Capítulo 76 — O Cérebro Multidimensional
por NexoNovelCapítulo 76 — O Cérebro Multidimensional
Era a primeira vez que eu ouvia falar desse tal Cérebro Multidimensional, e tudo aquilo me era muito estranho. Pela atitude séria da minha mãe e do meu tio em relação a ele, com certeza era algo muito importante. E, como minha mãe e os outros vinham rastreando aquilo havia muitos anos, era sinal de que ainda tinha um significado bem concreto para o presente.
Sobretudo porque, antes de ir embora, Pu Liuqian tinha me dito que o Cérebro Multidimensional era, na verdade, a outra metade que faltava ao supercomputador central quântico.
O supercomputador central quântico era o núcleo do Pavilhão das Sombras, e o Pavilhão das Sombras era o núcleo do mundo. Se o Cérebro Multidimensional fosse mesmo a outra metade que faltava ao supercomputador central quântico, então o significado daquilo era grande demais. Muito provavelmente, poderia afetar o futuro da humanidade.
Minha mãe entendeu minha dúvida e disse:
— O nome Cérebro Multidimensional foi dado pelo seu pai. O que Pu Liuqian disse não está errado. Ele pode ser entendido como a outra metade que falta ao supercomputador central quântico. Mas essa falta não se refere apenas a uma ausência em sentido físico; diz respeito, sobretudo, a uma ausência em sentido futuro. Ele pode ter uma influência decisiva sobre o futuro.
— De todo modo, vocês também não precisam se preocupar demais. Mesmo que Pu Liuqian, Pu Xuande e os outros tenham conseguido esse pedaço do Cérebro Multidimensional, não vão decifrá-lo tão cedo. Naquela época, eu e Gu Chenxing pesquisamos aquilo com todas as nossas forças e, somando ainda a operação total do supercomputador central, não conseguimos dominá-lo de imediato. Além disso, Pu Xuande, em pessoa, não tem essa capacidade. Hoje, os membros centrais do Pavilhão das Sombras já perderam a lucidez e foram assimilados pela IA do supercomputador. Mesmo que tenham arrebatado aquilo, talvez não lhes sirva de muita coisa. Talvez eles não queiram pesquisá-lo, e sim impedir que nós o pesquisemos.
Meu tio completou:
— Esse objeto, que parece um crânio humano, muito provavelmente não é produto da Terra. Porque é preciso demais, e seu conteúdo interno é riquíssimo. Foi descoberto por acaso por um mineiro há mais de cem anos, durante a mineração. Na época, as pessoas o trataram apenas como fóssil de coleção, e ele circulou muitos anos no meio dos colecionadores. Mais tarde, quando as tecnologias de DNA e de reconstituição amadureceram, foi que se descobriu o que havia de diferente nele. Porque essas tecnologias mostraram que, embora tivesse forma humana, ele era diferente tanto do DNA humano quanto de todas as formas de vida conhecidas na Terra. E era uma peça única. Por isso, passou imediatamente a ser controlado por clérigos das grandes religiões e venerado por algumas seitas como relíquia sagrada. Mas, no meio das disputas, logo se perdeu outra vez. Na verdade, todos aqueles que o tiveram naquele tempo não sabiam o significado que existia lá dentro.
— Só com o surgimento da tecnologia de IA e o nascimento do supercomputador central quântico é que esse objeto, de mão em mão, acabou chegando a um jovem chamado Zhang Zirui. Por curiosidade, ele o entregou às escondidas ao seu pai. Seu pai estudou aquilo e descobriu que continha matéria de alta energia. Também fez testes e constatou que havia uma quantidade gigantesca de informações em seu interior, então o entregou ao supercomputador central quântico para interpretação. Inesperadamente, o supercomputador central quântico calculou por meio ano inteiro e não conseguiu decifrar nem dez por cento dele. E você precisa entender: qualquer problema, por mais complexo que seja no mundo de hoje, o supercomputador central resolve na escala de segundos. O mais importante é que, a partir de então, o supercomputador central quântico passou por uma mudança gigantesca. Não só sua inteligência cresceu em progressão geométrica; sua velocidade também ficou incomparavelmente rápida. Isso gerou uma incompatibilidade física da energia elétrica e dos equipamentos, chegando à beira do colapso. Seu pai não teve outra saída: interrompeu a operação às pressas. Zhang Zirui aproveitou a oportunidade e levou o crânio. Mas logo depois ele também perdeu o crânio. Desde então, o paradeiro daquilo virou mistério.
Minha mãe continuou:
— Desde que obteve o crânio até perdê-lo, Zhang Zirui foi sempre o principal alvo de condenação das várias forças. Afinal, a verdade sobre o Cérebro Multidimensional já era conhecida no mundo, e os equipamentos do supercomputador central foram sendo atualizados aos poucos. Mas, com o crânio perdido, o assunto não pôde seguir adiante. Isso também deixou Zhang Zirui esgotado de corpo e de espírito. Ele não apenas caiu à condição de pessoa à margem; ouvi dizer que depois também morreu. E o caso virou um caso sem solução.
