Novels chinesas em português
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    Capítulo 13 — Primeiro encontro com Gu Qiutang

    Lanqiyuan ganhou esse nome porque, na dinastia Qing, foi ali que ficava a guarnição da Bandeira Azul. Hoje era um polo de empresas de alta tecnologia conhecido no mundo inteiro, e também uma das regiões mais bem preservadas depois da Guerra Humano-Máquina.

    Na carta que minha avó tinha me deixado, estava escrito que o Grupo Gu ficava no Bloco A do Edifício Gu, em Lanqiyuan.

    Quando cheguei lá, porém, um segurança me barrou. Ficou um tempão me interrogando, mandou eu me registrar, mostrar comprovante. Só depois fez uma ligação e me deixou esperando pra conseguir uma reunião.

    Era a primeira vez que eu entrava num prédio tão luxuoso. Não sei o que ele achou de errado em mim — entrava e saía gente o tempo todo, e ele foi logo escolher a mim pra parar.

    Eu só queria encontrar uma pessoa. Precisava complicar tanto assim? Que sujeito esnobe. Julga os outros pela aparência.

    Quando uma mulher bonita apareceu na minha frente, o segurança ficou meio sem jeito e correu pra pedir desculpas. Devia ser gente importante. Ela, pelo contrário, só falou baixinho:

    — Você não fez nada de errado.

    Depois me levou prédio adentro e se apresentou:

    — Meu nome é Gu Kunling. Sou CEO da empresa Kunyue.

    — Oi, Kunling! — respondi na hora.

    — Menino, você é bom de lábia, hein.

    Dito isso, Gu Kunling me levou até a porta de uma sala no 33º andar, me entregou à secretária que ficava do lado de fora e saiu correndo, com pressa.

    A secretária bateu à porta:

    — Presidente Gu, o senhor Gu chegou.

    Depois abriu a porta, me guiou pra dentro do escritório e saiu de costas, fechando a porta atrás de si.

    Aquele escritório me deixou de boca aberta.

    Que lugar imponente!

    Devia ter uns duzentos metros quadrados, em formato semicircular. A parede de fora era quase toda de vidro, do chão ao teto, voltada pro sol, dava pra ver praticamente todo o bairro lá de cima.

    Parado diante daquelas janelas, dava a sensação de estar flutuando no alto, olhando tudo lá de cima.

    Tudo era de madeira de sândalo, e as estantes estavam lotadas de livros. Do lado esquerdo tinha uma salinha de descanso; do direito, parecia uma sala de reunião pequena.

    Um homem de meia-idade estava sentado, numa boa, no sofá junto à janela, tomando sol, bebendo chá e lendo uns papéis.

    Quando me viu entrar, nem se levantou. Só apontou pro sofá em frente, indicando pra eu sentar, e disse que eu me servisse de chá. Aí, sem pressa nenhuma, falou:

    — Eu sou Gu Qiutang, presidente do Grupo Gu. Sei que você deve ter um monte de perguntas. Por enquanto, não corra atrás das respostas. Com o tempo, você vai entender, pouco a pouco.

    Gu Qiutang voltou a olhar os papéis e não levantou mais a cabeça pra mim. Mas estava claro que sabia quem eu era. E sabia também o que eu queria perguntar.

    Perguntei, meio sem jeito:

    — Presidente Gu… minha avó veio aqui?

    — Não. Como é que ela viria até aqui?

    A resposta me pegou de surpresa. Por que ela não poderia vir? Eu mesmo só tinha ido porque ela me mandou.

    Depois de um instante, Gu Qiutang sacudiu de leve os papéis, olhou pra mim e disse:

    — Daqui em diante, você trabalha aqui. Você já conheceu a Gu Kunling — ela é a chefe da empresa onde você vai ficar. Daqui a pouco, vá até o RH da empresa dela e se apresente. Ela cuida do seu trabalho e da sua vida.

    Vendo que Gu Qiutang já queria me despachar, comecei a ficar impaciente.

    Já que minha avó tinha me mandado procurá-lo, era porque confiava nele. O resto eu podia deixar de lado, mas o assunto da minha avó eu precisava esclarecer. Então perguntei:

    — Presidente Gu, o que aconteceu com minha avó? Como eu faço pra encontrá-la?

    — Não precisa procurar.

    Gu Qiutang respondeu sem rodeio:

    — Ela tem os próprios planos. E, além disso, os Varredores também andam procurando por ela. Se você a encontrar, os Varredores encontram também. É esse o resultado que você quer?

    A explicação até fazia sentido, mas continuava me deixando no escuro. No mínimo ele podia me contar alguma coisa sobre ela, não podia?

