Capítulo 3 — Investigação
por NexoNovelCapítulo 3 — Investigação
Para falar a verdade, dizer que eu não estava nervoso seria mentira.
Afinal, os resultados das duas provas não eram fruto da minha própria capacidade.
Mesmo assim, logo controlei as emoções, ergui a cabeça para o diretor Gao e perguntei:
— Diretor Gao, por que a professora Mei não veio?
Todos os professores presentes ficaram surpresos. Por que eu estava preocupado com aquilo?
Eu disse:
— A professora Mei sempre foi a professora responsável pela minha turma. É quem melhor me conhece. Além disso, naqueles dias de prova, ela também foi a principal fiscal. Quero perguntar a ela: eu fiz alguma coisa errada?
Eu sabia muito bem que, naquele momento, não podia de jeito nenhum seguir o roteiro que eles tinham preparado. Se seguisse, com certeza seria desmascarado.
Claro, o principal era que eu mesmo estava com a consciência pesada. Então decidi mudar de estratégia.
Lembrei que minha avó tinha me dito havia muito tempo: quando você encontra um problema, se consegue vencer, luta; se não consegue, argumenta. Por isso, fingi estar muito irritado, aumentei o tom de voz e disse:
— Diretor Gao, professores. No último ano somos 125 alunos, e 98 participaram desta prova. Por que só eu tenho que passar por uma nova avaliação individual?! Enquanto vocês não provarem que eu colei, tenho o direito de recusar qualquer tratamento injusto contra mim. É porque eu não tenho pais e vocês acham que podem passar por cima de mim? Ou porque minhas notas sempre foram ruins e, por isso, podem desconfiar de mim à vontade? Se vai haver uma nova avaliação, então todos os que fizeram a prova devem participar, e não só eu. Caso contrário, isso não é justo! Acho que os professores também não podem sair desconfiando dos outros sem prova nenhuma.
Para falar a verdade, professores normalmente nem prestavam atenção num péssimo aluno como eu, então não me conheciam nem um pouco. E também não esperavam que eu, na verdade, soubesse argumentar tão bem.
Quando Gao Minjun viu que eu não ia colaborar, imediatamente sacou seu trunfo:
— Então você está se recusando a passar por uma reavaliação? Se for assim, todos os seus resultados podem ser anulados. E essa não é uma decisão só minha.
Respondi na mesma hora:
— Então não tenho o que fazer. Se um diretor tem ou não o direito de anular arbitrariamente os resultados de um candidato sem prova nenhuma, eu não sei. Mas acho que, quando alguém sofre uma injustiça, deve lutar contra ela. Aceitar tudo calado, mesmo tendo razão, não é o resultado que os professores gostariam de ver. Um exame nacional desse porte tem monitoramento rigoroso. O que eu não entendo é: se bastava verificar as gravações para resolver tudo, por que fazer tanto alarde?
Depois que terminei, os professores à minha frente também ficaram claramente hesitantes. Afinal, não tinham nenhuma prova concreta. Tudo se baseava em suspeitas.
Gao Minjun não esperava que minha atitude fosse tão firme. E, pior para ele, o que eu dizia fazia sentido. Então mudou de rumo e o jeito dele ficou mais amável.
— Beichen, não precisa se exaltar. Olhe com calma para essas questões. São todas questões comuns. Pelo nível que você tinha antes, acredito que também não seriam difíceis para você. Você só precisa de alguns minutos para provar sua capacidade aos professores e aos colegas. Esta também é uma oportunidade que os professores estão dando a você. Não é?
Oportunidade uma ova! Gao Minjun, eu vou me lembrar de você! Você está fazendo isso de propósito para me encurralar, não está? E se eu não fizer, vai fazer o quê comigo?
Na verdade, eu estava com muita vontade de fingir que tinha ficado furioso, rasgar aquelas folhas e ir embora. Que acontecesse o que tivesse de acontecer.
Mas, justamente enquanto eu pensava no que fazer em seguida, de repente captei uma voz nítida dentro da cabeça:
— Não vá embora ainda. Eu posso te ajudar.
Quem?
Meu coração deu um salto. Levantei a cabeça e passei os olhos pelos professores, deixando o olhar cruzar por um instante com o diretor Gao, que sorria.
