Novels chinesas em português
    Índice do Capítulo

    Capítulo 17 — Livre para ir e vir

    Aquilo era uma competição interna de habilidades dos Varredores.

    Nessa competição, participavam não só os melhores competidores da base subterrânea, mas também muitos competidores vindos de fora dela. E nós, os novatos, também fomos obrigados a assistir.

    A competição se dividia em seis grandes categorias: combate, tiro, comunicação, intenção mental, debate e detecção. Dentro de cada categoria principal, ainda havia subcategorias. O combate, por exemplo, se dividia em combate corpo a corpo, combate com armas, combate com restrição corporal e assim por diante, sem distinção entre homens e mulheres.

    Eu me interessava mais por combate, tiro e intenção mental, então concentrei minha atenção nessas provas.

    Nas lutas, embora os competidores usassem equipamentos de proteção, aqueles modificados especializados não geravam força dentro dos padrões de uma pessoa comum, e mutilações e lesões graves eram coisa frequente.

    Diziam, porém, que a base tinha excelentes equipamentos inteligentes de reparo, capazes de restaurar ferimentos do corpo humano em pouco tempo. Mas eu pensava: por mais rápido que fosse, ainda ia precisar de tempo. Afinal, músculo também leva tempo pra crescer.

    Observando as lutas, entendi de verdade até que ponto o corpo humano podia ser flexível. Principalmente quando a força era liberada com o auxílio da inteligência artificial: até que ponto podia crescer num instante, até que ponto podia ganhar velocidade.

    Tudo aquilo ultrapassava muito o que eu conhecia antes.

    Antes, embora eu já tivesse visto Varredores capturando pessoas, geralmente a diferença de força era desigual demais, ou a luta terminava num instante só. A competição, por outro lado, me deu uma noção completa das possibilidades extremas que aquelas lutas eram capazes de mostrar.

    O tiro não era com armas de fogo tradicionais, de pólvora e projétil. Eram armas de micro-ondas, armas de feixe de partículas, armas laser, armas de fase, armas eletromagnéticas, uma coisa de deixar qualquer um de boca aberta. Ouvi dizer que também havia armas de antimatéria, mas essas eu não cheguei a ver.

    Nas provas de tiro, não se avaliava quem acertava com mais precisão, e sim quem controlava melhor. Armas avançadas tinham calibração automática, mas controlar equipamento de IA exigia intervenção humana.

    Quando fugi com Gao Minjun, usei uma arma eletromagnética. Aquilo era só uma arma de bobina, de baixo nível: cadência de tiro alta, munição de sobra, mas alcance curto e poder letal fraco. Já ali, na competição, o que aparecia eram armas e equipamentos de ponta, de todo tipo. Foi algo que abriu meus olhos.

    As provas de intenção mental também eram divididas em grupos, conforme a distância de controle, o tamanho do objeto movido e o grau de complexidade do aparelho controlado. No total, eram quatro grupos. Fui ver todos.

    Controlar o movimento de um objeto sem tocá-lo, só com a intenção mental, era algo que eu não conseguia fazer.

    No máximo, eu conseguia acionar equipamentos eletrônicos, sentir a presença deles e captar as informações que traziam dentro. Mas, nas provas de intenção mental, aqueles competidores faziam isso muito bem.

    Claro, eles dependiam todos da cápsula inteligente instalada. As habilidades e a energia vinham dos microdispositivos inteligentes implantados.

    No fundo, a disputa entre os competidores não era mais do que ver quem dominava melhor esses microdispositivos.

    Numa das provas de controle de objeto por intenção mental, vi Liu Biao enfrentando uma garota.

    O objetivo era ligar e desligar um scanner médico eletrônico.

    Liu Biao usava a intenção mental para ligar o aparelho, a garota usava a intenção mental para desligar. Os dois ficavam a cerca de dois metros de distância do equipamento. Em cinco minutos, quem mantivesse o controle do estado do aparelho vencia.

    Desde o início, Liu Biao estava cheio de confiança. Nos primeiros quatro minutos, manteve sempre a iniciativa. A garota só conseguia desligar de vez em quando, e era óbvio que Liu Biao deixava por vontade própria, só pra mostrar sua capacidade de contra-ataque.

    A disputa nem chegava a ser tensa. Parecia mais uma brincadeira de gato e rato.

    Olhando aquela cara toda satisfeita de Liu Biao, fiquei irritado.

    Eu tinha sido preso por ele e ainda trancado naquele lugar maldito, duzentos metros debaixo da terra. Não ficar irritado era impossível.

