Novels chinesas em português
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    Capítulo 6 — O mistério da identidade da minha avó

    Hein? O que aquilo queria dizer?

    Que história era essa que minha avó estava inventando?

    Se tinha alguma coisa para me dizer, por que não falava direto comigo? Por que precisava mandar Ye Pingsheng me entregar aquilo só daqui a um mês?

    Ela queria me matar de ansiedade!

    Mas, pela cara de Ye Pingsheng, naquele mês inteiro eu não ia conseguir pôr as mãos naquele envelope.

    E, além disso, minha avó e Ye Pingsheng nem pareciam ser tão próximos assim.

    Nesse momento, Ye Ziping abriu a porta e entrou.

    Quando me viu ali na casa dele, ficou um pouco surpreso também.

    Eu tinha um monte de coisas que queria perguntar a Ye Ziping. Por exemplo, se a pessoa que eu tinha visto no metaverso era realmente ele. Ou se ele estava colaborando com Gao Minjun. E outras coisas mais.

    Mas, naquele momento, o que importava de verdade era minha avó.

    Eu não fazia ideia do que iria acontecer em casa depois daquilo.

    Se ela tinha me proibido de voltar, certamente já previa que alguma coisa aconteceria ali naquele dia.

    Eu não podia ir.

    Então mandaria Ye Ziping no meu lugar.

    Puxei Ye Ziping depressa para um cômodo mais reservado e expliquei a situação por alto. Pedi que fosse imediatamente ficar de vigília perto da casa da minha avó, para ver se ela corria algum perigo, e que me avisasse por telefone a qualquer momento.

    Depois que Ye Ziping saiu, voltei com calma para conversar com Ye Pingsheng.

    Eu conhecia bem Ye Ziping.

    Cabeça-dura, de uma ideia só na cabeça.

    Mas, na hora de fazer alguma coisa, era confiável.

    A gente cresceu junto, brincando, e sempre foi muito unido. Com ele vigiando por lá, não devia haver problema.

    Ye Ziping tinha um segredinho: era apaixonado por Zhu Zhaojie em silêncio.

    Só que veja bem: você é um péssimo aluno, ainda gordinho, apaixonado justamente pela melhor aluna, a garota mais bonita da escola. Que resultado você espera disso?

    Depois que entrou na adolescência, aquele sujeito inventava qualquer desculpa para aparecer na minha casa.

    Na verdade, eu sabia muito bem: ele só queria “encontrar por acaso” Zhu Zhaojie.

    Para conseguir vê-la mais um pouco, sempre subia até o terraço do prédio em frente ao meu, fingindo que ia pendurar alguma coisa para secar. De lá, dava para ver tanto a minha casa quanto a dela.

    Se eu mandasse ele vigiar, apostava que ele iria direto para lá.

    Era um ponto de observação perfeito.

    Pouco mais de uma hora depois, o telefone tocou. Era Ye Ziping.

    Pela voz, parecia bastante agitado.

    — Caramba, Chen! Que história é essa com a sua avó? Ela é uma mestra reclusa de verdade! Eu estava aqui no terraço e vi sua avó falando com três pessoas de preto. A conversa não deve ter sido boa, porque de repente começaram a se pegar. Eu achava que essas pessoas de preto eram tudo cara jovem e forte. Prender uma velhinha de mais de noventa anos devia ser fácil, né? Pois sua avó mandou um voando com um soco e derrubou outros dois com uma rasteira. O movimento era tão rápido que definitivamente não é coisa de gente normal! E agora sua avó fugiu. Você quer vir ver?

    — O quê? Minha avó fugiu?

    — Fugiu. Mas tem um monte de gente cercando o prédio de baixo. Você vai vir para o terraço ou vai direto para casa? Se quiser, fica escondido aqui em casa um tempo — disse Ye Ziping, ao telefone.

    — Escondido nada. Vou correr para casa agora mesmo, ver o que aconteceu. E você não se mete mais nisso. Volta para sua casa e fica lá. Se eu precisar de alguma coisa, te chamo.

    Eu realmente não queria envolver Ye Ziping nos problemas da minha família.

    Tinha a sensação de que, se algo desse errado, seria coisa grande.

    Avisei Ye Pingsheng e saí correndo direto para casa.

    Minha própria casa. De quem eu ia ter medo?

    Eu não tinha cometido nenhum crime.

    Minha avó tinha fugido?

    Por que ela fugiria? Para onde ela podia ter ido?

    Eu estava mesmo muito preocupado com ela.

