Capítulo 67 — Por favor, venha conosco
por NexoNovelCapítulo 67 — Por favor, venha conosco
Eu já tinha explicado a Huang Gordo que não tinha relação nenhuma com o Pavilhão das Sombras, mas ele continuava com aquela cara de quem não acreditava em uma palavra, e isso me deixou sem o que dizer.
Depois de um longo silêncio, Huang Gordo murmurou para si mesmo, o rosto carregado de aflição:
— Mas não faz sentido. Antes da guerra, o Pavilhão das Sombras já tinha reunido no Mundo de Elite todas as pessoas capazes do mundo inteiro. Você diz que veio do Mundo Secular. Como isso seria possível? Uma pessoa comum não pode ser tão forte! Mesmo que você tenha histórico com as forças da resistência, no máximo seria descendente de Humanos de Elite. E, entre os próprios Humanos de Elite, ninguém é forte desse jeito.
Eu disse:
— Por que não seria possível? Hegel já dizia que o que existe tem sua razão de ser. Há muita coisa que você não entende.
Huang Gordo me olhou de cima a baixo e perguntou:
— Quem são seus pais? Não podem ser Humanos de Elite comuns, podem?
Eu disse:
— Desde pequeno fui criado pela minha avó, no Mundo Secular. Quando desci das montanhas, nunca tinha visto meus pais. Até hoje não sei quem é meu pai.
Huang Gordo disse:
— Você… deixa pra lá. Não pergunto mais. Perguntar não vai dar em nada.
Voltamos os dois para a sala reservada, para a mesa com os pratos, e comemos calados. Huang Gordo bebeu bastante. Eu também bebi bastante.
Na hora da despedida, eu já tinha saído do restaurante e ele ainda não largava o assunto:
— Você… você mesmo não é do Pavilhão das Sombras?
Eu disse:
— Pavilhão das Sombras é o cacete. Você não vai parar com isso, não? Ou então vamos brigar.
Huang Gordo disse:
— Tá, tá. Não pergunto mais. Se você de verdade não é do Pavilhão das Sombras, então acho que eles vão procurar você feito loucos. Porque você é, sem dúvida, uma anomalia. E do tipo extremo. Os dois mundos, o de Elite e o Secular, no fim das contas são feitos de gente, e o padrão normal das pessoas vai só do nível sete ao dez. Alguém como Pu Liuqian, que chega ao nível vinte, é resultado da parte mais essencial de bilhões de pessoas, refinada especialmente pelo supercomputador central do Pavilhão das Sombras. Esse seu nível simplesmente não é de gente.
Eu disse:
— Não é de gente é você! O normal vai do sete ao dez, e você é nível doze. Você e Pu Liuqian é que não são gente.
Huang Gordo disse:
— Eu bem que queria não ser gente, mas minha força não permite! Ah, e falando do que importa: eu realmente não sabia que você era tão forte. Por isso, com aquele teste de agora há pouco, é bem possível que o Pavilhão das Sombras já saiba. Que tal você simplesmente fugir?
Eu ri e disse:
— Fugir para onde? Neste mundo virtual, do céu à terra, que palmo de terra não é território do rei? Eu ainda não me diverti o bastante. Se eu for embora agora, qual a diferença de estar morto? Melhor deixar que alguém do Pavilhão das Sombras me mate. Pelo menos assim eu descubro quem ele é.
Huang Gordo assentiu:
— Também é verdade. A culpa é minha, fui descuidado. Na verdade, aquela minha Régua de Fixação Espiritual é só de categoria civil. Muitas famílias grandes têm uma. Já que a pílula de veios dourados não faz efeito em você, de agora em diante não coma pílula nenhuma. Nenhuma vai servir.
Eu disse:
— Não como, pode ficar tranquilo. Da última vez comi uma pílula de veios dourados e não senti absolutamente nada. Doeu na alma. Cem pontos, meu irmão.
Huang Gordo disse:
— Quer saber? Já que você vai morrer de qualquer jeito, por que não faz logo uma jogada grande? Vá direto ao Castelo do Senhor de Guiyoucheng e assalte a sala de pílulas do senhor da cidade. O dinheiro que Guiyoucheng entrega ao Pavilhão das Sombras, mais os pontos de desempenho que o povo troca por pílulas imortais, fica tudo concentrado no castelo do senhor da cidade.
Eu disse:
— Você também é bem safado. Roubar dinheiro, esse tipo de coisa sem princípio nenhum, não me interessa. Eu prefiro ganhar dinheiro, ou então, como da última vez, surrupiar um pouco de alta tecnologia. Vim para aumentar minhas capacidades, não para gastar dinheiro me divertindo.
Huang Gordo disse:
— Então é simples. Você volta direto para o mundo real e eu levo você às grandes instituições de pesquisa. Aquilo lá é cheio de resultados de alta tecnologia. A gente assalta uma por uma e divide meio a meio, igual à outra vez.
Perguntei:
— Era justamente isso que eu queria perguntar. Se eu sair daqui, o corpo de Song Chenfeng morre ou entra em estado de espera?