    Fiquei parado no fundo da multidão e, escondido, usei minha intenção mental pra travar o scanner com toda a força.

    No começo, Liu Biao não deu importância, achando que a garota estava resistindo com tudo. Mas depois percebeu que havia algo errado: por mais que se esforçasse, não conseguia mais ligar o aparelho.

    Ficou tão aflito que começou a suar da cabeça aos pés.

    O juiz também notou a anormalidade e mandou fazer uma inspeção imediata nos equipamentos. Mas os instrumentos mostravam que só os dois competidores tinham ativado a Cápsula da Sabedoria. Na plateia, ninguém tinha ativado nenhuma cápsula pra ajudar.

    Assim que anunciaram o resultado, saí de fininho da sala de competição.

    Eu não queria ser descoberto por Liu Biao.

    Só que, poucos dias depois da competição, Liu Biao apareceu de repente e começou a me perguntar sobre a cola no gaokao. Percebi na hora que aquele sujeito talvez estivesse desconfiando de mim.

    Afinal, numa competição daquele tipo, com juiz presente, ninguém teria coragem de ajudar aquela garota.

    Pelo meu “superpoder” de percepção, também consegui ler no pensamento de Liu Biao que, depois do ocorrido, ele tinha ido procurar a garota, e ela admitira que, na fase final, venceu sem precisar fazer muita força.

    Não tinha jeito. Só me restava negar com todas as letras.

    Comecei dizendo que Mei Qili tinha me acusado injustamente, depois desabafei sobre a armação do falso Gao Minjun, e então admiti que minha avó e meus colegas até me deram uma ajudinha. Mas, de cola, eu não admitia nada.

    Liu Biao ficou me olhando com um ar meio de sarcasmo, batendo de leve com a mão no dossiê, como quem dizia: pode fingir, aqui eu tenho provas.

    O que Liu Biao pensava, eu não tinha como controlar.

    De qualquer jeito, eu não ia admitir. Se ele fosse tão capaz, que fosse perguntar à minha avó.

    Mas, depois desse episódio, o jeito de Liu Biao comigo mudou de repente, e mudou bastante.

    Primeiro, ele me tirou da área residencial de recrutamento e me colocou no alojamento do Departamento de Inteligência Cultural.

    No alojamento, cada um tinha um quarto padrão, com mais de trinta metros quadrados. Na hora da refeição, nem era preciso ir ao refeitório: uma máquina entregava a comida sozinha e, depois que eu terminava, recolhia tudo sozinha também.

    No dia a dia, ninguém mais dava atenção quando eu entrava ou saía do prédio do Departamento de Inteligência Cultural. Dava pra dizer que, em toda a base dos Varredores, ninguém mais me vigiava.

    Eu ia pra onde quisesse.

    De repente, ninguém me controlava mais. O que aquilo queria dizer?

    Eu ainda estava preso ali, ou já tinha sido recrutado?

    Se fosse prisão, o tratamento era bom demais. Se fosse recrutamento, ninguém dizia nada. Simplesmente me largaram daquele jeito: eu podia andar à vontade e não me davam tarefa nenhuma.

    Não entendi o que eles queriam fazer, então pensei em procurar Liu Biao pra perguntar. Só que não conseguia encontrá-lo, e os outros também não me davam atenção. Eu queria sair da base e voltar pra casa, mas, sem a autorização deles, também não conseguia ir.

    No começo, fiquei pensando que talvez fosse um jeito relaxado de me monitorar em segredo, cada movimento meu. Ou então de procurar, às escondidas, novas provas contra mim.

    Em termos legais, aquilo se chama residência sob vigilância.

    Mas depois entendi: toda aquela base era um espaço subterrâneo, eu não tinha pra onde fugir. Se eles não me controlavam, era até normal.

    Era como uma fera sem sentimento que engole a comida e digere devagar. Que importa em que parte do estômago ou do intestino o alimento está?

    Deixa estar. De qualquer jeito, eles me davam comida, bebida e teto, e eu ficava feliz de ter paz. E, de bônus, tinha a chance de rodar por toda a base.

    Dava pra ver que a base inteira dos Varredores era altamente inteligente. Nos corredores mais largos, havia veículos elétricos indo e vindo.

    Nos corredores mais estreitos, nem era preciso andar: bastava ficar parado na entrada, e a pessoa era transportada por intenção mental. Pra onde você quisesse ir, o corredor levava sozinho.

    E, na hora do transporte, era como estar flutuando; nem os pés precisavam se mover, o corpo deslizava num instante e chegava a qualquer lugar desejado.

