Capítulo 14 — Passando-se por outra pessoa
por NexoNovelCapítulo 14 — Passando-se por outra pessoa
Depois de deixar Xisaishan, fui de mau humor até Nanxun e fiquei lá por três dias.
Nesses três dias, procurei muita gente e passei por vários órgãos até finalmente encontrar algumas antigas vizinhas da minha família.
Elas ainda se lembravam da senhora Wang — minha avó, Wang Chunyan. Olharam a foto no meu celular e confirmaram: era ela.
Mas tinha um detalhe. Meus pais.
Segundo os antigos vizinhos, meus pais tinham ido pra Maierken muitos anos antes. Só voltaram pro país quando a senhora Wang morreu, pra cuidar do enterro. Depois, saíram de novo, correndo.
Se era assim… quando foi que eu voltei pro país? Meus pais tinham mesmo morrido na guerra?
Só que O país de Maierken já tinha sido destruído por completo. Mesmo que meus pais não tivessem morrido na guerra, dificilmente teriam escapado da catástrofe que acabou com o país inteiro.
E outra coisa: quem era esse Gu Qiutang, afinal? Pelo jeito, ele devia ter alguma ligação antiga com minha família. Se não, depois de tantos anos, por que minha avó me confiaria justamente a ele? Ele era um baita empresário.
Mas Gu Qiutang parecia não querer me contar absolutamente nada. Só mandava eu procurar tudo por conta própria. Se ele simplesmente me explicasse, eu não entenderia de uma vez?
No caminho de volta pra Pingdu, pensei em um monte de coisa e não cheguei a lugar nenhum.
Uma das que mais me confundia era essa: se a IA era tão perigosa, por que as empresas de tecnologia de Lanqiyuan ainda usavam e continuavam tão prósperas? A ONU não tinha proibido a humanidade de continuar desenvolvendo IA? Depois eu perguntaria isso ao Gu Qiutang. Aí ficaria claro.
Na estação de metrô onde eu ia fazer a baldeação pra Lanqiyuan, de repente lembrei de Xuanhong. Mais de um mês antes, tinha sido justamente ali que ele fora capturado. Pra mim, ele ainda era um mistério.
De repente não sei o que me deu. Fiquei com uma vontade enorme de voltar àquela área de ruínas pra onde o táxi tinha me levado naquele dia. Naquela hora, um monte de gente estranha tinha saído das ruínas. Será que queriam mesmo me assaltar?
Depois que liguei pra polícia, o drone chegou rapidinho. Todo mundo fugiu, assustado. Pareciam ter muito medo de polícia.
Saí na hora da estação e peguei outro táxi. Dessa vez, expliquei direto ao motorista aonde eu queria ir. Na verdade, eu nem sabia o nome do lugar, mas, só pela minha descrição, ele já sabia.
O motorista parou fora das ruínas e me deixou entrar sozinho, a pé.
Dessa vez eu tinha ido lá com uma dúvida na cabeça. Então tomei coragem e entrei.
A rua tomada de ruínas continuava sombria, tudo em volta quieto e sem vida nenhuma.
Parei diante de uma casa velha e bati na porta. Ninguém respondeu.
Bem quando eu já ia embora, um par de olhos grandes apareceu na janela quebrada da casa escura. Levei um susto.
— Quem você tá procurando?
Pela voz, era uma garota.
— Procuro um rapaz de cabelo amarelo — respondi.
— Você tá procurando meu irmão? Ele não tá aqui.
— Ah. Você tá doente?
Eu não conseguia vê-la, mas meu “superpoder” de percepção captava que havia algo errado nos pulmões dela. Pelos pensamentos da garota, senti a dor que ela sentia nos pulmões.
Era bem possível que fosse tuberculose.
— Como é que você sabe?
A garota respondeu lá de dentro, acompanhando a fala com algumas tossidas.
— Talvez você esteja com tuberculose. Não é doença difícil de tratar. Com injeções de antibiótico dá pra curar. Por que não vai atrás de um tratamento? — perguntei, pela janela.
— Você é médico? Meu irmão disse que ia achar um médico pra mim, mas já faz tempo e nada. Foi ele que te mandou?
— Não. Só tô passando. Mas você ainda não respondeu. Por que não vai a um hospital?
— A gente não tem dinheiro pra isso. Tem gente demais doente aqui, não sou só eu. Sei que meu irmão ganha dinheiro sujo, mas é pra pagar meu tratamento.