Era ele? Não podia ser. Aquela armadilha tinha sido montada por ele. Além disso, antes eu não conseguia captar nada dele.
— Eu digo as respostas. Você escreve.
A voz veio de novo.
Fingi não saber de nada. Fiquei sentado, com cara de injustiçado, sem me mexer e sem olhar para ninguém.
— Naquela questão de múltipla escolha sobre a sequência de matrizes, a resposta deve ser D.
A pessoa estava me dando as respostas.
Gao Minjun. Com certeza era ele.
O que ele queria fazer?
Antes de descobrir qual era a verdadeira intenção dele, achei melhor não agir por impulso. Afinal, ele tinha me seguido durante vários dias. Com certeza não estava com boas intenções. E agora o objetivo dele também não devia ser nada amistoso.
Isso. Ele queria me testar.
Então fiquei ainda mais decidido a continuar parado.
E todo mundo ficou ali sentado.
Na verdade, para mim, fazer ou não fazer aquelas questões dava no mesmo. Porque eu sentia que talvez Gao Minjun nem se importasse tanto em saber se minhas notas eram verdadeiras. Talvez o que realmente interessasse a ele fosse descobrir como eu tinha colado.
Mas, se eu não colaborasse, pelo menos eles não teriam provas suficientes de que havia algo errado com minhas provas.
Ficamos naquele impasse por algum tempo, e a situação acabou ficando entediante para todo mundo. Felizmente, quando fui embora, nem o diretor Gao nem os professores disseram nada muito pesado.
Quando voltei para casa, estava meio abatido.
Minha avó parecia entender tudo. Aproximou-se devagar, bateu de leve no meu ombro e disse:
— Menino bobo, não fique triste. Era algo que você tinha mesmo que passar. O seu caminho não está ali.
Eu respondi:
— Vó, eu não estou triste porque eles desconfiam de mim. É que agora eu não consigo entender o que o diretor Gao e os outros estão pensando.
Então contei à minha avó, nos mínimos detalhes, como os professores tinham me cercado para me reavaliar naquele dia.
Quando ouviu que o diretor Gao tinha me transmitido uma mensagem às escondidas, minha avó ficou séria na mesma hora e disse depressa:
— Você fez certo. Esse diretor Gao não é nada simples. Fique alerta. Muito alerta. Daqui para a frente, tente ficar o mais longe possível dele. Agora você praticamente já se formou. Se ele chamar você de novo, pode simplesmente não ir.
Minha avó sempre foi minha única parente. Por isso, eu queria muito perguntar se ela sabia de onde tinha vindo aquela capacidade de percepção que eu desenvolvera recentemente.
Mas, assim que eu ia abrir a boca, ela me interrompeu.
— Não me conte como você colou. Não conte a ninguém. Lembre-se disso. Não fale sobre isso com pessoa nenhuma.
Assim que terminou, a expressão dela ficou séria de repente. De uma velhinha bondosa, ela passou a parecer estranhamente desconhecida. E me repreendeu:
— Nem para mim você deve contar. A pessoa que você acha que está diante de você talvez nem seja de verdade. Aos poucos, no futuro, você vai entender. Este mundo é muito mais complexo e cruel do que você imagina. Algumas coisas estão apenas começando. Antes eu não dizia nada porque você ainda não tinha se envolvido. Agora que se envolveu, preciso avisar: fique sempre com um pé atrás. Não abra o coração para ninguém. Para ninguém. Seus segredos pertencem só a você. Há coisas que você precisa aprender a guardar para sempre. Julgue por si mesmo. Sinta por si mesmo. Ninguém pode realmente te ajudar. Nem eu.
Aquela mudança repentina na atitude da minha avó me deu um calafrio.
As palavras dela traziam informação demais. Eu não conseguia assimilar tudo de uma vez. Será que o mundo que eu via podia ser falso? As pessoas também podiam se transformar? Isso não era científico!
Mas, pensando bem, se eu podia ter uma capacidade além do normal, por que os outros não poderiam?
Minha avó continuou:
— Você nem deveria ter participado de uma prova daquelas. Já devia ter entendido: eu nunca me importei com as suas notas porque você não precisava disso. Claro, desta vez você se inscreveu e eu também não impedi. Porque isso também era uma experiência pela qual você precisava passar, um caminho que tinha de percorrer. Há pessoas que você está destinado a encontrar. Há coisas que você precisa enfrentar. Eu não posso ajudar você nisso. Por isso não interferi.