Huang Gordo disse:
— Como assim? Depois que os Humanos de Elite vivem algum tempo no mundo virtual, sempre acabam tendo que voltar ao mundo real. Com isso você não precisa se preocupar. Cada corpo no mundo virtual tem uma inteligência própria. É como um corpo parasita no mundo real: quando você não está nele, ele continua funcionando sozinho, dando sequência ao seu estado de vida anterior, inclusive trajetória, hábitos e capacidades. Só que você não tem a sensação da experiência. Quando voltar, as experiências e as memórias guardadas no corpo permitem que você continue de onde parou.
Eu disse:
— Então quer dizer que, se eu correr perigo aqui, posso dar o fora a qualquer momento?
Huang Gordo disse:
— Claro. Só que, se fizer isso, você perde esse corpo. Todo o esforço que já investiu nele vai por água abaixo. E você não terá como interferir no que os outros fizerem com esse corpo.
Eu disse:
— Entendi. Pelo que compreendo, o Pavilhão das Sombras é o dono de todo o mundo real e de todo o mundo virtual. No mundo virtual, se ele quiser que alguém morra, basta desligar o código de alma dessa pessoa aqui dentro. Foi por isso que você disse que quem causa confusão morre na hora. Ou seja, o Pavilhão das Sombras pode desligar a qualquer instante o código de alma de qualquer um no mundo virtual. Mas, no mundo real, as pessoas não têm código de alma. Então lá ele só pode matar no plano físico.
Huang Gordo disse:
— Sua compreensão não está errada. Só que o mundo virtual, na prática, é ligado ao mundo real. Por exemplo, o dinheiro que você ganha aqui: mesmo que o Pavilhão das Sombras apague seu código de alma, você ainda consegue levar daqui os pontos de desempenho. E, ao mesmo tempo, ele também rastreia seus vestígios como pessoa física pelo modo como você usa esses pontos. Um aviso especial: pílula de veios dourados não pode ser levada. Quer trocar tudo por pontos de desempenho? Eu faço a troca aqui mesmo.
Eu disse:
— Fechado. Já que as pílulas não me servem, de agora em diante você troca tudo por dinheiro para mim.
Dito isso, voltei ao restaurante e pedi que Huang Gordo convertesse todas as minhas pílulas em pontos de desempenho.
Foi então que percebi, no canto superior esquerdo do meu campo de visão, o total dos meus pontos de desempenho: 2260. Comparado a quando eu tinha chegado, eram 2250 pontos a mais. Se eu não tivesse comido aquelas duas pílulas, teria mais 110. Uma pena.
Huang Gordo e eu estávamos ocupados contando dinheiro quando, de repente, duas figuras saltaram atrás de mim.
Virei a cabeça e vi que estavam vestidas como os Wuchang Preto e Branco.
Eu disse:
— Que raio de coisa é essa? Sua língua está toda de fora. Se não recolher isso, você vai babar o chão dos outros inteiro.
O Wuchang Branco recolheu depressa a língua comprida e disse:
— Song Chenfeng, ordem do senhor da cidade. Por favor, venha conosco.
Eu ri e disse:
— Vocês dois vieram buscar minha alma? Trouxeram os bastões fúnebres? Não vamos lutar aqui, não é bonito quebrar as coisas do restaurante dos outros. Vamos achar um lugar vazio para brigar. Se vocês dois me vencerem, eu vou com vocês.
O Wuchang Branco disse:
— Song Chenfeng, eu sei que você tem muitos recursos. Nós dois talvez nem sejamos adversários à sua altura. Só viemos convidá-lo por ordem do senhor da cidade. Se você não vier conosco, ele virá convidá-lo pessoalmente. Aí ninguém vai sair bem na foto.
Eu disse:
— O senhor da cidade de vocês é de que grau? É muito forte?
O Wuchang Preto disse:
— Com certeza mais forte que você. Você ainda não chegou ao nono grau. E, diante do senhor de Guiyoucheng, até o líder da sua Seita Ziyun precisa ceder.
Assenti e disse:
— Então é forte de verdade. Está bem, eu vou com vocês. Huang Gordo, se por acaso eu não voltar, entro em contato pela sua conta secundária e a gente faz negócio em outro lugar.
Ao ver que eu realmente ia com eles, Huang Gordo disse:
— Aquilo de agora era brincadeira minha. As coisas do castelo do senhor da cidade ninguém rouba. A força que eles têm nem a Seita Ziyun consegue superar.
Virei a cabeça e disse:
— Fique tranquilo. Eu vim mesmo para experimentar. Se não der certo, a gente se vê no mundo real.
Dito isso, eu e os Wuchang Preto e Branco saímos voando direto pela janela.
Os Wuchang Preto e Branco não tinham a menor intenção de me deter; apenas iam à frente, mostrando o caminho.
Voamos assim por uns dez minutos e, na escuridão à frente, eu finalmente vi que havia mesmo um castelo de pedra erguido sobre uma colina, como a cidade de um rei antigo. O céu sobre a cidade também tinha sido escurecido de propósito, o que deixava tudo especialmente sombrio.
