Novels chinesas em português
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    Capítulo 9 — O verdadeiro e o falso diretor Gao

    Não sei quanto tempo se passou.

    Quando acordei, percebi que estava numa sala secreta completamente escura.

    Não sabia se era aquela sala em que eu ainda não tinha entrado. Estava escuro demais para enxergar qualquer coisa.

    Fui me levantando devagar, tateando, e segui a parede em busca da porta. Não encontrei porta nenhuma, mas acabei tocando numa pessoa — e levei um susto.

    — Quem é?

    Perguntei, tenso.

    A pessoa fazia sons abafados, tentando falar, como se tivesse alguma coisa enfiada na boca.

    Tateei até achar a boca dela e puxei o pano que a tapava.

    Ela respirou fundo, várias vezes, e disse:

    — V-você… quem é? Como entrou aqui?

    Gao Minjun?

    Pela voz, era Gao Minjun.

    Eu conseguia perceber, vagamente, que ele estava amarrado, de mãos e pés, a uma cadeira.

    Fiquei irritado na hora.

    — Diretor Gao? Não foi o senhor que me trouxe pra cá?!

    Gao Minjun respondeu, com um tom meio inocente:

    — Eu? Estou preso aqui há mais de dois meses. Pra que eu traria você?

    Eu disse:

    — Diretor Gao, que história é essa? Eu não sou cego.

    Gao Minjun rebateu:

    — V-você… você viu ele, não viu?

    — Quem? — perguntei.

    — A pessoa que é igualzinha a mim.

    Gao Minjun claramente já tinha adivinhado o que eu tinha passado.

    Perguntei, desconfiado:

    — O senhor está dizendo que existe alguém idêntico ao senhor, se passando pelo diretor Gao e fazendo coisas que não podem vir à tona?

    Gao Minjun respondeu:

    — Não sei o que ele andou fazendo. Só me lembro de que, uns dias antes da pré-seletiva, eu estava no escritório quando a professora Mei ligou dizendo que tinha acontecido alguma coisa com o vice-diretor Bi. Eu ia saindo para resolver aquilo quando, de repente, apareceu atrás de mim alguém exatamente igual a mim. Ele me derrubou com um choque e depois me deu uma injeção de anestésico. Desde então, estou trancado aqui.

    Hein?!

    Se ele não estivesse encenando aquilo tudo para mim, e estivesse falando a verdade, então quem tinha me feito desmaiar era outra pessoa. Quer dizer que o diretor Gao já tinha sido trocado há tempos? Não era de admirar que eu nunca conseguisse captar nada daquele Gao Minjun que vivia no meu pé — será que ele era um impostor?

    Mas, naquele momento, o mais importante era descobrir como sair dali. Então perguntei:

    — Já que o senhor está preso aqui há tanto tempo, nunca pensou em como escapar?

    Gao Minjun respondeu, sem forças:

    — Nem pense em fugir. Esta sala é fechada, só tem uma porta de ferro. Gritar não adianta nada. Ninguém escuta.

    Perguntei, sem entender:

    — Se o senhor não consegue fugir, e gritar não serve pra nada, por que amarraram o senhor e ainda impediram que falasse? Por quê?

    Gao Minjun respondeu:

    — No começo, também não sabia. Depois comecei a suspeitar de que talvez eu não fosse o único aqui. E agora sei que não somos só dois. Me amarraram pra eu não destruir os equipamentos. Pouco depois de ser trancado, tentei reagir. Vi que não dava para vencer. Aí arranquei uns fios dos aparelhos, pra tentar dar um choque nele. Só que ele percebeu antes. Foi aí que me amarraram.

    Eu disse:

    — Isso não fecha. Se me jogaram aqui sem me amarrar, não é meio óbvio que eu posso fazer o mesmo que o senhor fez, ou até soltar o senhor?

    Gao Minjun respondeu:

    — Isso você tem que perguntar a eles. Mas acho que não esperavam que você acordasse tão rápido. Normalmente, o anestésico que usam faz a pessoa dormir um ou dois dias. Você acordou em menos de meio dia.

    — E qual é o objetivo deles ao prender a gente? — perguntei, sem entender.