Enquanto a gente conversava, separado pela parede, um velho apareceu de repente atrás de mim. Segurava uma bengala de bambu e ficou ali, me encarando. Eu nem tinha notado quando ele chegou — só reparei quando virei a cabeça.
— O… o senhor é o mestre Xuanhong? — perguntou, de repente.
— Não, não sou. Só um passante — expliquei na hora.
— Não. O senhor é o mestre Xuanhong. A gente tem uma foto sua pendurada aqui. O senhor finalmente veio. A gente finalmente conseguiu esperar até o senhor chegar!
Aí o velho se virou pra ruína e gritou:
— O mestre Xuanhong chegou! O mestre Xuanhong chegou!
De repente, um monte de gente começou a surgir de todos os cantos daquele lugar deserto. Homens e mulheres, jovens e velhos — todos me cercaram na hora. E o velho ainda se ajoelhou bem no meio da rua, na minha frente.
Fiquei sem saber o que fazer.
Eu jamais imaginaria que aquilo ia começar desse jeito. Eu só tinha voltado por curiosidade. Eu não era Xuanhong, de verdade.
Queria muito explicar. Mas tinha gente demais se aproximando. Uma camada depois da outra me cercando, todos falando ao mesmo tempo, me reverenciando. Dava pra ver que cada um carregava algum sofrimento, mas a devoção deles era enorme demais. Se eu dissesse que não era Xuanhong, nem saberia pra quem explicar primeiro.
A garota com quem eu tinha falado primeiro também saiu da casa escura. Devia ter uns doze, treze anos. Cabelo todo bagunçado, com um jeito fraquinho, olhando pra mim com dois olhos grandes e negros. Só de ver aquele olhar de esperança, já não consegui dizer que não era Xuanhong.
Cerrei os dentes e tomei uma decisão ousada: tirei da mochila o manto monástico azul-esverdeado que o monge do Templo Mumen tinha me dado, vesti de novo e coloquei também as contas de oração budistas.
Talvez tenha sido efeito do manto. As pessoas que me reverenciavam ficaram muito mais quietas, todas com as mãos juntas, cabeça baixa, com devoção.
Juntei as mãos também e recitei em silêncio um trecho de sutra.
Isso eu sabia fazer de verdade. Afinal, eu era meio monge, com certificado monástico de verdade.
Depois daquela cerimônia simples, acariciei de leve a cabeça da garota e apertei a mão do velho. Fui andando devagar entre a multidão, fazendo o mudra do destemor diante de todos. Queria usar a força dos ensinamentos budistas pra oferecer conforto e afastar a inquietação que carregavam dentro do peito.
Esse mudra do destemor, no budismo, significa justamente a compaixão e a sabedoria capazes de fazer os seres não sentirem medo.
Na verdade, enquanto fazia o gesto, eu também espalhava, em segredo, uma sensação de calma interior, com a intenção do meu “superpoder” de percepção.
Pouco a pouco, as pessoas pareceram receber alguma força de verdade. Os rostos pesados foram ficando mais corados, tranquilos, aliviados. E, pelas mudanças neles, eu sentia o que esperavam de mim.
Eu queria muito ajudar aquela garota. O que ela tinha me contado ali me tocou, e o meu “superpoder” de percepção fazia eu sentir a dor dela como se fosse minha. Mas eu não era médico. E não tinha como usar meu poder pra curá-la.
Levantei os olhos pra multidão e, de repente, vi o rapaz de cabelo amarelo correndo na nossa direção. Fiz sinal pra ele se aproximar e disse que levasse a garota pro hospital o quanto antes — primeiro fazer uma tomografia, pra confirmar o diagnóstico.
Segurei a mão da garota e disse ao velho e ao rapaz de cabelo amarelo:
— Essa criança provavelmente tem tuberculose. Se não tratar, pode morrer. Não é doença difícil de tratar. Se não der pra levar ao hospital, comprem alguns antibióticos e façam as injeções de acordo com as instruções da embalagem. Assim ela melhora.
Depois tirei da mochila o salário que tinha recebido naquele mês, pouco mais de dez mil, e entreguei ao rapaz de cabelo amarelo. Com as mãos sujas tremendo, ele pegou o dinheiro, os olhos cheios de lágrimas, e se curvou fundo diante de mim.
A multidão ficou comovida com aquele gesto. Um por um, todos juntaram as mãos e se curvaram, em reverência.
Olhei pra multidão e, de repente, reconheci o motorista que tinha me levado até ali naquele dia. Fiz sinal pra ele também se aproximar.
Ele estava escondido atrás de todo mundo, só metade do rosto de fora. Mesmo assim, eu vi. Parecia constrangido — provavelmente ainda se sentia mal pelo que tinha feito comigo aquele dia.