    Um lugar fascinante.

    E também bem contraditório.

    Porque ali claramente se usava uma inteligência artificial de altíssimo nível, e era justamente essa a instituição que, no mundo inteiro, investigava e punia o uso de inteligência artificial.

    Então fiquei pensando: talvez a inteligência artificial fosse controlável, não tão perigosa assim. Só que eles não queriam deixar você usar. Porque você é que era incontrolável.

    Talvez os condenados da cidade fossem justamente sacrifícios dessa incontrolabilidade.

    Mas logo descobri que muitas portas de departamento tinham controle de acesso e se abriam automaticamente por reconhecimento facial ou por código de identificação de mercadoria.

    Meu rosto não abria controle de acesso nenhum. Então só me restava vagar sem rumo pelos corredores.

    Mas o Departamento de Inteligência Cultural eu podia entrar e sair à vontade. Afinal, morava ali.

    No fundo da área administrativa do Departamento de Inteligência Cultural, encontrei um funcionário jovem num escritório. Fui logo puxando conversa com ele, e até o ajudei com uns recebimentos e envios.

    Depois que ficamos um pouco mais próximos, disse a ele que era um funcionário recém-recrutado, que ainda não conhecia bem o ambiente e tinha medo de entrar em lugar proibido, e pedi que ele me orientasse.

    Esse funcionário também era novo, e bem fácil de enganar. Não só me explicou a situação básica como ainda desenhou um mapa simples da distribuição do lugar.

    Segundo ele, os Varredores tinham quatro departamentos ali:

    o Departamento de Inteligência Cultural, responsável pelas investigações;

    o Departamento de Supressão, responsável pelo expurgo;

    o Departamento Qiankun, responsável por informações;

    o Departamento Tianshu, responsável por decisões.

    A base ficava a duzentos e cinquenta metros de profundidade, equivalente a oitenta andares subterrâneos.

    Com o mapa em mãos, comecei a explorar devagar pelos corredores.

    O que me interessava mesmo eram os lugares proibidos.

    Os lugares proibidos, em geral, tinham duas portas inteligentes. A primeira quase sempre era de reconhecimento facial; pra mercadoria, o acesso dependia do código de identificação. A segunda exigia que alguém digitasse uma senha.

    Observei em segredo por alguns dias. Pro reconhecimento facial, eu não tinha jeito de conseguir autorização. Mas o código de mercadoria parecia dar acesso livre, indo e vindo, e a porta não distinguia o formato da mercadoria.

    Então tentei interceptar uma mercadoria que flutuava por um corredor, arranquei o código dela e colei na minha própria cabeça. Fiquei ali, imóvel, e assim cheguei diante de uma porta grande. E a porta se abriu de verdade.

    Depois de entrar, descobri que era um depósito. Fui empurrado automaticamente pra uma prateleira. Em volta, tinha todo tipo de coisa estranha. Nem sei bem pra que serviam. É claro que também não pensei em pegar nada daquilo, com medo de disparar um alarme e virar suspeito de ladrão. Isso não seria bom.

    Usando o mesmo método, consegui sair de fininho do depósito com o código de saída de mercadoria.

    Depois dessa primeira experiência bem-sucedida, fiquei mais ousado.

    Com esse truque, rodei por vários outros lugares. Foi assim que descobri o Departamento Qiankun da CWP.

    O prédio administrativo do Departamento Qiankun tinha uma decoração mais luxuosa que o do Departamento de Inteligência Cultural. Mas não tive coragem de entrar; tinha gente demais ali dentro, e se alguém me pegasse e começasse a perguntar, seria difícil explicar. Só observei de longe e saí.

    Só que, numa das janelas do Departamento Qiankun, avistei uma pessoa muito parecida com Zhu Zhaojie. Não sei se era ela mesma. Quando tentei confirmar, a pessoa não apareceu mais.

    Fui rodando assim, sem rumo definido.

    Calculei que com certeza havia um par de olhos me observando o tempo todo. Mas, contanto que não me impedissem, por que eu ia me importar com isso?

    Desde o dia em que colei no gaokao, minha capacidade fora do comum já tinha sido exposta.

    O falso Gao Minjun já tinha me dito claramente que sabia. Só que eles não sabiam que capacidade era essa, nem como eu a usava.

    Imaginei que ele também devia ter escrito um relatório sobre a minha capacidade e entregado aos Varredores.

    Talvez o dossiê que Liu Biao tinha nas mãos naquele dia fosse justamente isso.

    Nota