    — Você é aluno meu, não é? De que turma? Vamos, me solta logo. Quer saber o objetivo deles? É simples. Amanhã você vai descobrir.

    Gao Minjun estava ansioso para se livrar das cordas. Enquanto se soltava, continuava falando.

    Fui ajudando e perguntando ao mesmo tempo:

    — Meu nome é Gu Beichen, sou da turma 2 do último ano. Talvez o senhor nem me conheça. Diretor Gao, o senhor disse que o objetivo deles é simples. O que exatamente é? Fiquei curioso.

    — Cópia e coleta.

    Gao Minjun soltou um longo suspiro e continuou:

    — Eles só querem copiar e coletar o que consideram informação útil dentro do meu cérebro — e agora do seu também. Talvez haja outras pessoas também. Não sei o que fazem com isso depois.

    — Como fazem essa cópia e coleta? Cirurgia física, ou coleta eletrônica? — perguntei, curioso.

    — Por enquanto, coleta eletrônica. Claro, se você não cooperar, aí já não sei dizer. Depois que terminarem, talvez a gente acabe como Meng Ran e Bi Songjian. De qualquer forma, essa gente é bastante brutal.

    A voz de Gao Minjun tremia um pouco.

    — Quantos são? — perguntei, pensando se valia a pena arriscar uma briga.

    — Não sei quantos. Só vi dois. Aparecem pra coletar, copiar, ou trazer comida. E já vou avisando: nem pense em lutar. Você não vai vencer. Eles simplesmente não são humanos. Você ainda é jovem, não passou por aquela Guerra Humano-Máquina. Não faz ideia de como aqueles produtos de IA podem ser assustadores.

    Gao Minjun provavelmente já tinha tentado alguma coisa, porque não demonstrava a menor vontade de resistir. Eu conseguia sentir isso. E, claro, o fato de ele ter vivido a Guerra Humano-Máquina também devia pesar.

    Esses seres de IA eram mesmo tão assustadores assim? Então como é que a humanidade tinha conseguido vencer a IA naquela época?

    Perguntei de novo:

    — Diretor Gao, o senhor quer dizer que eles são seres de IA remanescentes? Os seres de IA e os produtos ligados à inteligência artificial não foram todos destruídos depois da derrota deles?

    — Difícil dizer. Não sei. Não tenho certeza.

    Gao Minjun soltou outro suspiro longo. Parecia meio conformado, meio pensativo. E completou:

    — Talvez… ah.

    Talvez o quê?

    Ele não continuou, e eu também não fiquei com vontade de perguntar. Naquele momento, só queria pensar num jeito de escapar dali. Se eu acabasse mesmo como Meng Ran, seria injusto demais.

    Depois de um tempo, meus sentidos foram se acostumando ao ambiente, e consegui perceber, vagamente, que havia vários equipamentos elétricos na sala. Perguntei a Gao Minjun:

    — Diretor Gao, para que servem esses aparelhos? De onde o senhor arrancou os fios?

    Gao Minjun respondeu:

    — São os terminais do sistema de coleta de informações cerebrais. Amanhã vão te amarrar naquela cadeira e colocar o capacete que fica atrás dela. Dá uma pontada leve. Quanto à eletricidade, é só você ligar o interruptor e vai ver.

    — Nem pensar. Não vou ligar nada agora. Se eu ligar, eles vão saber que acordei.

    Depois de dizer isso, fiquei com a impressão de que aquele velho não estava com boas intenções. Talvez já tivesse desistido de tudo, e mais de dois meses trancado ali tivessem acabado com ele.

    Não estava com pressa. Se, como Gao Minjun dizia, eu só deveria acordar depois de um ou dois dias, então calculava que ainda tinha pelo menos mais um dia. O falso Gao Minjun não apareceria tão cedo.

    Julgava que a coleta de informações não seria feita enquanto a pessoa estivesse inconsciente. Com o cérebro pouco ativo enquanto a pessoa está inconsciente, não devia haver muito para coletar.