Então eu disse:
— Zhang Zirui… será que é o marido de Wei Liuqing?
Meu tio olhou para mim e perguntou:
— Você os conhece?
Aí contei tudo: como, nas Dezoito Camadas do Inferno do mundo virtual, quase colhi a força de consciência de Wei Liuqing, e como, na noite anterior, tinha encontrado por acaso a casa de Zhang Zirui em Ouluocheng.
Depois de ouvir, minha mãe e meu tio também ficaram tristes por a família de Zhang Zirui ter chegado ao ponto de não conseguir pagar a taxa de armazenamento do sistema. Eu também não imaginava que, quando jovem, Zhang Zirui tivesse tido uma ligação como aquela com meus pais.
No dia seguinte, liguei de propósito para a conta secundária daquele sabe-tudo Du Xiaoran, querendo marcar um encontro para falar do Cérebro Multidimensional. Para minha surpresa, Du Xiaoran não atendeu.
Só dois dias depois recebi uma mensagem dele dizendo que estava ocupado com uns assuntos. Mas, quando ouviu que eu queria falar do Cérebro Multidimensional, decidiu me encontrar na mesma hora. E o lugar escolhido, veja você, ficava não muito longe do local do incidente em Ouluocheng.
Em Ouluocheng eu ainda tinha um pombo parasita abandonado por lá. Não sabia se alguém já o tinha matado. Tentei parasitá-lo de novo, e ele ainda estava vivo.
Quando abri os olhos de pombo, descobri que estava deitado naquela pilha de tralha. Os outros dois pombos que eu tinha seguido também estavam caídos ali, aparentemente já mortos.
De todo modo, bastava que o meu ainda estivesse vivo. Afinal, a base de Huacheng ficava a mais de mil quilômetros dali; com esse pombo, ao menos eu não precisaria fazer todo aquele esforço para voar de novo.
Comecei a voar até o ponto de encontro indicado por Du Xiaoran, um prédio alto a cerca de três quilômetros do local do incidente. Como eu tinha usado um corpo de pombo já existente, era como se já estivesse ali por perto. Por isso, Du Xiaoran acabou demorando mais para chegar.
Pousado no alto do prédio, contemplei Ouluocheng lá de cima e percebi que o lugar onde o Cérebro Multidimensional estava guardado e a casa de Zhang Zirui, na verdade, ficavam na mesma região: a chamada região das pessoas à margem. Então será que a pessoa que guardava o Cérebro Multidimensional às escondidas era alguém disfarçado de pessoa à margem?
Além disso, analisando a cena daquela noite, havia muitos produtos inteligentes na base. Isso indicava que a capacidade de pesquisa daquela pessoa era muito forte. E o mais importante: também precisava ter dinheiro. Porque, se alguém pesquisava o Cérebro Multidimensional, o investimento era gigantesco. Logo, aquela pessoa também devia estar bem necessitada de dinheiro.
Gente que se encaixasse nessas condições devia existir aos montes no Mundo de Elite. Eu estava no Mundo de Elite havia pouco tempo e também não conhecia muita gente.
Só que, entre as pessoas que eu conhecia, por acaso havia uma que se encaixava. E, além disso, depois do incidente do Cérebro Multidimensional, essa pessoa de repente ficou especialmente ocupada; mas, quando eu disse que queria falar do Cérebro Multidimensional, largou de imediato o que estava fazendo e quis vir correndo.
Porra, não me diga que era Du Xiaoran?!
Aquela base secreta de pesquisa era de Du Xiaoran?!
Logo que cheguei ao Mundo de Elite, esse cara já teve coragem de me levar para roubar dinheiro, ou seja, para roubar os dados do instituto de pesquisa quântica de outra pessoa. O equipamento de roubo usado naquela vez tinha sido inventado por ele mesmo, com as próprias mãos, e ainda disse que era o único no mundo. Sinal de que esse cara tinha uma capacidade de pesquisa muito forte.
Du Xiaoran se dizia pessoa à margem, mas tinha avatares e informantes tanto no mundo real quanto no mundo virtual, além de manter o Bar Huanghun aberto. Era claramente um ricaço. E o mais importante: em tempos normais eu nunca o via ocupado; foi acontecer isso aqui e ele ficou ocupado.
Naquele dia, quando Pu Liuqian tirou o crânio do Cérebro Multidimensional, eu senti uma leve percepção em relação àquele objeto. Sinal de que o crânio tinha alguma ligação comigo. E Du Xiaoran vivia grudado em mim. Será que Du Xiaoran tinha percebido minha existência por meio do crânio, e era justamente por isso que estava tão interessado em cooperar comigo?
Ele mesmo dava conta de roubar coisas; por que tinha que me puxar junto? E ainda me enganou dizendo que eu conseguia encontrar pessoas com percepção forte. Aquilo não passava de desculpa para me arrastar para dentro do esquema.
Não era à toa que, assim que me encontrou, ficou tão tranquilo para cooperar comigo, sem se preocupar com o fato de eu ser de origem desconhecida. E ainda me enganou dizendo que era porque eu tinha um histórico ligado à resistência. Gente com histórico ligado à resistência havia aos montes; por que eu nunca o vi cooperar com nenhuma? Aquela história de “vindo comigo você vai ter carne para comer” queria dizer que, no fundo, ele sempre quis me atrair para participar da pesquisa dele.
