha de Laojun e rouba umas pedras espirituais?

    Os olhos de Ye Ziping se arregalaram na hora.

    — Dá para jogar desse jeito? Eu também quero ir.

    Eu disse:

    — É só um palpite meu, pode não estar certo. Nesses próximos dias, fica de olho no Gao Minjun e vê quando ele vai sair. Mas não entra no quartinho escuro ainda, não. Fica de vigia lá fora para mim. Eu entro primeiro para investigar e ver se a conexão realmente funciona. Se der certo, aí você entra.

    Depois de acertarmos tudo, Ye Ziping ficou responsável por vigiar Gao Minjun, e eu, por entrar escondido e investigar.

    Ye Ziping observou Gao Minjun durante vários dias. Até que, finalmente, ele me contou que Gao Minjun tinha ido à cidade para uma reunião.

    Se eu não fosse entrar pela porta da frente do quartinho escuro, só conhecia uma outra passagem: a abertura de ventilação.

    Naquela noite, esperamos até bem depois da meia-noite para agir.

    Ye Ziping ficou de vigia do lado de fora. Eu entrei direto pela abertura de ventilação. Antes disso, tínhamos ajustado nossos rádios comunicadores — a ideia era evitar usar o celular ao máximo. Ye Ziping também tinha preparado umas ferramentas para eu desmontar a abertura de ventilação.

    Depois de entrar, não acendi a luz. Talvez nem se visse do lado de fora, já que o cômodo não tinha janela, só porta. Mas eu tinha a impressão de que podia haver câmeras ali. Por segurança, usei apenas a lanterna que tinha levado.

    E ainda coloquei de propósito uma balaclava preta, deixando só os olhos de fora. Estava com a cara perfeita de assaltante.

    Lá dentro, tudo estava igual ao dia em que tinha entrado antes. Havia vários equipamentos, e duas cadeiras cobertas de fios.

    Lembrava mais ou menos qual interruptor Gao Minjun tinha acionado. Só que apertei várias vezes e nada ligou.

    Talvez ele tivesse ativado algum outro mecanismo.

    Sentei na cadeira em que Gao Minjun tinha ficado naquele dia e comecei a pensar. Sem querer, a manopla da cadeira encostou num botão na parte de trás do encosto.

    Ouviu-se um “vruum”. A cadeira deslizou de repente para trás.

    E, no lugar onde ela estava, apareceu uma abertura escura.

    Apontei a lanterna para baixo. Havia degraus.

    “Uma passagem secreta?”

    Eu tinha ido ali justamente para descobrir segredos. Claro que ia descer.

    Depois que desci, encontrei um corredor completamente escuro. Mas, assim que pulei lá dentro, as luzes se acenderam sozinhas.

    O corredor não era reto. Da entrada, não dava para saber até onde ele ia. Andei um pouco e vi duas salas secretas, uma de cada lado. Pareciam pequenas, então continuei.

    No fim do corredor, encontrei uma porta grande, bem diferente das outras duas.

    Estava fechada. Empurrei. Puxei. Nada. Não fazia ideia de como abrir aquilo.

    Passei um tempão tateando a parede também, procurando algum botão. Nada.

    Sem opção, desisti.

    Voltei pelo mesmo caminho, até as duas salas secretas que tinha visto antes.

    Empurrei uma das portas.

    E ela simplesmente abriu.

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