    Quando cheguei embaixo do prédio, vi um monte de curiosos cochichando e apontando.

    Nem liguei para eles. Subi direto para casa.

    A porta estava escancarada.

    Ainda tinha duas pessoas de preto ali dentro, parecendo procurar alguma coisa, mas Gao Minjun não estava lá.

    Fui direto e agarrei uma das pessoas de preto.

    — Quem são vocês? O que fizeram com a minha avó?

    A pessoa de preto moveu a mão de leve e me empurrou para o lado, sem esforço nenhum.

    Era óbvio que tinha muito mais força do que eu.

    Com essa força toda, será que minha avó de verdade conseguia enfrentar esse pessoal?

    Fiquei em dúvida.

    — Você é Gu Beichen?

    A pessoa de preto que tinha me empurrado tinha traços frios, olhar afiado como o de um predador. Tirou uma credencial do bolso, mostrou para mim e disse:

    — Somos investigadores da organização CWP, da ONU. Meu nome é Liu Biao. Esta pessoa é Hu Zhenqing. Havia ainda mais uma pessoa conosco, que sua avó feriu e precisou ser levada ao hospital. Você chegou em boa hora. Temos algumas coisas para investigar com você também. Por favor, venha conosco.

    Sendo sincero, eu não tinha nenhum daqueles golpes que Ye Ziping tinha acabado de descrever na minha avó.

    Contra aquela gente, eu não teria a menor chance.

    Se tivesse, até queria tentar.

    Já que não dava para vencer pela força, só restava argumentar.

    — CWP? Nunca ouvi falar. Que direito vocês têm de entrar na casa das pessoas e revistar tudo desse jeito? E que direito têm de me levar?

    — Eles têm esse direito!

    Junto com a voz, entrou um policial, seguido por Gao Minjun.

    O policial, assim que entrou, prestou continência a Liu Biao e depois falou comigo:

    — Sou Zhu Shaohua, chefe da Subdivisão de Segurança Pública de Liutan. Deixe-me explicar. A CWP é uma organização especial de expurgo, autorizada pela ONU. Em qualquer lugar do mundo, sempre que um caso envolve inteligência artificial, eles têm a autoridade máxima para agir, sem precisar de nenhum processo judicial. Essa autoridade foi concedida por um acordo conjunto alcançado no âmbito da ONU depois da Guerra Humano-Máquina mundial. Gu Beichen, você é obrigado a colaborar com a investigação.

    Eu disse:

    — Está bem. Eu vou com vocês.

    Eu não conhecia a CWP.

    Mas polícia eu conhecia.

    Aí eu tinha que baixar a bola.

    Na verdade, por dentro eu não tinha medo deles.

    Eu não tinha cometido crime nenhum. No máximo, tinha colado no exame, e isso não dava cadeia.

    O que me preocupava mesmo era minha avó.

    Ir com eles também podia ser uma forma de descobrir mais sobre o que estava acontecendo com ela.

    Fui levado até uma sala de interrogatório da Subdivisão de Segurança Pública de Liutan.

    A polícia trouxe uma montanha de equipamentos para o pessoal da CWP.

    Sentei numa cadeira, tranquilo, e deixei que usassem todo tipo de aparelho e instrumento para me examinar de cima a baixo.

    Gao Minjun e o pessoal da polícia corriam de um lado para o outro, enquanto as pessoas de preto se limitavam a alguns procedimentos técnicos simples.

    Dava para perceber que a posição delas era bem superior à da polícia e à do próprio Gao Minjun.

    Que medissem à vontade.

    Eu tinha para mim que esse tal “superpoder” de percepção não era nem material.

    Devia ser um tipo de capacidade específica.

    Eu não conseguia explicar exatamente como funcionava, mas tinha certeza de que não era coisa física. E, na minha cabeça, não tinha absolutamente nada a ver com inteligência artificial.

    A polícia e o pessoal da CWP trabalharam mais de duas horas.

    Eu também descansei mais de duas horas.

    Dava para ver que não tinham descoberto nada.

    Espreguicei-me e perguntei:

    — E agora? Para onde eu vou? O que vem depois?

    Zhu Shaohua respondeu, sem muita paciência:

    — Sente-se. Vai para a sala de interrogatório. Ainda temos perguntas.

    Então fui para a sala.

    Primeiro, a polícia fez um interrogatório de rotina, com tudo registrado.

    Perguntaram principalmente sobre minha vida na escola, quem eu conhecia, se tinha parentes fora da cidade ou na própria Liutan.