    Minha avó tinha conseguido escapar de várias pessoas de preto, e Xuanhong não. Isso significava que ela era ainda mais forte que ele. Era normal isso, numa senhora de mais de noventa anos? E o Liu Biao ainda tinha dito, na Subdivisão de Segurança Pública, que minha avó não era minha avó.

    Então engoli o mau humor e perguntei tudo isso.

    Gu Qiutang ouviu sem demonstrar surpresa nenhuma. Mas também estava claro que não ia me contar nada. Só disse:

    — Sua avó, de fato, não é sua avó. Mas foi ela quem te criou. Isso você já devia saber: ela é sua família. Basta isso. Quanto ao resto, um dia você vai entender por conta própria.

    De novo esse “um dia”. Será que ele não conseguia falar mais um pouquinho?

    Fiquei meio irritado. Mas, já que minha avó tinha me mandado procurá-lo, era como se também estivesse me deixando aos cuidados dele. Só me restava seguir o que ele decidisse.

    Deixa. Ainda tinha tempo. Eu mesmo ia atrás das respostas.

    Mas aquele Xuanhong, tão parecido comigo, o que era aquilo? Talvez ele soubesse alguma coisa. Então contei que tinha encontrado Xuanhong no metrô e que ele fora capturado.

    — O mestre Xuanhong foi capturado?

    Gu Qiutang claramente também o conhecia. Levantou os olhos pra mim, meio surpreso.

    Completei depressa:

    — É. Nem sei se ele vai sobreviver. Pelos machucados, parecia estar bem mal. Tinha uma coisa atrás do pescoço dele que as pessoas de preto arrancaram.

    Pra ser sincero, se Xuanhong ia morrer ou não, eu nem me importava. Só queria entender por que ele tinha a mesma cara que eu. Fiquei olhando pra Gu Qiutang, esperando uma explicação.

    — Xuanhong é mestre do Templo Tansong. Além de entender profundamente de budismo, também sabe de medicina, já salvou muita gente. É bem respeitado em Pingdu, tem certa fama. Antes de virar monge, trabalhou como arquiteto de sistemas no Vale do Silício. Eu o conheço. Só que, depois que entrou pra vida monástica, ficou viajando por aí, levando uma vida meio monástica, meio luxuosa. A gente quase não mantinha contato. Não imaginava que fosse ser capturado.

    Gu Qiutang falou tudo aquilo de forma bem casual, sem responder à minha pergunta.

    — E por que ele é… um pouco… quer dizer, muito parecido comigo?

    Eu ainda queria a resposta. Tinha certeza de que ele sabia. Só parecia não querer me contar.

    — Xuanhong eu conheço há muito tempo. Você eu conheci hoje. Como é que eu vou saber por que se parecem? Pode ir ao templo perguntar. Pode ir até a casa dele também. De qualquer jeito, tem muita coisa que você precisa aprender a descobrir sozinho.

    Depois disso, deu a entender que já era hora de eu ir.

    A atitude dele me deixou sem entender nada. Não resolveu uma pergunta minha. Ah, resolveu uma: meu trabalho e minha vida.

    Deixa. Eu mesmo ia me virar.

    Vendo que eu estava enrolando pra sair, Gu Qiutang hesitou um instante e disse:

    — Vou te dizer uma coisa. Quando tiver tempo, dá uma passada na sua terra. Gucheng, em Jiangnan. Você sabe onde é, não sabe? Se quiser ver sua avó, pode ir até a Montanha Xisaishan, no lado oeste da cidade. Lá no alto tem um lugar chamado Jardim Xiujing.

    Dito isso, voltou a olhar os papéis, como se eu já não estivesse mais ali.

    Não tive escolha: me levantei e me despedi.

    Depois de sair do escritório, fui até a Kunyue procurar a Gu Kunling e me apresentar. Contei o que o presidente Gu tinha decidido.

    Gu Kunling chamou um rapaz e mandou que ele me acompanhasse até o RH pra fazer os trâmites de admissão e providenciar um alojamento pra mim.

    Foi assim que fiquei um tempo trabalhando no departamento de marketing da Yuekun.

    A Yuekun era subsidiária do Grupo Gu, responsável pela produção e processamento de materiais flexíveis pra robôs biomiméticos. Coisa muito especializada — eu não entendia nada daquilo. Só continuava ali, ganhando meu pão, porque pai e filha da família Gu me davam cobertura.

    Ah, sim. Gu Kunling era filha de Gu Qiutang. Isso eu só fui descobrir depois, ouvindo os outros funcionários.