Aliás, se Du Xiaoran me encontrou porque estava com o crânio, isso não significaria que eu realmente tinha alguma relação com aquele crânio?
E que relação eu poderia ter com aquele crânio?
Se não havia relação nenhuma, por que, no dia em que Pu Liuqian invadiu aquela base, minha cabeça tremeu quando vi o crânio? E Pu Liuqian ainda me disse que, se meu corpo verdadeiro estivesse presente, a percepção seria mais forte.
Não me diga que aquela coisa, na verdade, era minha?!
Não pode ser, né? Que idade eu tenho?
Segundo meu tio, aquele crânio já tinha sido desenterrado havia mais de cem anos, e ainda era um fóssil. Eu só tinha vinte e um anos. Fóssil não vira gente. E, além disso, aquela coisa continuava lá.
Ai, não dá para explicar nem para terminar de pensar. Na dúvida, pergunte a Du Xiaoran.
Eu estava agachado no topo do prédio, perdido nesses pensamentos idiotas, quando, de repente, ouvi um bater de asas. Um pombo veio voando.
Bastou olhar para saber que era Du Xiaoran.
Observei a expressão dele. Estava visivelmente abatido.
Então eu disse:
— Quando desmantelam seu esconderijo e ainda roubam o Cérebro Multidimensional, qualquer um fica mal.
Du Xiaoran olhou para mim e disse:
— Do que você está falando? Não vai me dizer que acha que aquela base do Cérebro Multidimensional era minha?
Eu disse:
— Você tem coragem de dizer que não era? Tsc. Bastou olhar para eu saber que era sua. Pessoa à margem, uma ova. Alguém que consegue manter o Bar Huanghun aberto, como é que pode ser pessoa à margem?
Du Xiaoran disse:
— E foi só por isso que você achou que era minha?
Eu disse:
— Claro que não foi só por isso. Foi uma conclusão a que cheguei juntando vários fatores. Deixa. Você pode admitir ou não, isso não me interessa. O que me interessa é a situação do Cérebro Multidimensional. E não venha dizer que não sabe, isso seria hipocrisia demais.
Du Xiaoran disse:
— Sei. O Cérebro Multidimensional é praticamente um tesouro gigantesco que todos os Humanos de Elite acompanham. Muita gente arriscaria a própria vida para consegui-lo. Como assim, você também se interessou?
Eu não queria ficar dando voltas com ele, então fui direto ao ponto:
— Que magia esse Cérebro Multidimensional tem, afinal? Que coisa é aquilo, exatamente?
Du Xiaoran me observou um tempo antes de responder:
— Quanto você já sabe?
Eu disse:
— Eu tinha ido a Ouluocheng para fazer turismo, isso você sabe. Só que primeiro acabei entrando por engano na casa de Zhang Zirui; depois, por coincidência, dei de cara com Pu Liuqian liderando um grupo que invadiu uma base de pesquisa, e vi com meus próprios olhos ela levar o Cérebro Multidimensional. Como eu não entendia nada, só me restou voltar para casa e perguntar aos adultos. Foi assim que fiquei sabendo da origem daquela coisa. O que eu quero perguntar é: por que Pu Liuqian levou gente para roubar aquilo? Para desenvolver e utilizar? Ou para impedir que outros desenvolvam e utilizem? O Cérebro Multidimensional, no fim das contas, é que coisa?
Du Xiaoran soltou um longo suspiro e disse:
— O supercomputador central e o Pavilhão das Sombras, na prática, já estão nas mãos de Pu Xuande e dos dele. Eles governam o mundo inteiro com mão firme. Voltar a desenvolver e utilizar o Cérebro Multidimensional não tem sentido nenhum para o domínio deles. Ou, quem sabe, poderia até desmontar esse domínio. Por isso, acho que o objetivo principal deles é varrer uma ameaça, impedir que outras pessoas desenvolvam e utilizem aquilo. Em termos técnicos, isso se chama eliminar um perigo oculto e se prevenir antes que aconteça. Quanto ao que é o Cérebro Multidimensional, os adultos da sua casa não explicaram?
Eu disse:
— Explicaram um pouco. Mas não muito. Pelo menos, eles não iriam me dizer que relação aquela coisa tem comigo.
Du Xiaoran ficou visivelmente atônito e perguntou em voz baixa:
— Você… realmente sentiu alguma coisa?
Eu disse:
— Claro. Por isso vim perguntar a você. E, além do mais, na hora aquela Pu Liuqian chegou a falar com o meu corpo de pombo, dizendo que, se meu corpo verdadeiro estivesse presente, a percepção seria mais forte.
Quando Du Xiaoran ouviu isso, foi como se tivesse visto alguma esperança. A cara abatida de quando chegou sumiu de uma vez, e ele até disse, meio empolgado:
— Então está bom, está bom!
Bom o quê?
Aquela reação dele me deixou ainda mais perdido.