    Claro, também perguntaram se eu tinha colado naquele gaokao, entre outras coisas.

    Respondi tudo normalmente. E admiti que tinha colado.

    Quando chegou a vez da CWP me interrogar, o foco das perguntas passou quase todo para minha avó.

    O que ela fazia no dia a dia, que livros gostava de ler, o que costumava me dizer, de que a gente vivia. Coisas assim.

    Sempre que a pergunta era sobre minha avó, eu dizia que nunca tinha prestado atenção, que não sabia, que antes nunca tinha reparado direito.

    Quem passa o dia inteiro vigiando uma velhinha?

    Mas, pensando bem, minha avó já tinha aquela idade toda, e eu realmente nunca tinha me perguntado de onde vinha o dinheiro da nossa casa.

    Não éramos ricos.

    Mas comida, roupa, o básico do dia a dia, nunca faltou.

    Além das perguntas, eles também soltavam algumas frases pensadas para me induzir.

    Pelo jeito que falavam, parecia que a própria avó tinha admitido que, durante o gaokao, tinha ativado um equipamento inteligente sem meu conhecimento, e que fora por isso que eu tinha colado.

    Eu não sabia nada disso.

    Mas achava impossível.

    Mesmo que algum equipamento tivesse sido ativado, sem a minha cooperação não adiantaria nada, não é?!

    Claro que eu não ia dizer isso.

    Se dissesse, não teria como explicar de onde tinham vindo minhas notas altas.

    Se são tão capazes assim, vão perguntar à minha avó.

    Parecia que ela tinha decidido assumir toda a responsabilidade no meu lugar, escondendo minha capacidade anormal de percepção.

    E tinha escolhido desaparecer justamente para impedir que houvesse qualquer forma de comprovar aquilo.

    Ah, eu é que tinha simplificado demais o problema desde o começo.

    E acabei causando uma encrenca enorme para minha avó.

    Quando o interrogatório já estava terminando, a atitude da polícia também amoleceu bastante.

    Zhu Shaohua até mandou alguém me trazer um copo de água quente.

    Pouco depois, um policial disse:

    — A investigação terminou. Assine aqui e pode ir para casa.

    Mas eu não queria ir.

    Porque ainda não sabia de nada sobre minha avó.

    Agora, mesmo que eu quisesse ir procurá-la, nem sabia para onde ir.

    E eu queria muito entender, afinal, o que estava acontecendo com a minha avó.

    Zhu Shaohua percebeu que eu estava enrolando, sem querer sair, e Liu Biao e os outros também não disseram nada.

    Simplesmente deixaram de me dar atenção.

    Deviam pensar: se não quer ir, é problema seu.

    Vi a polícia e o pessoal da CWP — as pessoas de preto — indo, aos poucos, para uma sala de reuniões.

    Fui atrás, disfarçado, e entrei também.

    Nem os policiais nem as pessoas de preto se importaram comigo.

    Fui para um canto mais afastado e fiquei ali.

    Um policial ligou o projetor da sala.

    Na tela, apareceram, uma após outra, fotografias da minha avó e páginas do arquivo dela.

    Eu nem sabia quando tinham tirado aquelas fotos da minha avó às escondidas.

    Eu nunca tinha visto nenhuma delas.

    Liu Biao apontava para as imagens enquanto explicava:

    — Wang Chunyan. Nascida em fevereiro de 1962. Morreu de doença em maio de 2034, enterrada em Xisaishan, na cidade de Gucheng. Ou seja: ela já tinha morrido um ano antes da Guerra Humano-Máquina mundial. Então, quem é, afinal, esta Wang Chunyan que temos aqui? Por que ficou escondida durante tantos anos em Liutan? E por que criou Gu Beichen no lugar do casal Gu Chenxing e Wang Rongyue…

    Minha cabeça deu um “zumbido” e ficou completamente em branco.

    Depois disso, não ouvi mais nenhuma palavra do que ele disse.

    Wang Chunyan era a minha avó.

    Gu Chenxing e Wang Rongyue eram os nomes dos meus pais, os dois que tinham morrido na guerra.

    O que ele estava querendo dizer com aquilo?

    Como assim minha avó tinha morrido em 2034?

    Então quem era a avó que me criou até hoje?

    Só podia ser algum engano.

    Fiquei olhando página após página do arquivo da minha avó na tela, sem conseguir acreditar em nada daquilo.

    Era mentira. Tudo aquilo era mentira.

    Cheguei até a me perguntar se, porra, eu ainda não tinha saído do metaverso.

    Nota