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    Capítulo 23 — A lista dos Caçadores de Almas

    Então havia mesmo um corpo. Não era invisível de verdade.

    No instante em que saltei e lancei o chute contra aquela pessoa invisível, ela não só desviou do meu ataque como ainda segurou meu tornozelo com uma das mãos, deixando-me ali, sem jeito nenhum, com uma perna erguida no ar. Não tive escolha e gritei:

    — Ei, ei, solta! Senão eu grito por socorro!

    — Você consegue me ver? — perguntou a pessoa invisível.

    — Solta que eu te conto. Não consigo.

    Baixei o pé. Pelo visto, aquela pessoa tinha mais técnica de luta do que eu. Meu chute tinha sido rápido a ponto de nem Min Long conseguir desviar, e ela desviou.

    A pessoa invisível perguntou:

    — Foi pela percepção por sintonia de frequência que você me percebeu?

    Eu disse:

    — Por que eu teria que te contar isso? Eu nem sei quem você é.

    A pessoa invisível disse:

    — De todo jeito, ainda preciso agradecer. Você não me denunciou diante de Bi Deyuan.

    Eu disse:

    — Então não foi Bi Deyuan e os outros que mandaram você me detectar?

    A pessoa invisível disse:

    — Você está se achando importante demais. Aos olhos dele, não precisaria de tanta complicação pra lidar com você. Ele ainda tem muitos métodos que nem começou a usar. Além disso, sua percepção por sintonia de frequência já vem sendo estudada por eles há tempos. Aquela teoria de Tesla que ele acabou de te contar faz parte do conteúdo da pesquisa sobre percepção por sintonia de frequência. Você deve ter percebido alguma coisa. Vim procurar você porque quero que me ajude com uma tarefa. Em troca, posso fazer com que saia daqui de forma legal. O que me diz?

    Perguntei:

    — Que tarefa? Se não for coisa difícil demais, talvez eu tente.

    A pessoa invisível disse:

    — Vim desta vez atrás de uma lista que está com Bi Deyuan. Mas já procurei no escritório dele, e em todo lugar onde ela poderia estar guardada, e não achei nada. Por isso, suspeito que ele a tenha destruído depois de ler.

    Sorri e disse:

    — Se já foi destruída, ainda quer que eu procure?

    A pessoa invisível disse:

    — Talvez você consiga. Porque você é capaz de enxergar os pensamentos das pessoas. Essa percepção de ressonância por sintonia de frequência… a gente nunca deu muita importância a isso antes. Quem diria que tinha alguma utilidade. Bi Deyuan destruiu a lista, sim, mas ela com certeza ficou gravada na memória dele. Então? Você me ajuda a consegui-la, e eu devolvo sua liberdade.

    Eu disse:

    — E por que eu deveria confiar em você? Não faz muito tempo que o Liu Biao acabou de me enganar. Não sou burro.

    De repente, apareceu suspensa no ar diante dos meus olhos uma placa de jade verde, quase idêntica às minhas duas.

    Então aquela pessoa também tinha uma!

    Por instinto, toquei nas duas placas de jade verde que eu tinha escondido. Ainda estavam lá.

    Será que a placa daquela pessoa invisível era uma das seis que eu imaginava existir? Então quem seria essa pessoa invisível? Fiquei um pouco animado e disse:

    — Dá pra trocar por essa placa? A liberdade eu mesmo dou um jeito de conseguir.

    A pessoa invisível disse:

    — Agora não dá. Não pense que, se fugir, vai estar seguro. Os Varredores estão espalhados pelo mundo inteiro. Sem minha ajuda, vai ser bem difícil sair de forma legal.

    Pensei um pouco. Fazia sentido. Então disse:

    — Tudo bem. Mas não posso garantir que a lista seja verdadeira. Afinal, não entendo o significado dela. E outra coisa: como faço pra que esse velho pense justamente nessa lista de que você está falando?

    Nesse momento, no espelho diante de mim, apareceu uma linha escrita com água:

    “Lista dos Caçadores de Almas”.

    — Basta fazer com que ele veja isso. Ele vai associar na hora àquela lista. Porque isso é muito importante para ele. Quando for a hora, eu entro em contato com você.

    Depois de dizer isso, a pessoa invisível não deu mais nenhum sinal.

    Foi embora?

    Apalpei ao redor e tentei perceber de novo. Já não havia mais nenhuma informação dela por ali.

    Nos dias seguintes, fiquei sempre de olho nos movimentos de Bi Deyuan.

    Infelizmente, as pessoas do Departamento Tianshu raramente saíam. Mesmo nas poucas vezes em que apareciam, eu não tinha chance de agir. E, além disso, mesmo que Bi Deyuan visse aquelas palavras, eu não podia deixar que percebesse minha presença. Já que ele sabia da minha percepção por sintonia de frequência, com certeza ficaria prevenido contra mim.