    Pensando em coleta, de repente me dei conta de que Gao Minjun tinha acabado de falar que era preciso o capacete daquela cadeira. Não seria o mesmo capacete que o falso Gao Minjun tinha colocado em mim no dia em que me levou pra conhecer o metaverso?

    Um mês antes, o falso Gao Minjun tinha dito que queria conversar comigo, me levou para conhecer o metaverso e colocou justamente aquele capacete que ficava atrás da cadeira. Na época, disse que era pra ampliar meus horizontes. Então, na verdade, ele tinha usado a visita ao metaverso para tentar coletar informação do meu cérebro?!

    Ainda bem que naquele dia saí rápido. Entrei e, pouco depois, já tinha ido embora. Será que era por isso que ele tinha me sequestrado? Porque da última vez não conseguiu roubar o que queria?

    Também não fazia muito sentido. Quando fui ao metaverso, não senti pontada nenhuma na cabeça, e depois que voltei pra casa, passei todos aqueles dias sem sentir nada de errado. Se aquilo já contava como coleta, então não era grande coisa. Pelo menos não a ponto de acabar como Meng Ran.

    Para falar a verdade, eu nunca tinha gostado muito de Gao Minjun — principalmente pelo jeito como ele tratava a mim e a minha avó. E, além disso, ainda não tinha certeza se tudo aquilo diante de mim não era uma encenação montada pelo próprio Gao Minjun. Talvez estivesse fazendo aquele teatro todo pra arrancar os segredos da minha cabeça.

    Eu não era tão bobo assim.

    Deixa isso de lado. O importante agora era sair dali.

    Se o que estava acontecendo diante dos meus olhos fosse verdade, e o Gao Minjun verdadeiro e o falso realmente tivessem sido trocados, então eu precisava pensar em alguma coisa.

    Tateei a sala duas vezes. Pelo que senti, aquela sala fechada não era grande. Provavelmente não era a mesma sala secreta que eu queria investigar antes — até o tamanho da porta era diferente.

    Se realmente havia outras pessoas presas por perto, então aquela área talvez fizesse parte de um complexo bem maior. Talvez aquela porta grande que eu tinha visto antes fosse justamente a entrada da base. E, lá dentro, o lugar podia ser muito maior do que eu imaginava.

    Mas, se seres de IA tinham construído uma base secreta daquele tamanho, mesmo que o diretor Gao tivesse sido mandado para cá depois e não soubesse de nada, será que os outros professores também não sabiam? E os moradores mais velhos da cidadezinha — não fazia sentido que ninguém soubesse. E a segurança pública, será que também não sabia?

    Tateei o chão até encontrar um parafuso e bati de leve na parede com ele. Parecia concreto, e não dava a impressão de ser muito grosso.

    De repente, quando bati na parede do lado direito, alguém do outro lado bateu de volta.

    Quem?

    Pelo menos havia alguém ali.

    Outra pessoa presa como eu, ou um guarda?

    Bati mais algumas vezes, num certo ritmo. A pessoa do outro lado respondeu no mesmo ritmo.

    Tinha certeza de que havia alguém ali. Achei que provavelmente fosse outra pessoa presa. Se fosse um guarda, ia ter que estar bem sem nada pra fazer pra ficar brincando comigo — depois de um tempo, provavelmente viria abrir a porta pra checar. Se fosse alguém preso, ninguém apareceria.

    Esperei um pouco. Ninguém veio.

    Melhor assim. Na força bruta, eu com certeza não daria conta de um ser de IA.

    Mas eu também tinha minha vantagem! De repente me lembrei: eu tinha aquele meu “superpoder” de percepção. Aquilo era minha arma mais forte.

    Vamos tentar.

    Não sabia se aquilo funcionaria através de uma parede de concreto, mas precisava testar.

    Concentrei toda a atenção na parede de onde tinham vindo as batidas, imaginando minha mente atravessando o concreto até alcançar os pensamentos da pessoa do outro lado.

    Pouco a pouco, minha consciência pareceu realmente atravessar a parede e entrar na mente daquela pessoa. Devagar, comecei mesmo a sentir os pensamentos dela.

    “Zhu Zhaojie?”

    A pessoa do outro lado era Zhu Zhaojie.

    Nota