Depois, aos poucos, ela voltou a ser a velhinha bondosa de sempre. Suspirou e disse:
— Não conte comigo. Não conte com ninguém. Tudo o que você vê é só uma pequena parte do que consegue enxergar. Aquilo que você não consegue ver é muito maior. E muito mais. Entendeu?
Não.
Não entendi absolutamente nada.
Vó, será que não dava para explicar isso de um jeito mais claro?
Mas ela parou por ali e claramente não queria continuar.
Tentei captar a mente dela para ver se havia mais alguma coisa.
Nada.
Na verdade, eu nunca tinha entendido direito essa história de percepção. Aquilo era uma capacidade? Ou uma espécie de sintonia controlável de informações entre pessoas?
Por que eu não tinha isso antes e agora, de repente, tinha? Por que às vezes funcionava e às vezes não? De onde aquilo tinha vindo?
Eu tinha certeza de que minha avó escondia alguma coisa de mim.
Mas, já que ela não queria falar, eu também não queria sobrecarregá-la ainda mais.
Uns dois dias depois, a professora Mei Qili veio me procurar.
Na verdade, eu não tinha nada contra a professora Mei. Ela era minha professora responsável pela turma desde que eu era pequeno. A gente tinha dado um apelido a ela, e nisso nós é que estávamos errados.
Ela falou comigo sem rodeios: tinha vindo perguntar a pedido do diretor Gao. Claro, ela própria também tinha suas dúvidas. Afinal, minhas notas de sempre não eram tão boas. Como eu podia justamente no gaokao aparecer com um resultado daqueles?
Eu disse uma verdade à professora Mei. Fui direto:
— Professora Mei, eu colei.
Eu admiti.
Eu realmente tinha colado.
De qualquer forma, eu já não pretendia ir para a universidade.
A professora Mei claramente não estava preparada para ouvir aquela confissão.
Ela tinha ouvido dos outros professores sobre a reavaliação conjunta que a escola havia feito comigo. Na ocasião, minha atitude tinha sido extremamente firme. Por isso, nunca imaginou que eu fosse admitir tudo tão facilmente.
Diante da minha confissão, a professora Mei é que ficou hesitante. Afinal, para um jovem de uma região montanhosa isolada, o gaokao era uma coisa capaz de decidir a vida inteira.
Se eu admitisse daquele jeito, a escola certamente comunicaria o caso oficialmente. Então meus resultados seriam anulados e eu poderia até perder o direito de prestar o exame. Ou seja, não poderia voltar a prestar o gaokao no futuro.
Era uma regra expressa do Ministério da Educação.
Então… minha vida acabava ali.
Depois de ficar em silêncio por um longo tempo, a professora Mei disse:
— Não. Não, você não colou. Eu mesma verifiquei as gravações e confirmei tudo com todos os fiscais. Nenhum deles tem prova alguma de que você tenha colado. Beichen, você não pode desistir! Tem que continuar se esforçando. Seja um exemplo para os jovens daqui das montanhas.
A atitude da professora Mei me comoveu de repente e também me fez sentir um pouco culpado.
Eu não era tão nobre assim.
Só estava fazendo aquilo porque minha avó tinha me dito que meu caminho no futuro não passava pelo gaokao. Mesmo que a professora Mei não tivesse vindo falar comigo, eu não iria para a universidade.
Mais ou menos uma semana depois, o diretor Gao veio especialmente me procurar e disse que queria conversar comigo a sós.
A princípio, eu não pretendia dar atenção a ele.
Minha avó tinha dito que eu podia ignorá-lo. De qualquer forma, eu já tinha decidido abandonar o caminho de disputar uma vaga na universidade. Ele não podia fazer nada comigo.
Só que uma frase do diretor Gao me obrigou a ir.
Ele disse:
— Garoto. Com você, tanto faz. Mas a sua avó pode ter um problemão! Se quiser protegê-la, vai ter que me explicar tudo direitinho. Caso contrário, vou agir conforme a lei e procurar sua avó para esclarecer isso.
Vai se ferrar.
Você tem coragem de ameaçar a minha avó?
Por isso resolvi encará-lo.
Como diz o ditado: se for bênção, não é desgraça; se for desgraça, não dá para escapar.