    Esperei quase dez dias. Num fim de semana, houve uma competição interna de combate no campo de treinamento da base, com participantes de todos os departamentos. Foi aí, finalmente, que vi Bi Deyuan indo também.

    Entendi que aquela talvez fosse a oportunidade.

    As arquibancadas da competição eram divididas por setor. Pela posição de Bi Deyuan, ele devia ser considerado de escalão médio: um pouco acima de Liu Biao, mas abaixo de Yin Kun.

    Então, escondido, enfiei um bilhete com a “Lista dos Caçadores de Almas” na cadeira onde ele provavelmente sentaria. Depois, fui me esconder a uns cinquenta metros daquele lugar.

    Calculei bem essa distância. Perto demais, ele suspeitaria de mim; longe demais, a percepção sairia prejudicada. Cinquenta metros era o ponto certo.

    Aquela “Lista dos Caçadores de Almas”, eu tinha caprichado bastante. Fiz de propósito para ficar tudo embaçado e confuso — principalmente os nomes embaixo, que rabisquei todos com uma caneta que quase não soltava tinta.

    Era justamente pra fazê-lo adivinhar. Pra fazê-lo pensar.

    Depois de preparar tudo aquilo, fiquei só esperando o peixe morder a isca.

    Só que eu não esperava por aquilo: Bi Deyuan simplesmente não se sentou na cadeira onde eu previa que ele se sentaria.

    Só passou por lá, deu uma volta e foi embora.

    Meu coração deu um salto. Fui correndo na direção da cadeira onde tinha deixado o bilhete, querendo recuperá-lo.

    Mas cheguei tarde demais.

    Assim que me aproximei da cadeira, alguém chegou primeiro, encontrou a lista e a levou.

    O chefe Su, do Departamento de Inteligência Cultural, por acaso passava justo por aquela cadeira e viu o bilhete.

    Parei na hora e me escondi atrás da multidão para observar.

    O chefe Su pegou a lista, deu só uma olhada rápida, e o rosto dele mudou na mesma hora. Saiu correndo procurar Liu Biao.

    Naquele momento, Liu Biao caminhava na direção de Yin Kun.

    O chefe Su correu até ele, entregou o bilhete e disse alguma coisa.

    Liu Biao também olhou, e ficou tenso demais, procurando alguém por todos os lados.

    Só me restou segui-lo de longe. Fui atrás dele até o primeiro portão do Departamento Tianshu, e foi aí que vi Liu Biao alcançar Bi Deyuan.

    Corri até um bebedouro e fingi que estava bebendo água, enquanto de esguelha observava Bi Deyuan e Liu Biao.

    Vi os dois conversarem por um instante. Parecia que Bi Deyuan não queria que Liu Biao se metesse no caso, porque guardou o bilhete no próprio bolso.

    Depois, vi Bi Deyuan esperar Liu Biao ir embora. Só então tirou o bilhete devagar para olhar.

    Só nesse momento respirei um pouco mais tranquilo. Fiquei bem satisfeito com a intervenção do chefe Su e de Liu Biao. Pelo menos, Bi Deyuan não desconfiaria de mim de imediato.

    Li na cabeça de Bi Deyuan um bocado de informação confusa: havia suspeitas sobre Liu Biao e o chefe Su, e também cautela em relação ao próprio bilhete.

    Depois de toda essa bagunça de pensamentos, surgiram alguns nomes de pessoas. Parecia que ele estava corrigindo os nomes que eu tinha rabiscado de qualquer jeito. De todo modo, eu não conhecia nenhum deles. Ainda bem que consegui memorizar.

    Não sabia se aqueles cinco nomes eram a lista completa, nem tinha certeza de que fossem verdadeiros. Talvez fossem só pessoas relacionadas à lista. De qualquer forma, era só o que eu sabia. Deixaria a pessoa invisível decidir por conta própria.

    Enquanto pensava em como entrar em contato com ela, senti um peteleco na orelha. Só que não havia mais ninguém ao redor.

    Percebi na hora: a pessoa invisível tinha chegado.

    Caminhei devagar até um banheiro público, entrei num boxe e comecei a escrever aqueles cinco nomes. Assim que terminei, o bilhete saiu voando.

    Voou mesmo, de verdade, e desapareceu sem deixar rastro.

    Isso mostrava que a pessoa invisível me seguia de perto o tempo todo.

    Não sabia se ela tinha ido embora. De todo modo, eu não conseguia tocá-la nem percebê-la.

    Ao pensar que a gente só conseguia se encontrar num banheiro, quase dei risada. Nem sabia se aquela pessoa era homem ou mulher. E aquilo ali era banheiro masculino.

