Capítulo 39 — Rastreamento
por NexoNovelCapítulo 39 — Rastreamento
Voltei ao escritório. Lá dentro havia uma sala de descanso só para mim.
Deitado na cama, fiquei pensando.
O que aconteceria se eu ativasse o receptor do corpo parasita?
Abri então, devagar, uma frestinha do receptor, só para ver o efeito.
À medida que ele se abria, para minha surpresa, comecei a ouvir conversas entre as consciências dos Caçadores de Almas. Só que a fresta era pequena demais, e eu não conseguia entender bem.
Fui abrindo um pouco mais, devagar, e fiquei escutando escondido o que diziam.
— Ren Jingze, você já vai voltar?
— Quero voltar primeiro. Com uma coisa dessas acontecendo lá, se eu não voltar, corro o risco de me expor.
— Tudo bem, vá na frente. Tang Tingsheng, você também volta. Aqui, Ran Weiping e Luo Shu já bastam.
— Certo.
Ren Jingze era justamente a pessoa que Gu Qiutang tinha apontado para mim quando me mostrou aquele papel.
Então tinha sido mesmo obra deles.
Fechei o receptor, com medo de que, se demorasse demais, eu fosse descoberto. Fui correndo atrás de Gu Kunling e contei a ela o que acabara de ouvir.
Ela ficou muito surpresa ao saber que eu conseguia captar informações de intenção mental dos Caçadores de Almas. Pelo visto, elas nunca tinham feito isso antes.
Gu Kunling avisou imediatamente pessoas para vigiarem aqueles nomes que eu tinha dado.
Eu só tinha ouvido quatro nomes, mas já era possível deduzir o quinto.
Afinal, a lista que eu entregara a ela tinha cinco nomes.
De volta à sala de descanso, não resisti e abri de novo, um pouquinho, o receptor do corpo parasita.
Ouvi, vagamente, o som de alguém sendo interrogado.
Achei que Gu Qiutang provavelmente ainda estivesse vivo. Os Caçadores de Almas escolherem justo aquele momento para agir talvez tivesse a ver com o fato de termos eliminado o ponto de conexão que era Zhu Zhaojie.
Gu Qiutang provavelmente não tinha sido exposto só agora. Prendê-lo naquele momento era, talvez, uma forma de arrancar dele quem tinha derrubado Zhu Zhaojie, ou de descobrir mais resistentes.
Na luta contra Zhu Zhaojie, eu era uma carta aberta. Mandá-la até mim já era, em si, um movimento direto contra essa carta aberta que eu representava.
Já Gu Kunling, invisível como era, os Caçadores de Almas provavelmente nem sabiam quem ela era. Então, se quisessem fechar o cerco, havia dois caminhos: primeiro, me prender, na esperança de chegar a quem me ajudava; segundo, prender Gu Qiutang, que talvez já fosse suspeito de ser da resistência há muito tempo. Quem sabe tivesse a ver com o fato de ele ter me acolhido sem exigir nada em troca.
Desde que saí de Liutan — não, talvez desde que colei naquela prova — já estava fadado a caminhar nessa estrada de perseguição.
Dos Varredores aos Caçadores de Almas, cada escalada era um novo teste para as minhas capacidades.
Passei a noite entre o sono e a vigília.
Na manhã seguinte, a primeira coisa que fiz ao despertar foi abrir com cuidado o receptor, tentando pescar alguma pista nova.
No começo não deu nada, só um monte de ruído.
Só perto do meio-dia é que ouvi, no meio da estática, a voz de um ônibus anunciando o nome de uma parada. Minha audição, é bom lembrar, estava fortalecida; somada à minha percepção, eu conseguia filtrar sons pequenos em meio a ruídos complexos, mais ou menos.
Talvez isso tivesse alguma relação com o tempo em que Xuanhong trabalhou como arquiteto. Arquitetos são bons em organizar, classificar e subdividir.
Ponte Suojin.
Aquele nome anunciado pelo ônibus era o de uma ponte antiga de pedra sobre o fosso da cidade de Pingdu. Ficava a noroeste de Zhongguancun, não muito longe da nossa empresa.
Será que era ali o esconderijo dos Caçadores de Almas?
Fui até Gu Kunling contar minha descoberta.
Ela pensou em mandar alguém investigar, mas achei melhor ir eu mesmo. Afinal, minhas capacidades, hoje, já eram bem fortes — eu sentia isso.
Gu Kunling pensou um pouco e decidiu ir comigo.
A ação precisava ser rápida, senão o sinal perderia o sentido.
Chamei um carro da empresa e fomos os dois direto para a Ponte Suojin.
A região da Ponte Suojin era de transição entre cidade e campo. Não tinha muitos prédios, e os que havia não eram altos. Ainda restavam algumas casas antigas de vilarejo que não tinham sido demolidas.