Assim que se aproximou, juntou as mãos, curvou-se de leve e se apresentou:
— Mestre, meu sobrenome é Lu. Meu nome é Lu Ruixin. Este aqui é meu pai, Lu Linfeng.
Apontou pro velho. Depois, pra minha surpresa, piscou pra mim, discretamente. Aquele gesto desmontou na hora metade da pose solene e misteriosa que eu tava tentando manter.
Lu Ruixin fez sinal pra eu seguir ele. O velho também foi na frente, todo solícito, mostrando o caminho.
Quando chegamos a um prédio mais novo, na beira da rua, Lu Ruixin entrou primeiro. Lu Linfeng fez sinal pros outros não seguirem, mas ele mesmo entrou comigo.
Lá dentro tinha um salão grande, mas bem escuro.
Lu Ruixin correu e abriu as cortinas, deixou entrar um pouco de luz.
Finalmente dava pra ver alguma coisa.
O salão tinha muitas almofadas de meditação e algumas cadeiras — parecia uma sala de prática budista, mantida razoavelmente limpa.
Bem no centro da parte da frente havia uma cadeira vermelha, talvez o assento reservado pra um grande mestre ensinar o Dharma. Uns cinco metros mais adiante, um altar com algumas varetas de incenso acesas. Na parede, atrás da cadeira vermelha, pendia um retrato enorme. Nem precisei chegar perto pra saber quem era.
Xuanhong.
Olhar pro retrato de Xuanhong era como olhar pra mim mesmo.
Quem era esse Xuanhong, afinal? Por que tanta gente o reverenciava assim?
De repente, fiquei com muita vontade de saber a história dele. No mínimo, tinha a sensação de que Xuanhong não era tão ruim — não era um sujeito como o falso Gao Minjun. Senão, não teria tanta gente pobre acreditando nele, seguindo ele.
Lu Ruixin olhou pros lados. Não tinha mais ninguém ali. Então me empurrou pra uma cadeira e, logo depois, se prostrou na minha frente.
Ao ver aquilo, levantei na hora.
Já que eu tinha sido desmascarado na frente dele, não queria mais fingir.
Vendo que eu me levantava, Lu Ruixin ficou com medo de que eu fosse embora e bloqueou meu caminho.
— Mestre, por favor, sente. Primeiro me escuta. Antes de tudo, eu que errei. Sinto muito mesmo! Eu sei que o senhor não é Xuanhong. Naquele dia, na estação de metrô Huokou, assim como o senhor, eu também vi com meus próprios olhos o mestre Xuanhong sendo levado pelos Varredores. Na verdade, eu tinha ido buscar ele. O mestre Xuanhong tinha prometido pro meu pai que vinha até aqui ajudar todo mundo. As pessoas daqui ficaram tão emocionadas que passaram a noite sem dormir, e de manhã bem cedo já estavam esperando a chegada dele. Ah…
Sem se importar com o olhar surpreso de Lu Linfeng, ele me ajudou a sentar de novo na cadeira e, um pouco mais aliviado, continuou:
— Mas foi coincidência demais. O senhor acabou entrando no meu carro. Percebi que o senhor era igualzinho ao mestre Xuanhong, e me veio uma ideia errada: fazer o senhor entrar no lugar dele por um tempo, pra não quebrar o coração de todo mundo. Claro, a culpa foi minha por não explicar antes. Não tive coragem — tive medo de o senhor não aceitar, e por isso trouxe o senhor à força.
Vendo que eu não estava irritado, Lu Ruixin continuou:
— Minha ideia era descer primeiro do carro e explicar pro meu pai — ele é o chefe desta rua. Só que não esperava assustar o senhor daquele jeito. O senhor chamou a polícia. Depois, todo mundo viu que eu tinha trazido o mestre, mas ele não saía do carro. Pensaram que até Buda tinha abandonado eles, que a esperança de viver tinha acabado. Ficaram com tanta raiva de mim que quase me mataram. Eu sabia que tinha estragado tudo e nem sabia explicar direito, então parei de tentar e escondi a verdade até hoje. O senhor ter vindo aqui de novo praticamente me salvou a vida. Olha… já que veio, e todo mundo pensa que o senhor é o mestre Xuanhong, por que não continua assim? Dá um pouco de esperança pra essas pessoas seguirem vivendo.
Entendi. Ele queria que eu me passasse por Xuanhong.
Mas eu, por que eu ia fazer uma coisa dessas?