Os dois Wuchang entraram primeiro pelo portão principal e bateram uma vez num sino de bronze na entrada.
Olhei para um lado e para o outro e entrei atrás deles.
Passamos pelo Palácio do Juiz, pelo Palácio do Oficial dos Méritos e chegamos ao Salão dos Dez Reis Yama, sem ver quase ninguém pelo caminho.
Perguntei aos Wuchang Preto e Branco:
— Como se chama o senhor da cidade de vocês? Não vai me dizer que ele se chama Grande Imperador Fengdu, vai?
O Wuchang Branco disse:
— O senhor da cidade não se chama imperador. Mas de fato se chama Feng Du. Feng de dois cavalos; Du de supervisão.
Eu disse:
— E vocês também têm Grande Imperador Dongyue e Senhora Houtu? Não me diga que trouxeram para cá toda a parafernália do submundo.
O Wuchang Preto disse:
— Os de nível mais alto, não. Mas oficiais dos méritos, juízes, reis Yama e coisas assim, temos. É principalmente para manter a segurança local e resolver disputas. O senhor da cidade se conecta diretamente ao Pavilhão das Sombras. O Pavilhão das Sombras é o Grande Imperador Dongyue.
Ao chegarmos ao Palácio Beiyin Fengdu, os Wuchang Preto e Branco se retiraram e me deixaram entrar sozinho.
Entrei no Palácio Beiyin Fengdu. O que vi lá dentro não era muito diferente de um grande templo daoista qualquer: por toda parte, aquele conjunto de estátuas divinas feito para intimidar os outros. Como não vi ninguém, procurei uma almofada de meditação das maiores e me sentei.
Eu já tinha sido abade do Templo Pingtan, então o conteúdo desses templos não me interessava nem um pouco.
Foi nesse momento que notei, atrás da mesa de incenso, que a estátua divina do centro parecia se mexer um pouco. Condensei então minhas ondas de visão penetrante e olhei. Como imaginei, havia uma pessoa sentada ali, transformada na aparência de uma estátua divina.
Não o desmascarei. Deixei que brincasse à vontade.
Continuei sentado, de olhos fechados, descansando, fingindo não ter notado nada.
A pessoa ficou um tempo ali, sentada, me observando. Depois estendeu devagar uma das mãos e começou a aplicar força de consciência sobre mim. Na mesma hora, uma forte onda de consciência se transformou numa rajada de ar e avançou contra o meu rosto.
Receber sem retribuir seria falta de educação.
Endireitei-me com toda a formalidade, também estendi uma mão e apliquei minha força de consciência contra a estátua divina.
As duas ondas de consciência se chocaram e formaram uma parede de ar invisível.
A pessoa começou a aumentar sua força de consciência. Eu fui aumentando também, sem parar, sustentando a pressão e sem deixar que a parede de ar dele avançasse um passo.
A pessoa elevou de novo a intensidade da onda de consciência. Eu segurei com a mesma intensidade. Parecíamos dois mestres em duelo de artes, nenhum cedendo ao outro.
Logo a pessoa passou a elevar a intensidade da onda de consciência de forma contínua, sem interrupção. Foi aí que percebi que não daria para continuar gastando força de frente daquele jeito. Porque, se aquela pessoa fosse o senhor da cidade, seria no mínimo de décimo grau, e sua força de consciência talvez fosse muito superior à minha. Ainda que a espessura da força de consciência que eu medira com a Régua de Fixação Espiritual fosse absurdamente alta, aquilo era apenas espessura. Era como um recipiente: enorme, mas com o conteúdo longe de estar cheio.
Então fundi imediatamente minha força de consciência com a percepção por sintonia de frequência e avancei contra ele na mesma frequência das ondas cerebrais do adversário. Como eu esperava, minha força de consciência e a dele logo se enredaram uma na outra. Já não havia confronto: formou-se um vórtice poderoso, que sugava à força a consciência dele para o centro, sem deixar que ele se soltasse.
No começo, a pessoa não levou aquilo a sério e seguiu aumentando a força de consciência, tentando romper o turbilhão espiral de consciência que eu havia projetado. Mas não demorou para sentir que havia algo errado.
Porque aquele turbilhão sugava muito pouco da minha força de consciência. A maior parte dela continuava ali, como quem chicoteia um pião, acelerando a velocidade de rotação do turbilhão.
À medida que o turbilhão crescia sem parar, não importava quanta força de consciência o adversário acrescentasse: nada parecia capaz de encher aquele buraco negro. Ele quis se afastar, e isso já havia se tornado impossível. Só podia girar comigo, passivamente.
Além disso, vi o suor começar a cobrir o rosto dele. E eu continuava chicoteando o turbilhão.
Nesse instante, dentro do Palácio Beiyin Fengdu, toda a cinza de incenso, as almofadas de meditação e os objetos soltos subiram junto, formando um redemoinho visível a olho nu, que começou a bater em tudo com estrondos.