Da parada de ônibus, pedi ao motorista que fosse mais devagar. Sentei no banco de trás, deixei o receptor meio aberto e comecei a sentir, pouco a pouco, a força dos sinais ao redor. A distância importava muito.
De repente, o sinal que eu captava começou a diminuir. Pedi na hora ao motorista que desse a volta e procurasse na direção contrária.
E, como eu esperava, o sinal foi ficando cada vez mais forte.
Depois de rodarmos mais de dez li, avistei uma pessoa de bicicleta. O sinal ficou muito forte. Corri para fechar o receptor e recolhi a cabeça para dentro, afastando-a da janela traseira.
O carro passou por ela.
Aquela pessoa se chamava Lü Qingyue. Era mulher.
Era a quinta pessoa.
Na verdade, Xuanhong a conhecia — só não muito bem.
Ela trabalhava no Departamento de Serviços de Integração de Dados, subordinado ao Grupo Du. Xuanhong já tivera contato com ela por questões de trabalho, tempos atrás. Como o cargo dela era baixo e ela era discreta, Xuanhong nunca tinha lhe dado muita atenção. Só sabia que ela parecia já ter se casado e tinha uma filha. Impossível imaginar que aquela mulher fosse uma Caçadora de Almas.
Eu e Gu Kunling descemos do carro cerca de um quilômetro adiante e ficamos invisíveis na hora. Pedi que ela ficasse de apoio, mantendo distância de mim.
Tinha medo de que ela não conseguisse bloquear as micro-ondas do próprio cérebro e acabasse se expondo fácil.
Afinal, os Caçadores de Almas tinham a mesma percepção por sintonia de frequência que eu. Só invisibilidade não bastava.
Esperei Lü Qingyue passar de bicicleta, e só então, já invisível, comecei a segui-la de longe.
Ela não parecia com pressa de chegar em casa. Foi primeiro ao mercado comprar uns legumes e só depois pedalou devagar de volta.
A casa dela ficava num prédio antigo de moradia pública de aluguel — talvez alugado pela unidade de trabalho do marido —, com apenas quatro andares. E, para minha surpresa, moravam justamente no quarto.
Fui logo atrás, vi ela abrir a porta e entrar, mas não me arrisquei a entrar também. Tinha medo de que, se fosse descoberto lá dentro, não conseguisse escapar. E ainda não sabia como era a situação dentro daquela casa.
Era de se esperar que Caçadores de Almas tivessem algum tipo de defesa especial.
Então arranhei de leve a porta do vizinho.
— Quem é?
Alguém perguntou do outro lado.
Era hora do almoço. A pessoa abriu a porta, olhou para os dois lados, não viu ninguém, murmurou um “que maluquice” e voltou a fechar.
Foi nesse instante que entrei de relance na casa dele. Depois, na ponta dos pés, fui até a varanda e, de lá, saltei para a varanda da casa de Lü Qingyue.
Ali, eu já nem precisava do receptor para escutar. Só com os ouvidos, dava para acompanhar tudo o que se passava dentro da casa.
— Por que a mamãe voltou tão tarde?
Pela voz, dava para saber que era uma menina.
— Mamãe tinha coisa para resolver. Xiaoli, foi a vovó que te trouxe? Não te falei para não vir tanto para este lado sem necessidade?
A garotinha respondeu, meio indiferente:
— Aqui é divertido. Eu gosto de brincar com aquela gente inferior lá do outro lado. Ontem mesmo vi um inferior, todo bobo, falando no celular. Peguei o celular dele escondido, e ele procurou, procurou, não achou de jeito nenhum. Quase chorou de nervoso. Hihihihi, foi muito divertido.
— Não vem fazer bobagem por aqui. Cuidado para não encontrar a organização da resistência e perder sua vidinha.
Lü Qingyue falava isso enquanto se ouvia o som dela indo para a cozinha.
— Como estão as coisas?
Uma voz de homem, dessa vez.
O marido dela?
— Deixa eu cozinhar primeiro. A gente conversa depois.
Ela parecia estar preparando o almoço, tudo com um clima de família normal, comum. Ninguém diria que aquela mulher era uma Caçadora de Almas com sangue de gente nas mãos.
Não era estranho ela ter marido, mas o fato de falar da organização da resistência ali, na frente dele, mostrava que ele não devia ser pessoa comum. Só que o nome dele não estava na minha lista. Não sabia se aquilo contava como um Caçador de Almas que tinha ficado de fora.
Foi então que ouvi a menina dizer:
— Mamãe, quando é que vocês vão poder voltar para lá? Ficar trabalhando por aqui é cansativo demais. A vovó disse que aquele portal espaço-temporal vai ser mudado de lugar. Depois disso vai ficar mais difícil vir para cá.
Portal espaço-temporal?
Barreira espaço-temporal?