    Embora tivéssemos conversado, ela claramente forçava a voz para baixo, deixando tudo indistinto, sem querer que eu identificasse quem era. Eu também tinha tentado perceber sua mente, mas não achei nenhuma pista de gênero.

    Tanto fazia. Gato branco, gato preto — quem me tirasse dali era um bom gato. Só que, naquela hora, ficava meio inconveniente usar o banheiro.

    No dia seguinte, fui procurar Zhu Zhaojie. Queria perguntar se, caso eu conseguisse sair sem problemas, ela teria algo para eu dizer ao pai dela. Afinal, desde que ela se afastara do mundo exterior, eu era a pessoa com mais chances de conseguir falar com ele.

    Zhu Zhaojie simplesmente não acreditava que eu pudesse sair com tanta facilidade. Pelo que ela sabia, a menos que eu entrasse para a CWP e recebesse alguma missão externa, teria que obedecer às ordens da organização pelo resto da vida.

    Zhu Zhaojie disse que nunca tinha ouvido falar de ninguém sob investigação, depois de entrar naquela base, ser solto por ser inocente. Ou seja: mesmo sendo inocente, era melhor nem sonhar em sair.

    Não era de admirar que os Varredores me deixassem andar livremente pela base. Claramente, nunca tinham pensado em me deixar ir.

    Isso eu tinha que acreditar. Zhu Zhaojie trabalhava no setor de inteligência.

    Ela também me contou que aquela base subterrânea pertencia à Quinta Zona dos Varredores. A área principal tinha Pingdu como centro e se estendia por quinhentos quilômetros ao redor.

    Quantas zonas os Varredores tinham no total, ela também não sabia. Afinal, era só uma funcionária de escalão baixo.

    De repente, pensei naquele lenço de seda cor de malva. Se ela o usasse, com certeza ficaria muito bonita.

    Zhu Zhaojie sabia que eu estava ansioso para sair e ficou com cara preocupada.

    Ela não podia me ajudar naquele momento — não só por falta de posição, mas porque também não conseguia pensar em nenhum jeito. Afinal, ela também não conseguia sair.

    Na verdade, eu não estava com pressa. Eu tinha o “feitiço de imobilização”, não tinha? Se realmente não houvesse outro jeito, também podia simplesmente sair de forma ilegal.

    As palavras de Zhu Zhaojie me fizeram lembrar de uma coisa: a frase que Lin Xiaowen mandara pra mim antes de morrer — que eu jamais deveria entrar para os Varredores.

    Agora, enfim, eu entendia.

    A Cápsula da Sabedoria instalada pelos Varredores até podia deixá-los inteligentes e superpoderosos, mas também era, ela mesma, uma bomba controlável: se você não obedecesse, ela explodia e te matava. Meng Ran era um exemplo disso.

    Melhor não tocar naquela coisa. Senão, a pessoa vira marionete dos outros pelo resto da vida.

    Os Varredores pareciam impressionantes por fora, mas, na verdade, cada um deles era uma marionete.

    Lin Xiaowen claramente tinha traficado Cápsulas da Sabedoria mesmo. Por isso sabia de tudo aquilo.

    Mas quem tinha instalado a Cápsula da Sabedoria de Xuanhong? E aqueles incapacitados também já tinham usado Cápsulas da Sabedoria. Quem produzia tudo isso?

    Claramente, fora dos Varredores, devia existir uma rede clandestina de produção e venda.

    Passaram-se mais uns quatro ou cinco dias.

    Ou seja: depois de eu ficar sob residência vigiada pelos Varredores no subterrâneo por pouco mais de três meses, eles finalmente me soltaram.

    Segundo Liu Biao, os monges do Templo Tansong fizeram uma petição coletiva às instâncias superiores e contrataram uma equipe profissional de advogados, seguindo todos os trâmites legais. O tribunal e a procuradoria ainda apresentaram documentos da ONU com normas que proíbem a CWP de abusar do poder em áreas fora do escopo de IA. Só assim a CWP se viu obrigada a me soltar.

    Claro que Liu Biao não deixou de se gabar um bom tempo. Disse que ele sim cumpria a palavra. Se não fosse pelo esforço dele em convencer todo mundo, os documentos não teriam valido nada, e eu jamais conseguiria sair.

    No fundo, eu sabia muito bem: aquilo era pura fanfarronice.

    Mesmo assim, fiquei mesmo impressionado com a capacidade daquela pessoa invisível.

    Zhu Zhaojie já tinha me dito que ninguém nunca tinha conseguido escapar. Isso mostrava que os canais legais comuns simplesmente não funcionavam.

    Documento da ONU, uma ova. Se os Varredores ignoravam esses papéis, o que você ia fazer?!

    Nota