    O pessoal da empresa tinha jogo de cintura. Sem ninguém precisar falar nada, todo mundo percebia que minha relação com pai e filha da família Gu não era das comuns, e me tratavam com toda a consideração. Serviço difícil ou pesado, nunca sobrava pra mim. E, quando tinha algum jantarzinho, sempre me chamavam. Não demorou pra eu me enturmar.

    Mas conversa de coração aberto, amizade de verdade? Isso não tinha. Era tudo interesse, eu percebia bem. Principalmente aquele gordo, o Zhu Xinyuan, gerente do departamento — a falsidade dele passava um pouco dos limites. Eu evitava sempre que dava.

    Depois de pouco mais de dois meses, pedi folga à Gu Kunling e disse que queria dar uma passada em Gucheng, em Jiangnan. Peguei então um trem rumo ao sul, direto pra Gucheng.

    Nanxun, uma cidadezinha sob a administração de Gucheng, era uma antiga cidade de canais com mais de mil anos, encostada na margem sudeste do Lago Taihu. Era a terra dos meus antepassados.

    Toda a região de Jiangnan, com o Lago Taihu no centro, tinha sido, no passado, um centro mundial de pesquisa, desenvolvimento e fabricação de IA. Depois, ouvi dizer, foi também uma das áreas mais destruídas pela Guerra Humano-Máquina.

    A oeste de Gucheng ficava a Montanha Xisaishan — a mesma daquele verso da poesia Tang: “Diante de Xisaishan, garças brancas voam; entre flores de pessegueiro e águas correntes, engordam os peixes mandarim.” Do alto, dava pra contemplar a imensidão azul-esverdeada do Lago Taihu.

    Assim que cheguei a Gucheng, fui direto pra Xisaishan.

    O Jardim Xiujing, na montanha, foi difícil de achar. Morreu gente demais na guerra, e havia vestígios dos mortos por toda parte. Por fim, encontrei o Jardim Xiujing no lado leste da montanha, e bem no meio dele, o túmulo de Wang Chunyan.

    O túmulo da minha avó.

    Na parte de cima da lápide tinha uma foto gravada à máquina. Era o rosto dela, sem erro. No canto inferior esquerdo estava gravado:

    Filha: Wang Rongyue.
    Genro: Gu Chenxing.

    Meus pais.

    Minha avó estava mesmo morta.

    Eu já sabia a resposta há um tempo. Mas ver aquilo com os próprios olhos ainda me deixou parado ali por um bom tempo, tomado por um frio triste na alma.

    Então quem era a avó que tinha me criado? Ninguém podia me responder.

    Subi até o ponto mais alto de Xisaishan e fiquei no pavilhão do topo. De lá, olhando pra longe, as águas do Lago Taihu se estendiam límpidas, azul-esverdeadas, até onde a vista alcançava.

    De repente, minha atenção foi pras terras vastas ao sul e a leste do lago. Aquela região tinha sido, no passado, uma das mais prósperas e povoadas do Delta do Yangtzé de Huaxia. Também tinha sido um polo industrial de IA do qual Huaxia se orgulhava.

    Agora, estava completamente desolada. A ponto de eu conseguir enxergar, vagamente, lá longe em Su-Hu, o prédio-sede da ONU e a área administrativa construída em volta.

    Segundo os registros, Maierken, no leste do Pacífico, tinha sido o país de origem daquela guerra de IA. Na disputa com a IA de Huaxia, Maierken concentrava esforços numa plataforma de consciência autônoma de IA, tentando levar vantagem já na lógica de base. Huaxia, por sua vez, priorizava as aplicações tecnológicas da IA em benefício da humanidade.

    Maierken reuniu alguns dos maiores talentos do planeta e, por fim, conseguiu desenvolver com sucesso essa plataforma de consciência autônoma. E foi ali, justamente, que a catástrofe começou.

    Com uma inteligência quase mil vezes superior à humana, a IA varreu o mundo, escapou rápido do controle da humanidade e passou a controlar todas as entidades de inteligência artificial do planeta. Isso não só levou Maierken à destruição total, como também causou a morte de quase metade da população mundial.

    Por sorte, Huaxia conseguiu combater IA com IA — usando a própria natureza humana, vírus, controle da eletricidade e outros meios — e, no fim, saiu vitoriosa, ainda que a um custo terrível.

    Ah… eu realmente não entendia o que as pessoas daquela época tinham na cabeça. Como podiam ser tão estúpidas? Que tragédia enorme.

    Talvez fosse por isso que Gu Qiutang tinha me mandado até ali. Será que queria que eu visse, com os próprios olhos, o mundo em ruínas deixado pela IA?

    Eu não sabia dizer.

    Nota