Lembrei de repente das pessoas invisíveis que tinha encontrado no Templo Tansong. Entre elas, havia a voz de uma mulher mais velha, e também a de uma garotinha. Essa garotinha, parece, se chamava “Xiaoli”.
Coincidência tão grande assim?
A mudança do portal espaço-temporal parecia ter sido algo que eu mesmo pedira. Afinal, a barreira delas fora instalada dentro do nosso Templo Tansong, incomodando a rotina de meditação dos monges.
Será que aquela “vovó” de que a menina falava era justamente aquela anciã que tinha conversado comigo à distância?
O marido de Lü Qingyue perguntou:
— Aquele homem já falou alguma coisa?
Ela respondeu:
— Nada. Está bem calado. Vasculhamos o cérebro dele, fizemos a análise por espelhamento de IA, e só achamos uns fragmentos sem importância. Parece que eles têm alguma proteção. Suspeito até que, no momento da captura, esses resistentes tenham algum tipo de dispositivo de autodestruição que apaga as informações deles ligadas à organização. Senão não faz sentido não haver nenhuma lembrança desse tipo no cérebro dele. Analisamos várias vezes, e só aparece conversa de negócios. Agora sim, alertamos a cobra antes da hora. Hoje mesmo repreendi Ran Weiping. Ele agiu cedo demais.
O marido perguntou:
— E Gu Beichen? O que vocês pensam fazer?
Ela disse:
— Gu Beichen guarda muito segredo. Da última vez, usei Zhu Zhaojie para pegá-lo, e mesmo assim não consegui dominá-lo de imediato. Mas, pelos dados que temos até agora, ele não parece ter entrado para a resistência. Já tentamos matá-lo algumas vezes antes, e ele nunca deu sinal de fuga, nenhum alerta prévio. Se não fosse pela força das próprias capacidades dele, já estaria morto há muito tempo. Por isso, sugeri a Ran Weiping deixá-lo de lado, por enquanto. Uma pessoa sozinha é fácil de resolver depois. O que importa agora é arrancar essa organização pela raiz.
O marido perguntou:
— E quem foi que salvou Gu Beichen no fim? Já descobriram?
Ela disse:
— Ren Jingze sempre suspeitou de Gu Qiutang, porque, na hora em que agi, ele correu até o escritório de Gu Qiutang e não o encontrou lá. Foi por isso que Ran Weiping decidiu prendê-lo. Mas eu troquei golpes com aquela pessoa, e a sensação não era bem essa.
Então as pessoas que tentaram me matar naquela vez, no centro de detenção, eram justamente aquele grupo. Vocês acham que eu não ativo agora o feitiço de imobilização e arrebento a cabeça de vocês?
Lü Qingyue e o marido continuavam conversando sem parar, sem se importar com a presença da criança.
Não era à toa que a menina já tinha aquele ar de superioridade. Talvez, para elas, gente comum nem contasse como gente — apenas um bicho inferior qualquer.
Era como uma criança indo ao zoológico ver os chimpanzés. Ninguém sente empatia por chimpanzé.
Só quando a família toda foi dormir a soneca da tarde é que perdi o interesse e larguei a escuta.
Assim que cheguei ao andar de baixo, senti que Gu Kunling tinha chegado. Pelo visto, ela continuava preocupada comigo.
Puxei-a para longe e contei tudo o que tinha ouvido lá dentro.
Ao saber que o pai dela não corria risco de vida, Gu Kunling se sentiu um pouco melhor.
Quanto ao desprezo dos Humanos de Elite pelas pessoas comuns, aquilo não a surpreendeu nem um pouco. Se não fosse assim, os resistentes nem teriam se rebelado contra eles.
Só ali percebi que Humanos de Elite e gente comum estavam mesmo, na prática, virando duas espécies diferentes. Se eu, como humano, me infiltrasse entre chimpanzés, será que também acabaria desprezando a vida deles?
Enquanto conversávamos, uma figura de névoa passou perto de nós, indo em direção à casa de Lü Qingyue.
Um Humano de Elite invisível?
Por instinto, puxei Gu Kunling para o lado.
Por sorte, os dois estávamos invisíveis, e a pessoa seguia apressada, sem reparar em nós.
Gu Kunling não conseguia ver aquela figura, mas sentia alguma coisa — senão nunca teria conseguido lutar contra Zhu Zhaojie daquele jeito.
Só depois que a avisei é que ela percebeu.
Eu disse:
— Vou subir de novo para dar uma olhada. Espera aqui.
Ela me pediu para tomar cuidado, e disse que, se a coisa esquentasse, subiria na hora.
Na verdade, eu nunca lutaria ali. Se lutasse, jamais encontraria Gu Qiutang.
Como um fantasma, segui bem atrás daquela figura, até ela entrar pela porta da casa de Lü Qingyue e voltar à forma real.
E eu, aproveitando aquele instante, também me esgueirei para dentro da casa.
